Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

Trump e a direita enfrentarão a resistência dos de baixo

A vitória de Trump traz novos desafios. Uma análise à luz de suas primeiras inciativas como presidente e da composição de seu gabinete.

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Donald Trump assume o cargo de presidente no dia 20 de janeiro, inaugurando assim o governo mais racista e à direita na história moderna dos Estados Unidos, mas não sem contestação. A luta contra Trump já começou. Dezenas de milhares foram às ruas em diversas cidades do país; várias prefeituras, além do estado da Califórnia, estão comprometendo-se a seguir oferecendo acolhimento aos imigrantes sem documentos. Milhares de pessoas rapidamente se juntaram a grupos progressistas de todos os tipos, que atualmente planejam um protesto de massas para o dia da posse presidencial. Uma marcha de mulheres já está marcada para o dia seguinte. Além disso, Trump encara uma forte oposição de políticos democratas, mas também republicanos devido às suas escolhas de equipe e suas críticas aos serviços de inteligência dos Estados Unidos.

Trump ocupará a Casa Branca enquanto o Partido Republicano controlará o Senado, a Câmara e muito em breve a Suprema Corte, além de possuir o governo de trinta estados e em muitos controlar também o Legislativo. Provavelmente nunca na história dos Estados Unidos um partido teve tanto controle político.

Imigrantes – especialmente muçulmanos –, negros e latino-americanos já sabem que serão alvos da nova administração, e grande parte da população teme que o país esteja entrando em um período perigoso que ameaça os direitos democráticos. Políticos do Partido Democrata e até mesmo do Republicano também temem que o novo presidente prejudique a economia internacional, além de desestabilizar a situação política mundial e contribuir para a aceleração das mudanças climáticas e da destruição do meio ambiente.

O que mudará com Trump?

A eleição de Trump ameaça virar do avesso tanto a política interna quanto externa dos Estados Unidos. No país, suas escolhas de gabinete sinalizam um governo mais racista e repressor, que pretende cortar gastos com previdência social e dar continuidade a políticas de privatização e desregulamentação dos serviços públicos. Ele, por exemplo, planeja congelar a contratação de servidores federais – política que afetará tanto as agências federais quanto os que são beneficiados por elas. Ele poderá privatizar parte dos programas de saúde Medicare e Medicaid, e certamente irá acelerar a privatização da educação. Não há dúvidas que Trump e os republicanos, tanto a nível federal quanto estadual, irão aprovar mais leis antitrabalhistas, enfraquecendo ainda mais o movimento sindical que representa apenas 10% de todos os trabalhadores e somente 7% no setor privado. O presidente eleito prometeu investir um trilhão de dólares em um programa de infraestrutura de dez anos para construir estradas e pontes de gestão privada, que proverá empregos para trabalhadores da construção civil e irá satisfazer sua base. Mas, no fundo, esse programa de investimento privado irá produzir relativamente poucos trabalhos.

Aos ricos, Trump promete cortes nos impostos. A tributação de empresas cairá de 35% para 15%, o imposto de renda de 39,6% para 33% e o imposto sobre ganhos de 23,8% para 20%. O valor desses cortes é estimado entre 4,3 trilhões e 6,2 trilhões. Os ricos terão 13,5% de corte nos seus impostos, enquanto o povo terá um aumento de 4,1%.

Na política exterior, Trump insinuou que pretende fragilizar a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) e os pactos de defesa com a Coreia do Sul e o Japão. Ao mesmo tempo, expressou sua admiração ao ditador Vladimir Putin, sugerindo uma possível aliança com a Rússia contra o Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIS). Se colocar em prática essas políticas, ele poderá destruir o sistema internacional político-militar hegemônico dos Estados Unidos, apoiado pelos países europeus e o Japão, desestabilizando assim relações internacionais no mundo todo.

Simultaneamente, Trump sugeriu a possibilidade de sair da Organização Mundial do Comércio (OMC), diz que não negociará com a Parceria Transpacífico (TPP) e renegociará o Tratado de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA). Ele parece rejeitar o papel dos Estados Unidos na organização do livre mercado e, em vez disso, preferir acordos bilaterais, de modo que o livre comércio continuará, mas sob uma forma diferente.

Por fim, Trump não acredita que há uma mudança climática em curso e que os humanos são os responsáveis por isso. Ele clama por mais mineração de carvão e perfuração de petróleo, ao mesmo tempo em que pretende reduzir o poder da Agência de Proteção Ambiental. O novo presidente pode abandonar a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima, que reúne esforços para reduzir o aquecimento global, e o Protocolo de Kyoto, jamais assinado pelos Estados Unidos. Podemos esperar uma deterioração muito mais rápida do meio-ambiente global com Donald Trump.

Alguns dizem que Trump tem uma política internacional “isolacionista”, como a adotada pelos republicanos nos anos 1920 e 1930. Mas, ainda assim, os Estados Unidos permanecem como a maior potência militar do mundo, e Trump já solicitou mais orçamento militar para modernizar as Forças Armadas do país. De qualquer forma, sua presidência ameaça abalar todas as relações internacionais, deixando o futuro bem mais sombrio.

Trump é fascista?

Ainda que Donald Trump tenha políticas de extrema-direita, ainda que tenha apoiadores nacionalistas brancos e fascistas, ele não é, até agora, fascista. Por quê? Em primeiro lugar, embora Trump tenha confrontado os partidários republicanos, não passou por cima do Partido Republicano nem de suas instituições; ou seja, ele não é uma figura bonapartista descolada do sistema político atual. Em segundo lugar, ele não está em um partido fascista. Demagogo populista, ele se provou capaz de mobilizar eleitores brancos que queriam melhorar sua situação econômica e que se sentiam ameaçados por imigrantes que competiam por empregos e colocavam em risco seus status. Entretanto, ele não fez desse movimento incipiente um partido político. Suas escolhas de gabinete sugerem uma tentativa ao menos parcial de reconciliação com os republicanos e o establishment, ao invés de conflito. Ele poderia usar seu gabinete e poder político para criar um partido fascista? Sim, é uma possibilidade plausível, embora que, para isso, ele encontraria resistência tanto do Partido Democrata quando Republicano, além de uma grande parcela da população. Tal movimento não parece estar em seus planos, ao menos não agora.

Um programa nacionalista branco

Trump, que concorreu à presidência apoiado em uma plataforma econômica nacionalista e um programa social racista, listou seus objetivos para os primeiros cem dias. Ele prometeu as seguintes medidas:

  •  A deportação imediata de dois a três milhões de imigrantes sem documentos com registros criminais e a construção de um muro entre Estados Unidos e México;
  •  Suspensão da imigração de regiões onde grupos terroristas estão localizados, ou seja, toda a imigração de muçulmanos e do Oriente Médio;
  •  Intensificação do policiamento no país e construção de mais prisões de iniciativa privada para combater o crime – medidas que afetarão principalmente as comunidades afro-americanas e latinas, que já são desproporcionalmente detidas, condenadas e encarceradas;
  •  A seleção de ao menos um novo conservador na Suprema Corte americana, onde atualmente há uma vaga, criando uma maioria conservadora, podendo assim acabar com o direito federal ao aborto.

Trump colocará imediatamente em prática seu programa econômico nacionalista. Ele defende que estes métodos irão reconstruir a indústria americana e criar mais empregos:

  •  Fim das restrições ambientais para companhias de carvão, gás e petróleo e o fim de outros programas de controle climático, além de permitir a construção do oleoduto Keystone XL;
  •  Retirada dos Estados Unidos da Parceria Transpacífico, renegociação do NAFTA e classificação da China – que é o segundo maior parceiro comercial dos Estados Unidos e detém mais de um trilhão de dólares da dívida norte-americana – como manipuladora de moeda;
  •  Um programa de dez anos que movimentará um trilhão de dólares para a construção de infraestrutura, como estradas e pontes, que será destinada à iniciativa privada;
  • Abolição da Lei de Proteção e Cuidado ao Paciente criada por Obama[1] e sua substituição por um novo e plano mais competitivo.

Finalmente, há a política internacional de Trump:

  •  Trump disse que concentrará a luta contra o Estado Islâmico no Iraque e na Síria, mas também ao redor do mundo e dentro do país;
  •  Tem se mostrado crítico à posição dos países europeus na OTAN e diz que pretende aprofundar as relações com Vladimir Putin, decisão que pode destruir a política internacional dos Estados Unidos no continente;
  •  Trump também reivindica a renovação e fortalecimento do Exército dos Estados Unidos.

Equipe e gabinete dos infernos

A vitória de Trump traz um grupo de políticos de extrema-direita à Casa Branca e deixa verdadeiros fascistas a poucos passos de distância. Ainda que tenha prometido “drenar o pântano”, muitos dos seus escolhidos são velhos bilionários de Wall Street, políticos republicanos e militares de alto posto. Juntos, eles personificam a ideologia mais ultraconservadora vista na Casa Branca desde 1920. A demagogia de Trump e algumas declarações racistas e antimuçulmanas provindas de membros do seu gabinete sugerem um governo de extrema-direita – mais ainda que Reagan ou George W. Bush – algo totalmente novo nos Estados Unidos dos dias de hoje.

Trump escolheu Rex Tillerson para Secretário de Estado, o mais alto cargo no seu gabinete. Tillerson é presidente e diretor executivo da Exxon Mobil, a maior empresa de petróleo do mundo. Ele tem fortes relações com o presidente russo Vladimir Putin, que lhe concedeu a condecoração da Ordem da Amizade, aparentemente devido aos seus acordos multibilionários.

Para o segundo maior cargo, Secretário do Tesouro, Trump escolheu um antigo executivo da Goldman Sachs, Steven Mnuchin. Depois de sair da Sachs, Mnuchin trabalhou para o bilionário George Soros e depois se evolveu no financiamento de filmes hollywoodianos. Ele estava profundamente envolvido no setor bancário e em hipotecas de alto risco no momento de colapso do mercado imobiliário que desencadeou a Grande Recessão de 2008 de proporções mundiais.

Há ainda mais duas figuras vindas da Goldman Sachs no novo governo: Gary Cohn, que irá liderar o conselho econômico e Steven Bannon, que será assessor. Trump selecionou para Secretário do Comércio o abutre bilionário Wilbur Ross. Ele é conhecido como “Rei das Falências”, por comprar, reduzir e então vender empresas falidas.

Para diversos órgãos governamentais que protegem a sociedade e fornecem serviços sociais, Trump escolheu secretários que não acreditam na missão de suas respectivas entidades. A Secretária da Educação, Betsy DeVos, é contra a educação pública. Andrew Puzder, Secretário do Trabalho, é um empresário contrário a leis trabalhistas e ao aumento do salário mínimo. Tom Price, que irá dirigir o Departamento de Serviços de Saúde, pretende privatizar os programas de saúde governamentais. Scott Puitt, escolhido para a Agência de Proteção Ambiental, trabalha com empresas de petróleo e gás. Rick Perry, indicado para o Departamento de Energia, defendeu seu fechamento durante sua campanha presidencial. Ele também é um grande fã dos combustíveis fósseis.

A escolha de Stephen Bannon, líder do movimento alt-right (direita alternativa), para ser o principal estrategista de Trump, coloca esse nacionalista branco, conhecido por sua islamofobia, antissemitismo e antifeminismo, dentro do Salão Oval, e os fascistas na beira da entrada.

O tenente-general Mike Flynn, ex-diretor da Agência de Inteligência da Defesa (DIA), homem que chama o Islã de “ideologia política” e “câncer maligno”, se tornará Conselheiro de Segurança Nacional de Trump, posição que não necessita do aval do Congresso. Flynn fez diversas declarações totalmente falsas, como a absurda afirmação de que a sharia (lei islâmica) está sendo disseminada nos Estados Unidos. Ele convenceu Trump que o país está em “guerra mundial” contra o Islã e deve encontrar potenciais aliados como o ditador russo Vladimir Putin.

A escolha de ministros precisa ser aceita pelo Senado, onde os republicanos são a maioria. Ainda que vários preferidos de Trump tenham um histórico preocupante, todos serão muito provavelmente confirmados. Ele ofereceu o cargo de Procurador-Geral – o maior posto do sistema judiciário – ao senador Jeff Sessions, um notório racista do Alabama. Em 1986, o presidente Ronald Reagan indicou Sessions para um juizado federal, mas os parlamentares republicanos o vetaram devido suas posições racistas.

Mike Pompeo, um antigo comandante do Exército e parlamentar do Kansas, foi escolhido para liderar a CIA. Pompeo defende a coleta geral dos telefonemas dos americanos e opôs-se ao fechamento das prisões secretas (black-site) encerradas por Obama, onde detidos pelos Estados Unidos desapareciam. John Kelly, general aposentado dos Fuzileiros Navais, irá chefiar o Departamento de Segurança Interna. Mas algumas das escolhas de Trump não compartilham de suas opiniões nacionalistas. Ele escolheu James Mattis, general aposentado da Marinha e líder da invasão ao Iraque em 2003, para ser Secretário de Defesa. Embora seja conhecido como um defensor de uma forte postura militar dos Estados Unidos, Mattis, ao contrário de Trump, acredita na importância de alianças internacionais na política externa.

Até mesmo republicanos conservadores têm se mostrado preocupados com as escolhas de Trump. John Weaver, consultor de John McCain, senador do Arizona, e John Kasich, governador de Ohio, ambos líderes conservadores, declarou à imprensa: “A extrema-direita racista e fascista está a poucos passos de distância do Salão Oval. Fique muita atenta, América”.

Trump não se esqueceu das figuras do Partido Republicano. Ele escolheu Elaine Chao, que já esteve no gabinete de George Bush, para ser a próxima Secretária de Transporte. Ela é esposa de Mitch McConnell, líder do Partido.

Mas nem todos os escolhidos de Trump têm o mesmo perfil. Ele escolheu Nikki Haley, filha de imigrantes indianos e governadora republicana da Carolina do Sul, para ser Embaixadora das Nações Unidas. Durante a campanha, ela criticou Trump por sua incapacidade de reprovar grupos que o apoiavam, como a Ku Klux Klan.

Por que Trump?

De onde Donald Trump surgiu? Como o magnata do mercado imobiliário de Nova York e personalidade da televisão conseguiu ser o escolhido pelo Partido Republicano e vencer as eleições?

Os Estados Unidos sempre tiveram tanto conservadores populistas quanto grupos racistas, como a Ku Klux Klan, que teve grande poder nos anos 1920. O senador do Arizona Barry Goldwater iniciou, durante a sua campanha para a Presidência em 1964, um novo movimento de extrema-direita conservadora. Embora tenha perdido as eleições para o democrata Lyndon Johnson, o movimento criado por Goldwater possibilitou a vitória de Ronald Reagan em 1980.

Desde os anos 1960-70 há um crescimento no movimento conservador dos Estados Unidos. Começou com a reação conservadora ao movimento de direitos civis e da população negra e à assustadora violência das rebeliões urbanas dos anos 1970. Ainda que o movimento tenha começado no Partido Democrata com a campanha racista, mas a favor da classe trabalhadora branca de George Wallace, em 1968, ele cresceu em 1972, quando Richard Nixon desenvolveu a Southern Strategy (estratégia sulista) para angariar eleitores brancos do Sul que eram contra os direitos civis.

Durante os anos 1980-90 a Igreja Evangélica tornou-se a maior força no Partido Republicano, e comentaristas de rádio de direita e programas de televisão também encorajavam o movimento conservador. Quando Barack Obama foi eleito o primeiro presidente negro do país em 2004, racistas brancos intensificaram seu movimento atacando Obama, acusando-o de ter nascido fora dos Estados Unidos – portanto não sendo um cidadão americano –, de ser muçulmano e socialista. Quando Obama impulsionou seu programa de seguro de saúde, o Obamacare, a direita atacou o plano considerando-o socialista e lançou o movimento Tea Party.

O Tea Party tornou-se um movimento político que liderou uma verdadeira rebelião dentro do Partido Republicano e conseguiu eleger dezenas de deputados e senadores, além de deputados estaduais. Esse movimento atraiu a alt-right, constituída por nacionalistas brancos e rodeada por grupos racistas como a Ku Klux Klan e os nazistas americanos. Ainda que esses grupos de extrema-direita não exerçam grande influência no sistema político, eles estão crescendo. Donald Trump é produto dessa história, a culminação de 45 anos de movimentos conservadores nos Estados Unidos.

A crise econômica de 2008, que deixou 10% da população desempregada, levou a insegurança econômica à classe média e trabalhadora branca. Ao mesmo tempo, negros, latinos, imigrantes e mulheres, que competiam por empregos, ameaçavam o status social dos brancos. Essas foram condições que alicerçaram a vitória de Donald Trump.

Como Trump venceu?

Enquanto os americanos orgulham-se da cultura política de “uma pessoa, um voto”, na realidade, em se tratando das eleições presidenciais, não funciona bem assim. A Constituição dos Estados Unidos faz do Colégio Eleitoral o corpo que efetivamente vota para presidente. O Colégio é composto de 538 indivíduos, equivalente ao número total de senadores e deputados mais três pessoas de Washington. Esses delegados refletem os vencedores em cada estado baseado em um sistema de “o vencedor leva tudo”, de forma que, a nível federal, é possível que um candidato vença no voto popular, mas perca no Colégio Eleitoral.

Logo, embora a democrata Hillary Clinton tenha vencido no voto popular com 47,8% contra os 47,3% de Trump – totalizando 2,2 milhões de votos de diferença –, ele venceu no Colégio Eleitoral, obtendo 290 votos contra 232, tornando-se assim o novo presidente. O que aconteceu nesse caso já havia se repetido no passado com outros candidatos. Andrew Jackson em 1824, Samuel Tilden em 1876, Grover Cleveland em 1988 e Al Gore em 2000 venceram no voto popular, mas perderam no Colégio Eleitoral. Além de Trump e Clinton, havia mais dois candidatos minoritários. Gary Johnson do Partido Libertário obteve 3,3% do voto popular nacional, enquanto Jill Stein do Partido Verde obteve apenas 1%; nenhum deles conquistou delegados do Colégio.

Os delegados votam apenas no dia 19 de dezembro e têm o direito de votar como acharem conveniente, embora seja praticamente impossível que eles não o façam conforme o indicado pelos estados. Stein já pediu por recontagem em Wisconsin, Pensilvânia e Michigan, e a campanha de Clinton declarou que vai se juntar ao pedido, ainda que seja improvável que a recontagem possa converter os votos e impedir a vitória de Trump.

Outros fatores também influenciaram nessa vitória. Em vários estados republicanos houve alterações de leis a respeito do registro e identificação dos votantes, além da redução do número de locais de votação. Essas novas regras tinham a intenção de excluir principalmente os votos dos afro-americanos, mas também dos latinos e brancos que votam nos democratas. Isso afetou centenas de milhares de potenciais eleitores.

A abstenção entre possíveis eleitores foi grande. Estimativas apontam que 231,5 milhões de americanos poderiam votar na eleição presidencial de 2016, mas apenas 134,5 milhões efetivamente votaram. Assim, a participação eleitoral foi de 58,1% da população eleitora, ou seja, 41,9% dos eleitores não votaram. Milhões de pessoas que votaram nas últimas duas eleições não votaram nessa, e muitos dos que não votaram têm renda e educação menores do que aqueles que votaram.
Trump venceu a eleição presidencial no dia oito de novembro mobilizando dezenas de milhares de brancos de classe alta, média e baixa que estavam indignados e revoltados com o establishment de Washington e Nova York.

E a classe trabalhadora?

Para nós da esquerda, a ironia é que a classe trabalhadora teve um papel principal na vitória de Trump. Os eleitores brancos ricos e de classe média foram a base do movimento Tea Party e de Trump, mas a chave para a vitória foi o voto da classe trabalhadora branca nos estados do Cinturão da Ferrugem (Pensilvânia, Virgínia Ocidental, Ohio, Indiana e Michigan), onde a maioria de homens e mulheres votou nele. Ele também conquistou votos em cidades pequenas e áreas rurais por todo o país. O apoio à Trump foi forte entre os que não possuem curso superior. Quase 60% dos americanos têm ensino superior incompleto e 30% têm diploma; atualmente, empregos para aqueles que não frequentaram nenhuma faculdade têm diminuído.

Muitos trabalhadores ficaram furiosos com os sindicatos que, sem nenhum processo democrático, endossaram Hillary Clinton, ainda que as bases apoiassem Bernie Sanders. A classe trabalhadora branca, rejeitada pelo Partido Democrático ao longo dos últimos quarenta anos, foi gradativamente em direção ao campo republicano, e nesse ano muitos migraram em massa. Trump encorajou esses trabalhadores brancos ao discursar sobre a necessidade de reconstruir a indústria, criar empregos e protegê-los dos trabalhadores sem documentos, defendendo o país da competição estrangeira. Trump, enquanto prometia defender o país do terrorismo, também argumentava contra o envolvimento dos Estados Unidos em guerras no exterior e defendia uma mudança no regime.

Para a surpresa de muitos, Trump também obteve um grande número de votos provindos das minorias raciais. Ele atingiu 58% de eleitores brancos, mas também 29% de hispânicos e 29% de asiáticos. Clinton fracassou na mobilização da comunidade afro-americana como Obama havia feito em 2012, quando obteve 93% de votos dos negros. Esse ano Clinton conquistou apenas 88% dos votos negros, enquanto Trump teve 8%, Gary Johnson 2% e outros candidatos 2%. Clinton recebeu a maioria dos votos entre as mulheres (54%), mas perdeu entre as mulheres brancas, onde 53% votaram em Trump e apenas 43% nela.

Obama oferece a coroa de louros, mas os protestos explodem nas ruas

O presidente Barack Obama, para a decepção de muitos, pediu aos americanos que dessem uma chance a Trump. Mas dezenas de milhares de americanos em cidades por todo o país recusaram-se aos brados de “Não é meu presidente!”. Apoiadores de Hillary Clinton e Bernie Sanders, independentes, estudantes secundaristas e universitários, imigrantes e negros juntaram-se aos protestos. Em diversos atos manifestantes traziam cartazes contra o racismo, a islamofobia e a misoginia. Mulheres e LGBTs foram linha de frente em várias manifestações.

Nos Estados Unidos, os democratas geralmente governam cidades com diversidade étnica enquanto republicanos governam os subúrbios brancos e as áreas rurais. Os prefeitos das maiores cidades do país se uniram em resistência à Trump; eles asseguram que suas cidades permanecerão sendo refúgio para imigrantes e se recusam a cooperar com a Polícia de Imigração e Alfândega.

Bill de Blasio, prefeito de Nova York, afirmou que a cidade continuará defendendo imigrantes sem documentos. “Não iremos sacrificar meio milhão de pessoas que vivem conosco, que são parte da nossa comunidade”, disse de Blasio. “Nós não vamos destruir famílias”.

Além de Nova York e Chicago, as cidades de Boston, Denver, Los Angeles, Oakland, Providence, São Francisco, Santa Fé, Seattle e Washington comprometeram-se a manter suas políticas de abrigo aos imigrantes. Estudantes e professores também estão pressionando universidades a adotar essas políticas. Durante a campanha, Trump alertou que, caso fosse presidente, “cidades que se recusarem a cooperar com autoridades federais não irão receber dinheiro dos contribuintes”, prometendo uma batalha política.

Diversos dos principais líderes do Partido Democrata prometeram resistência à Trump, entre eles Harry Reid, líder-sênior do partido no Senado, a senadora liberal Elizabeth Warren, e, é claro, Bernie Sanders, que se candidatou para as prévias do Partido Democrático como um “socialista democrata”, defendendo uma “revolução política”.

Warren declarou à imprensa: “Você pode se deitar, choramingar, ficar em posição fetal, pode até decidir se mudar para o Canadá, ou pode ficar de pé e lutar contra, e é disso que se trata”.

Os democratas irão efetivamente liderar uma luta militante contra Trump? Afinal, eles não têm um histórico forte de resistência aos republicanos, tendo sido arrastados à direita junto deles nos últimos quarenta anos. Os democratas chegaram a compartilhar a mesma ideologia neoliberal e compromisso com a austeridade. O presidente Bill Clinton e sua esposa Hilary foram responsáveis por algumas das piores legislações em previdência social e em crime e justiça, políticas que afetaram mais gravemente as comunidades negras e latinas. Ainda assim, a promessa dos prefeitos democratas de continuar os programas de “cidade santuário” e não cooperar com a Polícia de Imigração e Alfândega é animadora.

Bernie Sanders e parceiros

Bernie Sanders comprometeu-se a lutar contra Trump, principalmente na construção de um aparato político que pode eleger mais democratas progressistas para o Congresso. Sanders e sua equipe criaram a Our Revolution (Nossa Revolução), uma organização que fornece uma educação progressista aos eleitores. Outra iniciativa é o Brand New Congress (Congresso Novo em Folha), que planeja uma lista de 400 candidatos progressistas para uma campanha congressual articulada em 2018. Há ainda o MoveOn.org, formado em resposta ao impeachment de Bill Clinton em 1998 e que também defende causas progressistas.

A questão é se essas organizações irão de fato apoiar causas e candidatos que podem realmente mudar o Partido Democrata, ou se irão apenas absorver os apoiadores de Bernie e seguir a atividade política cotidiana para os candidatos que não são substancialmente diferentes dos democratas regulares. Enquanto a ampla esquerda tende a buscar uma reforma no Partido Democrata, particularmente através de eleições a nível municipal e estadual, a pequena extrema-esquerda alerta que o partido não pode ser reformado ou tomado por vertentes mais radicais. A alta cúpula dos democratas é controlada por políticos, arrecadadores de fundos e doadores profissionais, por publicitários e advogados, e toda a sua operação está atrelada a bancos e corporações.

Movimentos sociais e a esquerda

E os movimentos sociais e a esquerda? Onde eles estão agora que a eleição acabou?

Na última década, os Estados Unidos viram diferentes movimentos de massa de dezenas de milhares, em alguns casos milhões de pessoas. Talvez o maior tenha sido o dos imigrantes em 2006, que levou mais de um milhão de pessoas às ruas de Los Angeles e Chicago e centenas de milhares em outras cidades para apoiar as reformas de imigração propostas pelo presidente republicano George W. Bush, que garantiriam direito à moradia e um caminho para a cidadania para cerca de doze milhões de imigrantes sem documentos. Entretanto, o Congresso barrou as reformas e o movimento saiu derrotado.

O Occupy Wall Street (Ocupe Wall Street), movimento radical e populista contra a desigualdade econômica e a importância do dinheiro na política, criado em setembro de 2011, espalhou-se como fogo pelos Estados Unidos. Dezenas a centenas de milhares de pessoas ocuparam espaços públicos, promoveram reuniões, debates e protestos e alimentaram a ideia de um mundo mais igualitário e democrático. Os prefeitos do Partido Democrático de diversas cidades do país reprimiram o movimento violentamente, com gás de pimenta, espancamentos, prisões e em alguns casos até com acusações de terrorismo. Pode-se pensar com razão que uma abordagem tão sistemática e uniforme tenha sido coordenada pela Casa Branca e o FBI ou outra agência policial.

Embora esse movimento também tenha sido derrotado, deu forças ao Fight for $15 (Lute pelos quinze dólares), um movimento de sindicatos e trabalhadores para aumentar o salário mínimo estabelecido por empresas privadas, estados e cidades para quinze dólares a hora. Ele obteve sucesso em diversos lugares, mas, tendo sido organizado por sindicatos e ONGs, não se tornou um movimento de massas genuíno. Houve algumas greves, porém não muitas.

O Black Lives Matter (Vidas Negras Importam), surgido em 2013 para lutar contra o racismo e a violência policial, tornou-se um movimento de massas com dezenas e até mesmo centenas de milhares em 2014. Ele organizou gigantes protestos em cidades grandes e pequenas e em universidades em todo o país. Ainda que o BLM tenha trazido à tona vários casos de abuso policial, obteve pouco sucesso nos julgamentos dos policiais que abusaram ou mataram negros. O BLM, que é um movimento e não uma organização, tem diversos membros engajados em diferentes atividades, mas, no momento, não é visível nas ruas como um movimento de massas.

A People’s Climate March (Marcha do Povo pelo Clima) levou cerca de 300 mil manifestantes de todo o país a Nova York em 2014 e incluiu sindicatos e grupos comunitários. Muitos grupos de ambientalistas estão ativos no país, sendo o Standing Rock Sioux, uma organização indígena da Dakota do Norte, o mais importante atualmente.

Sem sombra de dúvidas o movimento social mais vitorioso da última década foi o LGBT, que conseguir derrubar a política do “don’t ask, don’t tell”[2] no Exército e conquistou o direito ao casamento igualitário. A vitória nesses direitos democráticos reflete uma enorme mudança na cultura dos Estados Unidos, onde a comunidade LGBT encontra maior tolerância.

O movimento trabalhista esteve em silêncio por décadas, com o encolhimento dos seus membros, seu poder econômico reduzido e sua influência política em declínio. As greves são poucas e espaçadas, mas houve algumas muito significativas nos últimos anos. O sindicato dos professores de Chicago manteve uma semana de greve em setembro de 2012, obtendo algumas vitórias e tornando-se um modelo para outros sindicatos de professores no país. Mais recentemente quarenta mil membros dos Trabalhadores da Comunicação da América (CWA) lançaram uma vitoriosa greve contra a operadora Verizon na primavera de 2016 para defender empregos, salários e condições trabalhistas. Essas greves, no entanto, são a exceção. A classe trabalhadora americana não se engaja em campanhas significantes ou greves há mais de quarenta anos.

Ainda assim, apesar desses diversos movimentos sociais relevantes, não há nenhum tipo de levante social de massas como foi visto nos Estados Unidos no período entre 1954 e 1975, onde ocorriam protestos políticos massivos quase continuamente em enormes proporções. Cada um desses movimentos surgiu e desapareceu, deixando para trás grupos de ativistas dedicados, mas falhando em criar um movimento social mais amplo e contínuo. Dada a situação política e econômica, aliadas à tomada de poder de Trump e os republicanos, podemos esperar um maior conflito social e mais movimentos de massa.

Na esteira da eleição de Trump a pequena esquerda americana também tem crescido. Existem nos Estados Unidos talvez vinte mil socialistas organizados em meia dúzia de grandes grupos e várias pequenas organizações. A maior organização de esquerda nos Estados Unidos é a Democratic Socialists of America (Socialistas Democráticos da América), que contava com cerca de sete mil membros até as eleições de novembro. Apesar de ter nascido como um grupo social-democrático, a DAS tem se tornado nos últimos anos uma organização democrática-socialista mais radical. Muito ativa na campanha de Sanders, ela ganhou aproximadamente três mil membros desde a vitória de Trump. Será um desafio conseguir integrar tantos novos membros.

A Socialist Alternative (Alternativa Socialista), grupo trotskista, é conhecida pelo sucesso de Kshama Sawant, que se elegeu duas vezes vereadora de Seattle. A SA também cresceu através do seu papel na campanha de Sanders, ganhando algumas centenas de membros. A International Socialist Organization (Organização Socialista Internacional), grupo de tradição trotskista e um dos mais ativos da extrema-esquerda, tem cerca de mil membros. Grupos comunistas, maoístas e outros trotskistas também existem e contam com cem a mil membros. Dividida por várias histórias e tradições, e frequentemente por práticas sectárias, a esquerda tem sido incapaz de ter uma participação maior nos movimentos sociais ou dando a eles uma direção política. O Solidarity (Solidariedade), grupo com cerca de trezentos membros, também de tradição trotskista, tem tentado desenvolver uma perspectiva de independência política para a esquerda através do seu Left Elect (Eleja a Esquerda), projeto que reúne ativistas de vários partidos grandes e pequenos. Mas será preciso esperar para ver se a esquerda conseguirá ser protagonista na organização da resistência contra Trump.

Todas as organizações de esquerda concordam na necessidade da resistência, mas não sabemos se a esquerda conseguirá ser liderança nessa resistência contra Trump. O ponto mais importante agora é a construção de uma força política independente, idealmente um partido político independente provindo dos movimentos de resistência que têm surgido. De qualquer forma, por enquanto, resistimos.

(Tradução de Fabiana Lontra)


1 A Lei de Proteção e Cuidado ao Paciente, popularmente conhecida como “Obamacare”, foi sancionada em 2010, com o objetivo de tornar os planos de saúde privados mais acessíveis à maioria da população, regulamentando-os a nível federal [Nota da tradutora].
2“Don’t ask, don’t tell” (não pergunte, não diga) é o termo mais frequente para a política de restrição a homossexuais e bissexuais no Exército estadunidense [Nota da tradutora].

Este artigo integra a 3ª edição da Revista Movimento, de out/dez 2016. Confira todos os artigos dessa edição!

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