Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

19-N: A violência do Estado Espanhol

Nesta crônica catalão, Bech realiza inventário das últimas ações da região e denúncia a violência policial contra os manifestantes.

Manifestantes catalães m 19 de novembro - Flickr Hive Mind
Manifestantes catalães m 19 de novembro - Flickr Hive Mind

O Governo e os meios de comunicação espanhóis fizeram um grande escândalo com as declarações da candidata do ERC, Marta Roviera, nas quais denuncia que o Estado espanhol pensava gerar uma grande violência repressiva, com mortes incluídas, se a proclamação da República catalã tivesse seguido adiante. “Vergonha”, “trapaça tosca”, “enorme mentira” respondem Rajoy e o porta-voz Rajoy e o porta-voz do governo, De Vigo.

No entanto, essa é a verdade: estavam preparando uma grande repressão, não-limitada à perda de algum olho, como já fez a polícia com um cidadão no dia do referendo em 1 de outubro. Há informações concretas de como 300 membros de forças de segurança especiais assaltariam o Parlamento catalão, inclusive operações pela rede de esgotos e helicópteros. Atacariam os manifestantes que estivessem concentrados defendendo isso com o objetivo de levar preso a Puigdemont e o Govern, no caso de que se atrincheirassem e tratassem de exercer como tal Govern.

A ministra do Exército, Cospedal, disse em de outubro que “é um orgulho que a missão do Exército seja assegurar a soberania e a independência da Espanha, defender sua integridade territorial”. Para esta ministra, o independentismo se situa fora da democracia, e até foi acusado de “nazi” em diversas ocasiões. A cidadania catalã captou a mensagem quando disse “tudo o que se situa fora da democracia é uma ameaça a nossa noção”. Desde o mês de setembro Catalunha está recebendo a mensagem que chega da Espanha: “¡A por ellos!” [“Para cima deles!”].

Esta é a explicação do porquê a República catalã ficou congelada. Do porquê parte do Govern optou por entregar-se e outra parte por sair a resistir desde Bruxelas. Do porquê o próprio Parlament aceitou sua autodissolução com a aplicação do artigo 155. Do porquê o Mayor e os mandos dos Mossos, a política autonômica, não opuseram nenhuma resistência armada e obedeceram as destituições e ordens que chegam desde o ministério do Interior de Madri. Ou isso… ou a repressão e mortes de civis e funcionários. Também ilegalizações e encarceramentos massivos.

Tudo isso já ocorreu no passado. Não é novo. A última vez que a Catalunha proclamou sua República foi em outubro de 1934. E ainda que não tenha sido a proclamação de uma República independente senão como parte de uma República federal espanhola, o governo de direitas que havia subido ao poder organizou seu aplastamento, causando 46 mortes e mais de três mil presos políticos, suspensão da autonomia e do governo da Generalitat. Foi em tempos de Repúbica espanhola. A República catalã durou 10 anos.

O mundo vai descobrindo o que é o Estado espanhol. Sua essência repressiva contra a classe trabalhadora e contra os povos que conformam esse Estado, em particular contra as nações de Catalunha e Euskadi. Em meio da maior etapa de juízos contra a corrupção do PP, o partido no governo é capaz de explorar o ódio ao povos periféricos como a maneira de se sustentar no poder. Com o “desafio independentista catalão” trata de criar uma ameaça inexistente contra o reto dos territórios e generalizar o medo de perder a gente não sabe o que exatamente, mas eles sabem que é esse regime monárquico corrupto.

Mas, era obrigado que o Govern da Generalit ficasse passivo e não pusesse em marcha nenhuma medida, nenhuma lei, nenhuma mobilização defensiva da República? Seguramente não. Se em 1 de outubro, mais de 2 milhões foram votar em condições heroicas e em 3 de outubro houve a greve geral que causou a maior paralisação em 70 anos, talvez havia margem para travar uma batalha ainda mais pacífica, ou com poucos mortos. Batalha que nenhum dos governos queria, nem o catalão nem o de Madri, porque isso teria aberto a insurreição propriamente dita. E ninguém estava preparado para a insurreição e suas consequências. Ninguém, exceto talvez os fascistas.

Junker ajoelha-se ante o Estado espanhol depois de receber o Prêmio Príncipe das Astúrias, justificando tudo o que fez Rajoy. É uma mostra a mais do papel de auxiliares dos grandes Estados desses supostos líderes europeus. E também é uma mostra de que o papel do Estado na sociedade capitalista globalizada que estamos segue sendo em essência esse “destacamento de homem armados” a serviço da classe burguesa dominante. Como os meios de comunicação.

A experiência que está acumulando a sociedade catalã é muita. Sem dúvida a situação a qual se chegou mostra que ainda faz falta mais força, mais massividade e mais cumplicidades. Sem ampliar a tropa e as alianças pelo lado rupturista, republicano e independentista, não será possível passar do atual estágio. Faz falta um adicional para derrotar politicamente o Estado espanhol. Para esse adicional a direção do processo deve ser uma direção mais consequente, mais disposta “a fazer todas as concessões que faça falta… para chegar à vitória”, como diria o anarquista Durruti.

Uma vez feitas as listas para participar nas eleições a estratégia da vitória passa pela luta e mobilização continuada por alguns pontos em comum que no passado permitiram ganhar eleitoralmente a Frente Popular em 1936. Hoje esses pontos comuns do bloco soberanista são: Liberdade aos Presos Políticos, Restabelecimento do Govern, a República e Instituições arrebatadas pelo 155… Porém, para ganhar e ampliar a base social republicana também são necessários alguns pontos comuns do bloco das esquerdas: aumento imediato do salário-base, igualdade salarial homem/mulher, trabalho digno, direitos laborais. Uns e outros juntos podem vencer o bloco do 155. Contudo se ganha… “Vae victis!”…o Estado espanhol cairá com toda sua fúria e vingança.

Tradução: Portal de la Izquierda

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Publicamos a décima edição de nossa Revista Movimento. Dessa vez, celebramos os 80 anos de fundação da IV Internacional, comemorados em setembro de 2018, com uma seção especial. Há, também, artigos na seção internacional e de teoria. Fechamos esta edição quando a eleição brasileira se encerrava. Como não poderia deixar de ser, nesta décima edição de Movimento, apresentamos nossas primeiras análises sobre os resultados eleitorais. Sabemos que a vitória de Jair Bolsonaro trará graves ataques à classe trabalhadora e ao povo brasileiro. Estaremos com nosso povo, lutando em defesa das liberdades democráticas e de nossos direitos. Mais uma vez, esperamos que a revista seja uma ferramenta útil de construção e formação para nossos camaradas. Boa leitura!

Solzinho

Uma biografia inédita de Stalin escrita por Leon Trotsky Uma biografia inédita de Stalin escrita por Leon Trotsky

Leon Trotsky Joseph Stalin

MES: Movimento Esquerda Socialista MES: Movimento Esquerda Socialista