A rua recupera o protagonismo
Reuters

A rua recupera o protagonismo

Editorial de nossa corrente-irmã peruana sobre o recente cenário político em seu país.

Sumate 19 abr 2018, 07:20

Não somente há crise na direita tradicional, também há crise de alternativa. O povo sabe o que não quer, mas ainda não tem claro o que quer.

“Que se vayan todos” [Fora todos] é a expressão generalizada de uma fadiga, não somente com o Executivo mas também com o Congresso que apresenta um magro 11% de aprovação, muito abaixo dos 21% que acompanhou PPK até o dia de sua renúncia.

São vários os fatores desse sentimento de repulsa cidadã à “classe política”. Um deles é a corrupção generalizada e sistêmica que se instalou no Estado. O outro é o ilegal indulto outorgado a Alberto Fujimori que levou a uma tensa polarização que tornava insustentável a permanência de PPK no cargo. O primeiro é um fator moral que se atiçou pela renúncia ou vacância de PPK; o outro é político e contribuiu para incrementar um clima de conflitividade social, que não foi calculado pelo mandatário recém-saído nem por seu entorno quando jogaram a carta do indulto.

Sendo que todos os partidos e ainda os poderes fáticos – como a Confiep – estão no olho da tormenta por seus nexos com a Lava Jato, o que está em jogo é a construção de uma alternativa potente à esquerda. Para isso temos que dar uma saída de fundo para a crise política que atravessa o país. Se não fazemos à esquerda, com um claro programa democrático e antineoliberal que questione toda a estrutura de poder da classe dominante, a direita terá margem para se recompor e assegurar a continuidade com um dos seus.

Ante esta situação que pode abrir um momento histórico de mudança profunda, pronunciou-se Verónika Mendoza à frente da direção política do MNP e de sua bancada.

Ela tem postulado a necessidade que o novo chefe de Estado convoque eleições gerais com novas regras em brevíssimo prazo, e a necessidade de modificar a constituição fujimorista por uma nova constituição para ir a uma mudança de fundo. No imediato, demanda ir até o final na luta contra a corrupção e reativar a economia.

Desde o diário El Comercio, porta-voz dos setores mais conservadores do empresariado nacional, tem-se pretendido desacreditar estas propostas argumentando que as duas primeiras não são saídas constitucionais e que é necessário esperar até o 2021. Não é de se estranhar. El Comercio é o diário peruano mais conservador desde as suas origens; defende a Constituição de 93 e o modelo econômico; está claro que opta pelo continuísmo, para que tudo siga igual, salvo algumas reformas como a flexibilidade laboral para ter mão de obra mais barata. Mas um amplo setor da população quer mudanças aqui e agora.

Desde o MNP devemos atender o clamor desse amplo setor da população que expressa seu descontentamento de mil maneiras. E se, efetivamente, queremos levantar uma alternativa contra a direita, nisso não se equivoca El Comercio. Nosso papel é chamar a mais ampla unidade das forças populares, sociais e de esquerda para gestar uma alternativa de governo e poder popular potente. Disso que se trata neste momento.

Reprodução da tradução publicada no Portal de la Izquierda.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
“Enquanto os efeitos sanitários e econômicos da Covid-19 seguem fazendo-se sentir, escancarando a crise global do capitalismo, as lutas na América Latina começam a apresentar importantes conquistas no enfrentamento da extrema-direita continental. Na Bolívia, após meses de enfrentamentos e mobilização popular, a contundente vitória da chapa do MAS pôs fim ao governo ilegítimo e reacionário de Jeanine Áñez. No Chile, após as multitudinárias manifestações de 2019, o plebiscito levou a uma vitória esmagadora em favor de uma nova constituição elaborada por assembleia exclusiva. Na campanha eleitoral estadunidense em curso, está em jogo a possibilidade de derrotar o trumpismo, que anima movimentos neofascistas e racistas naquele país e em todo o mundo. Ao mesmo tempo, as eleições municipais brasileiras abrem a possibilidade de construir uma alternativa nas cidades que contribua para isolar e derrotar o bolsonarismo. A décima oitava edição da Revista Movimento debruça-se sobre esses processos de mobilização nas ruas e de enfrentamento eleitoral em curso”.