Revista Movimento Movimento (100 anos da Revolução Russa) Movimento (100 anos da Revolução Russa): crítica, teoria e ação

“Nosso desafio é ter um programa à altura dos desafios históricos”

Para o economista Plínio de Arruda Sampaio Jr., a crise brasileira e o fracasso da política econômica conduzida pelos governos do PT podem ser entendidos como parte de um processo de “reversão neocolonial”.

Plinio de Arruda Sampaio Jr.  Foto: Jornal do Sudoeste
Plinio de Arruda Sampaio Jr. Foto: Jornal do Sudoeste

Numa manhã fria do fim de outono paulista, a revista Movimento encontrou-se com Plínio de Arruda Sampaio Jr., professor do Instituto de Economia da Unicamp e militante socialista há décadas. Em debate, a crise de dimensões históricas por que passa o Brasil e a necessidade de que a esquerda socialista retome a elaboração e o debate estratégico sobre a revolução brasileira.

Para Plínio, que está lançando livro com uma contundente crítica à política econômica conduzida pelos governos petistas, a crise brasileira é estrutural, profunda e de dimensões históricas: uma “reversão neocolonial” da economia brasileira, caracterizada pelo recuo da industrialização – como parte do movimento de toda a economia global e da organização das cadeias de valor –, aprofundamento da subordinação dependente do país, que mais e mais se especializa na exportação de matérias-primas agrícolas e minérios. Os governos do PT, ao contrário da propaganda realizada à época ao redor de um suposto “neodesenvolvimentismo”, aprofundaram o movimento de reversão neocolonial e financiaram a expansão de transnacionais brasileiras que, uma vez terminado o boom das commodities, também entraram em crise.

A crise política, portanto, responde a um movimento geral de reorganização da economia, da sociedade e do Estado brasileiros, conduzido – não sem conflitos, fissuras e indefinições – por uma burguesia divida e em luta interna, organizada em dois “partidos”: o partido do “estanca sangria”, que em perspectiva futura estaria historicamente condenado à derrota, e o partido do “fora todos”, que atua para desmontar o regime político apodrecido da Nova República. O governo Temer, completamente tomado pelos escândalos de corrupção revelados pela Lava Jato em conjunto com o PT e o PSDB, debate-se buscando sobrevida ao mesmo tempo em que tenta entregar à burguesia a redução de direitos trabalhistas, previdenciários e sociais conquistados há décadas e inscritos na Constituição de 88.

Para o entrevistado, cabe à esquerda socialista, nesse cenário, construir um programa próprio e uma política alternativa a ambos os campos em luta para evitar o risco de terminar atada aos planos eleitorais de Lula, ao partido do “estanca sangria” e ao passado. Acompanhe a seguir a extensa conversa, em que também se abordaram outras questões fascinantes, como o enfrentamento pelos socialistas das insuficiências da formação nacional brasileira, suas relações com o internacionalismo, as tarefas do PSOL e a necessidade de recuperar a esperança em nossas lutas. Às vésperas de completarmos 3 anos sem Plínio de Arruda Sampaio, relembramos de sua confiança na juventude, no Brasil e no socialismo.

Movimento – Prof. Plínio, você acaba de lançar o livro Crônica de uma crise anunciada: crítica à política econômica de Lula e Dilma, em que realiza a crítica dos 13 anos de governos do PT. Anos atrás, uma longa polêmica acadêmica e política desenvolveu-se justamente a respeito da caracterização da política econômica dos governos lulistas, em que estes foram considerados governos “neodesenvolvimentistas” por alguns analistas. A profunda crise econômica e o impeachment parecem ter tornado esta polêmica um fóssil antes mesmo que chegasse a uma conclusão. Afinal, como definir a política econômica dos governos do PT? Por que se trata de uma crise “anunciada” e quais seus fundamentos?

Em primeiro lugar, a polêmica do neodesenvolvimentismo foi resolvida pela história. Ela desmanchou o neodesenvolvimentismo em meses. Ou seja, ele não existia. A crise do governo era previsível porque, no fundo, a crise é a expressão das contradições inscritas no próprio movimento da economia. E qual era o movimento dessa economia? Era uma economia subdesenvolvida e dependente que teve um ciclo de expansão impulsionado pelo boom especulativo internacional: o boom de commodities e o boom de liquidez internacional. Essas eram as duas premissas do crescimento da “Era Lula”. Era previsível por dois motivos. Em primeiro lugar, porque o comportamento de uma economia subdesenvolvida é cíclico. Alterna expansão – a depender da conjuntura internacional e da inserção desta economia na divisão internacional do trabalho – e exaustão. O fim trágico era previsível. Quando o boom internacional acabasse, a onda quebraria e a economia brasileira viria abaixo. O PT não enfrentou nenhuma das causas estruturais que condicionam o caráter dependente da economia brasileira. Não era difícil ver que o comportamento da economia brasileira repetiria o círculo vicioso do subdesenvolvimento. Para quem deu aula de economia brasileira por décadas, era mais ou menos previsível que a economia daqueles anos teria uma expansão que acumularia contradições internas e externas que em algum momento viriam abaixo de forma muito forte.

Este artigo faz parte da 5ª edição da Revista Movimento. Quer ler a entrevista completa?Compre a edição impressa aqui!

Este artigo integra a 5ª edição da Revista Movimento, de abr/jun 2017. Confira todos os artigos dessa edição!

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Na quinta edição da Revista Movimento, trazemos ao público um especial sobre a crise brasileira. Nele, publicamos longa entrevista com o economista Plinio Sampaio Jr., que oferece instigante diagnóstico do fracasso da política econômica conduzida pelos governos do PT. Fecham a seção dois artigos sobre o poder das corporações no capitalismo global e a teia corrupta que estabelecem com Estados e governos. Um conjunto de artigos sobre a situação internacional aborda as dificuldades enfrentadas pelo governo Trump, a crise na Venezuela e o avanço das lutas no Peru.

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