Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

1968: explosão e transformação da corrente radical nos Estados Unidos

A explosão do movimento negro e da luta anti-imperialista ajudou a superar a "nova esquerda" anti-ideológica, abrindo caminho ao marxismo.

Cena de "Black Panthers", curta documentário de Agnès Varda rodado na cidade de Oakland, na Califórnia, em 1968.
Cena de "Black Panthers", curta documentário de Agnès Varda rodado na cidade de Oakland, na Califórnia, em 1968.

O ano de 1968 viu uma explosão de protesto e de radicalização nos Estados Unidos como em diversos países ao redor do mundo. Duas questões centrais – o racismo e a guerra do Vietnã – estão no coração desse ano de mobilização popular. Os eventos de 1968 estenderam os movimentos sociais radicais e transformaram o modelo ideológico da esquerda nos Estados Unidos. O assassinato de Martin Luther King e a nomeação de dois candidatos a favor da guerra pelos dois grandes partidos do país convenceram milhões de pessoas de que o sistema não poderia ser reformado. Houve uma mudança no interior das fileiras radicais: passou-se de uma “Nova Esquerda”, radicalmente anti-ideológica, ao marxismo, em particular às variedades de marxismo anti-imperialistas e antirracistas que buscavam uma fonte de inspiração nos partidos comunistas do Terceiro Mundo.

Em crise pela Ofensiva do Tet no Vietnã, assediado pelos manifestantes antiguerra e confrontado por uma rebelião no interior de seu próprio partido, é um presidente Lyndon Johnson sitiado que se direciona ao país em 31 de março de 1968. Ele o choca ao anunciar que renunciaria à campanha por sua reeleição, de um lado, e que as conversas de paz com as forças de libertação vietnamitas estavam a ponto de serem iniciadas, por outro. Em alguns minutos, um rumor de festa começa a tomar conta de todo o país. Para milhares de pessoas, é com grande entusiasmo que era possível dizer que um presidente dos Estados Unidos tinha sido atingido pelos gritos de “Hey, Hey, LBJ, how many babies did you kill today?” (“Hey, Hey, LBJ, quantas crianças você matou hoje?”) .

Quatro dias depois, Martin Luther King Jr., o principal representante do movimento de liberdade afro-americano, foi assassinado. King foi morto em Memphis, no Tennesse, onde ele prestava seu apoio aos trabalhadores negros dos serviços de limpeza em greve. Nos dias seguintes, rebeliões negras explodiriam em mais de uma centena de cidades. As chamas chegaram a apenas seis quarteirões da Casa Branca. Setenta mil uniformes de tropas federais foram necessários para reestabelecer a ordem pública.

Os levantes negros de abril de 1968 representaram apenas um terço das trezentas rebeliões urbanas que tinham ocorrido desde o verão de 1964. Segundo a opinião da própria Comissão de Conselho Nacional sobre as desordens civil, quase que um em cada cinco habitantes dos setores afetados participaram dessas manifestações (o que significava, à época, mais de um milhão de pessoas).

A luta social em – e ao redor de – 68 atravessou e transformou todas as instituições e organizações populares estadunidenses. As batalhas por igualdade da população negra e contra a guerra no Vietnã reviveram as lutas de emancipação de todas as minoridades raciais estadunidenses e insuflaram uma nova dinâmica no movimento pela libertação das mulheres. Em conexão com esse ano de revolta global, tais batalhas foram o caldeirão de um completo novo espírito e de uma nova prática do internacionalismo.

As revoltas de 68 saíram de uma nova configuração da esquerda estadunidense. A mudança mais notável foi o aumento espetacular de suas fileiras. Dezenas de milhares de jovens foram ganhos às ideias radicais. Os Estudantes por uma Sociedade Democrática (Students for a Democratic Society, SDS), por exemplo, tinham no final do ano triplicado seu corpo militante atingindo a marca de cem mil membros.

Mais significativas ainda foram as mudanças nas orientações e na estratégia da esquerda. Os eventos de 1968 forçaram os militantes mais ativos da Nova Esquerda (New Left) dos anos 1960, dinâmicos, mas anti-idelógicos, a considerar perspectivas mais sistemáticas, fazendo o marxismo, portanto, a ocupar um lugar central. Em particular, as variantes de marxismo que privilegiavam o anti-imperialismo e o antirracismo e que prestavam atenção à experiência dos partidos comunistas do Terceiro Mundo ganharam sensivelmente mais audiência. Os partidários dessas perspectivas passaram a formar novas organizações marxistas-leninistas ou a aderir a grupos socialistas já existentes herdeiros da “velha esquerda”. Durante alguns anos no pós-68, pareceu que os esforços desses grupos em se enraizar nos meios operários, nas populações oprimidas pelo racismo e em construir uma corrente radical perene na classe operária estadunidense renderiam frutos.

Mas isso não aconteceu. Assim como em outros países, a esquerda estadunidense advinda de 68 se mostrou incapaz de compreender as dinâmicas econômicas e sociais do fim dos anos 1970 e 1980. Suas forças se dissiparam enquanto que o bloco no poder reunido sob a bandeira do reganismo (ou do neoliberalismo) orientou a política dos Estados Unidos em outra direção.

O que se viu depois de 1968 marcou uma mudança qualitativa na esquerda estadunidense. As tentativas de reviver uma radicalidade hoje não chegarão a lugar nenhum se elas não partirem de ensinamentos e se não prolongaram o sucesso e não superarem as fraquezas da esquerda que nasceu do caldeirão das revoltas de massa de quarenta anos atrás.

Este artigo faz parte do livro 50 anos das revoluções de 1968: O início de uma luta prolongada. Para ler este e demais textos, compre a edição especial de n. 9 da Revista Movimento aqui!

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Apresentamos uma revista especial sobre os 50 anos do Maio de 1968 com o orgulho de herdar uma tradição. Assim como a Comuna de 1871, a Revolução Russa de 1917 e as lutas contra as ditaduras na América Latina, consideramo-nos parte deste excepcional movimento mundial de luta política, protagonizado por jovens e trabalhadores de várias partes do mundo, como nas famosas barricadas de Paris. Consideramos suas lições e sua potência como atuais. Boa parte dos leitores da Revista Movimento participaram ativamente das Jornadas de Junho de 2013 em nosso país. Aos cinco anos deste acontecimento, queremos contribuir para o encontro e a síntese de tão distantes e ao mesmo tempo tão próximas gerações.

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