Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

Rosa Luxemburgo, por Clara Zetkin

99 anos após o assassinato de Rosa Luxemburgo, resgatamos texto da militante feminista alemã em sua homenagem.

Clara Zetkin, à esquerda, ao lado de Rosa Luxemburgo - Reprodução
Clara Zetkin, à esquerda, ao lado de Rosa Luxemburgo - Reprodução

Em Rosa Luxemburgo vivia uma indomável vontade. Dona sempre si, sabia atiçar no interior de seu espírito uma chama disposta a brotar quando fizesse falta, e não perdia jamais seu aspecto sereno e imparcial. Acostumada a dominar a si mesma, podia disciplinar e dirigir o espírito dos demais. Sua delicada sensibilidade precisava estar protegida das influências externas. Sua aparente frieza e estrita reserva era a tela detrás da qual se escondia uma vida de sentimentos ternos e profundos; uma grande simpatia que não abraçava somente os seres humanos, mas que abarcava a todos os seres vivos e encarou o mundo como um todo unificado. Quantas vezes aquela a quem chamavam “Rosa, a sanguinária”, toda fatigada e cansada de trabalho, se detinha e voltava atrás para salvar a vida de um inseto perdido entre as plantas! Seu coração estava aberto a todas as dores humanas. Não carecia nunca de tempo nem de paciência para escutar ao que acudiam a ela buscando ajuda e conselho. Para si, não necessitava nunca de nada e se privava com gosto do mais necessário para dá-lo a outros.

Severa consigo mesma, era toda indulgência para com seus amigos, cujas preocupações e aflições a entristeciam mais que seus próprios pesares. Sua fidelidade e sua abnegação estavam acima de qualquer prova. E aquela que era tida como uma fanática e sectária, esbanjava cordialidade, engenho e bom humor quando se encontrava rodeada de seus amigos. Sua conversa encantava a todos. A disciplina que se impunha e seu natural pudor haviam lhe ensinado a sofrer apertando os dentes. Em sua presença parecia desvanecer-se tudo o que era vulgar e brutal. Aquele corpo pequeno, frágil e delicado abrigava uma energia sem igual. Sabia exigir sempre de si mesma o máximo esforço e jamais fracassava. E quando se sentia a ponto de sucumbir ao esgotamento de suas energias, impunha-se para descansar um trabalho ainda mais pesado. O trabalho e a luta lhe infundiam vigor. De seus lábios, raramente saíam um “não posso”; em contrapartida, o “devo” aparecia todas as horas. Sua delicada saúde e as adversidades não faziam rachaduras em seu espírito. Rodeada de perigos e de contrariedades, jamais perdeu a segurança em si mesma. Sua alma livre vencia os obstáculos que a cercavam.

Mehring tem farta razão quando disse que Luxemburgo era a mais genial discípula de Karl Marx. Tão claro como profundo, seu pensamento brilhava sempre por sua independência; ela não necessitava submeter-se às fórmulas rotineiras, pois sabia julgar por conta própria o verdadeiro valor das coisas e dos fenômenos. Seu espírito lógico e penetrante era enriquecido com a instrução das contradições que oferece a vida. Suas ambições pessoais não contentavam em conhecer Marx, dominar e interpretar sua doutrina; necessitava seguir pesquisando por si mesma e criar sobre o espírito do mestre. Seu estilo brilha lhe permita dar realce a suas ideias. Suas teses não eram jamais demonstrações secas e áridas, circunscritas nos quadros da teoria e da erudição. Repletas de engenho e de ironia, em todas elas vibrava sua contida emoção e todas revelavam uma imensa cultura e uma fecunda vida interior. Luxemburgo, grande teórica do socialismo científico, não incorria jamais nesse pedantismo livresco que aprende tudo na letra de molde e não sabe de mais alimento espiritual que os conhecimentos indispensáveis e circunscritos em sua especialidade; seu grande afã de saber não conhecia limites e seu amplo espírito, sua aguda sensibilidade, a levavam a descobrir na natureza e na arte fontes continuamente renovadas de gozo e de riqueza interior.

No espírito de Rosa Luxemburgo o ideal socialista era uma paixão avassaladora que tudo atropelava; uma paixão, à par cérebro e do coração, que a devorava e a instigava a criar. A única ambição grande e pura desta mulher sem par, a obra de toda a sua vida, foi a de preparar a revolução que havia abrir uma passagem franca ao socialismo. O poder viver a revolução e tomar parte em suas batalhas era para ela a suprema alegria. Com uma vontade férrea, com um desprezo total de si mesma, com uma abnegação que não há palavras com que expressar, Rosa pôs a serviço do socialismo tudo o que era, tudo o que valia, sua pessoa e sua vida. A oferenda de sua vida à ideia, não deixou tão somente no dia de sua morte; havia dado pedaço a pedaço em cada sua existência de luta e de trabalho. Por isso, podia legitimamente exigir também aos demais que o entregassem tudo, sua vida inclusive, no interesse do socialismo. Rosa Luxemburgo simboliza a espada e a chama da revolução, e seu nome ficará gravado nos séculos como uma das mais grandiosas e insignes figuras do socialismo internacional.

Setembro de 1919

Fonte: The Communist International No. 5, 1 de septiembre de 1919, pág. 5

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

A edição n.6 da Revista Movimento celebra o centenário da Revolução de Outubro com artigo de Kevin Murphy sobre as origens do stalinismo. Luciana Genro discute a continuidade da Operação Lava Jato. Alvaro Bianchi introduz a nossos leitores conceitos de Antonio Gramsci. A revista também apresenta tradução de palestra de Angela Davis. Na seção internacional, publicamos artigo de Perry Anderson sobre a resiliência do centro neoliberal europeu. Edgardo Lander trata da situação venezuelana, Pedro Fuentes e Charles Rosa abordam a questão catalã. Um instigante artigo de Maycon Bezerra sobre Florestan Fernandes, a tese do MES para o Congresso do PSOL e nossa plataforma sindical completam a edição.

Abaporu

Uma biografia inédita de Stalin escrita por Leon Trotsky Uma biografia inédita de Stalin escrita por Leon Trotsky

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