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Afrin ocupado pela Turquia: a luta continua

A perda de Afrin é um duro golpe para o Curdistão sírio e o movimento de libertação curdo em seu conjunto.

Tropas turcas na Síria miram militantes curdos - AFP
Tropas turcas na Síria miram militantes curdos - AFP

As Unidades de Proteção Popular (YPG) defenderam a província de Afrin – um bolsão isolado controlado pelos curdos no norte da Síria – durante quase dois meses contra-ataques em três frentes. Frente à potência de fogo superior dos turcos, com sua artilharia de longo alcance, alcance e força aérea – para não falar das milícias do Exército Livre da Síria apoiadas pelo exército turco – as forças das YPG haviam se retirando gradualmente para a cidade Afrin.

Todo o mundo esperava uma prolongada resistência na cidade de Afrin das YPG, que lutou por cada posição defensável, construída ou natural, apesar de sofrer grandes perdas. Desfrutaram de um amplo apoio da população de Afrin e haviam preparado estruturas defensivas sólidas. Mas tentar resistir numa cidade rodeada teria terminado com uma derrota gloriosa – e provocado a devastação da cidade e de sua população (a máquina de propaganda da Turquia acusou as YPG de tentar reter os civis e utilizá-los como ‘escudos humanos’). O comando das YPG preferiu evacuar os civis e retirar-se para lutar outro dia, voltando às táticas de guerrilha. A administração de Afrin levou a cabo uma coletiva de imprensa e sua declaração foi:

“Durante 58 dias de ataques, nosso povo e os combatentes ofereceram uma grande resistência contra o segundo maior exército da OTAN. Todo o mundo deve saber que nosso povo e os combatentes resistiram a este ataque selvagem com grande decisão… Com o fim de evitar um grande desastre humanitário, decidimos a evacuação da população civil da cidade… A guerra passa a outra etapa, com novas táticas para impedir a matança de civis e dar um golpe nos bandos. Nossas forças estão desdobradas por todas as partes em Afrin e vão infligir um duro golpe no exército invasor turco e seus bandos em sua própria base”.

Porém, a rendição foi uma surpresa para muitos. O ministro de assuntos exteriores turco deu uma data limite para a captura da cidade de Afrin nos finais de abril e se esperavam duros combates mano a mano durante o primeiro trimestre. Ademais, a oposição no Parlamento turco solicitou ao presidente Erdogan que não tentasse capturar Afrin dado o provável número de baixas.

Entre a esquerda turca o coro inicial foi “Deveriam ter lutado até a última bala”, até que o povo tenha recuperado o sentido comum. No entanto, eclodiu uma nova onda de “críticas” contra as YPG: dado que se conhecia a potência desproporcionada das forças armadas turcas desde o princípio, motivo pelo qual YPG decidiram defender Afrin e aceitar um alto índice de baixas?

Uma crítica razoável somente para aqueles que acreditam que as batalhas se podem perder ou ganhar sem ter que lutar. Mas os curdos se viram obrigados a lutar batalhas contra toda a probabilidade de vitória durante séculos. Cada derrota dá a sua causa mais credibilidade e recolhe apoios em todos os rincões do mundo.

Reordenamento

Evidentemente, a perda de Afrin é um duro golpe para o Curdistão sírio e o movimento de libertação curdo em seu conjunto, mas também abriu uma nova fase na guerra civil na Síria.

O consenso internacional parecia ser permitir que o regime sírio capturasse o leste de Ghouta e que a Turquia capturasse Afrin. Isso pode ser parte do plano para terminar a guerra civil da Síria rapidamente, mas vai sentar as bases de novos conflitos no futuro. É provável que se permita às forças jihadistas islâmicas que operam no leste de Ghouta se desenvolvam mais ou menos intactas na zona sob controle turco de Idlib / Afrin – onde poderiam desempenhar um papel nos ataques de Turquia contra os curdos. Assim que as forças jihadistas que lutavam contra o regime sírio agora estariam operando contra os curdos.

Turquia domina as províncias Afrin e Idlib e controla o Exército Livre da Síria, assim como a Frente al-Nusra e outras milícias jihadistas que operam em Idlib. Estabeleceram-se vários “postos de observação” entre Idlib e a linha Alepo-Homs controlada pelas forças de Bashar al-Assad. O mais provável é que uma parte do acordo seja o fim dos combates ao longo desse corredor. Segundo o acordo turco-russo de dezembro, uma seção limitada do espaço aéreo sírio sobre Afrin ficou aberto à força aérea turca, e as forças curdas retiraram-se mais ao sul, atrás da linha de demarcação em torno de Tel Rifaat. Ainda que tivesse sido muito tentador para a força aérea da Turquia atacar as forças das YPG, enquanto se retiravam, não fizeram isso para evitar a oposição da Rússia. Agora as forças de ocupação estabelecerão pontos de controle na estrada de Afrin a Tel Rifaat e ali se deterão até que as cartas se embaralhassem de novo.

A Rússia permitiu a Turquia operar com certa liberdade para enfrentá-la abertamente com os EUA. A Turquia está em claro desacordo com seu aliado tradicional, que cooperou com as forças das YPG em sua luta contra o Estado islâmico ao longo da fronteira entre a Síria e o Iraque. Ainda que a Rússia freou a incursão da Turquia na Síria, em Afrin e Idlib, permitiu que suas forças operassem rumo ao leste, nas aéreas para o oeste do rio Eufrates, e depois mais além. A tática russa nos recorda o infame apoio das potências ocidentais à Alemanha nazi em sua Drang nach Osten (extensão para o leste) antes da Segunda Guerra Mundial.

O regime turco se prepara para atacar Manbij e Sinjar. Está tratando de obter a cooperação do regime iraquiano, assim como da região do Curdistão iraquiano. No entanto, o Iraque não parece disposto a participar numa operação deste tipo na atualidade – ainda quer que a Turquia retire suas forças estacionadas atualmente na base de Beshika no Iraque, sem o consentimento do governo de Bagdá.

O parlamento da região do Curdistão iraquiano está indignado pela operação de Afrin. O governador de Sulaymaniyah anunciou que os curdos no norte do Iraque observarão três dias de dolo. Contudo, a Turquia tem amplas oportunidades para abrir ainda mais a brecha entre o PKK e a região do Curdistão iraquiano. É preciso esperar o inesperado.

Os EUA tem cerca de 2000 soldados no Curdistão sírio e cooperam estreitamente com as YPG. Deixou claro que não consentirão nenhuma aventura turca ali. Entretanto, a política exterior do governo Trump é um caos e as declarações dos militares sobre o terreno não concorda sempre com as de Washington. Os curdos tiveram uma amarga experiência com “a comunidade internacional” no que respeita a Afrin e se preparam para outros cenários negativos.

Unidade

A rendição de Afrin provocou todo tipo de declarações do movimento de libertação curdo na Turquia que apoia a independência. Por exemplo, o ex-prefeito de Diyarbakir, no sudeste da Turquia disse que as políticas aplicadas pelo governo não deixam aos curdos outra opção que a independência. Acrescentou que o povo turco em seu conjunto deve rechaçar o regime de Erdogan e aprender as lições do Império Otomano, que terminou perdendo todo o seu território no Oriente Médio nas mãos de britânicos e franceses.

Contudo, tais apelações aos apetites imperialistas e expansionistas do povo turco são inúteis. O movimento de libertação curdo deve dirigir-se à esquerda turca em seu conjunto, pedindo que apoie um programa de democracia, igualdade e justiça, como defendeu Abdullah Ocalan, fundador do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK). Com o processo em marcha para fazer Erdogan presidente perpetuamente, a necessidade de um programa unitário deste tipo e uma resistência unida são mais necessários que nunca.

As eleições de 2019 podem supor a aprovação final do regime unipessoal de Erdogan se não há uma forte resistência. O sistema judicial foi reestruturado de cima a baixo e juízes e procuradores dependem diretamente do presidente – mesmo o Tribunal Constitucional foi incapaz de aplicar suas decisões.

A grande manifestação do verão passado pela justiça já é uma memória distante, e o partido de oposição CHP foi dobrado, com o pretexto de “apoiar nossas forças armadas, passe o que passe”. É o momento que devem aproveitar o movimento curdo e a esquerda turca. Os preconceitos contra o Partido Democrático dos Povos (HDP) devem ser deixados de lado e a oposição deve unir-se com um program anti-Erdogan e anti-jihadista a favor da democracia.

Fonte: https://weeklyworker.co.uk/worker/1195/the-struggle-continues/

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Esta é uma edição especial de nossa Revista Movimento. Como forma de contribuir para os debates que ocorrerão na VI Conferência Nacional de nossa corrente, o Movimento Esquerda Socialista, este volume reúne dois números da revista (7 e 8). Dessa forma, pretendemos oferecer à militância e a nossos aliados e leitores documentos que constam do temário oficial do evento, bem como materiais que possam subsidiar as discussões que se realizarão. Na expectativa de uma VI Conferência de debates proveitosos para nossa corrente, desejamos a todas e todos uma boa leitura deste volume!

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