Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

Carta a Dom Diego Armando Maradona

Dirigente de Marea Socialista demonstra seu espanto ao ver o "Diego da gente" posar junto ao madurismo após eleições presidenciais.

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Olá, Diego. Te saúdo com carinho fraterno e de início te compartilho que provavelmente meus primeiros exercícios de debate na vida se deram em torno de uma suposta necessidade de definir quem foi melhor entre tu e Pelé, onde por certo, sempre sustentei que eras incomparável. Depois, com os anos compreendi que era realmente desnecessário isso de consagrar “um melhor”, pois leva sempre a um raciocínio que leva a um determinismo negador das complexidades que se dão como conseqüência lógica de tudo o que vive ou se move e sobretudo que conduz ao embarque de uma necessidade competidora muito induzida em relação ao que não me parece necessário desenvolver nesta ocasião. O que, sim, sustento desta vez, é que provavelmente não há no futebol outro exemplo similar ao teu, no qual uma individualidade tenha sido tão influente para os objetivos finais de uma equipe, não só pelo que fizeste na seleção argentina, mas também em tua passagem pelo Napoli italiano.

Diego, sempre me pareceu que para fazer o que fazias no campo, além de possuir esse talento natural, precisava ter algo a mais, e esse adicional, a maioria das pessoas no mundo o colocou na categoria “rebeldia”, porque tua carreira como jogador sempre esteve atravessada por episódios que transcenderam o futebolístico, por isso, quando a Inglaterra foi derrotada em 1986, a maioria do povo latino-americano relacionou isso com as Malvinas e com raiva celebrou isso. E também te tornaste uma referência do enfrentamento histórico de classe na Itália entre o norte e o sul, o que explica por que, quando vocês eliminaram a anfitriã do mundial de 90, quase todo o sul italiano festejou, pois pensavam que tu eras mais deles que uma seleção italiana composta por maioria de jogadores das equipes poderosas do Norte: Inter, Milan e Juventus.

O fato, Diego, é que contigo se plasmou no campo algo com o que alguém se sentia muito identificado, sendo que através de ti vivíamos o desejo de derrotar a FIFA e toda a cúpula burocrática mafiosa que converteram o futebol num negócio perverso, que contudo, lhes custou muitíssimo poder te ordenar e sempre chocaram com a lógica de bairro retratada em tua canhota e em teu número 10 com os quais te moveste nos estádios do mundo. O que te sucedeu em 1994, legitimamente o assumimos como uma retaliação, porque havia muitos desafios em jogo e tu, que não tinhas equipe, te preparaste treinando por tua própria conta para enfrentar a Austrália na repescagem, ajudando a Argentina a classificar para o mundial dos Estados Unidos, onde nos dois primeiros partidos ante Grécia e Nigéria mostraram que eram o riv de João Havelange e tudo o que ele representava.

Simplesmente senti a necessidade de te recordar tudo isso, porque não encontro uma relação coerente entre o “Diego da gente” e o senhor que vimos dançando entre o madurismo no encerramento da campanha presidencial. Diego, tu dizes que amas as crianças e eu acredito em ti. Mas, meu caro, aqui na Venezuela as crianças estão mal, estão em risco, não comem bem, não estão se vacinando, não têm leite e as escolas cada vez se encontram em piores condições.
están vacunando, no tienen leche y las escuelas cada vez se encuentran en peores condiciones. Pelusa [Apelido de Maradona que remete à sua cabeleira], o povo em nosso país está sendo submetido à pior crise da nossa história, pagamos as consequências da política de um governo repressivo e antipopular que acaba de se reeleger sob condições totalmente fraudulentas, espúrias e antidemocráticas e tu, Diego, vieste a dançar para eles.

Sabes, Diego? Quando dançavas no palco, já “não eras” aquele mesmo que driblou tantos ingleses marcando aquela barbaridade de gol, não, te vimos como um protetor da realeza britânica. Quando dançavas, Diego, tu te equiparaste com o funcionário da FIFA que se encarregou de te tirar da Copa de 94, porque se tratou disso: uma manobra! Diego, ao estar a serviço do PSUV-SOMOS-Governo, fazes o mesmo papel de Edgardo Codesal, aquele árbitro que apitou a final contra a Alemanha em 90, inventando um pênalti contra vocês que somente ele viu. Diego, ao dançar para o madurismo, fazes isso para gente que “dá um carrinho” no povo venezuelano como a que te deu Andoni Goikoetxea em 1983.

Por ultimo, Diego, permita-me fazer esta espécie de analogia quanto a condições materiais: “O povo venezuelano se encontra atravessando sua Cordilheira dos Andes”, gesta realizada por “Che” Guevara que costumas reivindicar tanto. E é no povo venezuelano onde estão esses mártires que se madrugam diariamente para poder comer algo, para curar seus enfermos, para poder sobreviver… Maduro e a burocracia vermelha não têm nada a ver com “Che”, eles são exatamente o contrário, eles te assassinariam também, assim como estão assassinando a nossa população, porque indubitavelmente que a política do PSUV-SOMOS-Governo é uma política de morte e tu assistes a sua festa eleitoreira de uma maneira tão dócil que autocontribuis para que assassinem teu espírito contestatório e assim já apenas eres o Diego das cúpulas burocráticas.

Um abraço, Diego.

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Apresentamos uma revista especial sobre os 50 anos do Maio de 1968 com o orgulho de herdar uma tradição. Assim como a Comuna de 1871, a Revolução Russa de 1917 e as lutas contra as ditaduras na América Latina, consideramo-nos parte deste excepcional movimento mundial de luta política, protagonizado por jovens e trabalhadores de várias partes do mundo, como nas famosas barricadas de Paris. Consideramos suas lições e sua potência como atuais. Boa parte dos leitores da Revista Movimento participaram ativamente das Jornadas de Junho de 2013 em nosso país. Aos cinco anos deste acontecimento, queremos contribuir para o encontro e a síntese de tão distantes e ao mesmo tempo tão próximas gerações.

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