6 de Janeiro: A união forçosa é um desastre coletivo
O primeiro-ministro espanhol Mariano Rajoy - Reuters: Juan Carlos Hidalgo

6 de Janeiro: A união forçosa é um desastre coletivo

Na primeira crônica catalã de 2018, Alfons Bech atualiza o patamar da luta pela independência da região

Alfons Bech 10 jan 2018, 17:24

A decisão do juiz Llarena de manter Oriol Junqueras [líder da Esquerda Republicana Catalã] na cárcere mostra o limite deste Estado espanhol. Um estado imperialista fracassado, não democrático. Os que dirigem este Estado pensam que com a repressão, as ameaças, as surras, a cárcere para alguns de seus dirigentes, resolverão o estado de coisas? Ao contrário: se complicarão cada vez mais.

Sem ir mais longe a aplicação de todo o arsenal repressivo já está provocando a retirada de apoios de várias autonomias aos orçamentos gerais do Estado que o PP tem que apresentar para 2018. Começando pelos nacionalistas bascos, mas seguindo pelos socialistas valencianos e das ilhas Baleares. Não; o PP não tem nada fácil seguir governando esta Monarquia corrupta, apesar do apoia que lhe brinda a direção do PSOE e de Ciudadanos.

Não falemos já da corrupção, com casos que cada dia atingem a dom “M. Rajoy”, ao que os juízes não são capazes de identificar (!!!). Falo de que o equilíbrio territorial e econômico estabelecido com o regime de 78 já não dá mais de si. Nem a Monarquia pode ceder uma “cota catalão” como têm os bascos porque se arruinaria e entraria em guerra com as autonomias que recebem os benefícios que aportam a autonomia mais ricas – portanto num lugar destacado a catalã – nem pode seguir afogando econômica e financeiramente ao principal motor industrial e turístico do Estado, que é a galinha dos ovos de ouro.

Se alguém pensa friamente a única opção que lhe resta a Rajoy e ao bloco do 155 é continuar e aumentar a repressão, é a mobilização do exército e da ala fascista que representam muito bem Ciudadanos e alguns “socialistas” como Borrell. Somente assim podem conseguir – por um certo tempo não muito longo – dar a volta ao que as eleições mostraram, uma e outra vez, mas nesta ocasião com maior corpulência e com uma participação recorde de 81%: que os independentistas são já o setor social majoritário e mais mobilizado da Catalunha. O 21 D foi a derrota do 155. Não há discussão.

A ministra da Defesa, Cospedal, já deixou claro nesta Páscoa militar que “o exército esteve e está preparado” para quando tiver que intervir. A esta franquista não-reciclada não lhe cai a cara de vergonha de adicionar que nenhum mando do exército tenha feito um pronunciamento “não é tão fácil consegui-lo em nenhum país do entorno”. Ou seja, que devemos dar as graças porque não produzido outra tentativa de golpe de Estado como o 23F do 81.

Mas se o PP o tem difícil não quer dizer que o povo trabalhador e a democracia o tenham fácil.

Ao livrar-se da careta “democrática” o Estado vai avançando num caminho do qual é difícil sair. Guardadas as proporções, a atuação do Estado espanhol e das forças do 155 me voltam à memória os inícios das guerras balcânicas do início dos anos 90. Começou com o ataque do principal Estado da Federação iugoslava, Sérvia, a seus vizinhos em favor de controlar o conjunto da Federação. Isso é o que levou a um desmembramento violento, nefasto para todas as partes. Em contrapartida, como destacaram os presidentes das atuais República Tcheca e a Eslováquia, a separação amistosa entre ambas somente trouxe benefícios. Mas… pode o Estado espanhol aceitar uma solução assim?

Oriol Junqueras seguirá no cárcere. Não por nenhum perigo imediato, não por nenhum plano “anticonstitucional”. Seguirá na cárcere porque mantém suas ideias independentistas. No dia 4, o juiz Llarena o decidiu assim, numa sorte de juízo express e paraleo, sem poder defender-se nem que o Estado apresente provas. Bastam as suposições de um juiz. Ele e o governo e o governo do PP, com apoio implícito de PSOE e explícito de Ciudadanos, fecham a porta para o diálogo, para a negociação, para a investidura do governo que as urnas decidiram.

Puigdemont no exílio junto a quatro conselheiros. Oriol Junqueras, Font e os dois Jordis na cárcere. O desafio de formar governo e seguir mobilizando-se é a chave para que as brechas do regime se mostrem em toda a sua magnitude e deem espaço para uma mudança social e democrática neste 2018.

La Aurora – 06/01


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
Na 16ª edição, estão disponíveis dois dossiês. No primeiro, sobre o ecossocialismo, podem-se se encontrar as recentes teses de Michael Löwy, além de uma entrevista com o sociólogo e dirigente da IV Internacional. Também publicamos uma entrevista com Zé Rainha, dirigente da FNL, sobre sua trajetória de luta e os desafios dos socialistas no Brasil; uma entrevista com Antônia Cariongo, dirigente quilombola e do PSOL-MA; e artigos de Luiz Fernando Santos, sobre a lógica marxista e a Amazônia, e de Marcela Durante, do Setorial Ecossocialista do PSOL. O segundo dossiê traz algumas análises iniciais sobre a pandemia de coronavírus. Há artigos de Mike Davis e Daniel Tanuro; documentos do MES e do Bureau da IV Internacional; além de uma densa análise de nossas companheiras Evelin Minowa, Joyce Martins, Luana Alves, Natália Peccin Gonçalves, Natalia Pennachioni e Vanessa Couto e de um artigo do camarada Bruno Magalhães. A seção de depoimentos traz um instigante artigo de Pedro Fuentes sobre a história de seu irmão Luis Pujals, o primeiro desaparecido político da história da Argentina. Já a seção internacional traz uma análise do sociólogo William I. Robinson sobre a situação latino-americana.