O que o Banco Master nos fala sobre a privatização da educação
O caso de corrupção revela uma forma histórica de funcionamento da burguesia brasileira
A falência do Banco Master e a tentativa de sua incorporação por um banco público não podem ser entendidas como um acidente de percurso, nem como um caso isolado de má gestão ou corrupção pontual. O que esse episódio revela é uma forma histórica de funcionamento da burguesia brasileira: a transformação do Estado em espaço de negócios — e, na sua fase financeirizada, em plataforma de alavancagem privada —, a utilização do fundo público como base de valorização do capital financeiro e a naturalização da transferência dos riscos para a sociedade como regra do funcionamento econômico.
É importante evitar qualquer leitura que trate esse processo como uma ruptura histórica absoluta. O Estado brasileiro nunca foi uma instância neutra voltada à realização do interesse público. Desde sua formação colonial, passando pelo Império escravista, pela República oligárquica e pelas diferentes experiências de modernização conservadora, o aparelho estatal funcionou estruturalmente como espaço de mediação patrimonial, de reprodução de privilégios e de organização política dos interesses das classes dominantes. O chamado balcão de negócios, portanto, não constitui uma distorção recente, mas um traço constitutivo da própria formação social brasileira.
O que se transforma historicamente não é essa função de classe do Estado, mas a forma concreta pela qual ela se realiza. Se, no período desenvolvimentista, essa mediação se estruturava sobretudo por meio do crédito público produtivo, das estatais e da política industrial, no capitalismo financeirizado ela passa a operar principalmente pela captura do orçamento, pela engenharia financeira, pela circulação de ativos e pela gestão privada de políticas públicas.
Essa mudança está associada à centralidade adquirida por Brasília como infraestrutura política da financeirização. A capital opera como polo de intermediação entre bancos, fundos, grandes escritórios jurídicos, operadores políticos, bancos públicos e órgãos reguladores, acelerando decisões, reduzindo custos de negociação política e produzindo uma governança informal que frequentemente escapa ao controle democrático. O caso Banco Master expõe esse funcionamento de forma particularmente nítida.
Ao mesmo tempo, a financeirização contemporânea não se limita aos bancos tradicionais. A expansão de fintechs, plataformas de pagamento, bancos digitais e circuitos financeiros paralelos transforma as formas de circulação do dinheiro, de concessão de crédito e de ocultação de recursos, tornando mais difusas as fronteiras entre legalidade, informalidade e criminalidade. Não é casual que organizações como o PCC tenham ampliado sua atuação no campo financeiro, utilizando esses mesmos instrumentos para movimentar recursos em larga escala. Essa articulação entre financeirização, ilegalismos e governança informal integra o próprio funcionamento contemporâneo do capitalismo brasileiro.
Nesse sentido, a financeirização não se expressa apenas como expansão dos mercados financeiros, mas como reorganização da relação entre capital e Estado. O capital financeiro passa a operar de maneira cada vez mais direta sobre instrumentos públicos, como bancos estatais, fundos garantidores, marcos regulatórios e orçamento social, incorporando o Estado ao próprio circuito de valorização.
Marx, ao analisar o capital portador de juros, já indicava a tendência de autonomização da forma financeira em relação à produção, na qual o dinheiro parece produzir mais dinheiro independentemente da geração direta de valor. O crescimento do capital fictício amplia esse distanciamento entre a valorização financeira e a base produtiva. David Harvey demonstra como a financeirização opera, sobretudo em momentos de crise, como mecanismo de deslocamento das contradições do capitalismo e de abertura de novas frentes de acumulação por meio da espoliação de bens comuns, recursos públicos e direitos sociais.
Para compreender de forma concreta essa dinâmica, é necessário apresentar, ainda que brevemente, o que foi o caso Banco Master. O banco expandiu-se rapidamente oferecendo produtos de alta rentabilidade e operando intensamente com fundos de investimento e estruturas de alavancagem. Em 2025, diante do agravamento de problemas de liquidez e inconsistências contábeis, o Banco Central decretou sua liquidação extrajudicial. As estimativas indicaram um rombo potencial de dezenas de bilhões de reais, com cerca de 1,5 a 1,6 milhão de investidores diretamente expostos e mais de uma centena de bilhões de reais movimentados em fundos vinculados às operações do banco, revelando a dimensão sistêmica do problema.
As investigações indicaram que parte significativa das operações estava ligada a fundos utilizados para circular ativos de baixa qualidade e inflar artificialmente balanços, somando patrimônio agregado superior a R$ 100 bilhões. Articulou-se também a tentativa de absorção do banco, ou de parte de sua carteira, pelo Banco de Brasília. Mesmo após a negativa do Banco Central, buscou-se uma alternativa por meio da transferência de carteiras específicas, expondo o banco público a riscos estimados em mais de R$ 10 bilhões. O episódio evidencia como diferentes instâncias do Estado podem ser mobilizadas para absorver prejuízos privados.1
Essa engrenagem não permanece restrita aos circuitos financeiros ou às negociações de bastidores. Conforme denúncias públicas da deputada estadual Mônica Seixas e da vereadora Luana Alves, o escândalo envolvendo o Banco Master conecta-se diretamente aos processos de privatização conduzidos pelo governo Tarcísio de Freitas em São Paulo. Nesses casos, não se trata apenas de reorganizar empresas públicas segundo critérios de rentabilidade, mas de estruturar operações de transferência patrimonial que permitem a apropriação privada de ativos estratégicos e de fluxos permanentes de recursos públicos por um número restrito de agentes econômicos. Iniciativas como a privatização da EMAE e o avanço sobre a Sabesp revelam esse padrão, no qual negociações políticas, contratos e rearranjos institucionais criam as condições para que poucos ganhem, enquanto o Estado assume os riscos e a sociedade arca com os custos.
Esse caso expressa a autonomização do capital financeiro analisada por Marx, sustentada por mecanismos estatais permanentes, na qual a valorização se apoia sobretudo na circulação de ativos, na confiança institucional e na expectativa de proteção pelo fundo público, sem eliminar a articulação com outros circuitos de acumulação.
Essa mesma lógica estende-se ao conjunto das políticas públicas. A privatização contemporânea não ocorre principalmente pela venda direta de ativos, mas pela captura contínua do orçamento. A noção de acumulação por espoliação, desenvolvida por Harvey, permite compreender como serviços públicos, direitos sociais e recursos coletivos passam a integrar os circuitos de valorização por meio de contratos, parcerias, plataformas e modelos de gestão.
Na educação pública, esse processo torna-se particularmente visível. Apenas na rede estadual paulista, os gastos com plataformas e serviços privados superaram R$ 470 milhões em 2024. Empresas passaram a organizar rotinas pedagógicas, sistemas de avaliação e formas de controle do trabalho docente. O discurso da inovação opera como justificativa para a transferência permanente de recursos públicos ao setor privado.2
A expansão da gestão privada de creches e escolas conveniadas reforça essa dinâmica. Em muitos casos, o custo por aluno nessas unidades supera o investimento na rede direta, sem melhora proporcional da qualidade educativa. O serviço público converte-se, assim, em ativo contratual, com fluxo financeiro previsível para operadores privados.
A captura dos dados educacionais aprofunda ainda mais esse processo. Informações produzidas diariamente por estudantes e professores transformam-se em ativos estratégicos, reforçando a dependência tecnológica do setor público e ampliando novas formas de extração de valor. A mercantilização da educação passa a incidir não apenas sobre o orçamento, mas também sobre o próprio processo formativo.
No município de São Paulo, os projetos de privatização e terceirização da gestão escolar tornam esse movimento ainda mais explícito. A escola passa a ser tratada como unidade gerencial, submetida a metas, indicadores e contratos. O orçamento educacional, volumoso e relativamente estável, converte-se em uma das principais fronteiras de expansão rentista.
A relação com o caso Banco Master é direta. Em ambos os casos, estruturas públicas são convertidas em plataformas de valorização privada, os riscos são transferidos para a sociedade, os ganhos são apropriados por agentes privados e o conflito político é neutralizado pelo discurso técnico e gerencial.
Por que a luta contra a privatização da educação é urgente
O caso Banco Master não revela apenas uma crise bancária isolada, mas a forma contemporânea de organização da dominação de classe no Brasil. A financeirização não reorganiza apenas os mercados; ela reconfigura o próprio Estado, que passa a operar como parte integrante do circuito de valorização do capital financeiro. O fundo público deixa de cumprir prioritariamente uma função social e passa a ser tratado como base permanente de reprodução patrimonial. As políticas públicas, nesse movimento, convertem-se em oportunidades de negócio.
É nesse quadro que a educação assume papel estratégico. Não apenas pelo volume de recursos envolvidos, mas porque a escola constitui espaço decisivo de formação de valores, produção de consensos e organização das subjetividades. A ofensiva rentista sobre a educação não busca apenas capturar orçamento, mas subordinar a formação social à lógica da gestão empresarial, da mensuração permanente e da eficiência produtivista. Trata-se de um ataque direto ao caráter público, democrático e emancipador da escola.
Essa ofensiva não se impõe apenas por meio de contratos e tecnologias. Sustenta-se por uma disputa hegemônica no interior do Estado ampliado, na qual discursos de inovação, modernização e eficiência operam como justificativas ideológicas para a privatização, a plataformização e a transferência contínua de recursos públicos para interesses privados. A escola pública corre o risco de ser reduzida a engrenagem da reprodução social financeirizada.
Esse processo, contudo, permanece em disputa. Ele não está consolidado nem naturalizado. Na cidade de São Paulo, os projetos de privatização da gestão escolar, a expansão acelerada das plataformas digitais e a terceirização de funções pedagógicas colocam de forma imediata a necessidade de resistência social organizada. O que se disputa não é apenas um modelo de gestão, mas o próprio sentido da educação pública e o destino do orçamento municipal.
É tarefa urgente da sociedade paulistana, em especial dos profissionais da educação da rede municipal, enfrentar diretamente os processos de plataformização, privatização e mercantilização da educação. Defender a escola pública significa disputar o orçamento público, a autonomia pedagógica, as condições de trabalho, a produção do conhecimento e o direito à formação crítica. Essa luta não é corporativa nem restrita ao campo educacional, mas parte de uma batalha política mais ampla contra a financeirização da vida social, contra a transformação dos direitos em ativos financeiros e contra a conversão do Estado em plataforma permanente de negócios.
Se o capital avança para transformar a escola em mais uma fronteira de valorização, cabe aos educadores, estudantes, famílias e movimentos sociais construir, desde já, formas de organização, mobilização e enfrentamento capazes de interromper esse processo. A disputa permanece aberta, e o futuro da escola pública, assim como o próprio sentido do que é público, depende da capacidade coletiva de transformar a crítica em ação política.
Notas
- Ver o artigo de Daniel Ribeiro, “Por que Ibaneis insistiu tanto na compra do Banco Master?”, Movimento Revista, 2025: https://movimentorevista.com.br/2025/11/por-que-ibaneis-insistiu-tanto-na-compra-do-banco-master/ ↩︎
- Ver o meu artigo, “Privatização do orçamento e a farsa da inovação na educação”, Movimento Revista, 2025: https://movimentorevista.com.br/2025/07/privatizacao-do-orcamento-e-a-farsa-da-inovacao-na-educacao/ ↩︎