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O futebol feminino se levanta pela igualdade de gênero na modalidade

A demissão da primeira mulher do comando da seleção feminina trouxe à superfície diversos problemas que afetam a modalidade.

A ex-treinadora da seleção brasileira, Emily Lima - Reprodução
A ex-treinadora da seleção brasileira, Emily Lima - Reprodução

A demissão de Emily Lima, após apenas 10 meses à frente da seleção feminina de futebol, trouxe à superfície os diversos problemas que afetam a modalidade. A demissão da primeira mulher do comando do time, fez com que cinco jogadoras tenham decidido por se aposentar da seleção, como forma de protesto contra a injusta e prematura saída de Emily.

Por mais que Marco Aurélio Cunha, juntamente com a cúpula dirigente da CBF, tente fazer parecer que a demissão foi pragmática, pelos recentes resultados negativos, sabemos que não foi o caso. A questão da saída de Emily tem profunda relação com a postura da técnica, que nunca deixou de exigir que a CBF desenvolvesse a modalidade e nunca poupou críticas ao descaso com que é tratado o futebol feminino no país.

Em entrevista à ESPN, Marco Aurélio afirmou que Emily deveria ter se preocupado mais com as questões das quatro linhas, do que com assuntos mais externos ao time.

Está, então, escancarado o verdadeiro motivo que fez Emily Lima ser demitida da seleção. A CBF não está comprometida com o futebol feminino e ter, no comando da equipe, alguém que não esconde seu descontentamento ou críticas à entidade não é o que a cúpula dirigente quer.

A demissão de Emily provocou um verdadeiro levante no futebol feminino nacional, além de Rosana, Andréia Rosa, Maurine, Fran e Cristiane terem anunciado que não irão mais vestir a camisa da seleção, agora jogadoras de renome lançaram uma carta pública, exigindo igualdade de gênero no futebol. A panela de pressão estourou, a CBF está enfrentando a maior onda de protesto em defesa do futebol feminino

Antes do anúncio da demissão de Emily, as atletas da seleção já tinham escrito uma carta à cúpula da CBF, pedindo a permanência da técnica. Suas vozes foram ignoradas e diante disso as ações de protesto se iniciaram.

A atacante Cristiane, maior artilheira das Olimpíadas, afirma estar cansada de 17 anos de desrespeito. Apesar de ter alcançado importantes finais em torneios internacionais, a situação do futebol feminino nacional nunca se alterou qualitativamente, a CBF não investe na modalidade, negligenciando não só a gerência do futebol nacional, como a gerência da própria seleção.

A realidade nos estaduais

Para compreender o cenário do futebol feminino, é preciso saber que, apesar de existir um campeonato brasileiro e alguns campeonatos estaduais, a situação é de amadorismo completo. Somente duas equipes tem contrato com carteira assinada, o Santos e o América – MG. A esmagadora maioria das atletas no país não recebe salário para jogar, muitas vezes recebem apenas uma ajuda de custo, muito abaixo do valor do salário mínimo, por exemplo.

A situação de amadorismo expõe às atletas a uma situação de abandono legal e jurídico, por não existir qualquer assinatura de contrato, essas atletas não tem nenhum direito trabalhista garantido. Isso expõe às jogadoras a situações de constrangimento e assédio, sendo muitas vezes ameaçadas com a perda dos benefícios, sem que tenham para quem recorrer.

É recorrente a quebra dos acordos verbais feitos entre os times e as atletas.São diversas as atletas que recebem propostas financeiras que nunca são cumpridas. Por conta da legislação que rege o futebol feminino nacional e estadual, as atletas não conseguem “migrar” de equipe, porque acabam por perder o direito de disputar o campeonato nacional por outra equipe, depois de terem feito três jogos por um time nos estaduais.

Essa situação prende muitas atletas à situações de assédio trabalhista, os clubes não tem obrigação legal de cumprir os acordos verbais, então muitas vezes eles são rompidos, já que, em nome de conseguir disputar os campeonatos, essas mulheres permanecem em seus clubes mesmo sem receber salário.

Os problemas legais não se encerram com esses contratos verbais, que são constantemente desrespeitados. As jogadoras muitas vezes assinam termos cedendo os direitos de imagem para os clubes sem sequer ter o direito de ler ou mesmo consultar um advogado.

O desejo de jogar e a falta de perspectiva de um clube que atue dentro da legalidade obriga essas mulheres a se submeterem aos mais impensáveis tipos de assédio e desrespeito aos direitos trabalhistas.

Atualmente são 19 campeonatos estaduais que acontecem no país, funcionando a partir desse bizarro cenário de ilegalidade. As jogadoras também tem que encarar um calendário enxuto, com poucos jogos e curta duração.

Além disso,no estado de São Paulo a esmagadora maioria dos clubes funciona a partir do subsídio das secretarias municipais de esporte. As equipes não tem patrocínio próprio e dependem desse subsídio, diferente da realidade do futebol masculino, em que os clubes funcionam a partir de receitas próprias.

Para que o futebol nacional tivesse condições de se desenvolver, seria imperioso que os campeonatos estaduais fossem regulares e profissionalizados, essa medida é o mínimo para garantir um desenvolvimento igualitário em todo o país. Infelizmente, a realidade ainda está longe disso.

Campeonato Brasileiro

O Campeonato Brasileiro de futebol feminino é recente, em 2013 foi realizada a primeira edição. Antes disso, a competição nacional existente era a Copa do Brasil, que foi cancelada no ano passado, assim que foram anunciadas alterações no regulamento do Brasileirão.

A ideia era que, com o novo regulamento, seria inviável e desnecessário realizar duas competições nacionais. O problema é que o calendário do futebol feminino é enxuto, há poucas competições a serem disputadas e, infelizmente, mesmo com o novo regulamento, o Brasileirão por si só é incapaz de fazer a modalidade se desenvolver.

Além do problema da extinção da Copa do Brasil, o próprio campeonato, em seu novo formato, foi bastante criticado. O novo regulamento, por exemplo, garante vaga na primeira divisão para equipes bem colocadas no campeonato masculino.

É impensável que se tenha, em sua divisão de elite, um critério classificatório externo à modalidade. A questão colocada pela CBF era tentar, dessa maneira, garantir que “times de camisa” do masculino investissem no futebol feminino.

A saída ainda não deu certo, a Ponte Preta, por exemplo, que teve vaga garantida, ofereceu sua camisa à um clube de Valinhos, sem oferecer infraestrutura ou mesmo contrato para as atletas. O time feminino não tinha o direito de mandar todos os seus jogos no estádio da equipe, por exemplo.

Além disso as cifras investidas na competição feminina são irrisórias, se comparadas ao investimento na competição masculina. A premiação dada ao time campeão do Brasileirão feminino é de R$ 120.000,00, enquanto a equipe que foi 16º colocada no campeonato masculino do ano passado recebeu cerca de R$ 700.00,00 de premiação.

A falta de contratos, a insegurança financeira e a irregularidade das competições, com um calendário nacional bastante enxuto, colocam inúmeras barreiras ao desenvolvimento e a profissionalização do futebol feminino no país.

O peso da história

É preciso, além de entender a realidade atual da modalidade, saber da história do futebol feminino no país, porque ela é determinante para compreender o patamar de amadorismo atual.

Durante a Ditadura Militar a prática do futebol feminino foi proibida, sendo revogada somente em 1979. A prática de um esporte que, há 40 anos, era considerado ato criminoso, diz muito sobre o atraso do desenvolvimento da modalidade.

Contamos com apenas 40 anos de legalidade, as barreiras colocadas não são apenas impostas pela legislação e regulamentação falhas, mas também há um peso da construção histórica da modalidade.

Não é possível falar de futebol feminino sem falar do machismo no Brasil, por exemplo. A modalidade foi historicamente construída como um esporte para os homens, sua proibição foi o reconhecimento e a afirmação do Estado dessa opressão histórica.

A partir do momento que o futebol feminino foi proibido, o Estado brasileiro legitimou o machismo que afirmava que as mulheres não poderiam jogar. A revogação desta proibição não é suficiente para reverter os anos de predominância dessa ideologia machista. Seria necessário uma política direcionada à reversão dessa ideologia que foi predominante por muitos anos e que segue sendo uma realidade.

A disparidade salarial, a desigualdade de direitos, o amadorismo e o tratamento inferiorizado que as mulheres recebem no esporte são outra face do mesmo problema que fez com que a modalidade fosse proibida.

Os resultados exigidos por Marco Aurélio

O coordenador de futebol feminino da CBF, Marco Aurélio, justifica a demissão de Emily por conta dos resultados negativos neste período de dez meses. Tendo em mente os dados sobre a realidade do futebol feminino nacional, é preciso entender o quadro comparativo da realidade nacional versus a internacional, para concluir que é um absurdo que se exija que a seleção nacional consiga atingir o mesmo patamar que outras seleções, que enfrentam uma realidade de investimento completamente oposta.

Em 13 jogos foram 5 derrotas, sendo uma delas contra a Alemanha. As jogadoras de futebol na Alemanha, por exemplo, vivenciam uma realidade muito diferente da brasileira, além das duas divisões da Bundesliga, que existem há anos, há ainda a Copa da Alemanha, campeonatos regionais para os times não classificados na Bundesliga e campeonatos regulares nas categorias de base, a partir do sub 13.

É impensável acreditar que a nossa seleção, com a ruína da estrutura que é oferecida no país, teria condições de se apresentar no mesmo patamar que a Alemanha, que conta com uma das melhores estruturas para o desenvolvimento do futebol feminino no mundo.

Não é possível analisar os dados dos resultados isolados dos dados de investimento e estrutura, mas a CBF e sua cúpula se negam a tomar responsabilidade nos resultados negativos da seleção. Só é possível ter uma equipe nacional forte com o desenvolvimento da estrutura nacional, na Alemanha o calendário não é enxuto, há regularidade nas competições, além de um investimento nas categorias de base. O Brasil não está preparado, pela estrutura que fornece, a bater de frente com as grandes equipes do mundo.

É preciso ainda falar da disparidade salarial na própria seleção. Quando um atleta é convocado e fica concentrado na Granja Comary, ele recebe uma diária, no caso da seleção masculina o valor da diária paga aos atletas é de R$500,00 enquanto as mulheres recebem a metade desse valor. Quando os jogos são feitos fora do país os atletas do masculino recebem a diária em dólares, com os valores chegando a quase R$1.600,00 enquanto as mulheres permanecem recebendo cerca de R$250,00.

A situação do pagamento por parte da CBF é absurda, a confederação demorou mais de dois anos para pagar a gratificação pela medalha de prata nas Olimpíadas de Atenas.

Além disso, logo que Vadão foi anunciado para comandar a equipe, antes de Emily assumir, a CBF informou as atletas que iria instaurar uma seleção permanente, em que as atletas teriam vínculo empregatício com a confederação, receberiam salários regulares e benefícios. Por conta disso, diversas atletas não se inscreveram no programa Bolsa Atleta, que concede uma bolsa para atletas em todo o país.

A questão é que a CBF não cumpriu o acordo e algumas jogadoras, que dependiam do Bolsa Atleta, ficaram a ver navios. Na época, três atletas foram à mídia denunciar o caso e, depois disso, nunca mais foram convocadas por Vadão.

Luta pela igualdade de gênero

Se é verdade que a demissão de Emily Lima é mais uma expressão do autoritarismo e do machismo que impera na CBF, também é preciso dizer que as reações que seguiram mostram que há possibilidade de mudar a realidade do futebol feminino.

Pela primeira vez atletas importantes no cenário internacional do futebol feminino como a Cris, a Formiga, Sissi e a Rosana, além de quatro outras atletas e ex – atletas, escrevem uma carta pública exigindo a igualdade de gênero na seleção.

É preciso dizer que é muito importante que exista hoje um movimento que reconheça que a raiz dos principais problemas do futebol feminino nacional está calcada e forjada pelo machismo. Nomear e reconhecer a opressão que é responsável pela desigualdade que enterra o futebol é o primeiro passo para que mudanças concretas sejam alavancadas.

Emily Lima foi a primeira mulher a estar à frente da seleção, ex – jogadora profissional, a agora ex-técnica da seleção nunca se calou diante de todas as injustiças que impedem o desenvolvimento da modalidade. A sua demissão é uma resposta para a ousadia de ter enfrentado a cúpula dirigente da CBF, por ter se negado a se submeter aos mandos e desmandos desse grupo de cartolas, que não tem absolutamente nenhum compromisso com o desenvolvimento do futebol no país, nem o futebol masculino, muito menos o futebol feminino.

Um dos resultados do trabalho de Emily, ao buscar desenvolver a modalidade, se enfrentando com a máfia da CBF, hoje se reverbera entre as atletas, transformando sua demissão em uma alavanca para protestos e exigências frente à FIFA e à CBF. Diante desse caso, o presidente da CBF agendou uma reunião com algumas atletas, para o dia 17 de outubro.

A demissão de Emily Lima não aconteceu por conta dos resultados, foi uma demissão política e machista, e precisa ser combatida como tal. Desde o início de seu trabalho na CBF, Emily nunca poupou críticas ao amadorismo do futebol feminino no país, logo que chegou ao comando da seleção afirmou que um de seus objetivos no cargo era profissionalizar o futebol feminino.

Emily deu ainda, logo que assumiu o cargo, diversas entrevistas e declarações falando sobre os problemas de machismo no Brasil e como era esse um dos fatores que mais dificultava o desenvolvimento da modalidade.

O projeto na seleção foi inovador, a técnica fez peneiras em alguns estados, com o objetivo de encontrar talentos escondidos, além de ter renovado o quadro de atletas da seleção. Os conflitos com a cúpula da CBF não começaram somente com sua demissão, o descontentamento da CBF se deu já no início do planejamento, quando amistosos eram questionados e a diretoria da CBF queria interferir nos adversários escolhidos pela seleção.

É evidente que a demissão não foi fruto de resultados ruins, senão de um desacordo com os objetivos de Emily, denunciar o descaso e buscar a profissionalização do futebol feminino não era o que a CBF queria que Emily fizesse.

A demissão machista da técnica está agora sendo questionada por diversas atletas, brasileiras e estrangeiras, a esperança é que esses protestos resultem em mudanças. Com a carta pública lançada na semana passada, as jogadoras querem exigir que a FIFA fiscalize a atuação da CBF, fazendo valer sua legislação sobre a igualdade de gênero no futebol feminino.

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Apresentação

A edição n.6 da Revista Movimento celebra o centenário da Revolução de Outubro com artigo de Kevin Murphy sobre as origens do stalinismo. Luciana Genro discute a continuidade da Operação Lava Jato. Alvaro Bianchi introduz a nossos leitores conceitos de Antonio Gramsci. A revista também apresenta tradução de palestra de Angela Davis. Na seção internacional, publicamos artigo de Perry Anderson sobre a resiliência do centro neoliberal europeu. Edgardo Lander trata da situação venezuelana, Pedro Fuentes e Charles Rosa abordam a questão catalã. Um instigante artigo de Maycon Bezerra sobre Florestan Fernandes, a tese do MES para o Congresso do PSOL e nossa plataforma sindical completam a edição.

Arte de Adria Meira sobre El Lissitzky

Uma biografia inédita de Stalin escrita por Leon Trotsky Uma biografia inédita de Stalin escrita por Leon Trotsky

Leon Trotsky Joseph Stalin

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