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A 30 anos da “Intifada das pedras”

Há 30 anos da primeira Intifada, a crescente tensão entre Israel e Palestina faz tornar imprescindível a contextualização histórica das disputas na região.

Jovens palestinos lançam pedras contra tanques israelenses na Intifada - Reproduçãi
Jovens palestinos lançam pedras contra tanques israelenses na Intifada - Reproduçãi

Este ano de aniversários significativos para a Palestina 1 se encerra comemorando os 30 anos da – mal chamada – “Primeira Intifada” 2: o maior levante massivo do povo palestino, que reinstalou sua causa na agenda internacional e despertou uma onda de simpatia popular ao redor mundo.

A explosão se iniciou em 9 de dezembro de 1987 em um checkpoint militar do campo de repudiados de Yabalyia, em Gaza, quando um jipe israelense atropelou um caminhão que levava trabalhadores palestinos, matando quatro pessoas; e no protesto popular que seguiu o incidente, um soldado alvejou um adolescente de 17 anos. Contudo, esses fatos violentos – e vários outros que os precederam- foram a gota que fez transbordar o vaso de uma população submetida durante 20 anos 3 a um brutal regime militar e colonial que, depois de arrebatar sua terra para entrega-la a colonos judeus avindos da Europa e de todo o mundo, negava a eles os mais elementares direitos humanos, assim como sua história e sua identidade como povo originário dessa terra, castigando com o cárcere e a deportação massiva qualquer tentativa de resistência. Nesses 20 anos, 200 mil palestinos passaram pelos cárceres israelenses, e quatro mil e quinhentos permaneciam neles em 1987.

A Intifada pegou de surpresa tanto o regime israelense como os dirigentes da Organização para a Libertação da Palestina (OLP, fundada em 1964) exilados na Tunísia, pois ela não foi organizada diretamente por partido algum. Uma geração inteira que havia nascido e crescido sob a ocupação se levantou como protagonista e marcou um divisor de águas na longa historia de resistência palestina: até esse momento, a iniciativa se limitava às áreas fora dos territórios ocupados, com os lideres da OLP que conduziam a luta armada desde a Jordânia, o Líbano e a Tunísia, sucessivamente.

Contudo, em dezembro de 1987 o povo sob ocupação disse “Basta!” e saiu às ruas massivamente para enfrentar, desarmado, um dos exércitos mais poderosos do mundo. A imagem icônica de meninos lançando pedras em tanques se converteu em um símbolo do levante palestino, invertendo o mito de Davi e Golias que Israel propagava eficazmente ao se apresentar como vítima ameaçada e agredida pelo poderoso mundo árabe.

Ainda que tenha havido ações armadas, o levante foi fundamentalmente uma insurreição civil 4. A resistência se organizava nas cidades, nos povos, aldeias e campos de refugiados através de comitês populares que garantiam a subsistência da população, assim como as tarefas educativas e de saúde durante os bloqueios e toques de recolher. A condução estava nas mãos de uma coalizão plural, clandestina e bem organizada: o Mando Nacional Unificado da Intifada, que dirigia as ações de protesto. Estavam representados ali o Fatah, como principal partido, e as marxistas Frente Popular pela Libertação da Palestina (FPLP, fundada em 1967), Frente Democrática pela Libertação da Palestina (FDLP, fundada em 1969) e o Partido do Povo Palestino e Comunista (PPP, fundado em 1982). Os partidos islamitas (Hamas e Yihad Islâmica) fizeram sua aparição pública pouco antes de se iniciar a Intifada, mas não se integrarão ao Mando Nacional Unificado da Intifada (MNUI), que se manteve como um movimento secular.

Ainda que a maioria da população palestina tenha menos de 30 anos, muitos se recordam com nostalgia da primeira Intifada. O tema aflora em conversas com qualquer pessoa que tenha ao menos 40 anos, e todos possuem anedotas para contar sobre essa resistência popular bem organizada, que se manteve durante quase cinco anos apesar da brutal resposta repressiva israelense e do alto custo que as famílias e as comunidades pagara. Sobram relatos sobre as diversas formas dessa resistência: desde a luta permanente nas ruas e as greves prolongadas até o não pagamento de impostos e o boicote a instituições e produtos israelenses – e tudo o que implicava isso em termos de organizar alternativas de subsistência. Uma eficaz rede subterrânea permitia coordenar as diversas tarefas de resistência; entre elas, cursos clandestinos para que crianças e jovens pudesse continuar estudando. Cada ação implicava, ademais, em se preparar para enfrentar a reação do inimigo e tratar de minimizar seus custos. Por exemplo, o não pagamento de impostos foi castigado com a invasão de lares e a “confiscação” (eufemismo sionista para se referir ao roubo de terras e propriedades palestinas) dos bens particulares das famílias.

A Intifada gerou um sentimento de empoderamento coletivo, assim como uma subversão das convenções sociais. Por exemplo, as mulheres saíram do espaço doméstico e assumiram novos papéis produtivos e políticos, organizando-se em comitês locais para assegurar a efetividade das tarefas de boicote e subsistência no nível comunitário, e também participaram ativamente da mobilização popular.

A reação sionista foi, como sempre, brutal e desproporcional: fechamento de escolas e universidades, toque de recolher, cerco a cidades, repressão feroz das manifestações, demolição de casas sem aviso prévio, destruição de plantações, desvio de fontes vitais d’água (provocando uma deliberada escassez nas comunidades), deportação de ativistas e demissões em massa de quem trabalhava em Israel. O então ministro da Defesa Isaac Rabin ordenou ao saldados “quebrar os ossos” das crianças que atirassem pedras. Entre 1987 e 1991 as forças israelenses assassinaram mais de mil e cem pessoas (muitas delas menores de idade), feriram a dezenas de milhares e detiveram mais de 120 mil pessoas. O Conselho de Segurança da ONU emitiu várias resoluções condenando Israel pelo alto número de mortes, deportações massivas e destruição de vivendas, o acusando de violar os Convênios de Genebra O levante teve como saldo mais de mil e quatrocentos mortes palestinas (incluindo 237 menores de 17 anos) e 185 israelenses.

Ainda que a condução da insurreição estivesse nas mãos do MNUI, os dirigentes da OLP tentaram dirigir o processo por “controle remoto” a partir da Tunísia. A unidade também se via ameaçada pelo sectarismo e pela luta de poder entre os dirigentes partidários que tinham uma margem de atividade e visibilidade pública que carecia aos lideres clandestinos do MNUI não tinham. Esses fatores, juntamente com o desgaste natural da sociedade civil de ter que fazer frente a uma repressão implacável e cada vez mais dura, levaram a um enfraquecimento do processo. Enquanto as pessoas resistiam nas ruas, nos bairros, aldeias e campos de refugiados, e pagava com seu próprio sangue o preço mais caro, o MNUI perdia independência e a cúpula da OLP buscava aproximações com o inimigo para negociar um acordo 5. Ao mesmo tempo, ao povo palestino ia ficando claro que não poderia contar com o apoio dos governos árabes – apesar da simpatia de seus povos. A explosão da Guerra do Golfo em 1991 terminou de inclinar a balança contra a rebelião palestina.

As manobras de Israel e dos Estados Unidos para neutralizar a Intifada cooptando Arafat e a direção da OLP (controlada pelo Fatah) tiveram efeito com a convocação da Conferência de Paz de Madri (1991). Ela colocou em marcha o falaz “processo de paz” que levaria a assinatura dos Acordos de Oslo I (1993) e Oslo II (1995). Esse giro significou o atestado de morte da Intifada popular, e o início de um processo que se converteu a luta de liberação nacional em uma imitação de “autonomia”, e os lideres dessa luta em um uma elite ocupada (em todos os sentidos da palavra) na “administração” de insignificantes parcelas do território controlado por Israel. À nova Autoridade Nacional Palestina (ANP, fundada em 1994) foi concedido muito menos poder do que tinham os fantoches dos bantustãs durante o apartheid sul-africano – ainda que sua funcionalidade política fosse muito parecida.

Oslo significou também a fragmentação territorial, a atomização social e política, um maior estrangulamento da econômica palestina e a introdução de políticas neoliberais para converter a população ocupada em consumidora e dependente de hipotecas e empréstimos financeiros ou de salários da ANP. Esse perverso sistema de controle foi implementado em paralelo com o avanço implacável da colonização israelense, que em 20 anos de “processo de paz “ triplicou o número de colonos vivendo no território ocupado.

A frustração das pessoas com a armadilha de Oslo, assim como às políticas repressivas e belicosas de Ariel Sharon, levaram em 2o00 à explosão da “Segunda Intifada”, que teve um caráter completamente diferente pela preeminência que os movimentos islamistas e suas sangrentas ações armadas, em detrimento da participação popular – de tal modo que muita gente na Palestina (e em particular algumas feministas) não a considerou uma verdadeira Intifada popular. Sua derrota significou o aprofundamento da dominação israelense a níveis até então desconhecidos, em particular com a construção do Muro e o sistema associado de permissões e checkpoints para garantir ainda mais a fragmentação do território, o controle da população ocupada e a supressão total de sua liberdade de movimento.

A corrupção e a degradação da ANP e de sua rede clientelista, sua imperdoável colaboração com Israel, sua renúncia em lutar por Jerusalém e pela população refugiada, levaram ao assenso do Hamas em 2006. Seu enfrentamento com o Fatah em 2007, e a capitalização que Israel soube fazer dessa endêmica luta fratricida, acentuaram o isolamento da bloqueada Faixa de Gaze do resto do território palestino, e a dificuldade para reconstruir um projeto de liberação nacional. Contudo, apesar do estancamento provocado pelo processo de Oslo e o sectarismo político, a melhor expressão da sociedade civil palestina parece ter começado a resgatar o espírito rebelde, plural e unitário daquela Intifada no vigoroso Movimento de Boicote, Desinvestimento e Sanções a Israel (BDS, de 2005) que não para de crescer dentro e fora da Palestina, apesar dos ingentes esforços de Israel em o criminalizar e destruir. Seu potencial é enorme, se considerarmos que os territórios ocupados são o terceiro mercado da economia israelense, e que é uma batalha que pode se livrar desde o interior de cada casa e de cada consciência, em uma variante de resistência clandestina mais difícil de suprimir.

Trinta anos depois da Intifada, as palestinas e os palestinos tem razões de sobra para lembrar com nostalgia daquela época em que lutaram porque não “tínhamos nada o que perder”, e porque tinham um programa de resistência comum e uma liderança unida para o conduzir. Mas o movimento BDS possui ambos, e uma crescente plataforma de apoio e legitimidade internacional. Os sionistas o sabem, e é por isso que o BDS os tira o sono.

Artigo publicado aqui. Tradução de Pedro Micussi para a Revista Movimento.


Notas da autora

1 100 anos da Declaração Balfour que deu luz verde à colonização sionista, 50 da ocupação da totalidade da Palestina, 10 anos do bloqueio da Faixa de Gaza, e o que relembra essa coluna

2 Intifada é uma palavra árabe que significa literalmente “agitada” e designa uma revolta popular. A verdade é que durante o século XX o povo palestino se levantou muitas vezes contra a dominação britânica e a colonização sionista (por exemplo em 1929, 1936-39, 1976, 1979-80).

3 Os 20 anos se contem desde a ocupação de Gaza, da Cisjordânia e Jerusalém. Esta em 1967, sem se esquecer que a maior limpeza étnica da Palestina se iniciou em 1948 no território que hoje ocupa o Estado de Israel.

4 Apesar da brutal repressão israelense, a direção da Intifada se mostrou contrária ao uso de armas nos protestos. Os números indicam que apenas cinco por cento das ações palestinas incluíram armas de fogo ou explosivos.

5 Em 1988 a OLP no exílio declarou a independência da Palestina, reconhecendo o Estado de Israel em troca da ilusão de criar um futuro mini Estado palestino com 22% de seu território histórico.

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Esta é uma edição especial de nossa Revista Movimento. Como forma de contribuir para os debates que ocorrerão na VI Conferência Nacional de nossa corrente, o Movimento Esquerda Socialista, este volume reúne dois números da revista (7 e 8). Dessa forma, pretendemos oferecer à militância e a nossos aliados e leitores documentos que constam do temário oficial do evento, bem como materiais que possam subsidiar as discussões que se realizarão. Na expectativa de uma VI Conferência de debates proveitosos para nossa corrente, desejamos a todas e todos uma boa leitura deste volume!

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