Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

6 de Janeiro: A união forçosa é um desastre coletivo

Na primeira crônica catalã de 2018, Alfons Bech atualiza o patamar da luta pela independência da região

O primeiro-ministro espanhol Mariano Rajoy - Reuters: Juan Carlos Hidalgo
O primeiro-ministro espanhol Mariano Rajoy - Reuters: Juan Carlos Hidalgo

A decisão do juiz Llarena de manter Oriol Junqueras [líder da Esquerda Republicana Catalã] na cárcere mostra o limite deste Estado espanhol. Um estado imperialista fracassado, não democrático. Os que dirigem este Estado pensam que com a repressão, as ameaças, as surras, a cárcere para alguns de seus dirigentes, resolverão o estado de coisas? Ao contrário: se complicarão cada vez mais.

Sem ir mais longe a aplicação de todo o arsenal repressivo já está provocando a retirada de apoios de várias autonomias aos orçamentos gerais do Estado que o PP tem que apresentar para 2018. Começando pelos nacionalistas bascos, mas seguindo pelos socialistas valencianos e das ilhas Baleares. Não; o PP não tem nada fácil seguir governando esta Monarquia corrupta, apesar do apoia que lhe brinda a direção do PSOE e de Ciudadanos.

Não falemos já da corrupção, com casos que cada dia atingem a dom “M. Rajoy”, ao que os juízes não são capazes de identificar (!!!). Falo de que o equilíbrio territorial e econômico estabelecido com o regime de 78 já não dá mais de si. Nem a Monarquia pode ceder uma “cota catalão” como têm os bascos porque se arruinaria e entraria em guerra com as autonomias que recebem os benefícios que aportam a autonomia mais ricas – portanto num lugar destacado a catalã – nem pode seguir afogando econômica e financeiramente ao principal motor industrial e turístico do Estado, que é a galinha dos ovos de ouro.

Se alguém pensa friamente a única opção que lhe resta a Rajoy e ao bloco do 155 é continuar e aumentar a repressão, é a mobilização do exército e da ala fascista que representam muito bem Ciudadanos e alguns “socialistas” como Borrell. Somente assim podem conseguir – por um certo tempo não muito longo – dar a volta ao que as eleições mostraram, uma e outra vez, mas nesta ocasião com maior corpulência e com uma participação recorde de 81%: que os independentistas são já o setor social majoritário e mais mobilizado da Catalunha. O 21 D foi a derrota do 155. Não há discussão.

A ministra da Defesa, Cospedal, já deixou claro nesta Páscoa militar que “o exército esteve e está preparado” para quando tiver que intervir. A esta franquista não-reciclada não lhe cai a cara de vergonha de adicionar que nenhum mando do exército tenha feito um pronunciamento “não é tão fácil consegui-lo em nenhum país do entorno”. Ou seja, que devemos dar as graças porque não produzido outra tentativa de golpe de Estado como o 23F do 81.

Mas se o PP o tem difícil não quer dizer que o povo trabalhador e a democracia o tenham fácil.

Ao livrar-se da careta “democrática” o Estado vai avançando num caminho do qual é difícil sair. Guardadas as proporções, a atuação do Estado espanhol e das forças do 155 me voltam à memória os inícios das guerras balcânicas do início dos anos 90. Começou com o ataque do principal Estado da Federação iugoslava, Sérvia, a seus vizinhos em favor de controlar o conjunto da Federação. Isso é o que levou a um desmembramento violento, nefasto para todas as partes. Em contrapartida, como destacaram os presidentes das atuais República Tcheca e a Eslováquia, a separação amistosa entre ambas somente trouxe benefícios. Mas… pode o Estado espanhol aceitar uma solução assim?

Oriol Junqueras seguirá no cárcere. Não por nenhum perigo imediato, não por nenhum plano “anticonstitucional”. Seguirá na cárcere porque mantém suas ideias independentistas. No dia 4, o juiz Llarena o decidiu assim, numa sorte de juízo express e paraleo, sem poder defender-se nem que o Estado apresente provas. Bastam as suposições de um juiz. Ele e o governo e o governo do PP, com apoio implícito de PSOE e explícito de Ciudadanos, fecham a porta para o diálogo, para a negociação, para a investidura do governo que as urnas decidiram.

Puigdemont no exílio junto a quatro conselheiros. Oriol Junqueras, Font e os dois Jordis na cárcere. O desafio de formar governo e seguir mobilizando-se é a chave para que as brechas do regime se mostrem em toda a sua magnitude e deem espaço para uma mudança social e democrática neste 2018.

La Aurora – 06/01

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

A décima terceira edição da Revista Movimento dedica-se ao debate sobre os desafios da esquerda socialista no Brasil diante da crise nacional que se desenrola há anos e do governo Bolsonaro. Para tanto, foram convidados dirigentes do PSOL, do MES e de outras organizações revolucionárias que atuam no partido. O dossiê sobre a estratégia da esquerda e o PSOL reflete os desafios da organização de um polo socialista no interior do partido. Há também, na seção nacional, reflexões sobre a crise econômica brasileira, as revelações de The Intercept e as lutas da juventude e da negritude. As efemérides do centenário da escola Bauhaus e do cinquentenário do levante de Stonewall também aparecem no volume, além da tese das mulheres do MES para o Encontro de Mulheres do PSOL.

Ilustração da capa da Revista Movimento

MES: Movimento Esquerda Socialista MES: Movimento Esquerda Socialista