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Crônicas Catalãs 2-J: Cai Rajoy

O que exatamente derrubou Rajoy? Foi a “justiça” espanhola? Ou foi a mobilização dos debaixo? Foi a divisão dos de cima?

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Enfim, caiu Rajoy! Milhões de pessoas, mulheres, aposentadas, estudantes, operárias, catalãs, bascas, professoras, desempregadas, pobres… se alegraram. Alguns povoados da Catalunha organizaram manifestações espontâneas. As redes estão cheias de sacadas alegres e perspicazes. O 1 de Junho já entrou na história: pela primeira vez na história recente cai um Presidente e um Governo por meio de uma moção de censura. De novo, há uma fresta de democracia, uma fenda de luz no Estado Espanhol, ainda que na Catalunha predomine o ceticismo. 180 votos conjuntos do PSOE, dos parlamentares do Podemos, da ERC, do Bildu (todas elas organizações de esquerda), mais as direitas nacionalistas de PDCat, PNV, Canarias, venceram os 167 da direita espanhola do PP e dos Ciudadanos.

Mas o que exatamente derrubou Rajoy? Foi a “justiça” espanhola? Ou foi a mobilização dos debaixo? Foi a divisão dos de cima?

A mobilização dos de abaixo esteve presente em diversos temas, como na luta pelas liberdades de expressão, de greve, de opinião, contra a “lei da mordaça”. Também esteve presente na juventude, nos estudantes, em Murcia, em Navarra. Sobretudo esteve muito presente nas lutas das mulheres contra o machismo e o patriarcado institucional, contra as “manadas”, contra os juízes justificadores do machismo, contra a discriminação laboral. Como se viu na grande participação da greve feminista e laboral de 8 de março.

A “justiça” espanhola fez tudo a seu alcance para atrasar, minimizar, os fatos e os juízos por corrupção. Pelo caminho caíram juízes honrados. Contrasta a celeridade de algumas investigações e petições fiscais com a suposta “rebelião” catalã – ainda por demonstrar – com a investigação de uma corrupção de anos em todos os partidos do regime. Mas especialmente no PP. Já não se podia mais ocultar. Em meio a 1 600 páginas de sentença tiveram que dizer o que todo mundo sabia: que o PP tinha um Caixa 2; que no partido havia uma organização para delinquir; que esta organização estava ligada à alta direção do partido e do Governo; e que para tapá-la M. Rajoy, presidente do Governo, mentiu nos tribunais.

Este lastro de partido corrupto, de líderes implicados até o pescoço, se combina com o maior ataque às liberdades desde a “transição” até hoje. O motivo que fez aflorar esta veia ditatorial é a luta do povo catalão por sua autodeterminação. A combinação de muitos fatores, mas especialmente o do escândalo da corrupção do PP e do fracasso do Governo em dobrar a vontade dos catalães apesar da repressão, do cárcere, do exílio, das mentiras, o “pra cima deles”, ocasionaram o desgaste de Rajoy e sua queda neste 1 de junho. Não foi uma grande mobilização mas o desgaste. Por isso tem esse caráter parlamentar.

Para alguns, a sequência de acontecimentos dos dez últimos dias lhes parece como um plano feito por certos poderes ocultos. Assim, que Sánchez, o novo presidente do PSOE, se tivesse posto de acordo com Rajoy em relação a como manter o controle econômico da Generalitat – ou seja a mantê-la semiafogada -; que mencionasse o presidente Torra como “o Le Pen catalão”; o que Rivera sequer subindo nas pesquisa ao custo de alimentar o conflito com a Catalunha exigindo a manutenção do 155 e a não aceitação do Govern da Generalitat, lhes parece muito esquisito.

As sessões do Congresso dos deputados foram uma exibição de cinismo do PP e do Ciudadanos. Mas, de golpe, o que parecia impossível – o acordo de 20 partidos para tirar Rajoy, entre eles os independentistas – se tornou possível. O PP ficou sozinho. E Ciudadanos, depois de tratar de convencer Rajoy para alargar a legislatura sob a direção do PP mas sem Rajoy – como já fez nas comunidades de Madrid e de Murcia – ficou suspenso no ar, mostrando suas vergonhas de cúmplice necessário do maior partido corrupto da Europa. Eles, “tão limpos”. Assim que essa sessão de investidura foi também uma paulada nos “sucessores naturais” do PP e para os que inventaram esse monstro: as grandes companhias do IBEX 35.

Mas mudou algo mais além das boas intenções de Sánchez de “abrir diálogo” com Podemos, os independentistas catalães ou nacionalistas bascos? O anúncio de “programa” de Sánchez não se apartou nem um milímetro da defesa dessa monarquia corrupta. Nem sequer reconheceu que existem presos políticos. Mas teve que aceitar se ver com o “Le Pen” catalão de Torra e dialogar com ele. Tudo muito difícil e contraditório – como o próprio Sánchez reconheceu – sob as pressões da direita europeia, espanhola, catalã, e as esquerdas espanhola, catalã, basca e galega. Mas isso será motivo de reflexões posteriores. No momento, tiramos de cima Rajoy e é preciso celebrar tal acontecimento.

Sim, algo mudou com a queda de Rajoy: o regime de 78 é agora mais débil do que nunca.

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

A décima terceira edição da Revista Movimento dedica-se ao debate sobre os desafios da esquerda socialista no Brasil diante da crise nacional que se desenrola há anos e do governo Bolsonaro. Para tanto, foram convidados dirigentes do PSOL, do MES e de outras organizações revolucionárias que atuam no partido. O dossiê sobre a estratégia da esquerda e o PSOL reflete os desafios da organização de um polo socialista no interior do partido. Há também, na seção nacional, reflexões sobre a crise econômica brasileira, as revelações de The Intercept e as lutas da juventude e da negritude. As efemérides do centenário da escola Bauhaus e do cinquentenário do levante de Stonewall também aparecem no volume, além da tese das mulheres do MES para o Encontro de Mulheres do PSOL.

Ilustração da capa da Revista Movimento

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