Por que apoiamos os caminhoneiros em 5 perguntas e respostas
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Por que apoiamos os caminhoneiros em 5 perguntas e respostas

Devemos mesmo apoiar esse movimento? Acreditamos que sim, e aqui vão as nossas respostas a algumas dúvidas frequentes.

Sâmia Bomfim 27 maio 2018, 16:53

A greve dos caminhoneiros aqueceu a conjuntura do país novamente. Esta é uma demonstração de que, apesar do contexto geral de golpe e ataque a direitos fundamentais, a classe trabalhadora não está morta e pode ser capaz de reverter o jogo. Mas diante de uma situação tão radicalizada, é normal que algumas pessoas fiquem receosas – devemos mesmo apoiar esse movimento? Acreditamos que sim, e aqui vão as nossas respostas a algumas dúvidas frequentes.

A causa do movimento é legítima?

Para tornar as ações da Petrobrás mais atraentes para investidores da bolsa de valores, a gestão de Temer e Pedro Parente (seu atual presidente) passou a ajustar o preço dos combustíveis de acordo com a flutuação do preço internacional do petróleo ao invés de utilizar a empresa para cumprir um papel ativo de controle nos preços. Esta política econômica coloca o lucro dos acionistas acima do interesse nacional e retira do Brasil a soberania sobre esta questão econômica. Além disso, visa acelerar o processo de venda da Petrobrás para o capital estrangeiro já que tem como objetivo incentivar a compra de suas ações.

A consequência dessa política foi a disparada no preço dos combustíveis e gás de cozinha. Isso afeta diretamente os trabalhadores do transporte, principalmente os autônomos, mas também toda a população já que o encarecimento dos combustíveis leva a uma inflação generalizada. Essa é a razão do protesto dos caminhoneiros. Evidentemente, a saída que o governo vai oferecer para o caso pode não ser boa, como, por exemplo, a desoneração, que além de não resolver o problema, pode reduzir a arrecadação voltada para investimentos em áreas sociais. Mas é por essa mesma razão que a greve deve ser apoiada: para que os caminhoneiros sejam capazes de reivindicar a melhor solução possível e não sejam obrigados a aceitar saídas “fáceis” do governo.

Portanto, essa luta não apenas é legítima, mas necessária para derrotar a desastrosa política liberal dos preços da Petrobrás.

Trata-se de um locaute?

Sem dúvida muitos empresários estão interessados na vitória da greve pois a queda no preço dos combustíveis levaria a uma redução no custo com transporte, o que aumentaria os lucros. Mas isso não significa que este setor dirija efetivamente a greve. A mobilização foi convocada e é mantida pelos próprios caminhoneiros. Prova disso é que o empresariado tentou realizar “acordos” fajutos com o governo para pôr fim à greve que nunca saíram do papel porque este setor simplesmente não controla o movimento. O argumento de que se trataria de um locaute foi inclusive utilizado pelo próprio governo na tentativa de deslegitimar o movimento, mas ele simplesmente não tem nenhum embasamento.

Os caminhoneiros são de direita?

A pauta do movimento é econômica. Ainda que ela signifique essencialmente uma luta contra a exploração e pela melhoria das condições de vida da classe trabalhadora (nesse sentido, de esquerda), ela não se apresenta explicitamente dessa forma. Portanto, uma vez que os caminhoneiros são mobilizados por uma necessidade material candente, muitos podem, contraditoriamente, defender posições conservadoras. Mas o importante é que a causa de sua mobilização neste caso é consoante ao interesse da classe trabalhadora.

O movimento é apoiado por grupos reacionários?

Muitos ficaram desconfiados ao saber que grupos de extrema direita, como o MBL, apoiavam a greve. Mas é preciso pensar – por que eles fazem isso? Como dito anteriormente, a identidade ideológica dos caminhoneiros é heterogênea. Sendo assim, os movimentos de direita veem uma oportunidade para incidir sobre essa base e tentar convencê-la de suas posições e ganhar adeptos. Diante disso, devemos ter receio de “nos misturarmos” e deixarmos a direita livre para fazer sua disputa ideológica, nos restringindo a dialogar com os já convertidos? Óbvio que não!

Um bom exemplo disso foi o ato ocorrido na Avenida Paulista sexta feira, 25/05, em que diversos movimentos, partidos e sindicatos de esquerda se uniram para prestar solidariedade aos caminhoneiros. Um pequeno grupo de direita chegou a comparecer ao local, mas foi embora pois não se sentiu confortável em marchar ao nosso lado. Pois bem – é a direita que deve se sentir desconfortável em apoiar uma greve, e não nós!

Por fim, não podemos avaliar um movimento apenas a partir de quais atores o apoiam ou o rechaçam, mas a partir de sua própria substância pois do contrário não é possível chegar a conclusão nenhuma. Se é verdade que o MBL apoia o movimento, também é verdadeiro que Temer e a Rede Globo o rechaçam.

Este é o prenúncio de um golpe militar?

Temer já anunciou que deve usar as Forças Armadas para reprimir o movimento, comprovando sua incompetência em dialogar e sua insistência em manter a direção draconiana da Petrobrás. Neste texto não entraremos no debate sobre o prognóstico de um golpe militar, mas obviamente a repressão é escandalosa e revela ainda mais o caráter reacionário deste governo.

O que fazer, então? Denunciar a repressão, fortalecer o movimento e resistir! Essa é a melhor forma de derrotar o militarismo e as forças repressivas – mostrando a sua inoperância, ou seja, provando que a luta dos trabalhadores é superior. De modo algum deve-se pensar que não se mobilizar é a melhor forma de manter a estabilidade e evitar um golpe de Estado. Ao contrário, a resistência popular é o melhor antídoto contra governos autoritários.


Por essas razões, apoiamos a greve dos caminhoneiros! Fora Temer! Fora Parente! Não à repressão!


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
A décima terceira edição da Revista Movimento dedica-se ao debate sobre os desafios da esquerda socialista no Brasil diante da crise nacional que se desenrola há anos e do governo Bolsonaro. Para tanto, foram convidados dirigentes do PSOL, do MES e de outras organizações revolucionárias que atuam no partido. O dossiê sobre a estratégia da esquerda e o PSOL reflete os desafios da organização de um polo socialista no interior do partido. Há também, na seção nacional, reflexões sobre a crise econômica brasileira, as revelações de The Intercept e as lutas da juventude e da negritude. As efemérides do centenário da escola Bauhaus e do cinquentenário do levante de Stonewall também aparecem no volume, além da tese das mulheres do MES para o Encontro de Mulheres do PSOL.