Revista Movimento Movimento (100 anos da Revolução Russa) Movimento (100 anos da Revolução Russa): crítica, teoria e ação

“Junho é o determinante”

Em entrevista para a Rev.ista Movimento, os intelectuais discutem a crise brasileira e as possibilidades abertas à esquerda e ao PSOL.

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No dia 3 de março, tivemos a oportunidade de conversar com Alvaro Bianchi, Daniela Mussi e Ruy Braga – cofundadores do Blog Junho – após o anúncio de sua filiação ao PSOL, oficializada semanas depois em ato com presença de Luciana Genro, das vereadoras Sâmia Bomfim (São Paulo), Mariana Conti (Campinas) e de Vladimir Safatle. Animados com a notícia, realizamos esta entrevista, buscando conhecer um pouco mais sobre suas trajetórias, sua avaliação a respeito da conjuntura internacional e nacional e suas reflexões sobre o desafio de reorganização da esquerda no Brasil e no mundo. É o que apresentamos a seguir.

Movimento – Alvaro, Daniela e Ruy, muito obrigado pela entrevista para a revista Movimento. Vocês anunciaram recentemente sua filiação ao PSOL após um longo período de experiência militante anterior. Falem um pouco sobre a trajetória de vocês. Por que, afinal, essa escolha pelo PSOL?

Alvaro Bianchi – Bom, todos nós temos não uma trajetória idêntica de militância, mas uma trajetória que, pelo menos nos últimos anos, foi relativamente homogênea. Essa trajetória, de mais ou menos vinte anos, se caracterizou (da minha parte e do Ruy primeiro) por uma militância que nós poderíamos chamar de “político-intelectual” ou “político-cultural”. Ela se expressou primeiramente na Revista Outubro e depois numa série de iniciativas que nós fomos tendo ao longo do tempo. Posteriormente, a Daniela se somou a estas iniciativas.

A Revista Outubro, eu e o Ruy fundamos juntamente com outras pessoas, em 1998, e atualmente a Daniela é secretária de redação. Nós fizemos uma transição, de tal forma que eu e o Ruy saímos da coordenação cotidiana da revista e uma nova equipe se constituiu. Hoje, inclusive, a revista comporta uma maioria de mulheres, algo que nos deixou bem contente.

Como nós víamos essa militância? Ela tinha um caráter, digamos, interno (ou seja, ela estava voltada para o interior da esquerda e, em particular, da organização na qual a gente militava) e visava procurar assentar as bases para uma política mais aberta, menos sectária, que dialogasse com movimentos sociais e outras forças políticas, além de visar uma clara tentativa de renovação do marxismo, ou do “marxismo revolucionário” como nós gostávamos de dizer. E isto é o que fundamentalmente nós temos feito nos últimos anos. Claro que esse tipo de atuação está muito inspirado pela maneira como Antonio Gramsci – que é um autor que todos nós lemos muito – via o lugar do intelectual na política, bem como a relação destes intelectuais com os movimentos sociais.

Avaliamos que esse processo e essa política cultural foi, em certos aspectos, extremamente bem-sucedida, na medida em que nós consolidamos algumas iniciativas. Mas consideramos que ela fracassou naquela que era a nossa aposta principal: a capacidade de renovação do PSTU (organização na qual nós militávamos). Não conseguimos nem provocar uma abertura da organização, nem torná-la menos dogmática. Sempre ocupamos uma posição à margem da organização, e isso nunca nos preocupou, pois era uma opção nossa. Mas o efeito do nosso esforço se realizou de uma maneira diferente daquela que nós inicialmente tínhamos imaginado. E quando percebemos que esse já era um processo cristalizado, ou seja, de que a possibilidade de mudança ou de reforma era inexistente, nós resolvemos sair da organização e seguir um caminho diferente.

E o PSOL se colocou como uma opção evidente. Nós gostamos de dizer que viemos de perto. Ou seja, de que sempre trabalhamos, primeiro, com gente da esquerda do PT, no interior da revista e de outros projetos, depois com gente que milita no PSOL organizadamente ou que é simpatizante do partido. E sempre vimos a esquerda como uma área ou um território heterogêneo, e que nós deveríamos aprender ou nos esforçar para trabalhar neste território diversificado.

Daniela Mussi – Eu tenho uma trajetória um pouco diferente, porque na verdade vim do movimento estudantil, além de ser mais jovem. Entrei na universidade em 2002, fui do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da UFPR, no Paraná, do Centro Acadêmico e da União Nacional dos Estudantes (UNE) e participei da fundação do PSOL. Na verdade, eu vinha da base da Democracia Socialista (DS), no PT. Quando a Heloísa Helena foi expulsa, praticamente a juventude inteira da DS e do partido no Paraná rompeu com o PT, e eu acompanhei esse movimento de saída. Pra mim foi um momento muito importante. Acredito que de certa forma Junho de 2013 se conecta em termos de impacto na esquerda ao que foi a Reforma da Previdência no governo Lula e do processo que deu origem ao PSOL.

Assim, eu fui do PSOL do processo de fundação até 2012. E eu saí do PSOL, porque na época sentia muita falta de espaço para atuar numa esfera, digamos, “de transição”, que era a de não ser mais do movimento estudantil e não estar (ou não ter perspectiva de estar) em nenhum sindicato. Então, eu me sentia muito deslocada, e na época eu já participava da Revista Outubro – na qual entrei em 2010, Pra mim, era uma coisa muito gritante a ausência de espaço para desenvolver alguma coisa que não fosse militância sindical ou estudantil dentro do PSOL e o que eles faziam dentro do PSTU.

Por isso eu fui para o PSTU. Na verdade, eu nunca cheguei a ter muita familiaridade com o que era a estrutura partidária, mas o trabalho intelectual que existia no partido me interessava muito. Eu entrei e fui acompanhando o desenvolvimento do ciclo final dessa experiência intelectual da qual o Ruy e o Alvaro fizeram parte. Então, do meu ângulo, era uma coisa muito curiosa, porque ao mesmo tempo em que eles desenvolviam um trabalho intelectual extremamente fértil, rico, aquilo era contido dentro da estrutura do partido. Havia uma luta permanente por oxigênio. Eu fui acompanhando esse trabalho, e, depois de 2013, não teve mais espaço. O pouco do oxigênio que entrava foi ficando rarefeito. Quando chegou 2014, começamos a ouvir os balanços dos processos de realinhamento gerados pelas jornadas de Junho, e o PSTU ficou inviável. Ruy e Alvaro saíram primeiro, e eu saí um pouco depois, porque tive uma militância local em Curitiba na época. Mas acabou que todos nós saímos e imediatamente começamos a planejar a retomada desse projeto intelectual fora do partido, o que deu origem ao Blog Junho, não por acaso com esse nome. Era um pouco o que a gente queria fazer vibrar na época, aquilo que a gente sentia que tinha dado sentido a essa nova etapa.

Alvaro – Junho é o determinante. Junho é o que nos leva a concluir que aquela estrutura tanto não era mais útil, como era irreformável – essas foram as duas conclusões que chegamos.

Daniela – Não só a gente, a própria direção do PSTU começa a pressionar nesse sentido, num movimento recíproco, digamos assim.

M – Antes de entrar nos temas nacionais, vale uma palavra sobre a complexa situação internacional. Desde a eclosão da crise mais recente do capitalismo em 2008, vimos surgir novos levantes em todo o mundo: Primavera Árabe, Ocuppy, Gezi (Turquia), Junho (Brasil). No entanto, anos depois, assistimos à ascensão de Trump, ao fortalecimento eleitoral de partidos de extrema direita na Europa, à contraofensiva de Putin e Assad na Síria, entre outros fenômenos. É correto dizer que vivemos uma polarização na situação mundial? Por que as mobilizações de massa de anos recentes tiveram dificuldade de converter-se em alternativas políticas vitoriosas?

Ruy Braga – O começo da pergunta já pontua bem: 2008 foi um ano divisor de águas. Em 2008, ocorreu o advento de uma crise, num primeiro momento financeira, e que depois evolui e se torna uma crise propriamente econômica. A globalização da crise atingiu a Europa e provocou a desaceleração chinesa, a qual impactou diferentes dinâmicas globais, em especial, os BRICs.

Tudo isso teve repercussões. No caso brasileiro, houve uma primeira fase neodesenvolvimentista – quando Lula revê uma política profundamente financeirizada, retoma o investimento, e a Dilma tenta alçar o PAC como seu principal programa –, e que depois também naufraga. Nesse momento, se vê um processo de direitização da política – a despeito de haver a eclosão de movimentos sociais e uma crescente radicalização de uma parte da esquerda –, no qual se desenvolvem os acontecimentos mais recentes, como o golpe, etc.

O que eu quero dizer é o seguinte: houve um processo de crise financeira que se transformou em crise econômica; tal crise econômica, se transformou, por sua vez, em crise política. Esta tem desafiado os limites da democracia no interior das sociedades nacionais, que não são desenhadas para resolver o problema nos limites de um sistema democrático, porque a rigor estão submetidos a um processo de, alguns diriam, chantagem das finanças.

Deve ser destacado que há uma polarização, que se distribui de maneira desigual, não favorecendo na mesma medida direita e esquerda. O caso emblemático e mais importante nesse sentido é o dos EUA. Primeiramente, houve o movimento Occupy Wall Street (OWS), que se nutriu da dinâmica e dos métodos mais horizontalizados, das coalizões sindicatos-movimento, em grande parte fomentados pela experiência dos Fóruns Sociais Mundiais.

Nos últimos anos, essa polarização se acirrou: por um lado, há a ascensão, de extrema relevância, da candidatura de esquerda de Bernie Sanders; em contrapartida, a ascensão de todo um movimento conservador, impulsionado pelo Tea Party, que acabou se fundindo com o próprio Donald Trump, o que lhe permitiu suas sucessivas vitórias sobre os candidatos da “direita” do Partido Republicano. E existe algo na base da sociedade americana que ocasionou essa polarização política: uma crescente polarização social, fomentada pela desigualdade social existente no país.

Por que Bernie não teve o mesmo sucesso que Trump? Porque o Partido Republicano se sentiu muito mais confortável com uma candidatura aventureira, como a de Donald Trump. O Partido Democrata, ao contrário, ofereceu, a uma sociedade dilacerada, uma candidata associada ao establishment, identificada com os “novos democratas” dos anos 1990 e suas políticas neoliberais, de encarceramento de massa, etc. Assim, o Partido Democrata preferiu perder com a Hillary Clinton do que ganhar com o Bernie Sanders, uma vez que vencer com Bernie significaria, entre outras coisas, revolucionar a própria estrutura do Partido Democrata.

Então, logo se vê que a polarização distribuiu-se de maneira desigual. Hillary Clinton venceu a luta política interna dentro dos Democratas e foi nomeada candidata, num momento de desmobilização geral dos eleitores do seu partido. A vitória de Trump reflete esse clima, em que as pessoas perderam a vontade de sair de casa, enfrentar filas, para votar numa candidata como Hillary Clinton. As análises demonstram que o resultado eleitoral não se deu porque Trump subiu. Em regiões como o Rust Belt, por exemplo, ou nas regiões que foram chave para o seu triunfo, ele não teve um desempenho muito acima da média republicana. O fato foi que a votação do Partido Democrata despencou, porque sua candidata era tão péssima que as pessoas não se sentiram motivadas a levantar da cadeira para elegê-la.

O exemplo dos Estados Unidos, vale também para pensarmos o que aconteceu em outros países. Assim, em síntese, podemos dizer que há uma polarização desigual no mundo, que pendeu à direita, apesar de vitórias parciais da esquerda, como Bloco de Esquerda (Portugal) e Podemos (Espanha).

Alvaro – Acredito que vivemos um período que guarda diferenças com momentos anteriores. A crise de 2008 equalizou os tempos da política. Vemos fenômenos similares acontecendo na Europa, nos EUA e na América Latina, algo que não ocorreu em ciclos anteriores.

No âmbito da política, se manifestam simultaneamente um declínio dos sindicatos tradicionais, bem como dos partidos associados a esses sindicatos (em particular, a social-democracia num sentido bem amplo), e a emergência pontual de alternativas que, na maioria dos casos, não conseguem se consolidar como alternativa de poder em escala nacional. Ou seja, há uma certa novidade no fato de que isso está sendo vivido em vários continentes, diferentemente, por exemplo, dos anos 1980, quando o tempo da política na América Latina era diverso do tempo político da Europa ou dos EUA. Num espaço de três anos, vimos a Primavera Árabe, os Occupy, o movimento dos indignados na Espanha, a geração à rasca em Portugal, Junho de 2013, etc. É muito pouco tempo, que indica a equalização da crise política e a emergência de novos movimentos, os quais apresentam a característica de que, com a mesma velocidade com que se formam no desafio à ordem instituída, não conseguem geralmente formar alternativas de poder em escala nacional. Talvez Sanders seja o caso típico, porque ele é obrigado, de um lado, a disputar no interior da máquina democrata, mas depois que terminam as eleições, isso se pulveriza.

Ruy – Esse era o dilema de Sanders: foi obrigado, em função da polarização, a apoiar Hillary, mas, ao fazê-lo, confrontou-se com sua própria base. O mesmo pode ser encontrado também em outros lugares: a dificuldade de se traduzir movimentos sociais importantes em alternativas políticas.

Daniela – Me parece que não é fácil equalizar mobilização de massa com alternativa política, porque, a rigor, ninguém tem controle sobre manifestações massivas, como vimos em junho de 2013 no Brasil. Então, as organizações de esquerda precisam extrair lições desses processos: não é porque elas não são vitoriosas que não surgem alternativas. Processos atuais, que são frutos de sedimentações políticas anteriores, mesmo quando derrotados, permitem que as organizações de esquerda desenvolvam suas ferramentas.

No caso dos EUA, a mobilização de massas mais recente das mulheres, que é aliás uma das frentes de enfrentamento mais importantes da resistência anti-Trump, está ligada a um ciclo não só político, mas inclusive cultural, com debates sobre o feminismo, com a retomada de uma perspectiva mais unitária para se pensar o lugar das lutas feministas no interior das lutas sociais, que remontam há décadas de trabalho intelectual ativo.

A convocatória por uma greve geral escrita por Angela Davis, Nancy Fraser, Cinzia Arruzza, entre outras, é um chamado por um feminismo classista, por um “feminismo dos 99%”, configurando-se de certa forma como uma continuidade da campanha do Sanders por outras vias. Essa chamada – claramente socialista – ganhou repercussão internacional. Foi parar nos principais veículos de informação. É um chamado que fala contra o feminismo do “faça acontecer”, empresarial, individualista, que foi a maneira com que setores mais à direita, inclusive dentro do Partido Democrata, estava tentando absorver um processo de mobilização feminista.

Ruy – Até o movimento de mulheres, possivelmente o exemplo mais bem sucedido era o “Black Lives Matters”, movimento negro que se nacionalizou desde o chamado pelos direitos civis. Se esses movimentos continuarem se desenvolvendo e mantiverem relação entre si, isso pode significar que está acontecendo algo novo na cena política americana, que sem dúvida nenhuma foi em grande parte estimulada pela vitória do Trump.

Alvaro – Nesse sentido, vale lembrar outro fenômeno interessante que ocorre nos EUA: o surgimento de milhares de coalitions na cidade de Nova York e outras mais em território nacional. Coalizões e agrupamentos locais que possuem temáticas das mais variadas.

Daniela – E eu não me surpreenderia se vivêssemos um processo semelhante no Brasil, talvez não na mesma escala. Existe um site chamado Mamu (que mapeia os coletivo de mulheres no Brasil), que demonstra o fantástico grau de capilarização desses movimentos. São das mais diferentes perspectivas esses agrupamentos de mulheres: indígenas, negras, questões de saúde, questões de teoria… Os próprios cursinhos populares são outro exemplo. Cada um desses movimentos possui uma história muito particular e se dão em contextos específicos. Movimentos locais que se transformam em movimento de rede; alternativas que se mantêm através do trabalho de base, mesmo quando o movimento de massas reflui.

Ruy – É possível fazer um paralelo com o que observou Thompson em Formação da Classe Trabalhadora. No período antecedente a consolidação do movimento operário, entre os séculos XVI e XVII, havia uma miríade de organizações, cooperativas, interfaces entre a igreja e as comunidades, numa espécie de uma luta de classes sem a classe trabalhadora tal qual o operariado britânico do século XIX. A analogia com o presente se dá pela existência de um movimento bem dinâmico, muito rico culturalmente, mas que precisa evoluir.

Alvaro – Não podemos olhar a classe trabalhadora como nos acostumamos a fazer em nossas organizações. Junho de 2013 ocorre sem os sindicatos ou partidos, assim como a Geração à rasca, as ocupações das escolas, etc.

Ruy – Bernie Sanders é um exemplo de quem consegue, por meio de seu programa, dar conta dos problemas das diversas realidades da classe trabalhadora. Ele articulou os diferentes apelos através de políticas universais, conseguindo acomodar os interesses dessas variadas frações da classe trabalhadora (negros, mulheres, jovens, latinos, etc), constituindo um grande salto na sua proposta política.

M – Agora acho que podemos voltar os olhos mais especificamente para o Brasil, começando pelo governo Temer. Algo que nos chama atenção é que se trata de um governo que ataca profundamente os direitos sociais, a aposentadoria e possui um grau de aprovação baixíssimo, equivalente ao de Dilma em seus piores momentos. Como essa situação se tornou possível – como esse governo, mesmo tão impopular, consegue encontrar estabilidade?

Alvaro – O governo Temer nasce no interior do governo Dilma, como herdeiro passivo. Por outro lado, é um governo com caráter excepcional. Nós insistimos na ideia de que estava em curso no país (e de fato ocorreu) um golpe de Estado. Mas fizemos questão de definir o que estávamos chamando de golpe de Estado: uma mudança institucional abrupta, comandada por uma fração do aparelho estatal, que recorria a medidas excepcionais que não fazem parte das regras usuais do jogo político. De fato fizeram isso sem a necessidade de recorrer a tanques nas ruas ou coisa do gênero. Fizeram isso por meio do parlamento e do judiciário. Mas isso constitui um governo excepcional no sentido de que é um governo que não necessita de base social para garantir o seu funcionamento e não tem nenhuma amarra com a vida das pessoas realmente existentes. Não presta contas a ninguém, foi capaz de constituir, a partir dos partidos políticos conservadores girando em torno do PMDB, uma grande maioria parlamentar. Além disso, tem as mãos livres, porque não tem que se preocupar com a reeleição.

Ruy – Acredito que o grande teste para esse governo será a reforma da previdência. O teste da manutenção da base. Porque, a rigor, vai ser muito mais difícil que a aprovação da PEC [do teto]…

Alvaro – E da reforma do ensino médio. É verdadeiramente incrível que um governo faça uma reforma no ensino médio dessa magnitude por meio de uma Medida Provisória, a toque de caixa. E que isso seja aprovado com essa facilidade pelo Congresso Nacional. Mas é claro que à medida em que a pauta for se tornando mais substantiva, vai encontrar mais resistência. E não apenas isso, como podem vir a aparecer fissuras no interior da base parlamentar.

Ruy – E à medida em que o calendário avança também…Porque uma coisa é votar medidas impopulares há dois anos e meio da eleição. Outra coisa é votar o mesmo há seis meses da eleição. O cálculo que o Michel Temer não faz (de ser eleito ou algo do tipo) os políticos continuam fazendo, porque precisam ser eleitos. E há ainda o pânico da classe política brasileira de ser presa. O Celso Rocha de Barros fez uma brincadeira que capta bem esse sentido do pânico: se prometessem para a classe política brasileira que o socialismo os livraria da prisão, eles votariam pelo socialismo no parlamento. Eles votam a agenda que pensam que vai livrá-los da cadeia.

Alvaro – Outro problema é que essa crise política ocorre em um momento em que o ativismo social e sindical já havia retrocedido. Muitos cometeram um erro de compreensão em função do “delay” das estatísticas: o cálculo do número de greves realizado pelo DIEESE publicado no ano passado, na verdade, referia-se ao ano de 2013. Assim, muitos fizeram a avaliação equivocada de que estávamos em uma conjuntura de ascensão do movimento social. Mas basta abrir os olhos para perceber que na verdade isso se encerrou em 2015, o que dá margem de manobra ao governo.

Ruy – Os setores sindicais são ainda muito frágeis e não conseguem oferecer uma alternativa. Têm dificuldade em romper com o corporativismo, que é justamente o que precisamos no momento. A CUT tem se resumido à boa e velha tática do “feliz 2018”: não vamos fazer muita marola porque nossa salvação é a vitória do Lula. Assim, concluem que o melhor é apostar em um desgaste do governo e não reagem à altura desse desmanche dos direitos sociais, trabalhistas, etc.

M – Gostaríamos de voltar ao que disse Ruy quando falou dos corruptos. Em que medida vocês acham que as revelações de esquemas de corrupção envolvendo os principais partidos e empresas feitas pela Operação Lava-Jato (OLJ) podem abrir oportunidades para a esquerda?

Alvaro – A OLJ intensifica a crise do governo, a crise política. Mas a crise política, como vimos em 2015, pode ter resultados muito ruins. Ou seja, para que direção se desdobra? Esse é o problema. Bem, suponhamos que seja uma janela de oportunidades e que os escândalos de corrupção e a autonomização do aparelho judiciário, em particular do Ministério Público, sejam capazes de detonar um processo de crise política. Mas a pergunta que nós temos que fazer não é se a crise política é provável ou não. Pois a rigor isso independe de nós. A pergunta a se fazer é: “nós estamos preparados para aproveitar a tal janela de oportunidade?” Pois não há vazio, alguém irá ocupá-la.

Ruy – Sem dúvida a OLJ e esse autonomismo do judiciário intensificam a crise política. O problema é o que vem depois disso. Porque você não vai resolver a crise política pelo Judiciário. Não podemos ter uma aposta nisso.

Em abstrato, eu diria o seguinte: se eu fosse escolher em que campo lutar eu jamais o Judiciário, pois é o pior dos poderes. É o mais corrupto, mais autoritário, o mais intransparente, o mais corporativista, e o mais entranhado nos esquemas sórdidos. Apostar nesse poder é uma aposta muito complicada. No entanto, é claro que devemos exigir que a OLJ prenda todos os corruptos, sem exceção.

Daniela – Mas acho que existem duas coisas envolvidas. Uma delas, é a luta no campo do judiciário. A outra, é o que a OLJ mobiliza na sociedade civil, o apelo que ela tem na sociedade civil, ou seja, o apelo do tema da corrupção. Uma característica do governo do PT foi se tornar um governo com falta de transparência. Não só do ponto de vista da corrupção, mas de governar com um programa diferente daquele para o qual foi eleito, fomentando um discurso que justifica sua existência, não histórica, mas ocasional. E acho que a OLJ se projeta porque se coloca como uma promessa de transparência.

A direita usa isso para dizer que são todos corruptos e que isso é culpa do comunismo. Já a esquerda, usa isso para falar da traição do PT em relação à classe trabalhadora. Eu acho que há um cenário muito difícil de atuar. Como abordar a questão da dimensão do projeto estratégico de sociedade não se prendendo a uma dimensão ultra-politicista – a do “político honesto” –, o que seria capitular ao senso comum, mas retomando um debate de administração do Estado? Acho que estamos muito recuados nessa questão.

Alvaro – A questão-chave é como tirar a luta contra a corrupção do âmbito da pequena política. No âmbito da OLJ, a luta anticorrupção é a pequena política. Com seu herói de capa e espada, vindo de Curitiba para salvar o país. Como, então, deslocar a luta contra a corrupção para o âmbito da grande política? Subordinando a luta contra a corrupção a um programa democrático radical. Articular a luta contra a corrupção a um programa democrático radical, ou seja, jogar a luta anticorrupção para o plano estatal. Aí está a saída de um programa que também é anticapitalista.

Daniela – Isso lembra a própria questão da previdência, por exemplo. Quer corrupção maior do que o desvio da previdência para pagamentos de juros da dívida? Quer processo maior de desmonte das instituições públicas do que essa destruição da previdência? Enfim, é necessário fazer essa tradução e puxar para outro campo político.

Ruy – Infelizmente, a esquerda brasileira não está aparelhada para discutir corrupção. Me lembro de que a direção do PT não queria encampar a luta do “Fora Collor!”, e só o fez quando forçada a isso.

Alvaro – Me lembro que nessa época fiz uma entrevista com o Zé Dirceu em que eu perguntava por que a Convergência Socialista estava sendo expulsa. E o Zé Dirceu, com aquela honestidade que lhe é particular, disse: “a Convergência está sendo expulsa porque é a favor do Fora Collor!”.

Ruy – O que os movia era a preocupação com o calendário eleitoral. O PT fez duas coisas logo após ser derrotado pelo Collor: desmobilizou os núcleos de base e mandou imprimir os adesivos do “Feliz 1994”, fazendo uma paródia ao adesivo “Feliz Natall”, impresso por Collor. O Zé Dirceu dizia isso claramente: “devemos levar a crise do governo Collor até o final porque vamos ganhar em 1994″.

Alvaro – Há uma literatura muito interessante de marxistas a respeito da corrupção, discutindo tal fenômeno do ponto de vista conceitual e teórico. Ela aponta que o próprio processo de financeirização da economia, a escala que ele assumiu, internacionaliza a corrupção. É o que estamos vendo agora com a Odebrecht.

M – Aqui nessa conversa, e também pelo o que nós acompanhamos no Blog Junho, vocês, assim como nós, têm a compreensão de que existe uma série de vícios da esquerda que precisam ser superados (nomeadamente, o burocratismo, o possibilismo parlamentar, o corporativismo e o sectarismo). Nossa pergunta é: como é possível superar esses vícios (que nos levaram a grandes derrotas) e, ao mesmo tempo, dar conta da necessidade de um reagrupamento da esquerda? Porque nos parece que um dos problemas principais da esquerda hoje é o problema da dispersão. Dessa forma, como é possível superar os vícios da esquerda e, ao mesmo tempo, construir na prática uma unidade que vá para além da forma?

Alvaro – Que unidade, não é? Esta é uma questão importante a ser colocada. O problema fundamental que a esquerda brasileira tem que resolver não é o problema da relação “organização-organização”. A questão não se resolve por meio de pactos entre pequenas organizações políticas. Não é uma questão apenas formal. O problema fundamental é como equacionar o nexo “organização-movimento” ou “organização-movimentos”. Ou seja, como enraizar a esquerda nos movimentos sociais realmente existentes. Temos uma esquerda que é completamente desenraizada.

Ruy – É uma esquerda alienada que, vamos dizer assim, se acostumou a fazer reuniões com ela mesma, com as mesmas pessoas sempre…

Alvaro – Junho de 2013 aconteceu à margem dos partidos. A Primavera Feminista aconteceu à margem dos partidos. A revolta nas escolas aconteceu à margem dos partidos. Todos os movimentos sociais relevantes dos últimos quatro ou cinco anos, não tiveram os partidos como seus protagonistas. Claro que os partidos e organizações participaram desses processos, mas eles aconteceram de forma independente. Mas esses movimentos não são “anarquistas” ou “autonomistas”, em si, como alguns analistas tem afirmado.

A forma de fazer política que caracterizou os anos 1980, 1990 e início dos anos 2000 se esgotou com a experiência do lulismo no poder. O PT é a forma perfeita de articulação do possibilismo parlamentar com o corporativismo sindical. Uma estratégia como essa não poderá se repetir de forma tão “bem-sucedida”.

No entanto, há novas experiências surgindo. Quais são as respostas que a esquerda tem dado até o momento? Então, acho que esta é a questão principal que deve ser resolvida. A nossa filiação ao PSOL passa por isso, pela constatação que é um partido aberto a essas novas experiências, muito embora ainda não tenha conseguido dar uma resposta satisfatória a este problema. Em certa medida identifica o dilema, mas até agora a resposta não se concretizou.

Ruy – Existem experiências interessantes. Sem dúvida nenhuma o Podemos é uma delas, por mais que apresente limitações (que foram mitigadas em seu último congresso).

Outra experiência recente, vizinha ao Podemos, foi o processo de renovação radical pelo qual passou o Bloco de Esquerda em Portugal. Há alguns anos, o Bloco estava numa situação crítica, em grande parte, por conta dos “velhos” estarem asfixiando a estrutura do partido. Essa situação mudou a partir de um processo combinado de autorreforma e renovação, no qual os “de baixo” – sobretudo, as mulheres, jovens, ativistas do movimento social, da sociedade civil e do movimento de trabalhadores precários – passaram a tomar posição de destaque e a controlar do aparato do Bloco. Isso se confirmou nas eleições. Quando uma ascensão eleitoral à esquerda se configurou no país – porque também ocorre essa polarização em Portugal – o Bloco estava muito mais preparado para absorver esse fenômeno e se postular como alternativa.

Além disso, houve uma transformação na Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses (CGTP). A partir da pressão do movimento de trabalhadores precários, ela organizou, por exemplo, o Fórum Social Português, incorporando à sua agenda as demandas das mulheres, dos imigrantes, dos aposentados e dos jovens. Porque perceberam que pela primeira vez em sua história foram desafiados pelas ruas. Assim, se tornaram aliados dos movimentos sociais, e não adversários, encastelados em rotinas sindicais.

Isso tem resultado eleitoral. E tem resultado político, que é o de, pela primeira vez, o Partido Comunista Português (PCP) formar uma coalizão política com o Bloco de Esquerda e apoiar o governo do Partido Socialista (PS). Era inimaginável que o PCP fizesse isso. É claro que o PCP estava sensibilizado por essa “pequena reforma” da CGTP.

M – Voltando um pouco agora para a trajetória de militância de vocês. Que papel o Blog Junho tem desempenhado nessa conjuntura?

Daniela – O Blog é uma iniciativa ampla, bem plural, por isso nós na verdade nem podemos falar exatamente em nome dele. Mas eu acho que a contribuição que ele pode dar é oferecer um espaço para quem estuda e pesquisa determinado tema – não só na análise da política no cotidiano, mas também nas questões teóricas e de investigação que a esquerda precisa enfrentar.

A esquerda tem um certo preconceito histórico com os intelectuais. Pelo menos eu vivi isso, acho que o Alvaro e o Ruy até mais por conta da experiência deles no PSTU, expresso na opinião de que o trabalho teórico seria menor, ou não teria um papel, ou que esses trabalhadores da pesquisa e professores não teriam uma contribuição militante porque não estão nos sindicatos. Acho que essa concepção precisa ser superada. Tem muita gente interessante e jovem pensando política, estudando, escrevendo, oferecendo análises interessantes e audaciosas para os problemas. A maioria destas pessoas estão na universidade, porque infelizmente a universidade brasileira concentra essa iniciativa intelectual, e a esquerda tem que de alguma forma abrir espaço para isso, e se enriquecer com isso, para que esses intelectuais encontrem seu lugar, para que se desloquem também no sentido de fazer parte de um movimento que é mais amplo que a própria vida universitária.

M – Finalizando, então, diante do temas que abordamos. Na visão de vocês, que papel o PSOL deve cumprir neste período? Por quais caminhos pode fortalecer-se?

Alvaro – Inicialmente, nós depositávamos mais esperança numa reorganização da esquerda por via das organizações. Hoje temos uma visão mais cética a respeito dessa reinvenção da esquerda que tem como protagonista as organizações. Para nós, os desafios estão todos eles vindo dos movimentos.

Daniela – Se a reinvenção da esquerda se apresentar como fóruns entre iguais – restritos aos ativistas organizados – ela não vai ser reinvenção da esquerda. Há alguns anos eu acompanho pelas redes sociais uma iniciativa que eu acho genial, que é a Rede Emancipa. Lógico que a princípio ela tem uma função imediata que é a educação para entrar no vestibular. Mas eu acho uma iniciativa, por exemplo, que vai na contramão dessa ideia de ficar falando para dentro, pensar a reorganização como um processo ultra-interno das organizações políticas. E quando vieram o ciclo das ocupações de escola aqui no estado de São Paulo, uma militância organizada partidária estava nas escolas. Ou tinha contato com os estudantes, era referência para aqueles estudantes, porque fazia um trabalho de base, até certo ponto pragmático, que é preparar a juventude da periferia para entrar no vestibular, nas universidades que só entram brancos e de escola privada. Então considero um acerto, como uma iniciativa que parte de organizações político-partidárias, mas que olha para fora, que semeia processos que estão voltados para fora, acreditando no potencial político da juventude periférica, dos cursinhos populares. Isso se alia muito à luta pelas cotas raciais, e temos visto uma pressão nesse sentido, como assistimos na UNICAMP agora, por exemplo.

Ou seja, há uma série de demandas que estão borbulhando, que até podem ser derrotadas no interior das instituições, mas que seguem vivas nos movimentos sociais e na juventude. Acredito que a esquerda deve olhar para esses processos. O mesmo acontece no movimento de mulheres, que vive uma situação difícil, fragmentada, porque passou alguns anos com suas organizações brigando entre si, devido às diferentes abordagens em torno das bandeiras. O movimento de mulheres vive uma situação que é parecida com a que as feministas norte-americanas já viveram, de dificuldade de compreensão mútua devido à fragmentação. Não acho que será um processo de “sentar na mesa e ver no que que dá” que vai superar essa situação. Acho que isso vai passar por experiências políticas, para que a solidariedade aos poucos vá sendo construída. Isso explica também porque os mais jovens vão ter que assumir e se dispor a protagonizar esses processos. Porque eles fazem parte dessa geração que está encarando as dinâmicas mais novas.

Alvaro – Em suma, com relação a essa questão da esquerda, não é um “conselho de anciãos” que vai resolver esse problema.

Ruy – E também não é uma aposta mecânica na unidade dos agrupamentos políticos de esquerda. Quer dizer, isso é um pequeno início, muito modesto, mas isso é um ponto de partida, não pode ser um ponto de chegada.

Ou seja, a reorganização da esquerda do país passa também pelas organizações que estão aí. E, em grande parte, nossa escolha pelo PSOL advém exatamente desse diagnóstico, ou seja, pelo fato de que entre todas as organizações que existem hoje na esquerda brasileira, a única que tem futuro é o PSOL. Não sei exatamente qual futuro, mas é a única que realmente pode apontar em alguma direção para a incorporação de uma agenda, para o desenvolvimento de iniciativas, para se transformar em alguma medida numa espécie de instrumento dessas novas gerações que estão efetivamente se organizando hoje. E o grande desafio é tentar fazer com que o PSOL, não como partido, mas como uma experiência política em evolução, se coloque à esquerda daquilo que é possível. Ou seja, rompa com o possibilismo parlamentar, com o corporativismo. Coisas que ele, inclusive, não inventou e que ele só reproduziria de uma forma muito amesquinhada.

O ponto central é que não há um futuro para a esquerda no país que não passe por uma radical renovação das suas bases, das suas práticas, dos seus horizontes. E isso não vai ser feito exclusivamente pelas direções. Isso é algo mais amplo, mais complexo, mais contraditório, inclusive. Mas possui interface com as organizações. A Daniela lembrou o Emancipa e a ocupação das escolas. Ou seja, a única derrota que o Geraldo Alckmin teve em São Paulo foi o movimento de ocupação das escolas públicas há dois anos atrás. Isso não é pouca coisa. Estar de alguma forma articulado com essas experiências é uma questão de vida ou morte para a esquerda brasileira hoje. Só houve vitória porque eles se colocaram à esquerda do que era possível. O possível era: vamos abrir negociação e tentar tirar um acordo. Exatamente por não terem aberto negociação, o que o movimento institucional (como a UBES) propunha, o movimento foi vitorioso.

Além disso, nós temos que levar em conta que a própria base dos movimentos sociais mudou. A nova geração de jovens (que estudam e trabalham) possuem desejos e expectativas de futuro diferentes daqueles alimentados pelo lulismo nas últimas décadas. Eu costumo dizer que hoje a esquerda brasileira é prisioneira do sonho do Lula: ter um carro, uma casa própria, sair de São Bernardo pela Imigrantes novinha, reformada, para passear em Santos. Ou seja, o sonho da infraestrutura, “Minha Casa Minha Vida” e financiamento para o carro próprio. Esse não é o sonho do jovem hoje. E é a partir do reconhecimento dessa mudança de base social é que você vai inventar de fato um outro horizonte de possibilidades políticas, de reinvenção da luta política.

Este artigo integra a 4ª edição da Revista Movimento, de jan/mar 2017. Confira todos os artigos dessa edição!

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Na quinta edição da Revista Movimento, trazemos ao público um especial sobre a crise brasileira. Nele, publicamos longa entrevista com o economista Plinio Sampaio Jr., que oferece instigante diagnóstico do fracasso da política econômica conduzida pelos governos do PT. Fecham a seção dois artigos sobre o poder das corporações no capitalismo global e a teia corrupta que estabelecem com Estados e governos. Um conjunto de artigos sobre a situação internacional aborda as dificuldades enfrentadas pelo governo Trump, a crise na Venezuela e o avanço das lutas no Peru.

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