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Um órfão no pós-Guerra – homenagem a Roger Waters

O músico vem ganhando os noticiários em função de seus posicionamentos de esquerda: boicote a Israel, protestos contra Donald Trump e apoio a Bernie Sanders.

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“Eu quero homenagear Jean Charles de Menezesml e todas as vítimas do terrorismo de Estado” – disse Roger Waters, em um português arranhado, ao abrir o seu show “The Wall” aqui em São Paulo, dia 1o de abril de 2012, selando a crescente admiração que eu vinha tendo pelo músico e sua ex-banda, Pink Floyd. No imenso muro construído atrás do palco, projetavam-se centenas de fotos de vítimas da violência de Estado. Durante todo o espetáculo, as cortantes críticas presentes no álbum de 1979 eram atualizadas de acordo com alguns dos grandes temas do século XXI – as invasões estadunidenses ao Oriente Médio, o fundamentalismo, o racismo e o poder das grandes corporações capitalistas. Foi uma das experiências culturais mais incríveis da minha vida. Hoje o músico completa 74 anos e eu gostaria de retribuir esta experiência com uma singela homenagem à sua carreira, destacando principalmente o seu viés crítico e militante.

Pink Floyd – negação da indústria cultural

Em aproximadamente 1964, impulsionados pela efervescência cultural daquela década, os estudantes de arquitetura Roger Waters, Nick Mason e Richard Wright começavam a tocar juntos na cena underground de Londres numa banda de rock de estilo ainda errático (o que se expressa nos seis nomes diferentes que esta formação teve). A incorporação do gênio Syd Barret à banda forneceu-lhe maior coerência e fez irromper a imensa capacidade criativa do quarteto batizado então de The Pink Floyd Sound, posteriormente conhecido apenas como Pink Floyd, uma homenagem aos músicos de blues Pink Anderson e Floyd Council. Posteriormente, os transtornos psiquiátricos de Barret agravaram-se provavelmente devido ao abuso de drogas alucinógenas (especialmente LSD) e à agitação da vida em uma banda que tornava-se cada vez mais popular. Em 1968, decidiu-se pelo seu afastamento que foi suprido pela vinda do guitarrista David Gilmour. O afastamento do “líder” da banda (ou ao menos aquele que era considerado o mais talentoso de seus compositores) não impediu sua continuidade. Ao contrário, após um período de experimentação em cada músico parecia tentar dar a sua contribuição para o que poderia ser a banda, o Pink Floyd encontra o seu estilo próprio, e com ele o estrelato, a partir do início da década de 1970, os “anos dourados” da banda.

Na década de 1960, o som da banda é marcadamente psicodélico (principalmente nos tempos de Barret), contando com músicas absolutamente experimentais (A Saucerful of Secrets; Astronomy Domine; Set the Controls for the Heart of the Sun; Carefull With That Axe Eugene) intercaladas por sons mais pesados ao estilo Hard Rock (The Nile Song) e outras mais suaves, inspiradas em baladas e no blues (Biding My Time). Já na década de 1970, o Pink Floyd passa a adotar um estilo que até então era difícil classificar. É que eles próprios estavam fundando um estilo: o rock progressivo. Este estilo caracteriza-se pelas composições complexas, fortemente inspiradas na música clássica e no jazz (nesse sentido, uma espécie de “anti-punk”). As canções podem ser tão longas quanto um disco de vinil possa suportar (Shine on you Crazy Diamond teve de ser dividida em duas partes porque não caberia em apenas um lado do disco, assim como Echoes, com seus mais de 23 minutos, ocupava todo o lado B de Meddle – seria mais longa se houvesse espaço?) para que caibam os longos solos de praticamente cada um dos instrumentos e as letras de caráter profundamente filosófico e reflexivo. Além disso, todos os álbuns possuem um tema (tanto na forma quanto no conteúdo) que é desenvolvido ao longo das músicas.

Nesse sentido, pode-se compreender o Pink Floyd como uma negação da indústria cultural tal qual conceituada por Adorno e Horkheimer em A dialética do Esclarecimento. Pois os artistas recusaram-se a todo instante a submeter-se aos “clichês prontos”, à necessidade de “diversão” e ao fast-thinking das peças de arte transformadas, enquanto mercadorias, em meros suportes de valor-de-troca, subsumindo a autonomia da arte aos ditames do mercado. Ao contrário, com seu estilo sempre complexo, inovador e profundo, Pink Floyd parecia recusar o efeito massificador e ideológico (aquilo que é ao mesmo tempo distorção e apologia da ordem existente) da indústria cultural.

Neste ponto você certamente está pensando: “há uma contradição aí! – como é possível negar a indústria cultural sendo a banda cujo álbum esteve por mais tempo nas paradas de sucesso, faturando milhões em shows por todo o mundo?” Você tem razão. Inclusive, os próprios músicos refletiram sobre essa contradição. Tanto que em 1972 a banda resolveu realizar uma curiosa performance: um show na cidade em ruínas de Pompeia, na Itália, sem absolutamente nenhuma pessoa na audiência! No setlist, apenas as músicas mais psicodélicas e abstratas. Talvez esse fosse um protesto contra o efeito massificador dos shows para públicos imensos mais preocupados com a diversão e uso de drogas (não só ilícitas, mas como o álcool, inclusive) do que com a apreciação da música, fenômeno ao qual a própria banda involuntariamente era inserida. Como o diretor do documentário que retratou a performance descreveu, “Live at Pompeii” era um “anti-Woodstock”. Em entrevista concedida para o documentário que apresentou o show, David Gilmour dizia com certo ressentimento: “As pessoas acham que somos uma banda fortemente orientada pelas drogas. É claro que não. Pode acreditar.”  Que fique claro: obviamente não havia nenhum tipo de moralismo antidrogas na banda que, como quase todas de seu tempo, foi tão decisivamente influenciada pela atmosfera lisérgica dos anos 1960. Ocorre que, passada a euforia libertária do “sexo, drogas e rock n’ roll”, o Pink Floyd percebia, como outros desta geração, que as próprias drogas poderiam cumprir seu papel ideologizante. A banda sentia, como dizia Robert Crumb em sua autobiografia em quadrinhos, que a “ressaca” dos anos 1960 havia chegado…

Em nenhum outro integrante da banda o estresse do assédio dos fãs, o vazio de ser um artista muito consumido e pouco compreendido e a solidão na multidão dos estádios lotados foi tão sentida quanto por Roger Waters. Crescia no músico a percepção de que seus próprios traumas, frustrações, recalques, neuroses, numa palavra, mal-estar, estavam relacionados à decadência dos “30 gloriosos”, à gestação do neoliberalismo e às chagas deixadas pela II Guerra Mundial.

Animals, The Wall e The Final Cut: “O que aconteceu com o sonho do pós-Guerra?”1

A mãe de Roger Waters era militante socialista filiada ao Labour Party, assim como seu pai, morto na II Guerra (este fato é muito importante e será retomado a seguir). O sentimento de culpa por estar se tornando cada vez mais rico vinha daí, de acordo com o próprio artista. Sob esta contradição, Waters idealizou quase completamente o álbum Animals (lançado em 1977) – começou aí a hegemonização da banda pelo baixista, o que só se agravou nos álbuns seguintes, como veremos. Livremente inspirado em A Revolução dos Bichos, de George Orwell, em que os animais são metáforas dos tipos sociais e políticos da distopia estalinista, o álbum retrata três tipos de personagens do capitalismo: o “cachorro”, o “porco” e a “ovelha”. Não era nada fácil fazer um álbum politicamente crítico no estilo mais sutil e complexo característicos da banda concorrendo com o tom explícito dos punks criadores de faixas como Anarchy in The UK (Sex Pistols).

Em Dogs, há uma crítica à ganância desenfreada que destrói os valores que dão sentido à vida. Assim como um lobo, você deve, diz o eu-lírico, ser um louco obcecado por abater uma presa fácil assim que tiver a oportunidade, ganhar a confiança daqueles para quem você mente e enfiá-los uma faca. Mais tarde, você perceberá que está sozinho, que a vida perdeu o sentido, que você foi “arrastado pela pedra” 2 e “é só mais um homem velho e triste/ totalmente solitário morrendo de câncer” 3. Em Sheep, as “ovelhas” são as massas que implicitamente desejam a liberdade (a revolução?) mas são impedidas pela repressão (“Você deve ficar atento/ Talvez haja lobos por perto” 4) e pela ideologia de obediência e resignação expressas na máxima bíblica: “O Senhor é meu pastor e nada me faltará” 5. Já em Pigs (three different ones) há três personagens: o burguês abastado que enquanto chafurda-se na lama e empanturra-se na lavagem ordena aos trabalhadores que “escavem mais fundo” 6; o personagem que ameaça violentamente os outros para sentir-se em posição dominante (ou o chefe de Estado que ataca as demais nações para assegurar sua superioridade geopolítica); já o terceiro é o único “porco” que faz referência a um personagem real, Mary Whitehouse, que é citada nominalmente por ter feito anteriormente uma crítica moralista à banda (“Você está tentando manter nossos sentimentos longe das ruas”) 7.

O clima pessimista destas músicas é contrastado pelas baladas românticas que estão na primeira e na última faixa (Pigs on the Wing, partes 1 e 2). É como se os sentimentos humanos fossem uma esperança na brutalidade do mundo reificado. Essa interpretação é condizente com a capa do álbum – um porco isolado no céu azul em contraste com a dura figura da fábrica.

Animals elevou as contradições da banda a outro patamar. Os músicos resolveram investir ainda mais na performance visual dos shows, com efeitos de luz, projeções, etc., desenvolvendo a tendência (iniciada por Syd Barret, que era artista plástico) a produzir uma experiência estética completa. Mas, para isso, os palcos de casas de show convencionais não eram grandes e equipados o suficiente. A banda dava início, então, às performances em grandes estádios. Isso intensificou muito o problema de que o público ia ao evento pela “festa” e não pela música. Justamente quando o Pink Floyd realizava seu álbum mais complexo e “não comercial” é que o público se tornava mais “consumidor”. A distância física entre a multidão e o palco encontrava seu paralelo na distância entre as intenções da banda e de seus fãs. Todos incomodavam-se com isso, mas ninguém mais do que Roger Waters. No dia 6 de julho de 1977, no estádio de Montreal, quando tentava pela terceira vez se concentrar para começar a música, o músico perdeu a paciência: “Ah, for fuck sake, parem de soltar rojões e gritar, eu quero tocar a música!” Mais tarde, no mesmo show, seu destempero agravou-se – ele cuspiu na cara de um fã! (Curioso que em Dogs se diz “Quem foi treinado para não cuspir no fã”…) O músico ficou profundamente arrependido e abalado por esse episódio. A reflexão sobre seu próprio isolamento e frustração seria trabalhado no álbum seguinte, The Wall.

O álbum lançado em 1979 e que em 1982 foi transformado em filme no maravilhoso musical dirigido por Alan Parker, conta a história de “Pink”, um personagem que representa o próprio Roger Waters. Por meio deste personagem, o compositor contextualiza seus dramas pessoais.

O pai de Pink, assim como o de Roger Waters, morreu na guerra quando ele ainda era muito jovem. Mas a morte do pai aqui não é apenas literal. Ela representa a perda da estabilidade, da segurança e dos valores. O órfão sente-se perdido, inseguro. Ora, mas não é exatamente assim que se sente qualquer indivíduo que ande sobre o “gelo fino da vida moderna” (The Thin Ice) 8? E engana-se quem pense que a ausência do “pai” redunda em maior liberdade. Ao contrário, o “órfão” sente com muito mais veemência, em função de sua condição de insegurança, toda forma de autoritarismo (como o da escola) que destroça toda espontaneidade e criatividade numa máquina massificadora – o moedor de carne que aparece no famoso clipe de Another Brick in the Wall part. 2. Com efeito, constrói-se “o muro” grandioso e rígido atrás do qual o “órfão” se isola. Ao mesmo tempo, ele próprio é apenas mais um tijolo na construção de um muro homogêneo, tão onipotente quanto sem vida.

Se o órfão não é apenas literal, ele é tão pouco individual. O “pai” é o sonho nacionalista que foi reduzido a pó na II Guerra Mundial. Nas canções de Vera Lynn prometia-se que após a guerra emergiria um novo mundo pacífico e idílico, mas e agora, Vera, “o que houve com você?” 9. Em Goodbye blue sky, no filme, esta desilusão é retratada por uma pomba branca que voa para o céu mas que logo explode no ar e dá lugar a uma terrível águia preta que, semelhante ao bombardeiro, espalha o caos e a morte. O sangue dos soldados mortos em vão escorre para o bueiro. Aliás, “você já imaginou por que nós tivemos de correr para o abrigo quando as promessas de um admirável novo mundo desfraldavam sob um limpo céu azul?”10

Mas o “pai” não é apenas o nacionalismo e a guerra não foi seu único carrasco. Todas as utopias fundadas no mundo moderno (o socialismo, o reformismo, liberalismo clássico e o iluminismo, etc.) pareciam entrar em declínio a partir daqueles anos. E com elas surgia o vazio existencial, a desesperança e a solidão. Os desejos humanos são mal resumidos na superficialidade e na efemeridade do consumismo. O próprio músico e sua arte são transformados em mercadorias. (Aqui estou fazendo referência a várias músicas, como Empty Spaces, Young Lust, One of My Turns, Don’t Leave me Now, Hey You e Is there anybody out there?)

Essa situação não pode redundar em outra coisa senão no adoecimento psíquico: depressão, ansiedade e surtos de raiva (One of My Turns). Mas é preciso recolocar-se de forma produtiva. Os antidepressivos estão aí para nos tornar “confortavelmente entorpecidos” (Comfortably Numb). Esta faixa opera como um alívio onírico no clima depressivo do álbum…

…Mas isso não dura muito. Todo o recalque de Pink redunda na sua aspiração ao fascismo. Essa parte do álbum não poderia ser mais atual. O fascismo dos “Worms” é o escape de uma juventude desiludida que busca na violência e na opressão a satisfação da ausência do “pai” (no sentido figurado aqui empregado). (In The Flash, Run Like Hell e Waiting for the Worms). Mas esse autoritarismo é patético e revela a fragilidade do próprio protagonista.

Por fim, ele é submetido ao mais terrível dos tribunais: o sentimento de culpa. As testemunhas de acusação são os fantasmas que povoam seu inconsciente. Mas, paradoxalmente, a pena máxima aplicada pelo juiz é a derrubada do muro com o qual o protagonista isola-se do mundo social e tenta se proteger das desilusões. (The Trial)

Derrubado o muro, surge alguma esperança de um mundo melhor. Outside the Wall reservou pelo menos 1 minuto e 44 segundos de otimismo em quase uma hora e meia de The Wall…

The Final Cut, lançado em 1983, pode ser considerado uma espécie de continuação de The Wall. Porém, aqui há uma ênfase maior no contexto político do que em relação às aflições psicológicas. Do mesmo modo, essas críticas são menos abstratas do que nos dois álbuns precedentes. Não por menos: Margareth Thatcher, que é citada diretamente em duas músicas, era primeira ministra. Surgia de forma mais acabada o neoliberalismo, e com ele a confirmação de todas as tendências nefastas apontadas em The Wall (o individualismo, o declínio das utopias, etc.).

Em Get your filthy hands off my desert, é feita uma crítica às disputas mesquinhas pelo Oriente Médio entre líderes mundiais citados nominalmente: Brezhnev, Begin, Galtieri e “Maggie” (Margareth Thatcher). Na faixa seguinte, The Fletcher Memorial Home, estes mesmos líderes, além de McCarthy e Nixon, são retratados em uma paródia como loucos que habitam um asilo para “Reis e Tiranos incuráveis”  em que suas insanas fantasias por poder e violência são satisfeitas. Nas demais faixas, é aprofundado o tema da desilusão – “o que aconteceu com o sonho do pós-Guerra?”11

Ao contrário dos álbuns anteriores, a crítica não recebeu The Final Cut muito bem. Ao mesmo tempo, as tensões no interior de Pink Floyd aumentavam. Roger Waters vinha homogeneizando progressivamente as composições da banda. As letras abstratas dos álbuns anteriores eram substituídas por críticas políticas e sociais cada vez mais concretas. Praticamente não houve nenhuma participação de outros membros da banda nas composições de Animals, e ainda que David Gilmour tenha composto uma das canções mais bonitas de The Wall (Comfortably Numb), este álbum é, como dito, praticamente uma autobiografia de Roger Waters. Richard Wright foi um dos que mais se irritou com a situação e foi praticamente expulso por Waters antes mesmo de The Final Cut. Quando as desavenças aumentaram após o lançamento deste álbum, Waters tentou acabar com a banda e seguir carreira solo. Mas os demais membros queriam continuar sem ele. Travou-se uma batalha judicial e no fim os demais membros conquistaram o direito de prosseguir com o nome “Pink Floyd” mesmo sem Waters. Não é pelo fato de ser seu grande fã que eu não deva admitir: a “autoanálise” de The Wall não curou as neuroses e a arrogância de Roger Waters. Ele é um artista crítico e um gênio. Mas sem dúvida é também uma figura contraditória.

Roger Waters, o militante

Se a politização de Roger Waters crescia em seus últimos trabalhos no Pink Floyd, também é verdade, como já apontado, que ela era eivada de pessimismo. Mas o Roger Waters desses últimos anos é outro. É um militante que nos provoca e que exorta o nosso engajamento. Não é um otimista, no sentido de que não faz projeções alvissareiras sobre o futuro. Mas sem dúvida alguma também não é mais um cético, pois cético algum é capaz de se movimentar para mudar o mundo.

Uma das causas pelas quais o músico tem mais se engajado é a causa Palestina. Ele é um dos defensores mais ativos do boicote organizado ao Estado de Israel, o BDS [Boycott, Divestment and Sanctions]. Inclusive, travou um interessante diálogo com Caetano Veloso e Gilberto Gil em que respeitosamente tentava convencê-los a não tocar em Israel. Mas não dispensou a mesma cordialidade quando tentou convencer os músicos do Radiohead… Obviamente em função disso, em praticamente todas as suas entrevistas, o músico tem tido que responder às acusações de “anti-semita”.

Desde que Trump foi eleito, Waters somou-se aos milhões que o veem como inimigo declarado. Em todos os seus shows nos últimos anos, ele fez críticas muito concretas e atuais como as que mencionei no início do meu texto. Mas, desde a vitória do presidente americano, a maior parte dos dizeres que aparecem nas projeções dos shows são dirigidas diretamente a Trump – “porco”, “racista”, “machista”, “tirano”, etc. Além disso, o músico disse que, como forma de protesto, irá tocar The Wall no muro em que Trump pretende construir entre os EUA e o México. Nos shows em que executa Another Brick in the Wall, Waters costuma convidar corais de crianças assistidas por projetos sociais (no show que eu vi, elas eram da favela de Heliópolis). Nas suas últimas apresentações, tem convidado crianças mexicanas e de outras “minorias” étnicas como forma de contraponto ao racismo do presidente.

Além disso, Roger Waters tem manifestado abertamente sua simpatia ao socialismo. Em entrevista concedida à Rolling Stone, o músico diz que “socialismo é uma coisa boa” e mais tarde completa: “sabe do que precisamos? Socialismo!” A defesa dessa perspectiva está aliada ao seu apoio a Bernie Sanders e à defesa de um sistema de saúde completamente público e gratuito.

Todo esse engajamento é coerente com seu novo álbum lançado este ano, após mais de vinte anos sem gravar novas composições: Is This The Life You Really Want? Já no título há uma provocação que pretende nos levar à militância: “essa é a vida que você realmente quer?” Em todas as faixas, o músico tenta evidenciar que o capitalismo tardio produziu formas de opressão e barbárie que pouco ficam devendo para os totalitarismos do entre guerras. Há uma miríade de críticas aqui: à crise dos refugiados, à especulação financeira que levou à crise de 2007, ao racismo, à manipulação midiática, às mentiras do “sonho americano”, dentre outras. Retoma-se a desilusão do pós-Guerra mas em um tom bastante diferente. No contexto geral das músicas, das performances e declarações do músico, soa neste álbum uma indignação com a farsa das ideologias e com toda miséria e violência do sistema capitalista. Este novo Roger Waters me parece menos um sujeito depressivo com o “fim da história” e mais um revoltado que quer destruir este mundo podre, mesmo que ainda não vislumbre muito bem um mundo diferente.

Em maio, dirigiu a provocação diretamente ao Brasil. Em seu Facebook, publicou uma releitura da capa de seu novo álbum tendo Michel Temer ao fundo e indagou: “Brasil, é essa a vida que vocês realmente querem?” Acho que devemos aceitar a provocação. Não, essa definitivamente não é a vida que queremos. Vamos derrubar o muro!


1 Referência à música The Post War Dream – “What happened to the post war dream?”
2 “So have a good drown, as you go down, all alone/Dragged down by the stone”
3 “Just another sad old man/All alone and dying of cancer”
4 You better watch out/There may be dogs about
5 “The Lord is my shepherd, I shall not want”
6 With your head down in the pig bin
Saying ‘Keep on digging’
Pig stain on your fat chin
7 Hey you, Whitehouse
Ha, ha, charade you are
You house proud town mouse
Ha, ha, charade you are
You’re trying to keep our feelings off the street
8 If you should go skating
On the thin ice of modern life
9 Vera, Vera
What has become of you
10 Did you ever wonder why we had to run for shelter when the promise of a brave new world unfurled beneath a clear blue Sky?
11 “What happened to the post war dream?”

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Na quinta edição da Revista Movimento, trazemos ao público um especial sobre a crise brasileira. Nele, publicamos longa entrevista com o economista Plinio Sampaio Jr., que oferece instigante diagnóstico do fracasso da política econômica conduzida pelos governos do PT. Fecham a seção dois artigos sobre o poder das corporações no capitalismo global e a teia corrupta que estabelecem com Estados e governos. Um conjunto de artigos sobre a situação internacional aborda as dificuldades enfrentadas pelo governo Trump, a crise na Venezuela e o avanço das lutas no Peru.

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