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Trumpismo: a arte do insulto

Os insultos parecem ser um instrumento que define o trumpismo, algo que utiliza e saboreia constantemente.

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Desde que chegou à presidência, Donald Trump insultou quase todas as pessoas com as quais interagiu. Parece que a única exceção são os membros mais próximos de sua família. Apesar de não insultá-los, simplesmente os ignora quando caem em desgraça. Também insultou a todos os países do globo, com a possível exceção de Israel.

Os insultos parecem ser um instrumento que define o trumpismo, algo que utiliza e saboreia constantemente. Há então duas questões para quem analisa Trump. Por que ele profere estes insultos? Eles possuem alguma eficácia?

Alguns analistas atribuem estes incessantes insultos, que são recorrentes ainda que variem de alvo, a algum tipo de defeito mental. É uma megalomaníaco hipersensível, costumam dizer. Não consegue se refrear. Não tem autocontrole.

Discordo. Penso que os insultos são parte de uma estratégia deliberada, que Trump pensa que lhe ajudariam a impulsionar: 1) sua dominação nos Estados Unidos e no cenário mundial; 2) a implementação de suas políticas.

O que Trump acha que pode conseguir com o jogo dos insultos? Quando insulta uma pessoa ou um país, os força a tomar uma decisão. Podem devolver o golpe e arriscar-se à vontade de Trump de prejudicá-los de algum modo importante para eles. Ou podem responder positivamente fazendo alguma concessão para Trump. Em qualquer caso, a relação se centra em torno de Trump.

Desde seu ponto de vista, isso o torna o macho-alfa. E mais, ele não só quer estar por cima da da escada mundial de poder, como quer que as pessoas o vejam desta forma. Os insultos servem a tal propósito.

Instada a optar entre dois respostas indesejáveis ao insulto, a pessoa ou a nação ofendidas podem tentar fazer uma aliança com outros que são insultados de modo semelhante ou ao mesmo tempo. Mas resulta que os aliados potenciais compartilham o mesmo debate do que fazer para lidar com os insultos. E o aliado potencial pode optar por uma resposta muito diferente.

Neste ponto, a pessoa ou o país insultado pode tentar persuadir o aliado potencial para que mude de tática. Ou pode buscar outros aliados potenciais. Em qualquer caso, mais do que focar em como lidar com os insultos de Trump, priorizam agora conseguir aliados. Desviam-se assim do assunto principal, para o benefício de Trump.

Trump pode então variar suas táticas. Pode oferecer alguma concessão parcial ou à pessoa ou ao país insultado. Pode fazê-lo de um modo que seja ambíguo ou por tempo limitado. A pessoa ou o país implicados devem então escolher entre engolir sua recente humilhação e lhe oferecer gratidão pela concessão, ou considerar insuficiente a concessão.

Se optam pela gratidão, a pessoa ou o país vivem sob a espada de Dâmocles de que o insulto volte a ocorrer, apesar de tudo. Ou pode sofrer a ira de Trump. Em qualquer caso, Trump obtém o que quer.

Pode utilizar esta tática para apaziguar os críticos situados à sua direita ou à sua esquerda. Em realidade, isso lhe ajuda a emergir como o centro razoável, sem importar quais políticas esteja empreendendo.

Uma última vantagem. Dado que os tuítes de Trump são inconsistentes, pode reclamar o crédito quando o resultado lhe é favorável (‘mereço o Prêmio Nobel’). Mas sempre que o resultado não seja tão favorável como esperava, culpa alguém ou todos os de seu círculo próximo, afirmando que não seguiram suas instruções.

Devemos agora responder a questão de se os insultos funcionam. Eles possibilitam os benefícios que Trump esperava obter? Devemos começar com o que Trump deve achar preocupante. Tem índices de impopularidade muito altos nas pesquisas de opinião nos Estados Unidos. E na vasta maioria das nações a opinião a respeito de Trump é muito negativa.

Está bastante inseguro sobre suas chances de vencer as eleições de 2018 e de 2020. Sua base conservadora está descontente, o que pode conduzir a abstenções de sua parte, ou colocar menos esforços para conseguir o voto conservador.

Não obstante, apesar desta frágil mostra, o jogo dos insultos parece ter aumentado, ao menos ligeiramente, seu nível de apoio. Isso é suficiente para seu objetivo primário e imediato de se reeleger? Necessita mostrar aos eleitores e a outras nações algumas conquistas.

Tem poucas. No cenário estadunidense, tem o projeto de lei de redução dos impostos. E no cenário mundial, tem (até agora) a próxima reunião com o líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un. Mas também tem fracassos. Não pôde (até agora) conseguir suas planejadas medidas imigratórias nem o dinheiro para o muro. E à escala mundial sua ruptura do acordo com o Irã consternou a maioria das nações.

A pergunta é se a resposta aos insultos se inclinará seriamente contra ele. É difícil dizer isso. Pode chegar repentinamente. Ou pode rastejar por entre o pântano. O ponto real é que aquilo que lhe conseguem os insulto não pode seguir para sempre. Isso resulta de que muita gente e muitas nações perdem demais.

A pergunta, então, não é se haverá uma reação contrária, mas quando. Este é o jogo que estamos jogando todos a cada dia, nas eleições a todos os níveis concebíveis, nas alianças reformuladas por todo o mundo. Não se trata de se vai ocorrer ou não, mas de quando!

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Apresentação

Apresentamos uma revista especial sobre os 50 anos do Maio de 1968 com o orgulho de herdar uma tradição. Assim como a Comuna de 1871, a Revolução Russa de 1917 e as lutas contra as ditaduras na América Latina, consideramo-nos parte deste excepcional movimento mundial de luta política, protagonizado por jovens e trabalhadores de várias partes do mundo, como nas famosas barricadas de Paris. Consideramos suas lições e sua potência como atuais. Boa parte dos leitores da Revista Movimento participaram ativamente das Jornadas de Junho de 2013 em nosso país. Aos cinco anos deste acontecimento, queremos contribuir para o encontro e a síntese de tão distantes e ao mesmo tempo tão próximas gerações.

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