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Pós-verdade, transparência e personalização na Internet

Que efeito podem ter sobre a “cultura da pós-verdade” as tecnologias do mundo digital e, em particular, as redes sociais?

Grafo com clusters destacados.
Grafo com clusters destacados.

“A tecnologia continua a progredir em direção a um poder cada vez maior, seja para o bem ou para a destruição. Qual a fonte de todos esses problemas? A fonte é basicamente o pensamento.”
— David Bohm, Sobre o diálogo

“O que nos causa problemas não é o que não sabemos, mas o que temos certeza que sabemos e que, no final, não é verdade.”
— Mark Twain, citação tirada do filme A grande aposta

A pós-verdade é a versão renovada e adaptada do debilitamento pós-moderno da noção de verdade pelo qual, em definitivo — admita-se ou não –, se abraça o relativismo mais absoluto — vale o paradoxo — e de fato se renuncia ao conhecimento (leia-se meu artigo Post-verdad: nada nuevo bajo el sol). Isso quer dizer que nosso sistema de crenças — construção cognitiva pessoal a partir da qual, em grande medida, julgamos o que admitimos como verdadeiro e o que não — torna-se um forte inexpungável para todas as evidências contrárias ao mesmo. Que efeito podem ter sobre a “cultura da pós-verdade” as novas tecnologias do mundo digital e, particularmente, as redes sociais que floresceram em torno à Internet é o que pretendo apresentar aqui, aproveitando especialmente o livro do ativista e crítico das novas tecnologias, o norte-americano Eli Pariser, intitulado The Filter Bubble [O Filtro Bolha], publicado em castelhano em abril deste ano (por certo, não é a primeira vez que aludo às teses desse autor; a elas faço referência sucinta no meu artigo intitulado El secuestro de la mente y la paradoja de internet).

A pós-verdade implica necessariamente na construção de uma versão dos fatos ajustada a uma lógica discursiva monoliticamente congruente e invulnerável ao efeito corretivo daquele que possa colocar em questão o sistema de crenças que confere solidez à mente do indivíduo que a sustenta. Requer, por assim dizer, o isolamento cognitivo da pessoa, seu refúgio numa bolha que lhe proteja de entrar em contato com tudo o que ele não tem por verdadeiro, o que é facilitado ao criar-se um ambiente no qual os fatos são subestimados frente às emoções e crenças pessoais. Essa condição é a que o filósofo José Antonio Marina denominou “fracasso cognitivo” em seu livro intitulado precisamente La inteligencia fracasada [A inteligência fracassada]. Nele, reconhece quatro classes de fracassos dentro do comportamento não patológico do sujeito; a saber: preconceito, superstição, dogmatismo e o que considera o mais perigoso de todos, a condensação dos anteriores que não é outra coisa senão fanatismo. Todas elas são fracassos da inteligência porque bloqueiam o que seguramente é sua função vital, que é conhecer a realidade. Esse é um dos objetivos primordiais do uso racional da inteligência, que se torna impossível de alcançar quando a inteligência se encerra no seu mundo privado, para todos os efeitos um modo de funcionamento autônomo e completamente blindado frente às evidências contra as crenças que o conformam. Esses mundos — nada sutis, nem leves nem gentis, como diria o poeta — constituem a semente ideal para que germinem o preconceito, a superstição, o dogmatismo e o fanatismo. Todo recurso de comunicação humana que feche as janelas que permitem o intercâmbio entre as mentes e entre elas e a realidade, com tudo o que essa tem de contraditório com as nossas crenças, é um risco para o conjunto da humanidade. Ninguém como o matemático e filósofo de meados do século XIX William Kingdon Clifford para expressar o que queremos dizer. Ele escreveu em seu ensaio intitulado The ethics of belief [A ética da crença] o seguinte: “Se um homem, com uma crença que lhe ensinaram na infância ou que adquiriu mais tarde, é fiel a ela e afasta quaisquer dúvidas que possam surgir sobre ela na sua mente, evita propositalmente a leitura de livros e a companhia de pessoas que a questionem ou discutam, e considera ímpias as questões que não podem ser feitas sem perturbá-la; então a vida desse homem é um pecado contínuo contra a humanidade”. Amém.

Eis aqui uma questão em que a fé no progresso é testada e o que se pergunta Eli Pariser é se a web tem sido um avanço no caminho ético apontado por Clifford ou, pelo contrário, caminha, sobretudo no âmbito das redes sociais, para a implantação de procedimentos algorítmicos que, sem que nos demos conta, nos conduzem a nos encarcerarmos nesses mundos privados nos quais nossas crenças se retroalimentam num loop ensimesmado de informação filtrada segundo o perfil de preferências confeccionado com o rastreamento permanente de nossos interesses inferidos a partir do nosso contínuo vagar na Internet. Sem nosso controle, a rede é feita com a imagem da personalidade de cada um de nós, que é opaca e determina o que chega a nosso conhecimento e o que não. Como disse contundentemente o ativista norteamericano: “Por definição, um mundo construído sobre a base do que nos resulta familiar é um mundo no qual não há nada a aprender. Se a personalização é muito específica, pode impedir que entremos em contato com experiências alucinantes e aniquiladoras de preconceitos, assim como com ideias que mudem nossa forma de pensar sobre o mundo e sobre nós mesmos.”

Como diz Pariser, o mundo digital está mudando radicalmente. Deixou de ser um meio anônimo no qual cada um podia ser quem quisesse para se converter em uma ferramenta para coletar e analisar nossos dados pessoais (não é outra coisa que os cookies representam). Para expressar na forma de slogan: o meio que permitiria o renascimento da utopia se transformou numa fonte de temores distópicos. Estes se condensam em dois: a pressão do aspecto econômico da personalização até um conceito estático de pessoa e a concentração prática do controle sobre o que vemos e que oportunidades temos nas mãos de poucos. Nossa dimensão de consumidores pode acabar fagocitando a de cidadãos. Isso é enormemente prejudicial para a saúde das democracias atuais nas quais a questão da identidade é um problema sério e a guerra ideológica global é um fato.

O filtro bolha (filter bubble em inglês) desfigura a ágora que deve ter seu lugar no mundo pessoal de cada cidadão das democracias contemporâneas. Esse é o lugar no qual, aplicando o critério da intersubjetividade, estamos em condições de acessar a realidade. A nova geração de filtros de informação da Internet, no entanto, observa os gostos das pessoas e as pessoas parecidas a cada um, e a partir dessa observação extrapola. Nas palavras de Pariser: “São máquinas de previsão cujo objetivo é criar e aperfeiçoar constantemente uma teoria sobre quem é você, o que você fará e o que vai querer depois.” Isso implica num determinismo informativo que significa uma redução de nossa liberdade ao fechar opções e, portanto, nossa capacidade de escolher como queremos viver. A personalização algorítmica que, na essência, é o filtro bolha, é a interface que se coloca entre cada um de nós e a realidade, pela que seu poder de viés sobre esta é considerável. E esse viés vai na linha de reforçar nossos gostos, nossas crenças e aquilo que agrada e reforça nossa visão egocêntrica das coisas excluindo tudo o que potencialmente poderia servir para nos contrastar e desmentir, mesmo que isso nos desagradasse. Mas o que é mais grave: pode levar-nos a incorrer na ilusão de que tudo o que a tela nos mostra é tudo o que há, roubando-nos um aspecto primordial da realidade quando se busca conhecê-la, a saber, o que não sabemos. Como aqueles prisioneiros da caverna platônica, crentes de que a realidade se reduzia às sombras que se projetavam em sua parede, o homo internauta seria também ignorante sobre sua ignorância. Esse é, em suma, o cenário perfeito para que se instale o reino da pós-verdade, pois — como sustenta o filósofo Byung-Chul Han em La sociedad de la transparencia [A sociedade da transparência] (das mesmas datas do texto de Parisier): “Transparência e verdade não são a mesma coisa. Essa última é uma negatividade enquanto se põe e impõe declarando as outras coisas como falsas. Mais informação ou uma acumulação de informação por si só não é nenhuma verdade”.

Se deixamos para trás a verdade — a embaixadora intersubjetiva da realidade — e socialmente abraçamos a pós-verdade retornaremos à etapa infantil na qual a criança vive no seu mundo de fantasia de costas para a realidade. Jean Piaget, nas suas pesquisas sobre o desenvolvimento da inteligência, constatou que o que faz com que a criança abandone seus confortáveis redutos íntimos e substitua a evidência privada pela intersubjetiva é a necessidade de se relacionar com os outros. O filtro bolha proporciona um ambiente de máximo conforto porque reduz o contato com os outros, os que não pensam como nós; ou limita as opções de nos expormos ao que nos contradiz e/ou contraria, nos colocando assim muito perto do solipsismo. Quem vai querer sair para a praça, se expôr à intempérie e aos pedidos de explicações dos vizinhos quando se está tão à vontade na sua própria casa onde não lhe falta nada?

O trabalho da verdade — que custa trabalho! — é uma tarefa coletiva, apresentada permanentemente no contraste com a realidade e no diálogo com os outros que não pensam como si. Assim foi construída a civilização na qual vivemos, baseada não em realizações materiais, mas no conhecimento. Se agora tudo acaba se reduzindo a expressar a si mesmo é provável que esqueçamos toda a infraestrutura pública que apoia essa classe de expressão; e que percamos de vista nossos problemas comuns, embora elas não desapareçam por conta disso. Recorro de novo a Byung-Chul Han, que vê isso muito claramente: “A mídia social e os motores de busca personalizados erguem na rede um espaço próximo absoluto no qual o que está fora é eliminado. Ali nós encontramos apenas a nós mesmos e a nossos semelhantes”. A consequência é a “privatização do mundo” pela desintegração da esfera pública ao se mostrar apenas o indivíduo — e no melhor dos casos — a seção que ele gosta do que compõe a realidade.

O livro de Eli Pariser nos lembra que uma cidadania vigorosa exige o contato permanente com (toda) a realidade para o qual é imperativo evitar que se confine num “loop infinito de auto-adulação” sobre os interesses particulares de cada um. A tecnologia da informação e comunicação — como toda prótese eficiente criada para potencializar nossas capacidades naturais — deveria servir para melhorar nossa capacidade de pensar, não para atrofiá-la formando “câmaras de eco” (echo chambers) — expressão do matemático Andrew Odlyzco –, nas quais cada grupo reforça suas visões enviesadas particulares, escolhendo o que aceita como verdade, amplificando os preconceitos de cada um e blindando cada um diante das perguntas incômodas. Isso dissolve a consciência pública e crítica ao impossibilitar o diálogo na democracia, meio essencial pelo qual um público disperso, móvel e diverso — especialmente nas nossas sociedades multiculturais atuais — pode ir mais além de seus interesses pessoais para se reconhecer numa comunidade; e impossibilita a fertilização do húmus social trocando-a pela germinação de facções e pela semeação de fanatismos. Ademais, deixa o caminho livre para que os que ostentam o poder o façam livres do controle necessário. Como disse mais uma vez Byung-Chul Han no texto mencionado: “A perda da esfera pública deixa um vazio no qual se derramam intimidades e coisas privadas. No lugar do público se introduz a publicação da pessoa. A esfera pública se converte com isso num lugar de exposição. Se move cada vez mais longe do espaço da ação comum”. A suplantação da verdade pela transparência, latente no discurso da pós-verdade, é um refúgio infantil, como acima aludimos, no qual um evita a responsabilidade de dar explicações publicamente sobre o que sustenta e de assumir o que disso se deriva. É complementar da asserção pseudodemocrática segundo a qual todas as opiniões devem ser respeitadas (ou “cada um tem direito a pensar o que quer”) e que na prática torna estéril o imprescindível e precioso diálogo.

(Artigo publicado originalmente no Rebelión e traduzido por Tiago Madeira)

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Publicamos a décima edição de nossa Revista Movimento. Dessa vez, celebramos os 80 anos de fundação da IV Internacional, comemorados em setembro de 2018, com uma seção especial. Há, também, artigos na seção internacional e de teoria. Fechamos esta edição quando a eleição brasileira se encerrava. Como não poderia deixar de ser, nesta décima edição de Movimento, apresentamos nossas primeiras análises sobre os resultados eleitorais. Sabemos que a vitória de Jair Bolsonaro trará graves ataques à classe trabalhadora e ao povo brasileiro. Estaremos com nosso povo, lutando em defesa das liberdades democráticas e de nossos direitos. Mais uma vez, esperamos que a revista seja uma ferramenta útil de construção e formação para nossos camaradas. Boa leitura!

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