Bitcoin e as tulipas digitais
Trabalhadores em uma plantação de tulipas na Holanda - Reprodução

Bitcoin e as tulipas digitais

Os usuários de bitcoin estão adquirindo esta moeda digital não porque seja útil como meio de troca. Estão comprando porque seu preço está aumentando.

Alejandro Nadal 28 ago 2017, 12:42

A ideia de uma moeda gerada pelos usuários direta e descentralizadamente, sem a intervenção do sistema bancário, soa interessante. Para começar, não estaria sujeita ao processo de endividamento que caracteriza a moeda emitida pelos bancos comerciais privados ao conceder crédito. Ademais, não dependeria de um respaldo por parte de um banco central, único emissor de moeda de alto poder. Essas são as principais virtudes de uma moeda cujo papel de meio de troca facilitaria as transações e as livraria do jugo que o sistema financeiro mantém sob a criação monetária.

Na atualidade existem várias moedas que pretendem ter essas qualidades e cuja circulação se realiza por meio da rede. Trata-se de moedas digitais e se denominam “criptomoedas” porque o controle dos pagamentos e transações se realiza mediante um sistema encriptado que impede a violação e, por assim dizer, a falsificação da moeda. A mais importante é a bitcoin, que foi introduzida em 2009 e já ganhou aceitação institucional em escala internacional. O governo do Japão, por exemplo, recentemente eliminou o imposto sobre transações que utilizam essa moeda digital, o que provocou um aumento no uso de bitcoin e um auge no mercado de criptomoedas. Por outra parte, as transações com esta moeda digital não necessitam de intermediários e, portanto, não há que pagar as volumosas comissões que normalmente cobram os bancos e os grandes operadores de cartões de crédito.

Esta moeda digital tem sido considerada por muitos como o instrumento de troca do futuro. Na atualidade é utilizada para todo tipo de transações, desde uma pizza em domicílio, até um pacote de matérias primas no mercado de futuros. O bitcoin pretende alcançar uma aceitação e uso internacionais, quase a par que o dólar estadunidense ou o euro. No entanto, apesar do auge que tem experimentado o uso desta criptomoeda, há indicadores de que o sistema bitcoin está funcionando próximo de sua capacidade de operação que está determinada pelo número de transações que tolera. Isso tem provocado maior volatilidade no valor do bitocoin e até um incremento no custo de cada transação, assim como demora em confirmar que o pagamento foi realizado de maneira correta.

Porém, todo o anterior não é nada comparado com o explosivo aumento do valor do bitcoin. Hoje um bitcoin se cotiza no mercado de criptomoedas em mais de quatro mil dólares. Ou seja, desde maio até a data o bitcoin duplicou seu valor. Cabe recordar que o valor original do bitcoin quando se iniciou seu uso em transações comerciais em 2010 era de alguns humildes centavos de dólar.

A evolução das cotizações do bitcoin denota com toda claridade que esta criptomoeda se tem convertido em um ativo como qualquer outro e é objeto de uma feroz atividade especulativa. Ou seja, estamos diante de uma bolha especulativa que poderia estourar em qualquer momento.

A explicação deste fenômeno recai no duplo papel desta moeda. Por um lado é um simples meio de troca que pode ser usado para comprar qualquer artigo no mercado. Mas também é uma reserva de valor para fazer frente a compromissos futuros. E, por esta característica, um bitcoin se tem convertido em uma ativo em que qualquer agente pode decidir colocar uma certa quantidade de riqueza. E aqui é onde tudo começa a comportar-se de uma maneira singular: ao se aumentar o preço do bitcoin, a demanda não só não se reduz como também se aumenta. As expectativas de comprar algo hoje a um certo preço e vender amanhã a um preço mais alto é o motor de um comportamento especulativo que tem levado o bitcoin a níveis que não tem nada que ver com seu uso em transações comerciais.

Os usuários de bitcoin estão adquirindo esta moeda digital não porque seja útil como meio de troca. Estão comprando porque seu preço está aumentando. É o mesmo fenômeno que se tem apresentado com todo tipo de ativos nos mercados financeiros e lembra a febre das tulipas que invadiu os Países Baixos no século XVII. O clássico estudo de Peter Garber sobre a mania das tulipas (publicado no Journal of Political Economy em 1989) revela que no momento de maior auge desse mercado ninguém estava comprando tulipas por suas qualidades ornamentais. Por isso, um exemplar da variedade Semper Augustus passou de cerca de mil florines a mais de cinco mil e quinhentos florines entre 1623 e 1637. A loucura durou anos até que estourou a bolha, deixando muitos na ruína.

As virtudes que teria uma moeda que não é emitida pelo sistema de bancos comerciais privados são consideráveis. Porém, enquanto não se possa controlar seu papel de reserva de valor, as criptomoedas não poderão separar-se do mundo da especulação. O bitcoin se tem convertido em uma coleção de tulipas digitais e é o protagonista de uma bolha que em breve terá que estourar.

(Artigo originalmente publicado pelo jornal mexicano La Jornada. Tradução de Marcelo Martino.)


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
“Enquanto os efeitos sanitários e econômicos da Covid-19 seguem fazendo-se sentir, escancarando a crise global do capitalismo, as lutas na América Latina começam a apresentar importantes conquistas no enfrentamento da extrema-direita continental. Na Bolívia, após meses de enfrentamentos e mobilização popular, a contundente vitória da chapa do MAS pôs fim ao governo ilegítimo e reacionário de Jeanine Áñez. No Chile, após as multitudinárias manifestações de 2019, o plebiscito levou a uma vitória esmagadora em favor de uma nova constituição elaborada por assembleia exclusiva. Na campanha eleitoral estadunidense em curso, está em jogo a possibilidade de derrotar o trumpismo, que anima movimentos neofascistas e racistas naquele país e em todo o mundo. Ao mesmo tempo, as eleições municipais brasileiras abrem a possibilidade de construir uma alternativa nas cidades que contribua para isolar e derrotar o bolsonarismo. A décima oitava edição da Revista Movimento debruça-se sobre esses processos de mobilização nas ruas e de enfrentamento eleitoral em curso”.