Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

1968: um velho mundo que ficou para trás

Sobre a herança de contestação e rebeldia de 68: a beleza sempre está nas ruas.

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Nestes 50 anos do revolucionário maio de 68, é fundamental analisarmos este belo momento da história de luta dos jovens e dos trabalhadores. Não há dúvidas de que, enquanto revolução no sentido de destruir as estruturas de poder vigente e derrotar o modo de produção capitalista, não foi vitoriosa. Mas o mundo não seria o mesmo sem as mobilizações multitudinárias que sacudiram o globo há 50 anos. Nem todas com a dimensão do maio francês, capaz de arrastar junto o movimento operário e em dias botar em cheque o poder instituído, mas todas com as características dos jovens como protagonistas do processo. Em todas o clamor por liberdade.

O mundo, recém-emergido da segunda guerra mundial, havia sido dividido esquematicamente, pelo Pacto de Yalta, em um mundo bipolar. Do lado capitalista, o imperialismo inglês e francês em declínio desde o fim da guerra, sendo que as lutas anticoloniais dos anos 50 ajudaram a solapar esta influência. Isso deu espaço para os EUA ser a potência chefe do mundo capitalista. Do lado do socialismo real a URSS, já há muito burocratizada, dando as cartas no processo global do outro campo, pois a revolução russa de 1917 há muito já havia sofrido a contra revolução estalinista, o sufocamento do poder operário, as perseguições e execuções dos críticos ao regime.

Neste contexto uma geração inteira, o do baby boom – fenômeno assim chamado pelo aumento enorme da natalidade com o término da guerra –, cresceu vendo por um lado um capitalismo plastificado, a ode à sociedade de consumo, tentando exportar o american way of life para o mundo, ao mesmo tempo em que milhões de jovens não encontravam vaga nas universidades e se viam sufocados pelos costumes vigentes. Os jovens soviéticos, sob o comando do socialismo burocratizado, também eram sufocados pelo controle do Estado sobre a vida, pelos costumes conservadores, pela ausência de democracia e pela imposição do que o aparato estalinista mandava.

Além do conservadorismo político, estamos falando de um período histórico de segregação racial, de criminalização da liberdade de orientação sexual, de ausência de muitas liberdades para as mulheres, ainda prisioneiras do lar e do casamento, sendo um tabu falar de liberdade sexual. Estamos falando dos EUA como um país herdeiro do macarthismo, que na década de 50, com a Subcomissão Permanente de Investigação do Senado presidida por Joseph McCarthy, com a febre anticomunista e o moralismo altamente conservador, perseguiu professores, artistas, militantes e a tod@s considerados subversiv@s. É evidente que havia resistências e contestação a esta sociedade retrógrada antes, mas em 68 esta resistência deu um salto e se tornou global, impulsionando a vaga de lutas democráticas na esteira das lutas anti-imperialistas, anticapitalistas e antiburocráticas.

Antiimperialista porque uma das marcas foi a contestação à Guerra Vietnã. A luta pela independência da Indochina (Camboja, Laos, Vietnã) foi parte das revoluções democráticas de 45. Começou em 46 e se estendeu até 1954. A invasão do Japão no Vietnã, no final da Segunda Guerra Mundial, provocou uma grande resistência e constituiu Ho Chi Mim como grande líder da Independência, além da proclamação da República Democrática do Vietnã. Com a derrota do Japão na Guerra, o imperialismo francês tenta retomar o controle do Vietnã, mas o povo já não aceita mais a dominação imperialista. Este impasse leva a uma tentativa militar francesa de retomar a região, que é derrotada em 1954. Da região da Indochina, apenas o Vietnã do Sul segue sendo parte do bloco capitalista. Laos, Camboja e o Vietnã do Norte se aproximaram do bloco comunista e o elemento de descontrole da geopolítica mundial alerta os EUA, que começa a financiar o Vietnã do Sul. Com medo de um efeito dominó de novas revoluções em toda a região depois do assassinato de Ngo Dinh Diem (presidente do Vietnã do Sul em 1963), o governo do EUA começa a Guerra contra o Vietnã em agosto de 1964.

Evidentemente, o poderio bélico estadunidense era mais potente, e em 1968 já são meio milhão de soldados americanos no Vietnã. Mas os vietnamitas começam a usar as técnicas de guerrilha para se defender. Aproveitando as comemorações do Ano Novo Lunar, os guerrilheiros vietnamitas lançam a ofensiva do TET, atacando simultaneamente mais de cem cidades e cinquenta aldeias em 30 de janeiro de 69. O maior resultado da ofensiva foi na moral das tropas e na opinião pública estadunidense. Cresce a contestação à Guerra e a exigência do retorno dos soldados americanos.

A revolução chinesa de 1949, a revolução cubana de 1959 e as crescentes lutas pela libertação nacional são revoluções que transbordam, rompem o pacto de coexistência pacífica firmado em Yalta, fatos que tiveram repercussão na tentativa militar no Vietnã para evitar mais descontrole, mas também foram combustível para as revoluções que estão por vir em 1968.

A revolução de 68 foi anticapitalista por que a crítica à sociedade de consumo, ao conservadorismo, marcou a parte capitalista do mundo. O maio francês, que começou como resposta à repressão da ocupação da Universidade de Nanterre, com pautas iniciais como a solidariedade ao Vietnã e críticas a estrutura conservadora da Universidade, transborda para uma poderosa greve estudantil que arrasta a contragosto os líderes burocráticos ligados ao PC Francês, o movimento operário de conjunto. Um grito pelo poder popular, a unidade operária juvenil e a vontade de construir uma sociedade distinta dão poder à imaginação. Aqui teremos mobilizações fortes como a lutas pelos direitos civis nos EUA, na Alemanha, na Espanha, na Argentina (com o Cordobazo), no Chile que ajuda as bases também para a futura vitória de Allende, no México com a luta estudantil cruelmente reprimida no “Massacre de Tlatelolco”. No Brasil, em meio à ditadura militar, a famosa passeata dos cem mil contra a ditadura e em memória do jovem Edison Luís, assassinado em 28 de março em um protesto no Restaurante Calabouço, no RJ, e ápice de uma luta de meses na esteira deste processo.

Foi antiburocrática, porque estes jovens começam a buscar novas referências no campo socialista, os crimes de Stalin já haviam sido denunciados. Bandeiras com a cara de Che aparecem nos protestos. Na França de 68, o grupo trotskista JCR se converte em uma das grandes referências do processo. Se no mundo capitalista temos o maio de 68 na França como ápice do grito de liberdade, do outro lado a primavera de Praga e o levante do povo da Tchecoslováquia mostraram o descontentamento com a divisão burocrática imposta pela URSS. Em janeiro de 68 a luta interna no PC leva Alexander Dubcek a assumir o governo. Dubcek começa um processo de um “socialismo de face humana”, mudando a matriz econômica, concedendo liberdade sindical e de auto-organização, garantindo liberdades civis, abolindo a censura e os entulhos burocráticos anteriores. O povo experimenta uma revolução dentro da revolução, e Praga volta a respirar com liberdade. O líder do “socialismo com face humana” é amplamente respaldado pelas massas. Mas, logo, temendo o efeito exemplo e a mudança na divisão internacional da produção deste bloco, no dia 21 de agosto tanques de guerra soviéticos entram na cidade, prendem Dubcek e outr@s líderes deste processo e trazem um longo inverno a Praga. Lacaios da URSS assumem o governo e até hoje há dúvidas se a capitulação de Dubcek não é produto de longas torturas no período que esteve preso na URSS.

Embora, como processo de mudanças radicais na estrutura da sociedade, 1968 tenha sido derrotado, afinal estes jovens jogaram com a imaginação e auto-organização contra dois enormes aparatos mundiais, o mundo jamais foi o mesmo após a irrupção juvenil. Certamente os costumes nunca mais foram os mesmos, a cultura da mesma forma e as lutas democráticas ganharam um novo impulso.

É proibido proibir!

Uma das canções imortalizadas por Caetano Veloso, no Brasil, tem no seu título umas das milhares de pichações na rebelde Paris. Além desta, “Sejamos realistas, queiramos o impossível”, a “imaginação no poder”, “barricadas fecham ruas, porém abrem caminhos” ou a célebre “debaixo dos paralelepípedos, tem uma praia” mostram a criatividade que marcou 68. Esse processo além de uma ruptura ética, também gerou uma ruptura estética.

Esta é a época do rádio, da televisão nascente, da indústria cultural americana voltada à sociedade de consumo, ao individualismo e ao moralismo protestante. Já no bloco soviético, a arte há muito havia sido sufocada e agora era usada apenas como instrumento para fazer propaganda do regime, tal como o careta “realismo socialista”.

Se nos EUA, na década de 50 temos o rock’ n’ roll como uma manifestação artística que buscava subverter o conservadorismo, é verdade que mais na forma do que no conteúdo das canções, a geração beatnik questionou o consumismo e as premissas desta sociedade plastificada. Jack Kerouac e Allen Ginsberg inspiraram muitos artistas e estudantes que, em 68, serão os protagonistas da contracultura. Como contracultura podemos entender todo o conjunto de manifestações artísticas, culturais e sociais que vão questionar o moralismo na época, a busca de uma narrativa que quebrasse o conjunto de valores conservadores impostos a esta geração. Neste marco, a busca por liberdade transbordava muros pichados, encontrando ecos em outras perspectivas sobre a música, o sexo, gênero, raça, ecologia, comunidades alternativas. A busca de um novo ethos estava em voga. Os jovens sabiam bem o que queriam questionar, buscavam novas formas de afirmar a necessidade de uma nova sociedade.

Um dos grandes marcos da contracultura é o famoso festival de Woodstock, que aconteceu durante 4 dias. Ninguém supunha a dimensão que o festival teria quando buscavam emprestada uma fazenda no interior de Nova York. Chegaram a vender mais de 100 mil ingressos, mas diante da grande procura de pessoas, a entrada foi liberada, e durante estes dias 400 mil pessoas estiveram no local para ouvir músicos como Joan Baez, Jimmi Hendrix, Janis Joplin, Bob Dilan. Um dos momentos que entraram para história é Jimmi Hendrix tocando na guitarra o hino americano e distorcendo as notas para simular o barulho das bombas em clara alusão à Guerra do Vietnã.

Na música o rock, o blues, o folk combinavam protesto, com a defesa da liberdade. Woodstook também é marco pela defesa da liberdade sexual em uma sociedade onde que sexo antes do casamento era um tabu, que homens não podiam frequentar o dormitório das mulheres em universidades e que recentemente o debate sobre os contraceptivos tinha entrado em cena, encontrando grande resistência na Igreja e nas mentes conservadoras que achavam que as mulheres deveriam servir sempre e apenas para procriar. Achavam um absurdo que pudéssemos controlar e decidir quando e quantas vezes seríamos mães.

O lema do movimento hippie, também impulsionado por 68, nos traz “Faça amor, não faça guerra” o caráter pacifista e da libertação sexual eram a tônica do movimento hippie. Retratos desta época foram imortalizados no famoso filme Hair que, ao entrar em cartaz justamente neste momento, se converteu em um sucesso e ainda hoje é assistido por muitas gerações posteriores aos jovens revolucionários de 68.

Ainda na música, cabe o registro do rock ácido (acid rock), nascido em San Francisco, em que os artistas buscavam misturar sonoridades para fazer alusão ao efeito psicodélico do ácido lisérgico (LSD). Aqui temos The Doors de Jim Morrison e o Grateful Dead de Jerry Garcia.

No cinema teremos os cineastas Jean-Luc Godard e François Truffaut que começam com um novo tipo de cinema, crítico ao caráter comercial e trazendo temas existenciais além de muita experimentação às telas a partir do movimento Novelle Vague.

No Brasil, sob a ditadura militar, além das passeatas estudantis que são decorrência deste turbulento cenário internacional, a contracultura encontrará eco em jovens artistas que, conhecendo a música popular da época, também começam a sua ruptura estética. Caetano Veloso, Gilberto Gil, os Mutantes, Gal, Bethânia, Tom Zé, Torquato Neto, Nara Leão, dão início a um movimento chamado Tropicalismo, com o disco Tropicália ou panis et circenses em 1968. As características do movimento segundo Brandão e Duarte (1990 p.71) “realçando as características de arcaísmo e modernismo, fundindo os elementos tradicionais da música popular brasileira com a modernidade de vida urbana e sua cultura de consumo, a partir de um discurso de caráter fragmentário e descentrado, como num filme de Glauber Rocha”

O movimento da década de 60 Cinema Novo Brasileiro, de Glauber Rocha e tantos outros, focado em um discurso crítico e uma narração fragmentária, também inspirou o Tropicalismo, assim como o Manifesto Pau Brasil e a Antropofagia, lançados na semana de Arte Moderna em 1922. Ao conhecer todos os gêneros anteriores e misturá-los livremente, estes artistas inovaram e muito a música até então. Não é de se estranhar o discurso inflamado que Caetano dá ao ser vaiado no II Festival Internacional da Canção, ao cantar É proibido proibir: “Vocês não estão entendendo nada, nada, nada. Absolutamente nada. (…) Se vocês são em política como são em estética, estamos feitos (…).” A velha esquerda não estava entendendo as várias dimensões de ruptura que o ano de 68 e seus eventos traziam consigo…

Na teoria veremos o ressurgimento das ideais de Wilhelm Reich, quando jovens franceses jogavam exemplares da Psicologia de Massas do Fascismo nos capacetes de agentes da repressão. Reich foi pioneiro em muitos temas sobre a revolução sexual, escreveu livros como a função do orgasmo e estudava a repressão sexual e as suas repercussões na sociedade e saúde mental. Enfrentou o capitalismo, o nazismo e o comunismo burocrático em vida. O psicanalista morreu preso nos EUA em 1957, mas os rebeldes de 68 retornaram aos seus estudos e sua teoria. O próprio psicanalista Sigmund Freud encontrará ecos das suas ideais entre os jovens que protagonizavam com mais ênfase a luta pela libertação sexual.

Herbert Marcuse, integrante da Teoria Crítica da Escola de Frankfurt, (autor de Eros e a Civilização e Ideais para uma teoria crítica da sociedade e do homem unidimensional) também estará na cabeceira de leituras de muitos revolucionários. Marcuse, que havia sido professor de Angela Davis, é um dos intelectuais que vai unir as categorias marxistas com a teoria freudiana da repressão da sexualidade. Além disto, apoiará claramente a luta dos estudantes por liberdade. Embora haja um debate sobre o sujeito social da revolução em que a medida que os jovens tomam a dianteira, um setor do marxismo passa a secundarizar o peso do proletariado industrial, entre eles o próprio Marcuse, isso não diminui o papel progressivo da intelectualidade, que combateu a velha esquerda e defendeu a revolução de 68 em seu tempo presente.

Uma contribuição essencial para pensar estrategicamente o maio de 68 como potência de uma revolução social foi a contribuição de Ernest Mandel, economista, militante e dirigente da IV Internacional e sobrevivente de dois campos de concentração durante o nazismo. Mandel defendeu a revolução dos jovens e a necessidade da unidade com o movimento operário não somente em livros, mas na agitação direta nas fábricas em greve. Por sua convicção via as potencialidades da juventude e as limitações com a ausência do movimento operário autodeterminado. Sua influência sobre os jovens revolucionários que estavam no front como Alain Krivine, entrevistado neste livro, e Tariq Ali, fez com a juventude do partido comunista rompesse e buscasse caminho próprio com a JCR. Esta organização foi fundamental em 68 e ainda hoje tem atuação na luta de classes sendo uma das principais correntes da IV Internacional.

Ao contrário de Louis Aragon, intelectual do Partido Comunista, hostilizado nas assembléias do maio de 68 francês pela posição defendida pelo partido no início das mobilizações (chamando os estudantes de grupúsculo que deviam ser isolados) e depois revista no calor dos acontecimentos, Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir, dois intelectuais importantíssimos na França da época, desde o princípio apoiam publicamente os jovens em sua revolução. Sartre, dramaturgo, filósofo, escritor, se opôs a Guerra do Vietnã, a invasão da Tchecoslováquia, e tentava influenciar as novas lideranças que surgiam no calor das barricadas das ruas francesas. Simone de Beauvoir além de cumprir o papel histórico de apoio aos jovens, teve a sua obra “O Segundo Sexo” (escrito em 1949), um lugar de destaque nas brechas abertas deste período, a luta das mulheres despontará em 68.

A emergência da mulher e da nova moral sexual

Desde o início dos anos 60 vários embates estavam sendo feitas pelo movimento de mulheres que foram rapidamente potencializados a uma escala global com 68. Aqui nesta década está começando a segunda onda feminista da história. Com peso nos EUA, depois Europa Ocidental, até 1980 se espalhará por vários países do globo. Se a primeira onda ficou restrita à igualdade política das mulheres, e ainda muito marcada pelo peso das mulheres brancas, aqui teremos a ampliação de temas de luta das mulheres: o debate sobre a família, liberdade sexual, direitos reprodutivos, desigualdade salarial, violência doméstica, direito ao divórcio e o combate aos papéis historicamente construídos para os gêneros irá aparecer.

Segundo Bittecourt (2015) será nesta segunda onda que a denúncia do patriarcado como relações de poder exercido pelos homens contra as mulheres, de dominação masculina que combina ideologia e violência começa a ser problematizado. Este modelo relega as mulheres ao espaço privado. A divisão sexual do trabalho, do caráter opressor da sociedade de classes e a emergência da “transversalidade das opressões estruturais para além do gênero. Assim, elevam-se as vozes das mulheres negras e pobres, subjugadas dentro do movimento” (p.201) são elementos de questionamento.

Temas como a questão da orientação sexual também são marcas do período que tem pensadoras como Beauvoir, Heleieth Saffioti, Betty Friedman, Nancy Fraser entre tantas outras como expressões do momento. Como é um processo desigual, as vitórias não foram universais. Cada país avançou no que entre a correlação de luta das mulheres por liberdade e a conservação machista permitiu. O marcante é que a partir de 68 as mulheres deixaram de ser e de se sentir propriedade dos homens, da casa, do casamento até que a morte os separe, do útero universal da humanidade, para definirem sua liberdade. Temas banais hoje em dia como escolher livremente seus parceiros ou parceiras, o direito a contraceptivo, usar minissaia ou calça jeans, debater gênero, conhecer o próprio corpo e conhecer e aproveitar o orgasmo, ou seja, a ideia de sexo por prazer e não para reprodução, devemos ao legado destas mulheres. O corpo feminino deixou de ser um tabu!

Poder Negro

As lutas por direitos civis nos EUA haviam ganhado corpo quando Rosa Parks, em 1955, se recusara a levantar no ônibus para dar lugar a um homem branco, fato considerado um crime pelas leis racistas da época. Na campanha em sua defesa, Martin Luther King se transformaria em um dos principais porta-vozes da luta contra a segregação racial nos EUA, com a campanha de boicote aos ônibus de Montgomery, a passeata a Washington em 64, a campanha pelo direito ao voto e a marcha a Selma em 1965. Luther King era um defensor da resistência não violenta. Logo, quando os protestos acabavam em repressão, muitos eram espancados e presos sem reagir. Este foi um dos debates mais importantes do movimento da época, tendo Malcom X como referência de uma posição contrária. Malcom defendia que era precisar resistir no limite com violência contra a violência racista da polícia e os grupos racistas armados.

Em outubro de 66 é fundado por Huey P. Newton e Bobby Seale em Oakland o Partido dos Panteras Negras pela Autodefesa (Black Panthers Party for Self-defense) que se valiam da brecha constitucional que permitia portar armas. Mais que patrulhas armadas para defesa dos negros, o partido serviu de instrumento de organização da luta, educação e assistência para os negros norte-americanos que sofriam com as desigualdades de acesso à educação e até alimentação. Grupos de alfabetização, restaurantes populares e programas de sobrevivência eram práticas fomentadas e articuladas pelos integrantes do partido, com o lema “Sobreviver para a revolução”. Huey foi um dos articuladores da internacionalização da campanha contra a segregação racial, além de estabelecer vínculos com vietnamitas, chineses e cubanos, e grupos que defendiam a libertação nacional em outros países como o CNA de Nelson Mandela. Ele é preso em 1967 e uma campanha “Free Huey Moviment” é realizada nos EUA e fora do país. Além da importância para derrotar a legislação racista do país, os Black Panthers internacionalizaram a ideia do Black Power com os punhos cerrados e erguidos, a reverberação do movimento chegou às Olimpíadas, nos palcos do Brasil com Tony Tornado e nos bailes funk impulsionados pela Banda Black Rio, entre muitos outros. James Brown foi um das principais referências na música deste processo.

Em 4 de abril de 1968, Marthin Luther King foi assassinado em Memphis nos EUA. Uma onda potente de revoltas enormes se produz, mais de cem universidades são ocupadas, mobilizações gigantes são realizadas, barricadas, carros incendiados e saques são parte das respostas de uma comunidade negra revoltada com a assassinato do seu maior líder.

Assim como a revolta depois do assassinato de Luther King foi um estopim para enormes mobilizações antiracistas, o legado dos Black Panthers inspirou grandes lutas de libertação nacional em toda a África negra na década de 70. Não é exagero dizer que a identificação das lutas anticoloniais e a causa socialista são parte da influência dos Panteras Negras.

Esse processo gerou novos líderes nos EUA como Angela Davis, presa na década de 70, e liberta após a estrondosa campanha internacional Free Angela. Davis segue uma militante e uma das maiores intelectuais e ativistas do movimento de mulheres nos dias atuais, na defesa do feminismo dos 99% contra 1 e na interseccionalidade da raça, classe e gênero. A greve internacional das mulheres em 2017 não seria a mesma sem a contribuição e disputa de Ângela.

A Revolta de Stonewall: um estopim das lutas LGBTs

Assim como catalisador do movimento feminista e do movimento negro, o maio de 68 foium marco para a luta em defesa da liberdade de ser e de amar. LGBTs, reprimidos pelas potências capitalistas e pelo socialismo burocratizado ganharam um impulso com a Rebelião de Stonewall. O Bar Stonewall Inn, em Nova York, era um espaço frequentado pela população trans, gay, lésbica, bissexual e drag queen à época. Não precisamos citar que boa parte dos bares não aceitavam LGBTs neste momento, logo, este bar era um ponto de encontro e de convivência. Frequentemente ocorriam batidas policiais violentas e intimidatórias, drags e trans eram presas, as filas eram feitas e as pessoas revistadas e identificadas. Em 28 de junho de 1969 a comunidade decidiu não aceitar mais e a revolta se instalou. Quem estava sendo liberado das revistas, ao invés de ir embora, começou a se concentrar na frente do bar. Uma multidão começou a se formar, alguém começou a cantar We Shall Overcome (canção de Joan Baez que havia se tornado hino da luta por direitos civis dos negros) e quando foram levar os presos para a delegacia, a multidão era muito maior que o aparato repressor. Quando os policiais agrediram uma mulher algemada a multidão revidou e foi para cima. Nesta noite teve pedras, paus, barricadas. Na noite seguinte, da mesma forma.

Esta rebelião espontânea gerou a auto-organização, e nos meses seguintes associações em defesa da comunidade foram criadas nos EUA. Já em 1970 a primeira passeata em defesa do orgulho LGBT foi organizada em Nova Iorque, Chicago, Los Angeles e São Francisco, e este exemplo foi se espalhando para outras cidades e outros países. Ferramentas de luta foram sendo criadas e de maneira “desigual e combinada” a luta pela liberdade de orientação sexual foi se forjando e ganhando ao longo das décadas vitórias civilizatórias. Nada disso teria sido igual sem 68, sem Stonewall!

A beleza sempre está nas ruas

Leon Trotky dizia que “uma revolução é imprevisível até que se torne inevitável”. Em situações como em maio de 68, e outras mais contemporâneas como junho de 2013, os aparatos adaptados ao regime da normalidade consideram a imprevisibilidade dos levantes sua impossibilidade de mudança, e é justamente quando o imprevisível se torna inevitável que podemos exigir o impossível, como bem diziam os muros de Paris em maio de 68.

Estas breves linhas são uma pequena demonstração de uma revolução que queria mudar o mundo, levando a imaginação ao poder, o sonho da liberdade com igualdade e de um modelo que não fosse o das guerras, da desigualdade, das opressões. Fato é que mesmo tendo sido derrotada no que diz respeito ao modo de produção, foi uma verdadeira revolução de costumes de um velho mundo que, felizmente, em muitos aspetos ficou para trás. As latências de 68 são sentidas no tempo presente. A crise econômica gerou uma resistência que teve no centro a juventude precarizada, as mulheres, os negros, LGBTs e as lutas democráticas voltam com peso no tempo presente. A reação conservadora também aparece nestes tempos de interregno em que o “velho já morreu e o novo ainda não nasceu”, mas as sementes deste novo mundo serão encontradas na rebeldia das jornadas de junho de 2013, na primavera feminista, nas rodas de slam, nas ocupações de escolas e universidades, nas ocupações de terra, nas greves, nas ocupações de praças e palácios, na emergência e necessidade de um novo sindicalismo, nas mobilizações gigantes por justiça para a nossa companheira Marielle Franco e Anderson Gomes. Os jovens de 68 fizeram a sua revolução, cabe a nós fazermos a nossa!

Referências bibliográficas

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BITTENCOURT, N.A. As “ondas” dos movimentos feministas e o eurocentrismo da história. Disponível em <http://periodicos.unb.br/index.php/insurgencia/article/viewFile/16758/11894>

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Apresentamos uma revista especial sobre os 50 anos do Maio de 1968 com o orgulho de herdar uma tradição. Assim como a Comuna de 1871, a Revolução Russa de 1917 e as lutas contra as ditaduras na América Latina, consideramo-nos parte deste excepcional movimento mundial de luta política, protagonizado por jovens e trabalhadores de várias partes do mundo, como nas famosas barricadas de Paris. Consideramos suas lições e sua potência como atuais. Boa parte dos leitores da Revista Movimento participaram ativamente das Jornadas de Junho de 2013 em nosso país. Aos cinco anos deste acontecimento, queremos contribuir para o encontro e a síntese de tão distantes e ao mesmo tempo tão próximas gerações.

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