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O que a nova Rota da Seda significa para os chineses?

O projeto de expansão internacional chinês conhecido como a nova Rota da Seda também significa uma série de implicações domésticas ao país.

Vista da ponte Guozigou, na região de Xinjiang na China - Reprodução
Vista da ponte Guozigou, na região de Xinjiang na China - Reprodução

Enquanto que a OBOR (Acrônico em inglês para Um Cinturão, uma Rota; ou One Belt, One Road, também conhecida como a nova Rota da Seda) é uma estratégia de desenvolvimento exterior que é esperada para expandir significativamente o alcance político e econômico chinês ultra marítimo, ela também tem implicações domésticas potencialmente significantes. Por um lado, como mostrado acima, a OBOR é em parte planejada para resolver problemas domésticos como questões de excesso de capacidade, enquanto que, por outro lado, ela deve trazer lucros de volta para a China de investimentos ultra marítimos feitos pelas companhias chinesas. Com novas oportunidades de comércio e investimentos feitos na China, de acordo com algumas narrativas de desenvolvimento, isso também deve contribuir para melhorar a prosperidade doméstica. De fato, a OBOR também busca apoiar o desenvolvimento e reformas de todas as províncias e regiões chinesas 1, com diferentes províncias e regiões pretendendo ter diferentes funções dentro do projeto, muitas delas, inclusive, interconectando também seus próprios projetos de desenvolvimento a ele.

O que a nova Rota da Seda significa para os chineses?

A este respeito, Xinjiang e Fujian foram consideradas como “áreas principais” em razão de sua localidade geográfica. Xinjiang é vista como a “janela para o oeste” dos países do centro, sul e oeste asiáticos e é esperada para ser o centro financeiro da China ocidental, enquanto Fujian é importante para a Rota da Seda marítima e focará no desenvolvimento futuro em logística e nos setores navais e marítimos. As regiões do oeste de Chongqing, Shaanzi, Sichuan, Xinjiang e Yunnan também focarão em projetos de infraestrutura e urbanização e em expandir as oportunidades de comércio internacional. Enquanto isso, Gansu, Ningxia e Xinjiang têm um papel devido à suas boas fontes naturais e agrícolas. Nas províncias orientais de Fujian, Guangdong Jiangsu e Zhjiang, são esperadas novas oportunidades em setores mais avançados como serviços financeiros e profissionais, no setor naval e de logística, manufatura avançada, e-commerce, saúde e ciências da vida.

Com a China sofrendo internamente de um significante desenvolvimento desigual, contudo, partes do projeto OBOR parecem ter a intenção de avançar o desenvolvimento de regiões menos desenvolvidas. Tais objetivos são também importantes se considerarmos a preocupação doméstica do Partido Comunista Chinês (PCC) com sua legitimidade e estabilidade social, algo que depende parcialmente da manutenção das taxas estáveis de crescimento econômico e da situação de emprego, áreas que estiveram sob tensão nos anos recentes enquanto a economia desacelerava.

Xinjiang é uma das regiões subdesenvolvidas na qual, como descrito acima, peso considerável é dado nos planos oficiais do OBER e da CPEC para os potenciais benefícios econômicos que essas iniciativas podem trazer. Xinjiang é também uma região que viu muita agitação devido à supressão do governo chinês da população uigure, e que viu o reassentamento de um grande número de migrantes de todas as partes da China para Xinjiang como parte de uma política de pacificação. A este respeito, um relatório sobre a OBOR e seus prováveis impactos em Xinjiang pelo Projeto Uigure de Direitos Humanos notou quão cedo projetos dirigidos centralmente, que encorajaram a construção de infraestrutura, investimento e migração como a Abertura do Nordeste (1992), Desenvolvimento do Oeste (2000), e os Fóruns de trabalho de Xinjiang de 2010 e 2014, fizeram pouco para melhorar a situação econômica dos uigures e contribuíram, ao contrário, para o seu deslocamento no futuro, enquanto os uigures não têm direito em participar do processo de desenvolvimento. Seguindo isso, o relatório considera a OBOR uma continuação de abordagens estatais anteriores de desenvolvimento, que irão conter a identidade cultural, exacerbar as tensões em relação à assimilação e à marginalização cultural, enquanto que seus investimentos resultam num ganho equitativo de benefícios aos uigures 2. Ele também cita a análise de Michael Clarke, um acadêmico que pesquisou Xinjiang e o crescimento chinês, quando ele argumenta que “a intensificação da oposição uigure e tibetana ao comando chinês desde 2008 mostrou para Pequim a necessidade em acelerar o desenvolvimento e a modernização econômica dessas regiões como o principal meio para alcançar a sua integração ao moderno Estado chinês”.

Embora a OBOR seja uma iniciativa comparativamente nova e os impactos sejam ainda difíceis de julgar, dada a experiência passada das consequências do desenvolvimento chinês nas últimas décadas, distribuição igualitária e o ganho de benefícios genuínos para muitos chineses são questões muito duvidosas. Considerando que antes dos anos 80 os níveis de desigualdade eram muito baixos, a partir do período em que a China começou sua reforma de mercado, a desigualdade econômica no país cresceu substancialmente – tanto que ela agora se coloca como uma das maiores do mundo. Enquanto as estimativas variam, e o governo chinês parou de lançar dados oficiais desde 2000, alguns analistas avaliaram que o coeficiente de gini chinês teria chegado a 0.73 ou mais em 2012, e que o 1% mais rico possui mais do que um terço da riqueza nacional.

Enquanto isso, a destruição ambiental e a poluição também se tornaram um problema central uma vez que a China buscou rápido crescimento e desenvolvimento. Isso é algo que também teve um impacto direto na saúde da população. A poluição do ar é apenas um exemplo, na qual a fumaça tóxica se tornou uma ocorrência comum em várias grandes cidades, particularmente no norte da China, como resultado do aumento da queima de carvão e emissões industriais e veiculares. A poluição se tornou tão séria que uma pesquisa realizada pela Escola do Meio Ambiente da Universidade de Nanjing publicada em 2016 descobriu que a poluição era responsável por um terço das mortes na China. Enquanto isso, mais de 60% das águas subterrâneas são tidas como poluídas, com uma série de fontes contaminadas por lixo químico e industrial. De acordo com o Greenpeace, 320 milhões de pessoas na China não têm acesso à água limpa.

Com o governo chinês não mostrando sinais de romper com as trajetórias que alimentaram isso no futuro próximo, e com a OBOR representando apenas uma expansão exterior, ao mesmo tempo em que os investimentos ultra marítimos da OBOR podem ser esperados para prejuízos ecológicos futuros e impactos negativos nas vidas de pessoas comuns, domesticamente é provável que a OBOR também represente apenas outra iniciativa que prioriza lucros para as elites e o fortalecimento do regime do Partido Comunista, ao invés de melhorias significativas para às pessoas comuns e o meio ambiente.

Artigo publicado no internationalviewpoint.org. Tradução de Pedro Micussi para a Revista Movimento. 


Notas

1 One Belt One Road: A role for UK companies in developing China’s new initiative, China-Britain Business Council.

2 End of the Road: One Belt, One Road and the Cumulative Economic Marginalization of the Uyghurs, Uyghur Human Rights Project, March 2017.

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Apresentação

Esta é uma edição especial de nossa Revista Movimento. Como forma de contribuir para os debates que ocorrerão na VI Conferência Nacional de nossa corrente, o Movimento Esquerda Socialista, este volume reúne dois números da revista (7 e 8). Dessa forma, pretendemos oferecer à militância e a nossos aliados e leitores documentos que constam do temário oficial do evento, bem como materiais que possam subsidiar as discussões que se realizarão. Na expectativa de uma VI Conferência de debates proveitosos para nossa corrente, desejamos a todas e todos uma boa leitura deste volume!

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