Lula, Getúlio e o povo
O então presidente Lula, em 2010 - Marcos de Paula/AE

Lula, Getúlio e o povo

No aniversário da morte de Getúlio Vargas, republicamos texto que discute os significados do lulismo à luz do que foi a experiência getulista no país.

Roberto Robaina 24 ago 2017, 15:47

Lula tem cerca de 80% de aprovação segundo as pesquisas de opinião. Todos analistas de todas as correntes de pensamento e classes sociais dizem que isso se deve em parte a sua capacidade de comunicação com o povo. Creio que este é um dado certo. Muitos também agregam, e também me parece óbvio, que muito de sua aprovação deriva das medidas sociais compensatórias, a começar pelo Bolsa Família – que atinge mais de 11 milhões de famílias – além do PROUNI e outras medidas que minoram as gigantescas carências sociais do povo. Minoram mas não resolvem nem pretendem atacar suas razões essências. Para a popularidade de Lula agrego sempre um outro elemento, a saber, o desastre da oposição de direita, a lembrança do caráter antipopular e reacionário do governo FHC. Na comparação, mesmo um crítico do governo Lula com poucas ideias de esquerda tem dificuldades de achar os tucanos menos ruins.

Os tucanos e seus amigos do DEM são mesmo insuperáveis. Neste sentido, a limitada política internacional do governo petista parece revolucionária – embora não tenha nada disso – comparada com a porcaria de política contrarrevolucionária do PSDB, que faz coro ao imperialismo norte-americano contra a Venezuela, contra o Irã e semeia preconceitos contra a Bolívia e Honduras, por exemplo.

Apesar das pesquisas, porém, não creio que o apoio a Lula o tornará uma liderança que nas próximas décadas seja lembrado como um defensor do povo. Não são poucos analistas que dizem que ele disputará com Getúlio este lugar na consciência da população. Não quero fazer um balanço do período de Getúlio, mas se sabe que até hoje existe gente que reivindica as conquistas da época de Getúlio. De fato, neste período, muitas conquistas sociais foram obtidas, em particular uma legislação social que hoje, aliás, esta cada vez mais ameaçada pelos planos tucanos-petistas.

Não gosto e nem vejo muito sentido em se especular sobre o futuro em geral nem muito menos em como Lula será visto. Mas me permitam apenas uma “especulaçãozinha”. Não creio, sinceramente, que daqui a 50 anos ele seja visto como um líder do povo que honrou seus compromissos. Não faz sentido. Não corresponde à verdade. Estou longe de ser getulista.

Minha formação é socialista e minha herança, a herança moral e de classe que reivindico é de Prestes e Olga, Mário Pedrosa, Astrogildo Pereira, Lívio Xavier, não a de Getúlio. Mas Getúlio não foi um traidor de classe. Sua origem foi burguesa e como defensor da burguesia unificou as forças burguesas gaúchas antes em conflito e levou adiante um projeto de desenvolvimento industrial. Liderou a partir do Rio Grande uma revolução burguesa que modernizou o Brasil, embora tenha negado a democratização do país. Hoje, embora o Brasil esteja mudando, no marco de um cenário internacional de transição, de menor poder relativo dos EUA – e maior peso de países como a China, Índia, Rússia e o próprio Brasil, não creio que Lula esteja dirigindo revolução alguma, nem mesmo burguesa.

Apesar de Delfim Neto ter dito que Lula foi o salvador do capitalismo brasileiro, creio que seu papel para a burguesia e para o estado nacional está longe de ser comparado ao que Getúlio fez. De qualquer forma, neste caso, Lula apenas trabalhou para outra classe social, não a sua. Por isso, na hipótese de ser reivindicado como útil pelos capitalistas – o que considero que de fato está sendo – e muito – não imagino que os capitalistas de tempos futuros estejam interessados em enaltecer quem serviu seus antecessores sendo de origem humilde, das classes trabalhadoras. E as classes trabalhadoras mais conscientes e informadas vão saber que com Lula a aposentadoria dos trabalhadores ficou mais difícil – não mais fácil – que os reajustes dos aposentados foram baixos, que a corrupção ficou livre, que políticos como Sarney e Renan Calheiros foram protegidos, que a economia foi ainda mais desnacionalizada, que a política econômica foi de continuidade entre FHC e Lula. Ou seja, no futuro, a classe trabalhadora verá em Lula um traidor de classe. E os traidores, mesmo os apoiados em algum momento, não ficam populares diante da história.

(Texto publicado em 29 de julho de 2010, no auge da popularidade lulista)


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
Na 16ª edição, estão disponíveis dois dossiês. No primeiro, sobre o ecossocialismo, podem-se se encontrar as recentes teses de Michael Löwy, além de uma entrevista com o sociólogo e dirigente da IV Internacional. Também publicamos uma entrevista com Zé Rainha, dirigente da FNL, sobre sua trajetória de luta e os desafios dos socialistas no Brasil; uma entrevista com Antônia Cariongo, dirigente quilombola e do PSOL-MA; e artigos de Luiz Fernando Santos, sobre a lógica marxista e a Amazônia, e de Marcela Durante, do Setorial Ecossocialista do PSOL. O segundo dossiê traz algumas análises iniciais sobre a pandemia de coronavírus. Há artigos de Mike Davis e Daniel Tanuro; documentos do MES e do Bureau da IV Internacional; além de uma densa análise de nossas companheiras Evelin Minowa, Joyce Martins, Luana Alves, Natália Peccin Gonçalves, Natalia Pennachioni e Vanessa Couto e de um artigo do camarada Bruno Magalhães. A seção de depoimentos traz um instigante artigo de Pedro Fuentes sobre a história de seu irmão Luis Pujals, o primeiro desaparecido político da história da Argentina. Já a seção internacional traz uma análise do sociólogo William I. Robinson sobre a situação latino-americana.