Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

Entrevista com China Miéville, autor de Outubro

Nesta entrevista, o escritor volta sobre os acontecimentos que se sucediam há 100 anos atrás naquele que seria um dos principais eventos do século.

China Miéville
China Miéville

China Miéville foi premiado por muitos livros de ficção e não-ficção. Entre seus romances mais recentes estão The Last Days of New Paris, y The City and the City, Embassy town, This Census-Taker, Kraken, e Perdido Street Station. Ganhou os prêmios Hugo, World Fantasy e Arthur C. Clarke. Já escreveu para várias publicações: New York Times, Guardian, Conjunctions Granta. É diretor fundador da publicação trimestral, Salvage.

Seu novo livro, October (Verso Books 2017), é um “relato brilhante da revolução russa” (The Guardian). O livro foi muito bem acolhido pela crítica literaria e política. Outubro irradia “o brio e a emoção do entusiasta que quer que a revolução triunfe”, segundo Jonathan Steele de The Guardian. Sheila Fitzpatrick, a muito respeitada historiadora da Rússia e da União Soviética, qualificou October como “construído elegantemente e surpreendentemente comovente. O que trata de fazer, e o faz de forma admirável, é escrever uma história excitante sobre 1917 para os que se simpatizam com a revolução em geral e com a revolução russa em particular” (London Review of Books).

Todd Chretien, redator de Eyewitnesses to the Russian Revolution (Haymarket Books, 2017) e da edição anotada de State and Revolution (Haymarket Books, 2016) de Lenin, entrevistó a Miéville sobre October en agosto del 2017. La entrevista fue publicada en International Socialist Review(https://isreview.org/

Todd Chrétien: Nesta época já não falamos da Revolução de Outubro como algo que se transmite de uma geração para outra, nas famílias, entre militantes operários…; como uma memória viva. Nenhum setor social encarna já essa experiência. Isso coloca a questão, literária e histórica, sobre como transmitir o conhecimento de um período para outro. Em seu livro Embassy town, você examina a natureza da língua e dos atropelamentos que podem ser feitos ao tentar traduzir um idioma. Que tipo de desafio você encontrou quando escreveu para um público de cinco gerações posteriores a 1917?

China Miéville: É uma maneira muito interessante de apresentar a questão. Porque sempre fui consciente da necessidade de equilibrar o específico e o geral. Através do livro, e das discussões em torno do mesmo, trato de enfatizar que esta é uma história centrada em um espaço particular, Rússia, e numa época concreta: 1917. É preciso definir um caminho: a história não é somente a recordação daquele momento. Ao mesmo tempo, trato de evitar um kitsch reducionista do tipo “como se deu, se dará agora”. Assim que, em todo momento, o ponto-chave era ser consciente das particularidades do momento sobre o qual se escrevia. Na medida em que creio que se possa generalizar, trata-se de ir do concreto para o abstrato; em certo sentido, dar a volta à metodologia de Marx! Partir dos fatos específicos para investigá-los, em vez de partir da busca das lições aplicáveis. Se você faz isso, você vai encontrar o que busca, mas é provável que não vá fazer isso de forma útil nem sofisticada.

Em relação à linguagem que utilizei, se este livro oferece algo útil interessante ou novo em algum sentido, penso que talvez derive de ter querido, sem remorsos, ter escrito uma história narrativa. Eu aceito isso. Há setores da esquerda que fazem críticas honestas a esse tipo de escrita histórica narrativa; não são críticas estúpidas. Eu as levo a sério. Mas desde que comecei a conceber este livro, meu editor Sebastian Budgen e eu concebemos isso como uma narração. Aceitamos isso como o que é e não nos envergonhamos do fato de que a maioria dos meus escritos tenham sido obras de ficção. Esta forma tem certas normas de ritmo, energia, exposição, etc. Tratei com o orgulho de colocá-los em primeiro plano. Para mim, foi uma aposta, uma intuição, confiar na política e que as consequências e a análise se desenvolvessem como um substrato dela. É melhor que forçá-la.

A propósito disso, você não incluiu referências em seu livro, mas sim uma bibliografia muito valiosa. Você poderia sugerir alguns livros para os que queiram ler mais depois do seu livro e outros que você achou valiosos durante a investigação histórica?

Você tem razão, não há notas de pé de página. Não quis criar um livro erudito, apesar de haver investigado com muito rigor. Todo o romance… Ops! Este foi um lapso interessante!… Todo o livro é com uma narração. No entanto, durante o processo de elaboração segui regras muito estritas para não conjurar nenhuma anedota história ou outras coisas similares. Tudo o que se diz foi investigado com rigor. Queria que os especialistas que o leram dissessem sabe do que fala, está bem preparado. Por isso a lista de referências no final do livro é muito seletiva. Houve muitas referências que não incluí porque não queria que a bibliografia ficasse muito volumosa. Só lamento uma coisa: queria dar a conhecer o muito que li! Penso que vou descarregar a bibliografia completa on line e vou por o link nas próximas edições.

Quais são os livros que eu considero particularmente fecundos para pessoas que queiram aprender mais sobre a revolução? Eu diria que os mais destacados são os três de Alexander Rabinowitch: Prelude to Revolution, The Bolsheviks Come to Power, e The Bolsheviks in Power: The First Year of Soviet Rule in Petrograd. Os livros de Rabinowitch são os que proporia como ponto de partida para leitores que não estão familiarizados com o tema mas queiram passar do meu livro para algo mais acadêmico. São indispensáveis. Outro livro que um tanto diferente, mas que ao mesmo tempo eu achei muito inspirador, foi a obra redigida por Boris Dralyuk 1917. É uma coleção de poesia, ensaios e obras de ficção desse ano. É óbvio que seu propósito não é descrever os acontecimentos, mas há algo seu na forma e no tom que o torna uma obra muito especial e potente. O último par que recomendaria é Voices from theRussian Revolution: Fighting Words, compilada por Michael Hickey, e Voices of Revolution: 1917 de Mark Steinberg. O segundo contém, entre outros documentos, as cartas incrivelmente comovedoras escritas por soldados que estavam no front. Se pudesse destacar um documento desta coleção, seria a extraordinária carta que enviou o soldado Kuchlavok do front ao jornal Izvestia em agosto de 19171.

Soube por um amigo que uma você e seu redator estiveram num piquete de apoio a uma greve de enfermeiras. Isso me traz à mente a questão do papel do artista na política.

Voltarei a dizer o que te disse sobre a questão de navegar entre a arte e a política. Para mim, o ponto de partida na mediação entre ser ativista e romancista ou outro tipo de artista é, talvez paradoxalmente, o não colapsar os dois. Por exemplo, é comum escutar escritores ou artistas dizerem que têm uma visão política do mundo mas que não são necessariamente ativistas; que dizem coisas como minha arte é meu ativismo. Essa declaração sempre me fez sentir incômodo. Creio que é uma falácia. Isso não significa que não exista possibilidade de produzir arte que tenha um compromisso político maravilhoso. E, por certo, tampouco sugiro que haja uma divisão estrita entre os dois polos. Melhor me parece um erro conceito conceitual de sobrepor um ao outro.

Por outro lado, amiúde na esquerda nos flagelamos – diria que por boas razões – sobre esta relação horrível e redutiva da arte que procede da esquerda ativista, que diz, mais ou menos, Gostei deste filme porque estou de acordo com sua postura política. Se você produz arte, poesia, ficção ou outra obra artística que tem como intenção produzir um panfleto político ligeiramente disfarçado que começa com um era uma vez, pois, assim não se cria nenhuma arte interessante. E, acrescentaria, tampouco você produz política convincente.

É significativo que muitos dos artistas que negociaram esta fronteira de forma mais efetiva e interessante são os que, provavelmente de forma contrária ao senso comum, insistem na separação, ou, melhor dizendo, insistem na diferença entre as duas esferas, sem que isso implique a impermeabilidade entre ambas. Por exemplo, no ensaio A desonra dos poetas, Benjamin Perét, o grande poeta surrealista e trotskista, inclui um fragmento maravilhoso desaconselhando a poesia política crua. Referindo-se ao poeta como um revolucionário, insiste de forma maravilhosamente complicada e dialética em que:

“Não significa que ele (sic) queira por a poesia a serviço da política, ou inclusive da ação revolucionária. Mas o ser poeta o converteu num revolucionário que se compromete a lutar em todos os terrenos: no terreno da poesia usando métodos apropriados e no terreno da luta social, sem confundir os dois campos de ação sob pena de restabelecer a confusão que supõe dissipar-se e que o levaria a perder sua vocação de poeta; ou seja, de revolucionário”.

Estabelecida esta distinção entre as esfera, eu deixo de me preocupar muito com o demais. Tenho a confiança e a intuição de que tudo está em meu subconsciente e de que posso seguir adiante. Tudo provém do mesmo lugar – o artístico e o político – ainda que seja de distintas maneiras. Usei uma analogia a respeito: servir com duas colheres distintas porções de palavras de uma mesma panela. Tendo estabelecido que estas são articulações diferentes, deixemos de nos preocupar tanto e continuemos. Deixe de se flagelar, preocupando-se com como posso relacionar meu compromisso político com minha arte. Não se preocupe e siga adiante! Não é que não importe – claro que importa – mas é importante deixar de se preocupar, porque este tipo de questionamento não faz que a ação política ou a poesia sejam mais efetivas.

Quero considerar alguns eventos chave de 1917 e sua interpretação sobre eles no livro. Um debate que vem de longe trata sobre o papel de Lenin em abril, quando regressa a Rússia no famoso trem blindado. Há uma postura, a de Trotsky, que diz que Lenin introduziu uma política nova, as Teses de Abril, que derrotou a postura mais conservadora de Kamenev e Stalin de março desse ano. Por outro lado, o historiador Lars Lih tomou posição em sentido contrário; ou seja, que não houve nenhuma mudança na postura de Lenin. O que você opina sobre as teses de Lenin e seu impacto nos bolcheviques?

Uma advertência: sou um amateur bem lido, mas não sou um especialista. Isso é relevante em relação à documentação histórica escrita em russo que não pude ler. Creio que há um perigo tanto em enfatizar a continuidade como em enfatizar a ruptura. Em parte, porque a política e os pessoas se contradizem. Contêm mais que um fio singular. O perigo é que se você condensa isso e identifica um fio, perseguindo-o, ainda que seja correto, subestimar outros fios ou ignorar os que não se enquadram. E isso, evidentemente, não serve.

Mas claro, há questões que se apoiam em fatos relativamente verificados. Penso, por exemplo, que Lars Lih demoliu o que é um mito sobre As cartas de Longe de Lenin, conhecidas como as teses prévias às de abril. Há um argumento, colocado por Trotsky entre outros, em minha opinião de modo tendencioso, de que a grande ruptura das Teses de Abril foi prefigurada pelo grande impacto que sofreram os bolcheviques ao receber As Cartas de Longe de Lenin quando ele residia ainda longe do país em março. Creio que o ensaio de Lars Lih (“Letters from a far, Corrections From Up Close”) 2, publicado em 2015, acabou com esta ideia. É preciso dizer que os bolcheviques não experimentaram um grande impacto quando receberam as cartas antes de abril.

Entretanto, o que penso eu sobre as teses de abril? Creio que o pressentimento que houve uma ruptura apocalíptica com a prática estabelecida foi exagerada, até tal ponto que é como se as teses tivessem surgido do nada; e, por isso, o horror seria a única reação que os bolcheviques teriam tido a respeito. O fundamento de qualquer postura política nunca deixar de ser polêmico e, por óbvio, depende de como as pessoas interpretam as posturas antigas e as atuais. Havia muitos entusiastas da posição de Lenin. Mas, como deixa claro o livro de Sukhanov, o menchevique de esquerda que assistiu ao discurso de Lenin quando retornou da Rússia, seria igualmente tendencioso sugerir que não provocou nenhum impacto ou que Lenin não fez desconcertar sua atividade militante. Está claro que [as teses] impactaram. Como mínimo é necessário dizer que embora Lenin colocasse uma posição compatível com a reinante, a mesma contém uma ênfase diferente.

Eu avaliaria esta situação usando a famosa frase de Victor Serge que rechaça a ideia de que as ações de Lenin deram espaço à ditadura de Stalin. Diz que “o bolchevismo portava muitos outros germes, um monte de outros germes”. O que trato de sugerir no livro é que se pode argumentar a favor de que aquelas teses fazem parte da continuidade do bolchevismo dependendo dos aspectos nos quais coloque ênfase. Ao mesmo tempo, a partir das teses de abril emergiu um bolchevismo radicalmente novo. Pessoalmente, creio que não há dúvida de que Lenin, por seu particular prestígio, impulsionou o partido numa determinada direção e que isso reforçou determinadas correntes e perspectivas em seu seio. Creio que em termos epistemológicos não serve pensar de forma simples: ou emergiram do nada ou eram a continuidade da política anterior. Penso que Lenin impulsionou uma mudança de ênfases, embora tenha se baseado em aspectos concretos do programa bolchevique.

Uma pergunta a mais sobre o papel de Lenin. Depois das jornadas de julho, quando os operários, marinheiros e soldados realizaram quase uma insurreição, Lenin se viu forçado a passar para a clandestinidade até poucos dias antes da revolução de outubro. Durante este tempo, ele escreve sem descanso à direção e à imprensa do partido, mas havia uma demora entre o momento que escrevia e o momento em que se publicava. Em seu livro, você mostra que frequentemente os conselhos de Lenin são corretos, mas coincidem com as estratégias da direção do partido que já estavam em marcha antes de receber estes conselhos. Como você vê a relação entre Lenin e o partido em seu conjunto?

Um elemento que é necessário enfatizar é que o partido contava com uma rede de quadros muito grande e muito eficaz em sua estrutura média. Quadros que atuaram como um vetor para fora e para dentro (do centro às regiões, desde as bases operárias e populares do partido à direção), e que permite a disseminação da política do partido. No melhor dos casos, era como um tipo de antena sintonizada aos interesses da base. Creio que, em parte, é a razão pela qual o partido bolchevique tinha uma flexibilidade e uma capacidade militante que careciam outros partidos, inclusive aqueles que dispunham de ativistas sinceros e brilhantes.

Não difiro de sua opinião sobre Lenin, mas acredito que se podem acrescentar outros elementos a sua avaliação. Em primeiro lugar, Lenin mudava de posição rapidamente tendo em conta os acontecimentos (ou como os entendia ele). Isso é uma fortaleza óbvia. No entanto, há um perigo se você está tomando decisões quando está longe da batalha: estar ausente durante dois ou três dias significa que, quando você tem que mudar de tática rapidamente, e quando faz isso decididamente, é possível que você possa cometer um erro desastroso. Ou, como você diz, às vezes, embora seus conselhos fossem úteis, ao estar longe não podiam fazer mais que validar o que já estava em marcha.

A maioria das vezes Lenin falava de forma categórica, taxativa, o que às vezes supunha (e, sinceramente, não acho que fosse útil) que apresentava as questões de forma tão incisiva que quando mudava de posição, inclusive com tato, desconcertava seus camaradas. E é preciso relembrar que Lenin se equivocava de vez em quando. Por exemplo, antes do golpe de Estado de Kornilov, Lenin não só disse que “Não há nenhuma possibilidade de um complô da direita”, mas que mais ou menos disse: “Aqueles que creem nos rumores do complô da direita estão se enganando por bobagens para colaborar com os social-revolucionários e mencheviques, e terminar apoiando o governo de Kerensky”. Vituperava fortemente qualquer indício de uma conspiração. Poucos dias depois, o que tem sem mérito, Lenin se dá conta de que sim existe um complô e reagiu ante ele. Nunca admitiu que estivesse equivocado. Isso é algo que nunca vai fazer! Às vezes, pode-se dizer que quando admite que houve um “giro incrivelmente brusco nos acontecimentos” implicava que a realidade não concordava segundo as expectativas razoáveis!

Entretanto, embora reconhecemos que Lenin cometeu erros, sua capacidade para “sintonizar” com a realidade era absolutamente extraordinária. Vale a pena dizer que tanto seus camaradas como seus oponentes políticos assinalam isso repetidamente, qualificando sua sensibilidade ante essas mudanças do estado de ânimo popular como uma habilidade completamente extraordinária, quase historicamente única. Por esta razão encontramos Lenin em situações quase graciosas quando toma uma posição que seus camaradas consideram bastante extremada e tão só duas semanas depois recuperam a mesma postura que Lenin já havia proposto há duas semanas. Devido a suas mudanças de opinião, e no contexto do novo momento que faz de ontem uma relíquia antediluviana, decide que o passado não tem a ver com o presente. Quantos de nós, ao ler o que dissemos há duas semas diríamos: “Esta foi uma época distante, não preste a atenção nos meus conselhos de então!”

Por exemplo, imediatamente depois que Kornilov foi derrotado, Lenin publicou seu panfleto “Sobre os compromissos”, um documento que trata da colaboração com outros partidos socialistas. Me fascina. E não é porque nesse momento Lenin pode formular um plano concreto – devido à complexidade da situação – mas porque encarna uma mudança de posição muito significativa em relação ao trabalho de colaboração entre a militância de distintos partidos.

Creio que tudo isso poderia ser relevante para nós porque às vezes nos preocupamos em ter pontos sobre os “i” e tachar cada “t” em relação a nossas posições formais, e depois derivamos para posições práticas absolutamente herméticas. Está na natureza de uma realidade desordenada que às vezes não vamos estar muito seguros, que vamos nos atrapalhar e e fazer nosso melhor esforço com a intuição política e a análise que temos. E enquanto não for dogmático, e se acumulou uma antena suficiente, está bem.

Você mencionou a flexibilidade e a capacidade militante dos bolcheviques, mas também o fato de que havia revolucionários que militavam em outros partidos. O grupo preeminente neste sentido é o dos socialistas-revolucionários de esquerda liderados por Maria Spiridonova, uma personagem maravilhosa de 1917 que, com razão, você decide resgatar da História. Se os bolcheviques cresciam rapidamente, também faziam isso os SR de esquerda, mas estes não foram capazes, como sim o foram os bolcheviques, de lutar pela direção. Por este motivo, sempre é possível encontrá-los seguindo o caminho aberto pelos bolcheviques. O que você opina sobre esta dinâmica?

Na esquerda, há os que denomino cosplayleft que menospreza as outras tradições de forma sectária e historicamente cega. Temos que superar essa atitude.

Falando em termos gerais, os SR de esquerda eram como um espelho dos mencheviques de esquerda. Ambos compartilham algumas características similares, e também outras bastante opostas, em relação aos bolcheviques que os deixa para trás.

A característica compartilhada é a falta de vontade de romper com o maior partido. De forma compreensível, o povo se burla de nós, a esquerda, pelas intermináveis lutas internas e divisões entre socialistas; mas em algumas ocasiões, e essa foi uma delas, o menos pior que podia ocorrer era cindir-se. Em 1917, houve uma situação interessante: tanto os mencheviques de esquerda como os socialistas-revolucionários de esquerda faziam parte de partidos maiores, com pessoas cuja política se diferenciava daquela do partido ao qual pertenciam, e que estavam profundamente imbricados nas mesmas estruturas que a destes revolucionários – honrada, sincera e corretamente – comprometidos em derrubar o sistema. Então, no melhor dos casos, você tinha uma ambiguidade estrutural dentro destes partidos. No pior dos casos, estavam paralisados. Os SR de esquerda, por exemplo, mantiveram uma posição de insinceridade forçada: mentiam aos líderes de seu próprio partido. Estavam obrigados a fazer isso, porque, no fundamental, atuavam contra eles. A aversão à ruptura foi algo que impediu o avanço dos dois partidos.

Por outro lado, embora os mencheviques de esquerda partiam da análises sociais frequentemente brilhantes, e depois tratavam – para dizer isso cruamente – de integrar a realidade em suas fórmulas bastante abstratas (em lugar de basear suas análises nas complexas realidades concretas do mundo que os rodeava). Creio que os SR de esquerda fizeram o oposto. Sua tradição não priorizou suficientemente a análise. Havia intelectuais impressionantes entre eles, mas inclusive seus próprios partidários e simpatizantes comentavam que os SR de esquerda careciam das grandes figuras intelectuais que existiam entre os mencheviques de esquerda (de direita!). Portanto, não tinham uma base sólida para lutar pela hegemonia intelectual na batalha das ideias, ainda quando foram uns militantes fantásticos.

Com respeito ao conceito da hegemonia, no livro você assinala que ao tomar a decisão de liderar a insurreição para tomar o poder cometem “erros cômicos”. Você colhe uma descrição maravilhosa do camarada Blogonravov, responsável por levantar uma lanterna vermelha para dar o sinal ao navio de guerra Aurora para abrir fogo contra o Palácio de Inverno, onde seguia estando o que restava do governo burguês de Kerensky. Para começar, não logram encontrar uma lanterna, depois não pode acendê-la e, por último, não pode sobrevoá-la. É uma cena muito cômica mas, ao mesmo tempo, nos informa sobre as dificuldades entre a resistência e o poder. O que você pensa que permitiu à classe trabalhadora russa dar o salto final da resistência ao poder?

Há uma citação anterior à revolução de fevereiro (de fato, vinha da época imediatamente depois da fracassada revolução de 1905) sobre a consciência dividida do operário insurgente, do conflito entre seu compromisso total a lutar pela mudança e sua falta de confiança em poder vencer a classe dominante inimiga. O militante Shapovalov diz que é “como se houvesse dois homens vivendo dentro de mim”, um disposto a lutar e encarar a cárcere e o exílio, e outro “que não havia se libertado do sentido da dependência e do temor”. Ele odiava ao segundo, evidentemente. Estes militantes desprezavam seu medo, mas não podiam negá-lo. Portanto, viviam num desgarramento interior permanente para superar seu papel como objeto da história, conforme o sistema de classes os havia tornado, para se tornar sujeitos dessa mesma história. Quando chega outubro, essa sensação de medo, essa sensação de serem negados pela história, havia se superado em grande medida. A partir de fevereiro, houve momentos incrivelmente emocionantes quando o povo afirmava: “Sou um ser humano. Sou dono de minha própria dignidade. Tenho direito de exigir isso”. Contudo, o que fazia falta a nível popular, embora estivesse crescendo, era a disposição de aceitar tomar decisões e tomar o poder de forma concreta nas ruas e nas instituições. Uma coisa que você vê em outubro, distinta de fevereiro, é algo bastante gracioso, e às vezes ridículo, que vai além do mero fato de reivindicar o direito à dignidade (que se radicalizou enormemente em fevereiro); é o direito a tomar decisões reais, a tomar o poder em suas próprias mãos.

Há um pôster muito comovedor que consiste em duas imagens. Na parte superior está a imagem de um operário trabalhando, creio, nas rodas do trem. Lê-se “no passado, era engraxador. Lubrificava a roda”. Na parte inferior, intervém ante um público dizendo “nesse momento, me integro ao soviete e tomo decisões”. O movimento da primeira imagem à segunda representa uma mudança profunda e histórica.

Falando de trens, ao final de seu livro há um epílogo sobre o importante papel dos trens na revolução, similar ao que passa na Revolução mexicana. Você explora a relação entre, como diria Marx, o trabalho vivo e o trabalho morto e o caráter físico da revolução no século XX. Muito bem feito. Em seu livro você imaginou, quiçá você é o único entre os que escreveram sobre a revolução russa, um futuro ou tempos e lugares alternativos. E me pergunto o que você opina sobre esta questão do caráter físico da revolução no século XXI. Se as revoluções do século XX se centraram na classe operária industrial, as grandes fábricas do metal e têxtil de São Petersburgo, será o mesmo hoje em dia que vivemos numa constelação de capital muito diferente?

É uma pergunta realmente interessante. Não quero ser superficial, e não tenho ideias acabadas mas, como você disse, temos que ir além de um sentido nostálgico ou kitsch do que se entende como “a classe trabalhadora”. Estamos falando de uma classe que está geográfica e industrialmente dispersa em todas as partes e setores. De fato, muitas dessas indústrias teriam um grande poder numa situação de revolução, mas talvez a maioria das vezes de forma mais sútil e menos óbvia que há cem anos quando, por exemplo, a disseminação de informação estava tão diretamente relacionada, na maioria dos casos, com redes de comunicação físicas e visíveis. Hoje é diferente.

Um corolário desta mudança é que, em relação ao que falávamos antes sobre o atraso de informação de três dias que Lenin afrontava quando estava na clandestinidade, é difícil imaginar esse tipo de situação nesta época. O atraso é geralmente infinitesimal. A censura e o controle da informação, inclusive em linha, é demasiado real: no entanto, suspeito, que se chegamos a uma situação como essa, o tipo de censura com a qual sonham os poderes despóticos seria impossível.

Bom, agora sobre os trens. Efetivamente, na Rússia e em seu império em 1917 eram, literalmente, redes físicas. Mas no livro também são uma metáfora organizativa. Me interessa o poder das metáforas políticas porque, para mim, os humanos somos intrinsecamente pensadores metafóricos. Não há nada inevitável a respeito, mas acredito que às vezes se pode pensar melhor – com mais matizes, mais agilidade – com mecanismos metafóricos que sem eles. Não se trata só de que as metáforas sejam uma espécie de filigrana, uma cobertura literária que flutua sobre uma investigação científica mais rigorosa, um falar bonito que em realidade não diz nada.

Creio que uma das lições do modernismo literário (entre outras tendências) é que um certo tipo de escrita, ficção e não-ficção, pode desdobrar metáforas. Esta forma de pensar não se pode reduzir a um pensamento técnico mais beleza. Pode-se ter um sentido mais rico da realidade que quando um se limita, como você já sabe, a Só os feitos, senhora.

As metáforas são algo que criar, não algo que existe aí fora; algo que você tem que apanhar, como Pokémon, para decodificá-las. Como tal, seus termos são eminentemente reversíveis. Por exemplo, meu ponto de vista sobre a metáfora do trem não é que esta seja a melhor ou a única metáfora que dê acesso à realidade da revolução. Estive discutindo no Museu Tate de Londres com Esther Leslie, a grande acadêmica marxista, sobre estes temas, e ela me disse que encontra um grande atrativo à metáfora de Walter Benjamin que vê a revolução como um freio, a tração do freio de emergência, exatamente o contrário do que pensamos frequentemente, e a imagem que eu tenho. Creio que ambos podem ser corretos.

E, inversamente, quando um fascista lança a metáfora do trem da história, ou do freio, para seus próprios fins, para representar seu dia do juízo final… estão equivocados! Não há contradição nisso. Porque acredito que as metáforas funcionam em relação às coisas que você faz.

Além das metáforas, você também usa o humor. Qual era o apodo de Kámenev e Zinóviev? Os gêmeos etéreos?

Os gêmeos celestiais!

Claro. Há uma linha no livro onde você descreve sua oposição à insurreição, e você diz: “A vacilação para derrubar a burguesia foi tão Kamenev”. Me parece que é a linha mais divertida do livro. Se há uma linha escrita para falar aos socialistas da geração milênio, essa é a linha! Como usar o humor quando você escreve para uma nova geração sobre uma revolução muito antiga?

Me alegra que você deu conta. Sim, de verdade, queria que fosse gracioso!

Creio que a esquerda às vezes não tem a capacidade de usar o humor. Com frequência, é bastante pesada ou, como mínimo, este foi o caso da esquerda anglófona. Tem uma tradição bastante funesta de levar tudo excessivamente a sério, de não estar disposta a burlar-se ou ser um faz-me-rir. As piadas podem ser destrutivas, evidentemente, mas nem sempre. Essa defesa frágil é um sintoma de falta de confiança. Não devemos temer ao humor, e não todas as gerações passadas o temiam.

A escritora Nadezhda Lokhvitskaya, conhecida como “Teffi”, próxima aos bolcheviques, brincou uma vez sobre que “se Lenin falasse de uma reunião na qual ele, Zinoviev, Kamenev e cinco cavalos estiveram presentes, diria: ‘Havia oito de nós’”. Agora, se você é de esquerda, é provável que você tenha assistido a uma reunião decepcionante, que os organizadores tratavam freneticamente de tentar estendê-la. Então, se você não ri dela abertamente, se você finge que não a entende, e muito menos você queixa de que não é graciosa, então você está enganando a si mesmo, mas a ninguém mais. Seria bom se pudéssemos ser mais amáveis e mais relaxados sobre esse tipo de coisas…, é gracioso.

Há outro ponto sobre a linha “tão Kamenev”. Às vezes, Lenin e outros revolucionários eram, como eles mesmos reconheceram, brutais em suas humilhações pessoais, de maneira que, francamente, é difícil não considerá-los como contraproducentes e injustificados. Mas o contrário disso também é importante. Ou seja, supondo que não houvesse cometido uma perfídia concreta, se tratasse de ter uma posição política diferente, uma vez que se decida a linha política, não há razão para não poder continuar tendo um humor perfeitamente civilizado e uma relação pessoal carinhosa. Então, você tem um argumento brutal no qual a cautela de Kamenev está sujeita a um ataque execrável. Agora, depois de ter ganhado o debate, seus camaradas poderia relaxar e burlar-se dele. Sabe, algo assim como: “Sempre você é o último em assinar a derrubada histórica da ordem capitalista!”. No terreno dos sarcasmos pessoais sempre há algo bastante inquietante sobre a crítica dura e pura – das quais, repito, sem dúvida, ainda hoje temos experiência dentro da esquerda-, e também algo bastante comovedor e doce sobre a rapidez com a qual se podem inverter ou esquecer.

Isso pode ser visto, ainda que de maneira ainda mais exagerada, em outubro. Kamenev e Zinoviev levaram a cabo um verdadeiro ato de violação da disciplina por escrever contra os planos do partido na imprensa no jornalista, um ato que prejudicou muito a linha acordada pelos bolcheviques. Entretanto, inclusive depois disso, uma vez que a política havia avançado até o ponto em que parecia que o projeto em questão ia bem, que a batalha se ganharia, poucos dias depois de sua transgressão, Lenin estava zombando disso. Inclusive durante a noite da insurreição. Agora, estou seguro de que havia algo de vinagre em suas brincadeiras, mas ainda assim, da mesma forma que estas coisas podem dar a volta de forma brutalmente rápida, também podem ser desarmadas de novo. E o humor pode ser chave nisso.

Fonte: https://isreview.org/issue/107/novel-retelling-october-revolution


1 Nesta carta há declarações comovedoras como: “Aos governantes não lhes importa nossa vida em absoluto, são como o animal que encheram de bolotas e logo começou a arrancar a raiz do carvalho; quando o corvo lhe disse desde o carvalho: ‘Ingrato, você não vê? Isso está danificando a árvore, poderia secar’, em resposta o animal disse: ‘Deixa que se seque, isso não me molesta no mais mínimo para tenha minhas bolotas” Letter-essay to “Comrade Citizens” from soldier A. Kuchlavok, approved by the regiment, received August 1917, in Mark D. Steinberg, Voices of Revolution, 1917 (New Haven: Yale University Press, 2001), 207–213.

2 O ensaio pode ser encontrado em vários lugares, inclusive no blog de John Riddell,

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

A edição n.6 da Revista Movimento celebra o centenário da Revolução de Outubro com artigo de Kevin Murphy sobre as origens do stalinismo. Luciana Genro discute a continuidade da Operação Lava Jato. Alvaro Bianchi introduz a nossos leitores conceitos de Antonio Gramsci. A revista também apresenta tradução de palestra de Angela Davis. Na seção internacional, publicamos artigo de Perry Anderson sobre a resiliência do centro neoliberal europeu. Edgardo Lander trata da situação venezuelana, Pedro Fuentes e Charles Rosa abordam a questão catalã. Um instigante artigo de Maycon Bezerra sobre Florestan Fernandes, a tese do MES para o Congresso do PSOL e nossa plataforma sindical completam a edição.

Arte de Adria Meira sobre El Lissitzky

Uma biografia inédita de Stalin escrita por Leon Trotsky Uma biografia inédita de Stalin escrita por Leon Trotsky

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