Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

Sobre os escombros…

O cenário político italiano surgido do colapso do sistema político e do desmantelamento dos grandes partidos gerados pela Operação Mãos Limpas, os atuais desafios da esquerda no país.

Paolo Gentiloni, primeiro-ministro italiano, e Matteo Renzi, seu antecessor.
Paolo Gentiloni, primeiro-ministro italiano, e Matteo Renzi, seu antecessor.

A Itália arde com mais de 30.000 incêndios declarados desde 15 de junho de 2017. A Itália treme depois de vários terremotos em 2016 e 2017[i]. Do sul ao norte, se levantam muros contra os imigrantes, fáceis bodes expiatórios de uma população sempre à sombra do desemprego, da precariedade, da pobreza e para o qual o governo anuncia um futuro de sangue e lágrimas[ii]. Os escombros se acumulam, mostrando a verdadeira cara das políticas de austeridade levadas a cabo sucessivamente pelos governos de Silvio Berlusconi, Romano Prodi, Massimo d’Alema, Enrico Letta, que se aceleraram sob a gestão de Mario Monti, Matteo Renzi e Paolo Gentiloni. Recentemente, nas páginas de Il Manifesto, Paolo Favilli e Marco Revelli apresentaram sua concepção da “sociologia dos escombros” evocando o último livro de Revelli: Non ti riconosco[iii]. Cada um destaca, a sua maneira, seu caráter performativo[iv]. Para este último, a “sociologia dos escombros” é uma busca específica no “interior do universo social”: implica partir do conflito, de onde pode projetar-se para o futuro, mas também reconstruir a trama quebrada do passado[v] para tentar descobrir, em meio aos escombros, “a abertura de linhas de fratura que mobilizem” as formas de resistência e rechaço a obedecer aos dispositivos de submissão e expropriação”[vi].

No entanto, o conflito é suficiente? Do mesmo modo, buscar entre os escombros e as verdades que descobrem tijolos para (re)construir um horizonte de ruptura não é ao mesmo tempo demasiado e demasiado pouco? Demasiado sim, como folha desanimada, nos inclinamos para os últimos decênios; não fala Perry Anderson simplesmente de “desastre”[vii]? E demasiado pouco se não se distinguem também nas experiências múltiplas e complexas do presente os elementos necessários para modelar um horizonte para a cólera que aumenta? Demasiado propensa a ver nesse giro do século XXI só uma larga série de transições que verdadeiramente nunca têm nem princípio nem fim, nos arriscaríamos a não captar as continuidades, mas também a importância das rupturas, precisamente, para tentar sair dos escombros sem deixar pra trás a bagagem das lutas do passado[viii]. A Itália, como ocorre frequentemente, nos obriga a refletir sobre a encruzilhada de caminhos.

Um pacto nascido do medo[ix]

Ao longo dos últimos decênios, a crise ecológica, econômica, social, política e cultural foram somadas e combinadas. A irracionalidade do capitalismo terminou de minar suas formações políticas dominantes, que já não chegam a alcançar maiorias eleitorais, mesmo efêmeras, em um clima de desespero social. Está acompanhada de uma quebra mais geral da política e de uma crise de suas expressões “adequadas”. Um processo ao qual a Itália está acostumada desde o começo da década de 1990. Recordemos: 1992, o sistema político italiano se afunda, sob o golpe das investigações judiciais que “revelam uma corrupção sistêmica” cujo centro é Milão; a cidade do “otimismo da década de 1980” é rebatizada como Tangentopoli[x] (cidade da propina). Em março do mesmo ano, os juízes Giovanni Falcone e Paolo Borsellino são assassinados pela máfia obrigando a retomar o fio de reflexão sobre as relações entre o estado italiano e o crime organizado[xi]. A maquinaria judicial de Mani Pulite (Mãos limpas) afeta o coração do sistema político provocando a dissolução da Democracia Cristã, no poder fazia 50 anos, e do Partido Socialista. A isto, se soma o afundamento da lira sob os golpes de uma dívida pública colossal que alcança 122% do PIB em 1994[xii]. Enquanto isso, a Itália conhece seu primeiro governo “técnico” dirigido por Carlo Azeglio Campi. Mas a crise também golpeia o movimento operário em seu conjunto. Em fevereiro de 1991, o Partido Comunista decide trocar seu nome em ocasião do seu XX Congresso, indicando uma ruptura de identidade e dos valores que referencia; Partido Democrático da Esquerda desde 1991; Democratas de Esquerda desde 1998; PD desde 2007 (fusão dos antigos membros dos Democratas de Esquerda e dos católicos de Romano Prodi)[xiii].

A crise política, institucional, econômica, mas também moral na que derivou, abre via à criação do reagrupamento político de Silvio Berlusconi: Força Itália (FI). Este partido não pode ser dissociado da figura de Silvio Berlusconi que, em sua qualidade de “empreendedor de êxito”, promete um “novo milagre italiano”. Joga a carta da personalização política, um truque em uma Itália em que o descontentamento pelos partidos não deixar de afirmar-se na população. Este rechaço afeta especialmente as organizações de massas, as dos Trinta Gloriosos, integrados na sociedade e dispondo de redes capilares dentro delas, baseadas no compromisso militante de seus membros e vetores de representação de setores sociais dentro do sistema político[xiv]. Se o descontentamento se insere aqui na “crise” marcada pela Tangentopoli, está também ligada ao nascimento de uma sociedade pós-fordista e às implicações que supõe para a podução (auge das novas tecnologias da informação e da comunicação) e ao status das pessoas assalariadas: o declive visível da classe operária tradicional (mas não das pessoas assalariadas), feminização do mercado de trabalho, precarização do emprego, generalização da subcontratação, debilitação da solidariedade, etc[xv]. É o início da desagregação das formações sociais a que os partidos políticos posteriores a Segunda Guerra Mundial parecem incapazes de responder.

Durante dezesseis anos, o chefe da Força Itália marca a esfera política italiana, até o ponto que alguns autores puderam falar de uma “era Berlusconi”, apesar de que, em várias ocasiões, deve ter cedido as rédeas do governo. Inclusive atribuíram o substantivo “berlusconismo” a esta cultura política de direita que ele contribuiu para difundir ou inaugurou: mescla de “fique rico” da década de 1980, de um individualismo exacerbado, de um anticomunismo descarado e de um revisionismo histórico funcional segundo sua clara vontade de acabar com os Trinta Gloriosos e a República italiana do pós-guerra[xvi]. Em 2011 vai deixar o governo, parece que esta vez de verdade, graças à pressão dos mercados que, depois da crise de 2008, querem acelerar as políticas antissociais. As velhas receitas do Cavaliere não parecem adequar-se já à cura de austeridade que Bruxelas quer impor à Itália. Além do que, nos últimos tempos, não pôde contar com o apoio dos outros componentes da direita. Somado a que desde 1994 o declive econômico do país não tem deixado de acentuar-se. Assim que, não sem satisfação, em 12 de novembro de 2011, a imprensa internacional cai sobre ele: o “infame” Berlusconi, título do Times, finalmente é “interrompido” pelo presidente italiano Giorgio Napolitano, descrito na ocasião sob os traços do general De Gaulle. Sob o impulso de Le Monde e de The Economist, alguns inclusive chegam a comparar o fim da era Berlusconi com o da queda de Mussolini[xvii].

“The real thing”…

Como indica ironicamente Perry Anderson, a marcha de Berlusconi, sobretudo, significa a possibilidade de fundar “uma nova Segunda República the real thing (…) depois de vinte anos de pantomima” definitivamente desembaraçada de todos os obstáculos ao neoliberalismo[xviii]. Seu sucessor, encarregado de formar o novo governo “técnico” que uma parte de seu Partido Democrático deseja fervorosamente há vários meses já, não é outro senão Mario Monti (rapidamente rebatizado como “Super Mario”). Reitor, depois presidente da Universidade Bocconi, apresentando como o mais “alemão” dos homens políticos italianos é, sobretudo, o homem do Godmann Sach, do capita financeiro globalizado e da desregulamentação dos mercados. O New York Times definiu-o em um artigo como “um cavalheiro branco tecnocrático cujo mandato (é) tomar as duras decisões necessárias para voltar a colocar a Itália em seu lugar”[xix]. Uma definição que faz eco a entrevista que concedeu a The Economist em 2005, na qual declarava: “Os governos italianos podem tomar medidas duras sob duas condições: deve haver urgência visível e fortes pressões do exterior[xx].

São “sacrifícios” que, sob a cobertura da urgência econômica, prometeu aos italianos e sempre com mais cortes em cultura, formação, pensões, o sistema de previdência social e proteção dos trabalhadores. Segundo ele, a crise e a dívida do estado se devem imputar a “generosidade social” dos governos precedentes. Para remediar, ele e seus especialistas vão atuar para abolir qualquer forma de garantia social para os trabalhadores e, ao mesmo tempo, suprimir qualquer obstáculo à liberdade de empresa. Especialmente no que se refere às demissões. Enquanto que em 2012 o conjunto dos indicadores econômicos e sociais está no vermelho, o custo da “bolsa de compra” aumentou 4,6% a 31 de março, a distância entre os salários e a alta dos preços não era tão importante fazia 17 anos e a metade dos contribuintes declaram um rendimento de € 15.000 por ano[xxi].

Não é somente a aceleração da colocada em prática de políticas preconizadas pelo governo “técnico” o que choca, mas também a mudança de estilo e de tom a que estão associadas. O governo de Mario Monti está na ofensiva e apresenta abertamente os rasgos de um liberalismo sem concessões que não quer ouvir de ser freado nem pelos instrumentos clássicos da democracia política nem pelo movimento sindical. Elsa Fomero, a cabeça do fantasmal ministério do Welfare (piada irônica do passado), que vai ser a mestra de obras do desmantelamento do sistema de pensões, anuncia que as medidas de austeridade vão ser aplicadas com ou sem o consentimento dos partidos e de quem representam[xxii]. Por sua vez, Mario Monti, entrevistado por Alessio Vinci no Canal 5 (televisão pertencente ao grupo Mediaset cujo principal acionista é Silvio Berlusconi), declarou em fevereiro de 2012, quando o desemprego de jovens entre 15 e 20 anos alcança a cifra recorde de 31%: “Os jovens devem habituar-se a ideia de que não terão um posto de trabalho fixo durante toda sua vida. Por outra parte, um posto fixo para toda a vida, que monotonia! É muito mais bonito mudar, ter desafios. Mas é necessário que isto ocorra em condiciones aceitáveis, o que hoje implica proteger um pouco menos aqueles que estão hiperprotegidos”[xxiii]. Ao final do ano, o desemprego entre os jovens alcançou 36,5%[xxiv].

Justo em 2013, o governo Monti defende a máxima: o patrão sempre tem razão. Sua política antissocial está abençoada pelos meios de finanças internacionais. O Wold Street Journal não poupa elogios para sua “coragem”, pois fez frente ao movimento operário e pela “rara oportunidade que oferece aos italianos de serem educados nas consequências da oposição às reformas”[xxv]. A ameaça está aí: para que Roma não se converta em Atenas, os italianos devem aceitar abolir seus direitos políticos e sociais para adapta-los à livre empresa: a redução de salários, o aumento da jornada de trabalho, a liberdade de demissão, o aumento da idade de aposentadoria, a liquidação de bens e serviços públicos, os cortes em atenção sanitária, em formação e nas prefeituras, se anunciam como medidas sem contrapartidas, baseadas no medo agitado de um afundamento econômico da Península. No entanto, a recuperação não está no fim do túnel como anunciava insatisfeito o New York Times, em dezembro de 2012: “O senhor Monti disse que fez o melhor que pode durante o tempo que lhe foi concedido. Não é difícil entender o descontentamento dos italianos por seu governo. As medidas de austeridade acentuaram a pior recessão econômica que o país havia conhecido fazia 60 anos. O consumo conheceu sua queda mais acusada de um ano para o outro desde a Segunda Guerra Mundial”[xxvi]. A isto se soma uma crise do mercado imobiliário e uma taxa de desemprego de mais de 11% que fazem a Itália um dos países com taxa de emprego mais débil da União Europeia[xxvii]. No entanto, Mario Monti teve que ceder seu posto bem a seu pesar…

A política do medo, sem dúvida, pesou com toda sua carga antissocial sobre a população italiana. O governo “técnico” de Monti foi saudado pela esmagadora maioria das forças políticas italianas porque constituía uma garantia contra as regras de um jogo político considerado pernicioso depois da experiência de Berlusconi. Confiou-se, sem passar pela sanção das urnas, a “colocada em ordem” das contas do estado, o reestabelecimento da confiança dos sócios internacionais e inclusive a restauração de certo “sentido moral”. Em resumo, se pediu a população italiana em seu conjunto mostrar sua boa vontade, sob pena de represálias econômicas. A democracia não é apresentada cada vez mais como um obstáculo para o bom funcionamento dos mercados financeiros como o exemplo grego tem demostrado bem? Mario Monti definitivamente não foi eleito por ninguém, se não nomeado de ofício por Giorgio Napolitano, sob a pressão dos mercados.

No entanto, em fevereiro de 2013, as eleições políticas parecem sancionar a perda de eficácia da retórica do medo. Em 24 e 25 de fevereiro, a coalizão ao redor de Luigi Bersani e do Partido Democrático alcança 29% dos votos à Câmara dos deputados e 31% ao Senado, frente 29, 2% da Coalizão de Silvio Berlusconi à Câmara e 30% ao Senado. Enquanto Mario Monti, e a sua Escolha Cívica, ficou abaixo de 10%. Porém, a verdadeira mudança se encarna na vitória do Movimento 5 estrelas (M5S) de Beppe Grillo que se converte no primeiro partido do país com 25,6% dos votos à Câmara e 23% ao Senado. O país está “partido em três”, como anuncia Il fatto quotidiano de Marco Tavaglio, em 26 de fevereiro[xxviii]. Recém-chegado ao panorama político italiano, se apresenta como movimento fundado para lutar contra a “corrupção” da casta política italiana, navegando sobre o eurocepticismo e o rechaço às políticas de austeridade[xxix]. Fez da ecologia um de seus cartões de apresentação promocional, o mesmo que uma democracia direta revisada através do prisma das mídias sociais, que lhe garantiu o voto dos jovens, incluindo aqueles que haviam atuado para a realização dos referendos da água e da energia nuclear em 2011. Apresentou-se como um movimento “nem de direita nem de esquerda” invocando a “ideologia da não ideologia”; mas, como era previsível, rapidamente se posicionou à direita do tabuleiro político, unindo-se em alguns temas às posições da Liga de Matteo Salvini: suas recentes declarações sobre os migrantes e sobre o jus soli, em debate no Parlamento, assim como seu ostensivo rechaço a apoiar uma lei muito modesta que condena a apologia do fascismo, não deixam mais dúvidas, na realidade, nenhuma dúvida a propósito deste tema.

Seja como for, as eleições de 2013, sem dúvida, marcaram o fim do círculo vicioso do medo e o rechaço ao voto útil (25% da população não foram votar, ou seja, 5% mais que em 2008). Além de comentários complacentes, que se puderam ler aqui ou ali na imprensa internacional, o resultado saído das urnas não indicava só um rechaço à austeridade – depois de tudo, a Itália havia degustado primeiro os amargos frutos da política do Partido Democrático à americana; havia eleito antes que a França o seu Sarkozy, aliado por adição a extrema direita (Liga Norte e Aliança Nacional) – o voto massivo para o cômico genovês significava também que era uma via sem saída. Esse voto “de protesto” fez o M5S o primeiro partido do país, o que não tem deixado de inquietar os círculos dirigentes da burguesia europeia, apesar dos resultados mais decepcionantes que obteve depois.

Pequenas manobras e mudança de panorama

Se em fevereiro de 2013, graças à lei eleitoral, o Partido Democrático de Pier Luigi Bersani podia contar com uma maioria de assentos no Parlamento, não ocorria o mesmo no Senado. Devido a ele, lhe era impossível formar governo sem um acordo com o M5E de Beppe Grillo, que este último rechaçava decididamente, dando as costas ao PD e ao PdL (O Povo da Liberdade, o reagrupamento de Berlusconi). Além disso, Giorgio Napolitano não queria ouvir falar de um acordo de governo com o M5E, nem de um governo minoritário do PD. Decididamente, preferia um “governo de ampla coalizão”, no “centro”, ou melhor… “à direita”. Pier Luigi Bersani reconheceu sua derrota em 26 de fevereiro anunciando frente às câmeras: “Quem não pode garantir a governabilidade de seu país não pode dizer que ganhou as eleições”. Um tom dramático para um discurso, ao final, pouco substancial aonde, visivelmente muito cansado, o líder de centro esquerda só podia propor (mas a quem?) uma “reforma das instituições, da política, da moralidade pública e da defesa daqueles que estão mais expostos à crise econômica”.

A isto se somaram o desacordos internos do PD que se revelava incapaz de colocar-se de acordo para eleger o novo presidente da República (Giorgio Napolitano, 87 anos, chegava ao fim de seu mandato)[xxx]. Assim, três homens políticos são propostos: Franco Marini (ex-DC), Romano Prodi (PD) y Stefano Rodotà (ex-PDS). Este último gozava de uma ampla consideração, porém os partidos dominantes lhe encontravam três defeitos principais: era um keynesiano próximo aos movimentos antiliberais; se havia oposto a um governo de coalizão ampla que incluía Berlusconi; havia sido proposto pelo M5E[xxxi]. Em abril de 2013, reeleito presidente graças ao acordo de corredores entre o Partido Democrático (PD) e o Povo da Liberdade (PdL), Giorgio Napolitano confiava a Enrico Letta (PD) a responsabilidade de formar um governo que continuará as políticas de Monti. “Milhões de italianos são desprezados hoje”, comentava com razão Beppe Grillo em seu blog. Porque é pelos conteúdos antissistema e antieuropeus dos discursos e das aparições públicas do cômico genovês e também para responder as inquietudes dos círculos dirigentes italianos e europeus frente a um voto de protesto massivo que Giorgio Napolitano designou Enrico Letta, antigo democrata-cristão e sobrinho do braço direito de Silvio Berlusconi, a presidência do conselho, melhor que qualquer um para formar esse governo de unidade nacional. O senador Renato Schiffani, membro do PdL, saudou, em 30 de abril, a nova formação governamental, como “a volta ao primeiro plano da política e a responsabilidade” “contra os piores humores da praça”.

Enquanto isso, Matteo Renzi trabalhava com afinco para tomar as rédeas do Partido Democrático e roubar-lhe a presidência do Conselho a Enrico Letta. O jovem prefeito de Florença, então de 39 anos, havia tentado obter o PD nas primárias dos democratas de novembro de 2012, mas Pier Luigi Bersani lhe superou com 60,7% dos sufrágios. Esta vez sim estava decidido a ganhar a partida. A campanha do florentino no partido, mas sobretudo fora, podia resumir-se em três eixos principais: de entrada, apresentar-se como a garantia da renovação radical do partido deixando de lado os velhos dirigentes (daí seu apelido: o demolidor); a continuação, anunciar a vontade de revisar de cima a baixo seu programa; finalmente, representar a mudança e a melhor carta para o futuro. Além de seu ativismo para conquistar a secretaria do partido, que lhe abre a porta do Palacio Chigi, Matteo Renzi busca desde esse momento uma entente com Silvio Berlusconi. Mais conhecido com o nome de Pacto do Nazareno (Patto del Nazareno), o acordo político entre os dois homens será feito através da revisão da constituição e da elaboração de uma nova lei eleitoral. Il Cavalieri disse ver nele o que ele era em 1994, quando se colocou em ação. O acordo foi mais fácil porque a coalizão ao redor do mesmo se desfaz e espera, graças a Matteo Renzi, permanecer no centro do jogo político.

Em fevereiro de 2014, Matteo Renzi, fortalecido por esta entente e sua eleição a secretaria do PD com 67,7% dos votos, especialmente graças aos votos conseguidos fora do partido, se converte em Presidente do Conselho depois de haver manobrado para expulsar Enrico Letta[xxxii]. O “manifesto político que abre sua legislatura não é outro que seu prólogo a reedição do livro do filósofo Norberto Bobbio, Destra e Sinistra, vinte anos despois[xxxiii], um texto indigesto, cheio de sinais de exclamação – suplementos de expressão para frases inexpressivas. Parece solidamente instalado no Palacio Chigi e o diário Repubblica decide aceitá-lo integramente[xxxiv]. O novo Presidente do Conselho defende a necessidade de superar a distinção esquerda/direita e prefere uma “bipolaridade à americana”, substituir a distinção igualdade/desigualdade pela muito mais “moderna” “conservação/inovação. O novo Presidente do Conselho troca a luta de classes por um simbolismo bíblico, os primeiros/os últimos, é certo que ele saiu de uma cultura política democrata-cristã e do escotismo católico. “Se a esquerda, escreve, todavia deve interessar-se pelos últimos, porque é esse interesse específico a que a define como tal, hoje deve tentar ver mais longe”. Os “primeiros serão os últimos” se converte sob sua caneta em uma heroica fantasia em que cada qual pode converter-se no herói de sua própria aventura, um pálido reformulado self-made man no século XXI. De acordo com seu anuncio peremptório de mudança, arquiva definitivamente o Welfare, cujas políticas, aponta, não estão adaptadas às sociedades contemporâneas complexas. A ascensão do PD parece que tem êxito e a imprensa internacional e nacional se entusiasma com este jovem Presidente do Conselho, apresentado como o “Blair italiano”, cheio de ideias “eficazes” para desintegrar definitivamente o pouco que ficava de proteção e direitos sociais com a desenvoltura que lhe confere sua “juventude política” e a legitimidade que lhe dá seu papel de secretário do PD[xxxv]. Como então destacava Andrea Martini, Renzi é o protótipo de político que “combina o melhor da demagogia do pároco com a destruição do que resta das conquistas do movimento operário”[xxxvi]. Em maio de 2014, apenas uns meses depois de sua nomeação, as eleições europeias parecem dar razão a este ditame. Enquanto os partidos governamentais retrocedem em quase toda a Europa (pensemos, sobretudo, no PS francês que passa de 16,5% dos votos em 2009 a 14%), o PD sai vencedor das eleições, com ao redor de 40% dos sufrágios (tinha 26,6% em 2009), confirmando a impressão de uma recuperação do controle do partido e de um amplo consenso da população, ou ao menos daqueles que votam (a abstenção segue elevada). Uma “exceção” italiana que, quiçá, se explica pela relativa “juventude” do governo Renzi e pela eficácia de sua comunicação política por meio das mídias sociais, mas também pelo fato de que o PD não duvidou ao longo da campanha em jogar a carta da crítica a Bruxelas. Matteo Renzi usou o registro da “revanche” da Itália em relação à covardia dos governos precedentes, especialmente, no plano fiscal, sabendo ou esperando que daria suficientes garantias a UE para que Bruxelas reduzisse a pressão[xxxvii]. Além das críticas aos dinossauros como Massimo D’Alema, acusados de haver “destruído a esquerda”, lhe permitiram distanciar-se das responsabilidades governamentais precedentes buscando ganhar votos de “esquerda” que se haviam deslocado para o Movimento 5 Estrelas de Beppe Grillo em 2013. Finalmente, ganhou terreno à direita tendo em conta a explosão da coalizão do Cavaliere (O Povo da Libertade, PdL) que ela sozinha conseguia mais de 35% dos votos em 2009. Matteo Renzi alcançou a legitimidade pelas urnas.

Em marcha?

E, no entanto, como escrevia o militante anticapitalista Franco Turigliatto, o Presidente do Conselho queria “aparecer como o que muda, o que rompe as regras, o que age, que faz cair as antigas nomenclaturas, que não vê ninguém enfrente, que propõe imediatamente a esperança. Por isso, o tempo não joga a seu favor”[xxxviii]. Durante quase os “mil dias” de seu governo, fez aprovar a Job Act que dá a empresa um poder discricional sobre as modalidades de contratação e demissão (de pronto seguido pelo governo Valls e sua Lei do trabalho na França). Seu governo aboliu o artigo 18 do Código do Trabalho que protegia as pessoas trabalhadoras contra as demissões abusivas e impunha a readmissão. Acelera a privatização dos serviços públicos e de uma parte do patrimônio nacional. Impõe cortes nos setores essenciais como sanidade e educação. A reforma da escola, chamada “Boa escola” é um dos exemplos da colocada a disposição da iniciativa privada de um bem público fundamental, incitando aos estabelecimentos escolares a buscar patrocínio para atenuar os cortes o qual terá algo a dizer sobre o sistema e as matérias ensinadas; impondo um método de ensino de tipo empresarial baseado na competição entre os alunos; preparando a este último para a precariedade favorecendo a alternância escola-trabalho mediante práticas não remuneradas[xxxix]. A desigualdade frente à enfermidade aumenta: os gastos privados em saúde aumentam significativamente. Em dezembro de 2014, o “48 informe sobre a situação social” da península mostra o quadro de um país esgotado: um desemprego entre a juventude que supõe mais da metade do total; um estado em que os nem-nem (jovens que nem trabalham, nem estudam) representam quase dois milhões de pessoas; um país atomizado onde o medo e a solidão se estendem; um território em que 41,7% de seus habitantes não podem ser cuidados e confiam no e-health (busca na internet) para evitar os gastos que não estão em condições de pagar[xl]. Em 2015, o horizonte apenas melhorou: a Itália é o país da UE com o maior número de pessoas que “vivem em situação de graves privações materiais”, quase 7 milhões, ou seja, duas vezes mais que na Alemanha e três vezes mais que na Francia (eurostat.eu). É um dos países dentro da UE com a taxa mais alta de desemprego juvenil. Em 2016, segundo as cifras disponíveis, mais de 4 milhões de italianos se encontravam em uma situação de “pobreza absoluta”; mais de 8 milhões têm um contrato péssimo[xli].

A indignação da população frente a brutalidade destas políticas se expressa tanto nas ruas quanto nas urnas. Em maio de 2015, nas eleições regionais, o auge do PD sofreu sua primeira parada depois da fortuna das europeias. Perde mais de um milhão de votos nas sete regiões chamadas a votar (Campânia, Ligúria, Marcas, Úmbria, Apúlia, Toscana, Vêneto), ainda que siga sendo o primeiro partido do país em termos de sufrágios recebidos. No entanto, Renzi anuncia que seguirá até 2018 pelo menos. Em junho de 2016, nas eleições municipais, o PD perde 12 capitais, entre elas as prefeituras de Roma e Turim, aonde ganham duas candidatas do M5E, Virginia Raggi que desde então tem conhecido alguns dissabores na prefeitura de Roma e Chiara Appendino. Não obstante, o Presidente do Conselho não muda de rumo argumentando que se trata de eleições locais sem significado nacional. Em agosto do mesmo ano, devido às vaias da população de Amatrice, vítima de um terremoto, tem que retirar-se. Por fim, em dezembro, os italianos infligem um sonoro revés ao presidente do Conselho e a seu governo rechaçando massivamente o referendo que chamava a refundar a Constituição. Recordemos que o referendo tentava reforçar o executivo pondo as instituições da República, fundamentalmente, em mãos de uma só força política e de seu líder; o Senado se converteria em uma anticâmara do parlamento (cujos representantes seriam nomeados e não eleitos); as províncias seriam suprimidas para, diziam, “conter o gasto das instituições”, mas, na realidade, para reforçar a centralização do poder de decisão[xlii]. 59,1% dos que votaram rechaçaram esta reforma com um recorde: 70% (65% se se tem em conta quem vive no exterior) foram votar, frente 34% em 2001 e 53,8% em 2006[xliii]. Matteo Renzi estava desde esse momento obrigado a anunciar sua demissão. Depois daquilo, no entanto, nada parece haver mudado. Posto que Paolo Gentiloni, seu incondicional, antigo Ministro de Assuntos Exteriores de seu governo, o substituiu na cabeça deste teatro de sombras. Seguindo imperturbável o mesmo caminho, o PD obteve uma ampla maioria (ao redor de 69%) com Matteo Renzi na cabeça em maio de 2017. Em seu discurso de investidura, seu novo secretário reeleito não mudou nem uma vírgula sua orientação política. Situou na esquerda seus adversários políticos e é o Welfare o que tenta atacar: “Trabalho, esta palavra caracteriza o PD, vai dizer nesta ocasião. Pronuncia-la significa fazer uma diferença em relação a quem conta que o futuro está na assistência e nos subsídios”[xliv]. Uma orientação reforçada pela saída de uma corrente minoritária do PD que criou sua própria formação política em fevereiro de 2017, o Movimento Democrático Progressista (Art.1-MDP) que reuniu uns 23.000 inscritos, a maioria trânsfugas do PD, em poucos meses[xlv].

“O lento apagão do futuro”[xlvi]

A crise política que afeta a vários países europeus se tem acentuado na Itália ao longo deste último ano. De acordo com Bruno Amable e Stefano Palombrarini, se caracteriza pela “ausência de um bloco social dominante, ou seja, de um conjunto de grupos social cujas expectativas estão suficientemente satisfeitas pelas políticas públicas desenvolvidas pela coalizão no poder de tal forma que estes grupos lhe dão seu apoio político”[xlvii]. Hoje, somos testemunhas da decadência das camarilhas políticas, cuja legitimidade está despedaçada pela corrupção revelada e quase abertamente assumida, mas, sobretudo, por sua incapacidade de sair da crise do capitalismo. Como poderia ser de outra forma sendo que as condições de vida e de trabalho de uma parte crescente da população se degradam? Não assistimos a uma explosão de desigualdades sociais, de precariedade no emprego, do desemprego, sobre um fundo de aceleração da destruição dos direitos sociais fundamentais – a formação, a saúde, a habitação, a aposentadoria?

As últimas cifras disponíveis (maio de 2017) situam o desemprego em 11,3% na Itália; esta cifra não leva em conta quem deixou de buscar trabalho; um desemprego que afeta as pessoas maiores de 50 anos e os jovens (entre quem a taxa alcança 37%)[xlviii]. A geração de trabalho precário aumenta as dificuldades das pessoas menos favorecidas, especialmente, em termos de cobertura de desemprego; na realidade, com a nova legislação, só quem trabalhou durante quatro anos consecutivos pode cobrar tudo que tem direito durante 24 meses[xlix]. Finalmente, reaparece o fenômeno da emigração de jovens e menos jovens para os países do Norte; em 2016, mais de 100.000 italianos e italianas deixaram o país, suscitando somente desprezo dos responsáveis governamentais[l]. “A pobreza duplicou em dez anos” era o título do Il Manifesto de 14 de julho último e a dívida pública é 133% do PIB”[li].

Assim sendo, a política é “sinônimo de desconfiança” para a maioria dos italianos[lii]. Parece que é a socialdemocracia a que paga o tributo eleitoral mais forte, porém seu posicionamento abertamente neoliberal e pela diligência com que apoia as políticas do BCE, com seus correspondentes de servidão, privatização, de cortes nos gastos públicos, de miséria, de desemprego, de destruição da proteção social e de degradação das condições de vida e de trabalho. Afastando-se cada vez mais de sua base social tradicional, como mostrou o voto nos bairros populares de Roma, para Virginia Raggi, o PD reivindica sua mudança a partido de “centro”. O antigo Presidente do Conselho se prepara, assim, para recorrer a Itália apresentando seu novo manifesto político “Avanti”, um “manifesto macroniano” segundo Massimo Giannini, com algumas piscadelas àqueles que votam na Liga Norte e na Irmãos de Itália, especialmente, em relação às pessoas migrantes a quem se deveria “ajudar em seus países”, pois, segundo Renzi, “a acolhida tem um limite e o limite é a capacidade de integração das pessoas que chegam a Itália”[liii].

No entanto, as últimas eleições municipais celebradas em 11 y 25 de junho últimos, sancionaram de novo o PD, confirmando a perda de popularidade do antigo Presidente do Conselho a nível local e a debilidade de sua rede territorial. Depois dos dois turnos das eleições municipais, uma fantasmagórica “centro-direita”, como o descreve a imprensa italiana, onde se reúnem o reagrupamento berlusconiano de Força Itália e as formações de extrema direita – a Liga, dirigida por Matteo Salvini, e Irmãos de Italia – Aliança Nacional, dirigida por Giorgia Meloni -, sai vencedor do escrutínio, ganhando em municípios que votavam tradicionalmente na “esquerda”. Em particular, a Liga superou em muitos municípios a Força Itália. Um verdadeiro terremoto em Génova, (governada há mais de 25 anos pela “esquerda”), Pistoia, La Spezia, Sesto, San Giovanni, Piacenza, Monza e Áquila. A alta taxa de abstenção que alcança mais de 60% nas cidades do sul da península como Taranto, testemunha o descontentamento dos italianos e italianas com este tipo de consulta e não supõe mais que um débil apoio às prefeituras eleitas. El M5E foi eliminado no primeiro turno das eleições nas principais cidades chamadas a eleger suas prefeituras, parece que seus eleitores deram seu voto à Liga[liv]. Toda a imprensa italiana saudou esta derrota, apresentada como o possível fim do movimento de Beppe Grillo e a volta ao “bipartidarismo”. No entanto, o primeiro fracasso do primeiro turno está contrabalanceado pelo fato de que o M5E ganhou o segundo turno em 8 dos 10 municípios onde se apresentava, especialmente, em Carrara, desde sempre na “esquerda”. Por outro lado, Beppe Grillo comentou estas eleições com estas palavras: “Nos creem mortos? Melhor. Assim nos deixaram tranquilos e no próximo golpe lhes ganharemos”[lv]. Fica por saber se estas eleições locais terão repercussão nas próximas consultas políticas nacionais previstas para a primavera de 2018 e para as quais os agrupamentos políticos estão já em ordem de batalha. A Liga Norte de Matteo Salvini na extrema direita do tabuleiro político está hoje entre os melhores colocados se estabelece uma aliança com FI a nível nacional. Chamada “De novo” pela imprensa italiana, Silvio Berlusconi parece postular-se outra vez como um dos árbitros da próxima consulta.

Mark Fisher, retomando por sua parte a ideia de Berardi sobre “o lento apagão do futuro”, escrevia em Ghost of my Life “… o século XXI está oprimido por esse esmagador sentido de finitude y decadência […] Não diríamos que o século XXI já começou. Estamos presos no XX…[lvi]” Tal como o descreve, nossa relação com o tempo se parece menos a um “dia sem fim” que a uma espécie de “retorno ao futuro” em que o presente não cessa de empurrar até as fontes do passado reconstruído no e para o presente. Esta forma de questionar nossa atual relação com o mundo parece completamente pertinente quando se considera o desenvolvimento político da Itália na última época. Nas páginas de Reppublica, uma recente intervenção de Francisco Merlo é uma boa mostra disso: “Sei, escreve, que se trata de um paradoxo difícil de aceitar, mas quase nos falta a parte saudável de comunismo que jogamos junto a podre em 2008: a esquerda radical que dava um horizonte a cólera social e uma racionalidade aos mil medos que hoje são o combustível da direita”[lvii]. A intervenção de Francesco Merlo, focalizada nos resultados da extrema direita, faz eco a um artígo de humor do historiador Giovanni de Luna para La Stampa, que se lamentava de que não há um “Corbyn” na Itália. O problema seria a ausência de condições, inclusive da aparição do que se poderia chamar “um novo momento socialdemocrata” na Península. Uma hipoteca ligada ao mesmo tempo a capacidade de bloqueio, do qual o PC havia sabido dar prova para frear os movimentos sociais a sua esquerda e a presença do M5E de Beppe Grillo que continua beneficiando-se do apoio de um eleitorado popular bastante amplo.

As múltiplas hipóteses que se apresentam cara às eleições nacionais de 2018 não se parecem em nada aos impulsos que se tem podido ver na Espanha com Podemos ou inclusive na Grécia com Syriza. A “centro-esquerda” que os movimentos saídos da decomposição do Partido Democrático de Renzi e de seus aliados tentam criar parece marcado não por sua vontade de modificar o jogo político na óptica de uma determinada resistência se não da necessidade de buscar uma “nova solução eleitoral ganhadora”. A forma em que Bersani, por exemplo, hoje membro do Art.1-MdL, apresenta sua oposição ao Partido Democrata de Renzi é significativa a respeito: “fomos demasiado longe” nas aposentadorias e no trabalho, disse; há que lograr apresentar as “vantagens da globalização”; seguiremos apoiando as políticas necessárias para o país, pois “não somos aventureiros”[lviii]. No entanto, não se trata só de questionar o pessoal político se não da ausência de consciência do grau alcançado pela crise política na Itália, cuja abstenção é a expressão mais significativa, muito mais que o ressurgimento da extrema direita de tintas neofascistas. O horizonte para quem abandonou o PD, parece desenhado lá atrás, nos anos da grande centro esquerda de Romano Prodi (fim da década de 1990 e início da seguinte); como se esses anos não tivessem preparado as renúncias atuais, como se nada tivesse passado ao longo destes últimos decênios. Semelhante aliança, nessas condições, cara às futuras eleições, no centro de uma “grande centro-esquerda”, é sequer desejável quando a crise política e moral é tão profunda?

Enquanto isso, as mobilizações sociais continuam, as greves sustentadas pelos sindicatos mais combativos se acentuam até o ponto em que o governo de Paolo Gentiloni volte a falar de uma modificação do direito de greve em função da porcentagem de pessoas assalariadas inscritas nos sindicatos promotores da paralização. A partir do conflito, questionar a forma-partido, aparece como necessidade inescapável para a formação de uma verdadeira alternativa; uma vez que abandonar o final do século XX e o “fim da história” para interessar-se na multiplicidade de vias pelas quais os jovens e menos jovens dos setores populares contestem a ordem social e econômica atual. Nesta brecha aberta, desprovida de interlocutor político, é em que a esquerda radical italiana deve tentar situar-se. As questões que se planteiam, sem dúvida, são muito diferentes das de outras partes de Europa, onde as forças políticas como a França Insubmissa de Mélenchon, Podemos na Espanha ou Corbyn na Grã Bretanha, por outro lado, coisas iguais apontam a outro calendário político e a outros horizontes de rupturas possíveis. No entanto, vivemos em um mundo muito integrado, especialmente a escala europeia, não unicamente no plano econômico se não também no plano político. Se bem que o futuro de uma esquerda, da esquerda na Itália, depende tanto de seus homólogos na França, na Espanha, na Grécia ou na Inglaterra como de sua própria capacidade de traduzir em termos políticos as resistências que não cessaram, não cessam e não cessarão de expressar-se no plano social. Em fevereiro de 1936, o revolucionário antifascista Carlo Roselli escrevia que “(…) o verdadeiro problema na Itália e da Itália, não é o de evitar uma revolução se não de fazer uma que planteie as premissas de uma vida social e política verdadeiramente livre”[lix]. “Se não agora, quando?” estaríamos tentados a replicar-lhe.

 


[i]Mario Piero, “Siccità: il governo dichiara lo stato di calamità”, Il Manifesto, 23 de julho de 2017
[ii]Franco Turigliatto, “Les chaînons de la crise politique et la gauche alternative”, Contretemps. Revue de critique communiste, 09 de julho de 2017.
[iii]Paolo Favilli, “Sinistra italiana e rifondazione: riunire le strade”, Il Manifesto, 30 de março de 2017; Marco Revelli, “Il corraggio della sinistra nello smarrimento quotidiano”, Il Manifesto, 23 de março 2017; Marco Revelli, Non ti riconosco, Turin, Einaudi, 2016.
[iv]P. Favilli, “Sinistra italiana”, art. cit.
[v]M. Revelli, “il corraggio della sinistra”, art. cit.
[vi]Ibid.
[vii]Perry Anderson, “The Italian Disaster”, London Review of Books, 22 de maio de 2014.
[viii]Umberto Gentiloni Silveri, “Italy 1990–2014: the transition that never happened”, Journal of Modern Italian Studies, N°20, 2015, p. 172.
[ix]Carlo Ginzburg, “Peur, révérence, terreur. Lire Hobbes aujourd’hui”, Méthodes et Interdisciplinarité en Sciences humaines,vol. 2, (2009), ( http://popups.ulg.ac.be/MethIS/document.php?id=277).
[x]Guido Crainz, “Italy’s political system since 1989”, Journal of Modern Italian Studies, 2015, N°20, p. 177
[xi]Piero Craveri, “Régimes politiques, État et nation en Italie”, Vingtième siècle. Revue d’histoire, N°100, 2008, p. 87.
[xii]Nicola Tranfaglia, Anatomia dell’Italia repubblicana 1943-2009,Florence, Passigli Editore, 2010.
[xiii]Adele Sarno, “Stragi, il “papello” e tangentopoli. 1992, l’anno che cambiò l’Italia”, Repubblica, 18 octobre 2011. Marco Berlinguer, “Qualcosa rinascerà ma sarà diverso. Intervista a Rossana Rossanda”, 18 de novembro de 2012, (http://web.rifondazione.it).
[xiv]Marco Revelli, Finale di partito, Turin, Einaudi, 2013
[xv]Especialmente, Luciano Gallino, La lotta di classe dopo la lotta di classe. Intervista a cura di Paola Borgna, Bari, Laterza, 2012.
[xvi]Gabriele Turi, “Quella cultura oppravviverà al suo interprete”, Repubblica, 16 de outubro de 2010. Ver igualmente Perry Anderson, “Italy. An invertebrate left. Italy’s Squandered Heritage”, London Review of Books, vol. 31, N°5, 12 de março de 2009; assim como Stéfanie Prezioso, “Fin de ciclo político y nuevos inicios para la izquierda italiana”, Viento Sur, dezembro de 2013 (http://vientosur.info/IMG/article_PDF/article_a8596.pdf).
[xvii]Time, n°20, 2011; Le Monde, 11 novembro de 2011; The Economist, 12-18 de novembro de 2011
[xviii]P. Anderson, “The Italian Disaster”, art. cit.
[xix]Rachel Donadio, “As a Premier Prepares to Depart, the Talk Is of Lost Opportunities”, New York Times, 14 de dezembro de 2012.
[xx]Citado em P. Anderson, “The Italian Disaster”, art. cit.
[xxi]Francesco Piccioni, « Disoccupati record », Il Manifesto, 1º de fevereiro de 2012.
[xxii]Elsa Fornero: Avanti con o senza l’accordo dei partiti”, Il Corriere della Sera, 22 de fevereiro de 2012; Marco Ruffoli, “Pressing bipartisan per bloccare l’età della pensione”, Repubblica, 13 de julho de 2017.
[xxiii]Monti: Che monotonia il posto fisso”, Repubblica, 1º de fevereiro de 2012.
[xxiv]Marika Manti, “Disoccupati più che mais”, Il Manifesto, 1º de dezembro de 2012.
[xxv]Monti Pulls a Thatcher”, Wall Street Journal, 28 de março de 2012.
[xxvi]Rachel Donadio, “As a Premier Prepares to Depart”, art. cit.
[xxvii]Ibid.
[xxviii]Antonio Padellaro, “E non abbiamo ancora visto tutto”, Il Fatto Quotidiano, 26 de fevereiro de 2013; ver também o artigo de Marco Travaglio, “L’amico del giaguaro”, ibid.
[xxix]“Beppe Grillo, empêcheur de voter en rond”, Mediapart, 21 de fevereiro de 2013.
[xxx]Gianfranco Pasquino, Marco Valbruzzi, ”taly says no: the 2016 constitutional referendum and its consequences”, Journal of Modern Italian Studies, N°22, 2017, p. 148.
[xxxi]Andrea Martini, “Napolitano e Enrico Letta: il nuovo ticket della borghesia”, Sinistra anticapitalista, 24 de abril de 2013; P. Anderson, “The Ialian disaster”, art. cit.
[xxxii]Antonella Seddone, Fulvio Venturino, “The Partito Democratico after the 2013 elections: all change?”, Journal of Modern Italian Studies, 2015, N°20, p. 481.
[xxxiii]Norberto Bobbio, Destra e sinistra. Ragioni e significati di una distinzione politica, Rome, Donzelli, 2014; Nadia Urbinati, “Sinistra : ripartire dalla Carta”, Repubblica, 18 de janeiro de 2017.
[xxxiv]Renzi: Innovazione e uguaglianza. La mia idea di Destra e Sinistra nell’Europa della crisi”, Repubblica, 23 de fevereiro de 2014.
[xxxv]Lizzie Davis, “Italy’s New prime Minister: is Renzi a young Blair, Berlusconi or the Fonz”, The Guardian, 14 de fevereiro de 2014.
[xxxvi]Andrea Martini, “Europee 2014: lo scontro elettorale dei piccoli titani”, anticapitalista.org, 23 de maio de 2014.
[xxxvii]P. Anderson, “The Italian disaster”, art. cit.
[xxxviii]Franco Turigliatto, “La resistibile ascesa di Matteo Renzi”, Sinistra anticapitalista, 17 de fevereiro de 2014.
[xxxix]Francesco Locantore, “La buona scuola liberista di Renzi”, Il marxismo libertario, 5 de setembro de 2014. (https://ilmarxismolibertario.wordpress.com); Matteo Saudino, “A due anni dalla buona scuola”, commune-info.net, 3 de junho de 2017.
[xl]Ver especialmente, “Il sistema di Welfare” del 48° Rapporto Censis sulla situazione sociale del Paese, censis.it.
[xli]Il Manifesto, 14 de julho de 2017.
[xlii]Cinzia Arruzza, ”Italy’s refusal”, New Left Review, N°103, janeiro-fevereiro de 2017; Stefanie Prezioso, “Italy: Sovereignty Belongs to the People”, New Politics, Inverno de 2017, p. 85-89.
[xliii]Repubblica, 6 de dezembro de 2016.
[xliv]Paolo Gallori, “L’assemblea del PD proclama Renzi segretario”, Repubblica, 7 de maio de 2017.
[xlv]Repubblica, 16 de julho de 2017.
[xlvi]Franco Berardi (Bifo), Dopo il futuro. Dal futurismo al Cyberpunk. L’esaurimento della modernità, DeriveApprodi, 2013; Mark Fisher, Gosts of My Life. Writing on Depression, Hauntology and Lost Futures, Winchester & Washington, Zero Books, 2014, p. 6-16.
[xlvii]Bruno Amable, Stefano Palombarini, L’illusion du bloc bourgeois. Alliances sociales et avenir du modèle français, Paris, Raison d’Agir, 2017, p. 9.
[xlviii]Marco Patucchi, “Disoccupazione, pensioni e staffetta generazionale, l’angoscia delle teste grigie”, Repubblica, 9 de julho de 2017.
[xlix]Massimo Franchi, “Gironi danteschi per avere due soldi: la dura controrealtà del Jobs act”, Il Manifesto, 28 de junho de 2017.
[l]Eleonora Bianchini, “Poletti : “Giovani italiani vanno all’estero ? Alcuni meglio non averli fra i piedi”, Il Fatto quotidiano, 19 de dezembro de 2016; Ilvo Diamanti, “Nelle parole dei giovani non c’è posto per la speranza”, Repubblica, 17 de julho de 2017.
[li]Turigliatto, “Les chaînons de la crise politique”, art. cit.
[lii]Ilvo Diamanti, “Nel dizionario degli Italiani la politica da Renzi a Grillo è sinonimo di sfiducia”, Repubblica, 10 de julho de 2017.
[liii]Massimo Giannini,” Il movimento senza direzione”, Repubblica, 24 de julho de 2017.
[liv]Norma Rangeri, “La sberla e il rifiuto di votare”, Il Manifesto, 27 de junho de 2017.
[lv]Repubblica, 26 de junho de 2017.
[lvi]Mark Fisher, Ghost of my life, op. cit., p. 8.
[lvii]Francesco Merlo, “Troppo finta per essere sinistra”, Repubblica, 28 de junho de 2017.
[lviii]Andrea Carugati, “Bersani: una generazione umiliata, mi stupisco che non parta un nuovo Sessantotto”, La Stampa, 13 de julho de 2017.
[lix]C. Rosselli, “A proposito di una lettera sul pericolo comunista in Italia”, Giustizia e Libertà, 7 de fevereiro de 1936.


(Artigo originalmente publicado na Viento Sur. Tradução de Marcelo Martino).

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