Revista Movimento Movimento (100 anos da Revolução Russa) Movimento (100 anos da Revolução Russa): crítica, teoria e ação

Os metroviários de São Paulo e o 30 de Junho de 2017

As tarefas dos trabalhadores do metrô na construção das mobilizações contra as reformas e o governo Temer.

Metroviários de São Paulo votam a favor de greve em 2015 - Paulo Iannone/ Sindicato dos Metroviários de São Paulo
Metroviários de São Paulo votam a favor de greve em 2015 - Paulo Iannone/ Sindicato dos Metroviários de São Paulo

Não faltavam motivos para que os metroviários de São Paulo aderissem à última Greve Geral, marcada para o dia 30 de junho. Assim como o restante da população, a categoria sentiu o impacto de uma possível aprovação das Reformas da Previdência e Trabalhista e rapidamente se somou às lutas gerais, cumprindo importante papel nos dias 15 de março, 28 de abril e no 24 de maio (em Brasília). Conhecidos pelo forte histórico de mobilizações, os metroviários vestiram a camisa e estavam dispostos a lutar para não ter nenhum direito a menos.

Como se não bastasse as tentativas de retirada de direitos, a categoria tem acompanhado de perto o fenômeno do desmonte das empresas públicas no Estado de São Paulo. A exemplo de outras estatais, o processo do Metrô se iniciou com ataques ao Acordo Coletivo, com a precarização do trabalho e do serviço oferecido, incorporou a terceirização de atividades e procura se concluir com entrega completa à iniciativa privada. Esta tem sido a realidade dia após dia. A previsão de entrega das propostas de licitação da Linha 5 Lilás (uma linha já em funcionamento e com funcionários públicos alocados) é de setembro deste ano. Além disso, por pregão ilegal realizado em dezembro, o Metrô contratou uma empresa para iniciação imediata da terceirização de todas as bilheterias, retirando um posto de trabalho fundamental dos funcionários de estação e tornando sua função, aos olhos da lógica do lucro, dispensável.

O metroviário tem encarado tudo isso com indignação, mas sem surpresas. Faz anos que este plano ronda a categoria e o governo tenta colocar em ação. A novidade é a rapidez com que este projeto tem sido implementado e sua relação direta com uma nociva forma de enxergar o trabalho

As reformas nacionais, a privatização e a terceirização fazem parte do mesmo pacote.

Mas, afinal, com tantos motivos, por que a categoria metroviária em sua grande maioria votou pela não participação da greve geral do dia 30? Em São Paulo, é expressiva a força do movimento dos metroviários. Mas não apenas por ser uma categoria bastante combativa, com uma história de luta e resistência à ditadura militar e de onde surgiram importantes quadros do movimento de esquerda. O Metrô de São Paulo é pauta da Cidade e do Estado. A categoria dialoga com a população e sua posição estratégica é essencial para que a cidade funcione. Junto com os demais setores do transporte – Trens da CPTM e ônibus municipais e intermunicipais –, o Metrô, ao declarar greve, tem verdadeiro poder de paralisar a cidade e impactar a economia.

Foi assim nos dois primeiros dias de paralisação de 2017 – dia 15 de março sendo vanguarda do movimento e na Greve Geral do dia 28, a maior da história do país, onde o bloco dos transportes em São Paulo foi essencial. A grande repercussão nacional moralizou e fortaleceu a categoria, fazendo que o movimento de trabalhadores desse passos mais firmes adiante.

Algumas das centrais sindicais, porém, preocupadas com o espectro que a revolta da classe poderia tomar e buscando preservar a imagem do Governo e a estabilidade política, enquanto prosseguia com as negociações escusas em torno das reformas, traíram a Greve Geral a esvaziando. O desmonte começou com a distância de dois meses entre uma greve e outra – a demora para acertar o dia já mostrava pouca mobilização de vários setores. Dias antes de 30 de junho, a UGT e Força Sindical, mais preocupadas em apenas manter o imposto sindical intocável na nova proposta, chegaram a soltar notas anunciando o desembarque da Greve Geral unificada. Outros setores, como a CUT e CTB, preocupavam-se com o desenrolar político e acordos que buscavam amarrar para a preservação recíproca de algumas figuras investigadas. A Greve foi traída para suprir a necessidade de contrapartida daqueles que podem fechar acordo com o Governo Federal.

Em São Paulo, isto atingiu em cheio e desmobilizou por completo os setores de transporte dominados pela burocracia sindical, isolando o Metrô. A categoria, informada, não tinha disposição para encarar os perigos de uma greve isolada e mais enfraquecida – setores expressivos do ativismo demonstravam a dificuldade de se manter a greve fortalecida como nas paralisações anteriores.

A chefia tem pressionado e assediado moralmente cada vez mais os lutadores, a unidade da categoria é a segurança de resistência frente a isto. Com todo esse contexto, entrar em greve neste momento poderia significar uma mobilização questionada, causando fissuras internas do movimento dos metroviários, rompendo uma importante unidade – esta foi a opinião mais expressada na assembleia que decidiu por não se incorporar a greve.

Nós, Metroviários do Movimento Esquerda Socialista, fomos eleitos nominalmente pela nossa base de atuação na Linha 2 Verde e assumimos, desde novembro de 2016, duas cadeiras na diretoria do Sindicato. Como parte da vanguarda do movimento e responsável com o processo de mobilização da Greve Geral, adotamos a decisão de ouvir os apelos da categoria e votar pela não paralisação. A categoria não pode ser responsabilizada pelo enfraquecimento do dia 30, quando toda a culpa gira em torno da política irresponsável das centrais e de um cenário político onde a burguesia tenta de todas as formas fechar um acordo nacional que livre as já malfadadas figuras políticas denunciadas por corrupção.

Em 29 de Junho, a categoria metroviária lotou a assembleia na quadra do sindicato e expressou sua vontade de não aderir à greve em uma votação com diferença notável – mais de 70% dos presentes registraram esta opinião. Muitas falas ponderaram sobre os riscos de se incorporar em uma greve de forma isolada, sem os demais setores do transporte do Estado, mas reafirmaram mais uma vez o descontentamento da categoria com as Reformas, terceirização e privatização.

O recuo tático que demos vem na tentativa de não estourar os ânimos dos metroviários e de prepará-los para os maiores embates que já sofremos na história do Metrô desde sua operação: é necessário agora organizar todos para uma construção de uma greve que denuncie as Reformas, mas que gire em torno da luta contra as privatizações e terceirizações. Ao contrário do que pode parecer, a categoria não está para trás. Precisamos com urgência elaborar um plano de luta que envolva também a sociedade e demais setores. Defender o Metrô estatal é tarefa fundamental dos lutadores do país e daqueles que querem ver a derrota destes projetos de sucateamento.

O plano do Governo é acabar com a categoria metroviária de todas as formas, o que seria um dos maiores ataques que a classe trabalhadora brasileira de conjunto sofreria. Ter os metroviários e seu Sindicato fortalecidos é estratégico para o êxito da luta; portanto, é responsabilidade de todos assumir esta batalha.

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Na quinta edição da Revista Movimento, trazemos ao público um especial sobre a crise brasileira. Nele, publicamos longa entrevista com o economista Plinio Sampaio Jr., que oferece instigante diagnóstico do fracasso da política econômica conduzida pelos governos do PT. Fecham a seção dois artigos sobre o poder das corporações no capitalismo global e a teia corrupta que estabelecem com Estados e governos. Um conjunto de artigos sobre a situação internacional aborda as dificuldades enfrentadas pelo governo Trump, a crise na Venezuela e o avanço das lutas no Peru.

Abaporu

Uma biografia inédita de Stalin escrita por Leon Trotsky Uma biografia inédita de Stalin escrita por Leon Trotsky

Leon Trotsky Joseph Stalin

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