Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

1968: um velho mundo que ficou para trás

Sobre a herança de contestação e rebeldia de 68: a beleza sempre está nas ruas.

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Nestes 50 anos do revolucionário maio de 68, é fundamental analisarmos este belo momento da história de luta dos jovens e dos trabalhadores. Não há dúvidas de que, enquanto revolução no sentido de destruir as estruturas de poder vigente e derrotar o modo de produção capitalista, não foi vitoriosa. Mas o mundo não seria o mesmo sem as mobilizações multitudinárias que sacudiram o globo há 50 anos. Nem todas com a dimensão do maio francês, capaz de arrastar junto o movimento operário e em dias botar em cheque o poder instituído, mas todas com as características dos jovens como protagonistas do processo. Em todas o clamor por liberdade.

O mundo, recém-emergido da segunda guerra mundial, havia sido dividido esquematicamente, pelo Pacto de Yalta, em um mundo bipolar. Do lado capitalista, o imperialismo inglês e francês em declínio desde o fim da guerra, sendo que as lutas anticoloniais dos anos 50 ajudaram a solapar esta influência. Isso deu espaço para os EUA ser a potência chefe do mundo capitalista. Do lado do socialismo real a URSS, já há muito burocratizada, dando as cartas no processo global do outro campo, pois a revolução russa de 1917 há muito já havia sofrido a contra revolução estalinista, o sufocamento do poder operário, as perseguições e execuções dos críticos ao regime.

Neste contexto uma geração inteira, o do baby boom – fenômeno assim chamado pelo aumento enorme da natalidade com o término da guerra –, cresceu vendo por um lado um capitalismo plastificado, a ode à sociedade de consumo, tentando exportar o american way of life para o mundo, ao mesmo tempo em que milhões de jovens não encontravam vaga nas universidades e se viam sufocados pelos costumes vigentes. Os jovens soviéticos, sob o comando do socialismo burocratizado, também eram sufocados pelo controle do Estado sobre a vida, pelos costumes conservadores, pela ausência de democracia e pela imposição do que o aparato estalinista mandava.

Além do conservadorismo político, estamos falando de um período histórico de segregação racial, de criminalização da liberdade de orientação sexual, de ausência de muitas liberdades para as mulheres, ainda prisioneiras do lar e do casamento, sendo um tabu falar de liberdade sexual. Estamos falando dos EUA como um país herdeiro do macarthismo, que na década de 50, com a Subcomissão Permanente de Investigação do Senado presidida por Joseph McCarthy, com a febre anticomunista e o moralismo altamente conservador, perseguiu professores, artistas, militantes e a tod@s considerados subversiv@s. É evidente que havia resistências e contestação a esta sociedade retrógrada antes, mas em 68 esta resistência deu um salto e se tornou global, impulsionando a vaga de lutas democráticas na esteira das lutas anti-imperialistas, anticapitalistas e antiburocráticas.

Antiimperialista porque uma das marcas foi a contestação à Guerra Vietnã. A luta pela independência da Indochina (Camboja, Laos, Vietnã) foi parte das revoluções democráticas de 45. Começou em 46 e se estendeu até 1954. A invasão do Japão no Vietnã, no final da Segunda Guerra Mundial, provocou uma grande resistência e constituiu Ho Chi Mim como grande líder da Independência, além da proclamação da República Democrática do Vietnã. Com a derrota do Japão na Guerra, o imperialismo francês tenta retomar o controle do Vietnã, mas o povo já não aceita mais a dominação imperialista. Este impasse leva a uma tentativa militar francesa de retomar a região, que é derrotada em 1954. Da região da Indochina, apenas o Vietnã do Sul segue sendo parte do bloco capitalista. Laos, Camboja e o Vietnã do Norte se aproximaram do bloco comunista e o elemento de descontrole da geopolítica mundial alerta os EUA, que começa a financiar o Vietnã do Sul. Com medo de um efeito dominó de novas revoluções em toda a região depois do assassinato de Ngo Dinh Diem (presidente do Vietnã do Sul em 1963), o governo do EUA começa a Guerra contra o Vietnã em agosto de 1964.

Evidentemente, o poderio bélico estadunidense era mais potente, e em 1968 já são meio milhão de soldados americanos no Vietnã. Mas os vietnamitas começam a usar as técnicas de guerrilha para se defender. Aproveitando as comemorações do Ano Novo Lunar, os guerrilheiros vietnamitas lançam a ofensiva do TET, atacando simultaneamente mais de cem cidades e cinquenta aldeias em 30 de janeiro de 69. O maior resultado da ofensiva foi na moral das tropas e na opinião pública estadunidense. Cresce a contestação à Guerra e a exigência do retorno dos soldados americanos.

A revolução chinesa de 1949, a revolução cubana de 1959 e as crescentes lutas pela libertação nacional são revoluções que transbordam, rompem o pacto de coexistência pacífica firmado em Yalta, fatos que tiveram repercussão na tentativa militar no Vietnã para evitar mais descontrole, mas também foram combustível para as revoluções que estão por vir em 1968.

A revolução de 68 foi anticapitalista por que a crítica à sociedade de consumo, ao conservadorismo, marcou a parte capitalista do mundo. O maio francês, que começou como resposta à repressão da ocupação da Universidade de Nanterre, com pautas iniciais como a solidariedade ao Vietnã e críticas a estrutura conservadora da Universidade, transborda para uma poderosa greve estudantil que arrasta a contragosto os líderes burocráticos ligados ao PC Francês, o movimento operário de conjunto. Um grito pelo poder popular, a unidade operária juvenil e a vontade de construir uma sociedade distinta dão poder à imaginação. Aqui teremos mobilizações fortes como a lutas pelos direitos civis nos EUA, na Alemanha, na Espanha, na Argentina (com o Cordobazo), no Chile que ajuda as bases também para a futura vitória de Allende, no México com a luta estudantil cruelmente reprimida no “Massacre de Tlatelolco”. No Brasil, em meio à ditadura militar, a famosa passeata dos cem mil contra a ditadura e em memória do jovem Edison Luís, assassinado em 28 de março em um protesto no Restaurante Calabouço, no RJ, e ápice de uma luta de meses na esteira deste processo.

Foi antiburocrática, porque estes jovens começam a buscar novas referências no campo socialista, os crimes de Stalin já haviam sido denunciados. Bandeiras com a cara de Che aparecem nos protestos. Na França de 68, o grupo trotskista JCR se converte em uma das grandes referências do processo. Se no mundo capitalista temos o maio de 68 na França como ápice do grito de liberdade, do outro lado a primavera de Praga e o levante do povo da Tchecoslováquia mostraram o descontentamento com a divisão burocrática imposta pela URSS. Em janeiro de 68 a luta interna no PC leva Alexander Dubcek a assumir o governo. Dubcek começa um processo de um “socialismo de face humana”, mudando a matriz econômica, concedendo liberdade sindical e de auto-organização, garantindo liberdades civis, abolindo a censura e os entulhos burocráticos anteriores. O povo experimenta uma revolução dentro da revolução, e Praga volta a respirar com liberdade. O líder do “socialismo com face humana” é amplamente respaldado pelas massas. Mas, logo, temendo o efeito exemplo e a mudança na divisão internacional da produção deste bloco, no dia 21 de agosto tanques de guerra soviéticos entram na cidade, prendem Dubcek e outr@s líderes deste processo e trazem um longo inverno a Praga. Lacaios da URSS assumem o governo e até hoje há dúvidas se a capitulação de Dubcek não é produto de longas torturas no período que esteve preso na URSS.

Embora, como processo de mudanças radicais na estrutura da sociedade, 1968 tenha sido derrotado, afinal estes jovens jogaram com a imaginação e auto-organização contra dois enormes aparatos mundiais, o mundo jamais foi o mesmo após a irrupção juvenil. Certamente os costumes nunca mais foram os mesmos, a cultura da mesma forma e as lutas democráticas ganharam um novo impulso.

Este artigo faz parte do livro 50 anos das revoluções de 1968: O início de uma luta prolongada. Para ler este e demais textos, compre a edição especial de n. 9 da Revista Movimento aqui!

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Apresentamos uma revista especial sobre os 50 anos do Maio de 1968 com o orgulho de herdar uma tradição. Assim como a Comuna de 1871, a Revolução Russa de 1917 e as lutas contra as ditaduras na América Latina, consideramo-nos parte deste excepcional movimento mundial de luta política, protagonizado por jovens e trabalhadores de várias partes do mundo, como nas famosas barricadas de Paris. Consideramos suas lições e sua potência como atuais. Boa parte dos leitores da Revista Movimento participaram ativamente das Jornadas de Junho de 2013 em nosso país. Aos cinco anos deste acontecimento, queremos contribuir para o encontro e a síntese de tão distantes e ao mesmo tempo tão próximas gerações.

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