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O sionismo na esquerda e a domesticação da causa palestina

A luta do povo palestino por soberania e liberdade é a mais contemporânea arena de disputa entre uma esquerda dócil ao poder e aqueles que cerram fileiras contra o militarismo genocida e o apartheid.

Ato com bandeiras da Palestina no Dia da Terra em 2014. Foto: Ahmad Gharabli/AFP
Ato com bandeiras da Palestina no Dia da Terra em 2014. Foto: Ahmad Gharabli/AFP

O sistema político e econômico sempre agiu de forma a domesticar a esquerda no mundo inteiro. E obteve relativo sucesso em muitos casos. Esse fenômeno não ocorre de forma unilateral, de cima para baixo e instantaneamente.

A luta do povo palestino por soberania e liberdade é a mais contemporânea arena de disputa entre uma esquerda dócil ao poder e aqueles que cerram fileiras contra o militarismo genocida e o apartheid. É sobre esta causa complexa que incidem forças determinadas a virar a mesa e inverter os polos do debate. Mas eles estão enfraquecidos e estão isolados. Por isso mesmo agem com cada vez mais desespero.

Existe uma deliberada confusão de conceitos jogando de forma pesada e baixa contra o povo palestino e seus aliados. A ideia de que qualquer crítica ao Estado de Israel seja encarada como antissemitismo é apenas a ponta de lança deste processo. A crença numa espécie de sionismo de esquerda talvez seja o alicerce fundamental deste fenômeno. Felizmente esta fábula não resiste a qualquer análise histórica minimamente séria.

O sionismo é um movimento nacionalista judaico fundado no final do século XIX por Theodor Herzl. Seu nome faz referência à colina de Sion, em Jerusalém. Em 1896 Herzl consolida suas teses no livro “O Estado judeu”, onde afirmava que este seria “para a Europa, um pedaço de fortaleza contra a Ásia, seríamos a sentinela avançada da civilização contra a barbárie”. Qualquer semelhança com o discurso em voga, inclusive em setores minoritários da esquerda, de que Israel é a única democracia no Oriente Médio e um farol a iluminar uma região primitiva não é mera coincidência.

Um ano depois, em 1897, é realizado o I Congresso Sionista, na Suíça. O encontro aprova como resolução a criação de um “lar nacional para os judeus” em até 50 anos, destacando a Argentina ou a Palestina como regiões mais propícias a este tipo de empreendimento.

O professor Marcelo Buzetto, que é pós-doutor em Política Internacional e coordena um núcleo de estudos sobre Geopolítica do Mundo Árabe e Oriente Médio, descreve com maestria o surgimento do movimento sionista e seus vínculos com as elites imperialistas no livro “A questão palestina – Guerra, política e relações internacionais”:

“(…) os sionistas correram o mundo para angariar recursos financeiros e apoio político para sua proposta. Herzl e seus seguidores vão estabelecer contatos com os governos da Inglaterra, da Alemanha, com o Império Turco-Otomano, com banqueiros, industriais e comerciantes judeus e não judeus, visando fortalecer a ideia da necessidade de um Estado judeu. A comunidade judaica europeia se divide, e nem todos apoiam a ideia sionista, mas esse movimento consegue apoio da burguesia judaica e de setores importantes da burguesia não judaica europeia.”

Neste período a Palestina estava sob domínio do Império Turco-Otomano. Após sua derrota na Primeira Guerra Mundial (1914-1918), França e Inglaterra partilham o Oriente Médio de acordo com seus interesses e a Palestina fica sob domínio britânico até 1948. Com o apoio dos ingleses, os sionistas solidificam a intenção de erguer um Estado judeu na Palestina – uma ideia que ganhou contornos concretos de urgência após a barbárie nazista na Europa.

O movimento sionista propaga para judeus em diversos países uma ideologia nacionalista burguesa, conservadora e racista. Um canto de sereia que oferece segurança e a promessa de refúgio a uma comunidade tantas vezes perseguida e discriminada. Não é à toa que Theodor Herzl defende, em seu livro publicado em 1896, um Estado judeu autoritário:

“Sou amigo convencido das instituições monárquicas porque elas tornam possível uma política permanente e representam o interesse ligado a conservação do Estado de uma família historicamente ilustre, nascida e educada para reinar.”

É verdade que o Israel adota um regime parlamentarista, mas a “política permanente” que preconizava Herzl segue presente, não importando que coalizão detenha mais poder nos governos de turno. É a política permanente do apartheid, da limpeza étnica, do genocídio contra o povo palestino e da expansão colonial adotada tanto pela direita quanto pela esquerda do regime. Não é um problema apenas do governo ultradireitista de Netanyahu, como creem ingenuamente os ditos sionistas de esquerda.

O fundador do sionismo não deixa dúvidas a respeito do caráter conservador e antidemocrático de sua ideologia:

“Aliás, as massas são ainda piores do que os parlamentos (…) Diante de um povo reunido, não podemos fazer nem política exterior nem política interior (…) A política deve ser feita do alto.”

A ideologia sionista mobilizou os judeus em direção à colonização da Palestina baseada em três princípios fundamentais: o de que a Palestina era uma terra sem povo e os judeus eram um povo sem terra; o de que a Palestina é a pátria histórica dos judeus; e o de que os judeus são o povo eleito por Deus. Estas foram as ideias que moveram a empreitada colonial financiada pela burguesia judaica e não judaica.

Já nos anos 1920 e 1930 o movimento sionista impulsionou a compra de terras na Palestina dominada pelos britânicos para alojar os colonos judeus, gerando toda sorte de conflitos com a comunidade árabe-palestina que lá vivia. As tensões aumentaram e os sionistas elevaram as agressões a um outro patamar, formando milícias armadas que agiam como verdadeiros grupos terroristas. As mais infames são o Haganah, o Irgun e o Stern, que conduziram ações armadas de violência politicamente motivada contra a população palestina. Na verdade estes grupos paramilitares foram o embrião do que hoje constitui as IDF (Israeli Defense Forces), as Forças Armadas de Israel.

Desde sua criação, o Estado de Israel vem pondo em prática o princípio expansionista e colonialista de sua ideologia fundacional sionista. Declarações de líderes históricos do país não demonstram o menor constrangimento em expressar o objetivo maior deste Estado: a construção do Eretz Israel, o Grande Estado de Israel, que abrange todo o território que ainda resta à Palestina hoje em dia.

Ben Gurion foi um dos fundadores de Israel e seu primeiro premiê. Vejamos algumas de suas declarações:

“Eu sou a favor da partilha do país porque quando nós nos tornarmos uma grande potência, depois do estabelecimento do Estado, iremos abolir a partilha e nos espalhar pela Palestina.”

“O Estado judeu que agora é oferecido para nós não é o objetivo sionista. Dentro desta área não é possível resolver a questão judaica. Mas pode servir como uma etapa decisiva em direção à implementação do sionismo. Irá consolidar na Palestina, no menor tempo possível, a real força judaica que irá nos levar a nosso objetivo histórico.”

“Tal como existe atualmente, Israel é apenas uma parte do ‘Grande Israel’ (Eretz Israel), e a missão sionista permanece incompleta até que Israel recomponha suas ‘fronteiras históricas’ (…) O mapa de Israel precisa ser modificado. Cabe a vocês lutarem sem trégua a fim de estabelecer, por invasão ou diplomacia, o Império de Israel.”

Estas palavras foram ditas pelo primeiro chefe de governo de Israel, que até hoje dá nome ao principal aeroporto do país. Ben Gurion era um militante do chamado “sionismo socialista” e um dos fundadores do Partido Trabalhista, sigla de esquerda do regime que governou Israel durante as três primeiras décadas de existência deste Estado. É este o proclamado sionismo de esquerda? Os princípios racistas, colonialistas e antidemocráticos não têm nada a ver com a esquerda.

A história da resistência palestina é marcada por massacres e crimes de guerra cometidos por Israel, uma potência militar graças à ajuda dos Estados Unidos e o único país com arsenal nuclear no Oriente Médio. O mais recente massacre deixou 14 mortos e mais de 1,4 mil palestinos feridos. Estes ataques ocorrem no marco de um regime de apartheid que segrega a população palestina e transforma a Cisjordânia numa verdadeira prisão a céu aberto com a construção do muro da vergonha.

A comparação com o regime do apartheid sul-africano não é um simples exercício de retórica militante. Trata-se de uma caracterização objetiva da realidade a qual é submetia diariamente o povo palestino, confinado em algo semelhante ao que eram os bantustões do regime segregacionista na África do Sul. Inclusive figuras históricas da luta contra o apartheid endossam essa avaliação, como o bispo Desmond Tutu. Os postos de controle são atentados elementares ao direito de ir e vir dos palestinos. Israel controla as fronteiras dos territórios palestinos ocupados. Mantém a Faixa de Gaza em cerco permanente desde 2007, bloqueando a circulação de pessoas e mercadorias. Sem falar nas mais de 50 leis que segregam cidadãos árabes e palestinos no território israelense.

Os sionistas não aceitam que as organizações de esquerda denunciem estas atrocidades livremente. Insistem em uma narrativa binária e limitada de colocar a questão palestina no âmbito de um conflito entre dois lados mais ou menos equivalentes. Não foram os árabes e palestinos que massacraram barbaramente os judeus na Europa. Não foram os árabes e palestinos que criaram artificialmente um Estado num território que já possuía seu povo e sua história. Não foram os árabes e palestinos que expandiram suas fronteiras a ponto de segregar todo um povo. Não são os árabes e palestinos que estão violando inúmeras resoluções da ONU.

Não é possível rebaixar cada nota de apoio ao povo palestino com relativizações pró-Israel como exigem os sionistas ditos de esquerda.

Sou militante do movimento LGBT e do movimento de solidariedade à causa palestina. Construo o Partido Socialismo e Liberdade e me dói profundamente ver que também no PSOL avança o sionismo. Felizmente é um setor muito minoritário e isolado dentro do partido. Talvez por isso mesmo estejam cada vez mais desqualificados em suas críticas. O baixo nível é o mais notório sinal de desespero.

Somos um partido comprometido com a solidariedade ao povo palestino desde nossa fundação e apoiamos o movimento por Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) contra Israel. Não serão as diatribes alucinadas de figuras personalistas que irão nos desviar desta luta.

Artigo publicado originalmente no Sul21.

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Apresentação

Esta é uma edição especial de nossa Revista Movimento. Como forma de contribuir para os debates que ocorrerão na VI Conferência Nacional de nossa corrente, o Movimento Esquerda Socialista, este volume reúne dois números da revista (7 e 8). Dessa forma, pretendemos oferecer à militância e a nossos aliados e leitores documentos que constam do temário oficial do evento, bem como materiais que possam subsidiar as discussões que se realizarão. Na expectativa de uma VI Conferência de debates proveitosos para nossa corrente, desejamos a todas e todos uma boa leitura deste volume!

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