Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

A nova FARC

Em congresso realizado no fim do mês passado em Bogotá, as FARC concluíram seu processo de transformação em partido político.

Jaime Saldarriaga / Reuters
Jaime Saldarriaga / Reuters

Depois de uma semana de um congresso com mais de mil delegados, as FARC saíram convertidas na Fuerza Alternativa Revolucionaria del Común (FARC), um partido de esquerda que aspira chegar ao poder representando o colombiano comum.

La Silla Vacía consultou os estrategistas políticos Carlos Suaréz, Camilo Rojas e Francisco Miranda para analisar o novo partido sob os parâmetros que eles usam para entender o ponto de partida dos partidos tradicionais que assessoram.

1 – A mensagem

Durante seu debute, a FARC quis posicionar-se como o partido do “homem comum”, do colombiano trabalhador que se sente excluído, marginalizado ou maltratado e que só necessita uma oportunidade para desenvolver seu potencial.

Com uma mensagem populista contra o establishment, enviou o sinal de que fará campanha capitalizando o ódio de classe contra “os poderosos que tem governado e utilizado a riqueza que nós, os colombianos, produzimos (!)” e que “resistem a ceder em seu regime de privilégios”.

Também se referiu à “deterioração evidente do regime existente” e sua “corrupção sem limite”, uma mensagem que se encaixa na semana em que o senador Musa Besaile confessa haver pagado ao então presidente da Corte Suprema dois milhões de dólares para comprar uma decisão a seu favor.

A nova FARC não usou a tradicional linguagem comunista contra o capitalismo, mas sim disse que “o modelo econômico imperante empobrece e faz mais precária nossa vida e existência diária, produz uma crise moral e de valores que destrói os princípios básicos da organização social”.

No entanto, seja por estratégia para não radicalizar ou por falta de ideias, se absteve de explicar como seria o modelo como o qual queriam substituí-lo, além de defender a ideia de que o Acordo de Paz é uma nova oportunidade para democratizar o país e reconciliar-se, que é o mesmo dos candidatos próximos ao governo que defendem o negociado, e de uma lista de ideais de um país mais parecido com a Noruega sem especificar o caminho para alcançá-lo.

E deixou claro que seu objetivo é a conquista do poder.

2 – A imagem

Como explica Camilo Rojas, é difícil posicionar uma mensagem se se tem uma má imagem, porque qualquer coisa que diga um partido ou um personagem que gere mais rechaço que apoio se interpreta sob esse filtro.

O debute político da FARC ajudou a amenizar alguns elementos negativos de sua imagem e a reforçar outros.

Em termos gerais, os ex-guerrilheiros fizeram um esforço para “normalizar” sua presença.

Fizeram o Congresso no Centro de Convenções Gonzálo Jimenéz de Quesada, no mesmo auditório onde o Partido Liberal e la U fazem suas convenções (e também o Partido Comunista, mas isso muita gente não sabe).

Tem um lema que poderia ser o de qualquer candidato (“um novo partido por um novo país”) e terminaram a semana com um grande concerto na plaza de Bolívar, o lugar onde ocorrem os eventos políticos do establishment. Ou seja, não poderiam ter sido mais convencionais.

Durante o encerramento da coletiva de imprensa final houve um episódio muito sintomático do momento. Na parte das perguntas, um jornalista lhes perguntou como queriam que oo chamassem, dado que até agora os nomeamos pelos seus codinomes.

Cada um dos porta-vozes respondeu de maneira diferente.

Pablo Catatumbo disse que depois de 40 anos de chamar-se assim havia adotada seu codinome como seu nome e que só havia aceitado negociá-lo com sua mãe para que não se ofendesse por ter um sobrenome diferente do dela. Pastor Alape recuperou seu nome original. O chefe negociador permaneceu Iván Márquez.

Foi um pequeno momento de humanidade de lado a lado: do periodista que lhes envia a mensagem de querê-los reconhecer como pessoas que começam um novo caminho; e deles que se “abrem” e falam de sua mãe e de sua própria transição pessoal.

Também é significativo o símbolo da rosa vermelha que decidiram usar para seu partido. A rosa vermelha tem sido símbolo de resistência contra o autoritarismo desde a Idade Média e desde o século XIX foi adotada como o símbolo dos partidos socialistas em todo o mundo, incluído o partido trabalhista inglês.

Para os colombianos que não saibam dessa história, a rosa significa amor e isso forma parte da estratégia de combater o medo que levam décadas inspirando.

Ainda que sejam conscientes da carga negativa que têm, depois de um longo debate decidiram conservar a sigla FARC derrotando a proposta do chefe máximo, Timochenko, que queria batiza-lo Nueva Colombia e só conseguiu um terço dos votos.

O raciocínio, segundo contou a La Silla Vacía uma boa fonte, foi que com este nome ou com qualquer igual iam carregar o estigma e que pelo menos a sigla FARC já contava com um nível de reconhecimento que – se se acredita nas pesquisas que lhes dão 12 por cento de respaldo – é nada desprezível para começar, considerando o que têm os partidos tradicionais e os crimes cometidos pelas FARC no passado.

Parte de conservar o nome responde também a que os ex-guerrilheiros não querem renunciar a sua história nem se sentem envergonhados dela.

Pelo contrário, sentem, segundo disseram em seu comunicado final, que fazem “parte dessa potência política e moral contida em nosso povo, dessa única potência com capacidade de transformar o estado de indignação em que nos encontramos as pessoas comuns”.

Esta falta de humildade reforçará em alguns setores, que quiseram ver na FARC verdadeiros atos de arrependimento, a imagem negativa que já têm deles. Em outros, quiçá mais inclinados aos ideais de esquerda, pode reforçar a imagem de força alternativa com verdadeiras opções de derrotar os círculos de poder.

A FARC não fez nenhum esforço para dar um golpe de opinião que lhes ajudaria a mudar de imagem, como fez o M-19 através da sua reincorporação colocando em suas listas à Constituinte pessoas simbólicas do establishment como o ex-fundador de los Andes Mario Laserna. Suas listas à Câmara e Senado serão lideradas pelos ex-comandantes Pablo Catatumbo e Iván Márquez e os demais que decida a direção.

3 – A estrutura

A FARC parte com uma estrutura política de quadros disciplinados e educados politicamente que invejariam muitos outros partidos.

Tem militantes em várias zonas rurais do país e também em universidades e setores intelectuais que durante todo o governo de Uribe rechaçaram ser associados com as FARC, mas que agora começam a mostrar suas simpatias ou pertencimento abertamente.

A FARC tem relações com organizações sociais nos lugares onde tinha sua retaguarda, que em alguns casos pertencem à sua estrutura e em outros poderiam mobilizar-se politicamente se coincidem nos objetivos.

O novo partido aposta em ativar politicamente grupos que tradicionalmente se têm mantido à margem da política eleitoral porque nem sequer estavam registrados. De fato, os militantes que compareceram ao Congresso realmente são uma cara da Colômbia que normalmente não se vê no Centro de Convenções.

“Esse país deixará de ser um sonho quando milhões de colombianos nos empenhemos em fazê-lo possível. Quando essa imensa maioria abstencionista se decida a atuar politicamente”, disse o documento de lançamento do partido.

Um dos pontos do Acordo é promover um registro massivo nestas zonas.

As FARC levam vários anos criando uma infraestrutura de comunicações alternativas muito efetiva e criativa.

E, o mais importante para eles, possui um plano de longo prazo, diferente dos partidos tradicionais que vão de conjuntura eleitoral em conjuntura eleitoral.

4 – Os recursos

Esta é uma grande incógnita que só se resolverá quando comece a campanha. Em todo caso, na lista de bens que entregaram as FARC de desfazem (pelo menos no papel) de milhares de milhões de pesos adquiridos de forma ilícita, de terras, ouro e gado. O Fiscal Geral, Néstor Humberto Martínez, disse que possuem escondida uma grande fortuna, e já se verá se a apreende daqui até as eleições.

Em todo caso, causa má impressão a pouca transparência que tiveram com a informação sobre o financiamento de eventos como este Congresso. Quando um periodista de La Silla perguntou a Timochenko a respeito, ele respondeu “pergunte à CIA”.

5 – A estratégia

A FARC não contou em detalhe sua estratégia, mas de seus comunicados se concluem vários pontos que empreenderão.

O primeiro é que, como disseram explicitamente, “ingressamos na vida política legal porque queremos ser Governo ou fazer parte dele”.

Seu grande objetivo é 2019, com as eleições regionais e locais, e não 2018, quando esperam apoiar um “governo de transição” que defenda a implementação dos acordos.

Os chefes foram explícitos em que seu respaldo será “sob o entendido que seu fundamento pode conceber-se desde uma grande coalizão democrática construída a partir de alinhamentos compartidos e compromissos mútuos”.

Seguramente vão querer participação burocrática, como teve a Alianza Democrática M-19 no governo de César Gaviria, no qual o agora senador verde Antonio Navarro foi ministro da Saúde.

O porta-voz da FARC, André París, também disse explicitamente que buscarão influir nas circunspecções de paz criadas para dar-lhes representação política às zonas mais afetadas pelo conflito, dando base ao temor uribista de que sejam na realidade 16 assentos extras camuflados para as FARC.

As declarações de París confirmariam essa intenção, ainda que não necessariamente isso vá acontecer.

Como reportou La Silla, em zonas de sua retaguarda como Caquetá, organizações vítimas das FARC (e de direita) têm desde já candidatos fortes para competir por esses espaços. Em outras zonas, como na do Pacífico, até parapolíticos como o ex-senador Juan Carlos Martínez tem os olhos sobre elas.

Para além de como se resolva a questão da representação política das zonas onde tiveram influência as FARC, é claro que o novo partido quer articular-se com o movimento social.

“Reconhecemos a existência de múltiplos movimentos e processos organizativos sociais e populares diversos… com todos eles queremos compartir nossa experiência histórica de construção de um novo poder social desde baixo”, disse o comunicado.

Restará ver quanto o movimento social aceita o convite e quanto se sujeitarão as organizações à FARC agora que não tem o poder de intimidação. Como disse o líder José Santos, do movimento afro Proceso de Comunidades Negras no debate de La Silla Llena a respeito do partido, as organizações verão sob quais termos se poderia dar essa aliança.

(Artigo originalmente publicado em La Silla Vacía. Tradução de Marcelo Martino.)

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Apresentação

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