Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

Debate em torno dos Black-blocs: Violência revolucionária de massas ou revolta minoritária…

Sobre a tática que se vale de métodos violentos durante as manifestações.

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Algumas discussões com amigos, camaradas e conhecidos me impedem de escrever um pouco mais profundamente sobre a questão das “violências” que ocorrem nas manifestações há algum tempo.

Antes de continuar eu tenho que dizer que eu tenho nenhum argumento a favor ou contra [em relação à violência em si]. Eu não sou contra a violência. Eu não sou um político, mas um militante.

Eu defendo aqui um ponto de vista, uma estratégia de luta, e proponho uma análise dessa situação que pode ser amplamente debatida. Afirmo, entretanto, que a solidariedade de classe deve prevalecer em primeiro lugar, e que, se as discussões podem ser por vezes tensas e difíceis, elas não diminuem em nada a legitimidade de um pensamento ou de uma crença. É assim o debate democrático.

Comecemos primeiro por relativizar. Notem aqui que eu falo das “violências”, por que é necessário tentar dar nome às coisas. Entretanto, há diferentes graus de violência. Pode-se mesmo acrescentar que não se trata realmente da violência, propriamente dita, mas, sim da “degradação”. A principal violência é aquela que ocorre cotidianamente com milhões de pessoas, das pessoas que são encarceradas por serem estrangeiras, dos trabalhadores que são demitidos, das mulheres que são estupradas, das pessoas vítimas de homofobia, é… toda violência sistêmica que o capitalismo destila. Além disso, apesar de tudo que se pode pensar de um McDonald’s (MacDo) queimado ou de vitrines quebradas, é necessário relativizar que essa violência é simbólica e não coloca vidas em perigo.

Uma vez que isso foi dito, nós podemos ir para o centro do debate e discutir honestamente sobre as questões estratégicas e táticas dentro do quadro da luta de classes. Eu não quero falar especificamente dos Black-blocs. Eu tenho muito pouco conhecimento sobre eles para dar uma opinião precisa. Eu posso falar somente do aspecto visível de suas ações. Além disso, eu não me aventuraria a falar do niilismo que lhe diz respeito. Aparentemente a corrente “appelliste”, não faz parte dos black-bloc, mas também quebra objetos e locais simbólicos do capitalismo, se reivindica comunista. Sobre a ação direta. Vamos discutir então os méritos de tais ações, partindo do princípio de que os objetivos políticos de quem as pratica não estão distantes dos nossos, isto é, a criação de uma sociedade livre do capitalismo, da exploração e das opressões.

Ação violenta contra a política violenta

Ademais, se levarmos em conta o que está escrito acima, pode se dizer que a violência de grupos autônomos é legítima. Se trata, também, de uma reação violenta a uma política violenta. Mas vamos buscar fazer política com a cabeça e não com o coração (embora para fazer política com o coração, seria necessário fazer política unicamente com a cabeça). Num primeiro momento, não consideremos os manifestantes que “quebram” como pessoas ingênuas. Sua quebradeira (ação-direta) não é apenas reativa, mas, também, é um ato que visa, de maneira simbólica, atacar espaços específicos. Há, então, uma segunda aspiração (que funciona como pano de fundo da crise sindical) que é ganhar militantes para seus grupos através ativismo por meio da “ação-direta”. Em outras palavras, quando se é jovem e revoltado, é mais divertido ir com aqueles que aparentemente são “os que verdadeiramente agem”, ao invés de ir com aqueles que parecem tranquilos (sem graça) com suas manifestações e suas bandeiras. A parte de folclore aqui não deve ter seu valor diminuído. Mas ela não explica tudo.

Primeiro, nós devemos destacar outra coisa: não é possível criticar a lógica autonomista sem criticar as estratégias das centrais sindicais. Tomemos como exemplo as “linhas de frente” dos atos (cortèges de tête), que reúnem muitas e muitas pessoas. Basta ir ver esses blocos (onde encontramos black-blocs e appellistes) e grupos de jovens, de sindicalistas, que só compõem as manifestações tradicionais fazendo parte de grupos autônomos.

Minha convicção é a seguinte: esse movimento autônomo e suas práticas são uma dissidência do movimento trabalhista tradicional que se forma como crítica/opositora a ele. Mais precisamente, a linha de frente é a dissidência, e os grupos autônomos, com sua política de ação-direta e seu anti-sindicalismo, que recrutam esses dissidentes.

Inclusive, se uma crítica aos movimentos autônomos é essencial para determinar uma estratégia de luta revolucionária eficaz, é ainda mais essencial fazer uma autocrítica das organizações revolucionárias que n ão respondem politicamente às necessidades das pessoas que rompem com as organizações reformistas e suas respectivas estratégias.

Estamos, portanto, diantes de vários problemas:

➢ o impasse reformista das burocracias sindicais e dos partidos reformistas que não querem disputar o poder apostando em mobilizações (greve geral, renovação política, etc);

➢ o impasse dos autonomistas que não buscam unificar nossa classe e criar uma convergência de lutas, mas, sim, acirrar tensionamentos e se autoconstruir, de modo minoritário e insignificante;

➢ a fragilidade da militância das organizações revolucionárias democráticas que a impede de agir;

➢ o recuo global da combatividade popular e da consciência de classe que não permite criar rupturas consequentes nas organizações reformistas e tornar os movimentos autônomos marginais;

O quê fazer?

Como eu disse, se uma crítica legítima ao reformismo sindical e político é inútil à luz das derrotas sociais obtidas e suas desastrosas estratégias de luta, não é menos verdade que as mesmas críticas à estratégia das minorias é possível.

Para os militantes revolucionários e anticapitalistas consequentes, a violência em si não é um problema. Numa revolução, as ações violentas certamente serão feitas. Mas a violência não é uma prática ordinária. Ela exclui, ela pode marginalizar, ela é a arma da ideologia dos nossos adversários… ela pode nos contaminar politicamente, e as contra-revoluções estão aí para nos lembrar disso. Quando há violência, é como reação, é uma violência defensiva… então, é necessário fazer frente contra o Capital e seus agentes, e, de mãos dadas, reagir. Esses momentos serão inevitáveis sem que tenhamos que provocá-los. Sendo que, quando não os provocamos, é mais fácil construir uma oposição ao Estado e suas violências… (mesmo que nós não sejamos enganados pelas provocações e pela instrumentalização que a polícia faz em relação às “violência” dos autonomistas para reprimir todo o conjuntos dos manifestantes). Não se trata somente de mensagens ao vento, mas igualmente da vontade de reforçar a consciência de classe frente ao Estado burguês e capitalista. Mais concretamente, se a polícia reprimir uma manifestação com milhares de grevistas, então os grevistas responderão coletivamente com violência e essa violência será mais que legítima. Mas para isso, é necessário construir as mobilizações, as greves, as assembleias gerais democráticas onde as pessoas se encontram, debatem, decidem… é a tarefa prioritária antes de se fazer o confronto-direto. É necessário aprender a lenta impaciência como diria Daniel Bensaïd. Eu também gostaria de fazer a revolução logo, mais é preciso levar em conta as forças envolvidas nesse processo, incluindo as nossas… que nós devemos firmar, aumentar. É preciso reconstruir uma identidade de classe internacionalista e anti capitalista. Nós devemos nos formar, em autodefesa, nas teorias revolucionárias, etc.

Quanto à consciência de classe, isso passa pela unidade do nosso campo social, unidade das organizações do movimento social (compondo, sobretudo com os reformistas que são a maioria). É necessário fazer isso por duas razões: primeiro porque é útil para nossas lutas se encontrarem juntas num mesmo momento. Em segundo lugar, porque somente trabalhando com os militantes dessas organizações é que nós iremos convencê-los de se auto-organizar, da revolução, do internacionalismo, etc. Evidentemente, o pré-requisito é estar no centro do movimento, e, portanto, envolvido nas lutas setoriais e no centro das questões sociais (imigrantes, ecologia, feminismo, etc.) a fim de ter legitimidade para debater tais assuntos. Na lógica da consciência de classe, nós devemos sempre saber acalmar a disputa… Não é todo dia que se faz uma revolução, e as vezes, é necessário fazer manifestações simples, festivas, sem molotovs e pedaços do calçamento, com intenção de permitir que toda nossa classe se manifeste pacificamente, se encontre, leia diferentes opiniões nas bandeiras, nos panfletos, nos jornais…Isso também é construir a revolução: ganhar pessoas para nossas causas, nossas ideias, nossa militância.

Nós devemos também nos jogar de cabeça, literalmente, na militância relacionada às pautas dos imigrantes, contra a energia nuclear, pelo feminismo… para reconstruir links e pontes por todos os lugares. A unidade de classe é também o internacionalismo.

Especifico aqui que o trabalho a ser feito não deve ser, somente, um trabalho próprio de cada organização, isto é, um trabalho político sectário ou por “afinidade” onde não se mistura com outros (embora todo trabalho próprio não seja sectário. É legítimo, também, que cada organização possa defender suas propostas). Nós sabemos que os autonomistas também atuam fora das manifestações. Ele organizam reuniões, em cantinas, em ocupações artísticas, etc. A dificuldade é que tudo é feito de maneira isolada. Frequentemente, ações que poderíamos participar (porque as consideramos justas), são organizadas “clandestinamente” e feitas de modo sectário, a consequência direta disso é a exclusão de um grande número de pessoas dispostas a agir, participar dessas ações. Em outras palavras, as ações dos autonomistas são escondidas, e de fato, “restritas” a outros, enquanto os autonomistas se infiltram nas ações de outros (em particular nas manifestações sindicais) para defender “sua” prática política. Essas lógicas, mesmo eu que eu as compreenda e, como já disse, não as condene, parecem ir no sentido contrário da convergência que tem de ser construída. Para poder superar à esquerda uma mobilização massiva e em unidade, antes de tudo, é necessário construir essa mobilização de massa, no nossos locais de estudo, trabalho, ações… E isso não tem nenhuma chance de acontecer se ficarmos somente entre pessoas já convencidas.

Antes de concluir sobre a questão do partido, eu quero dizer que as pessoas, na esquerda, que vêem os autonomistas como fascistas ou policiais infiltrados (P2), se enganam. Os autonomistas representam uma corrente política que sempre existiu, e que defende uma linha política anticapitalista. Essa linha, como tentei explicar, me parece errada. Mas isso não é razão para falar besteiras sobre o autonomismo. Nós devemos debater com as correntes autonomistas, e também afirmar nossa própria concepção política. Permanecermos politicamente independentes enquanto nos abrimos para o debate, mesmo que nem sempre isso pareça óbvio. Mas isso nem sempre é o caso, tampouco com os reformistas. Para mim, não se deve ter exclusividade na unidade a partir do momento no qual nós somos capazes de impor situações de deliberações democráticas (o que o reformismo e o autonomismo rejeitam). Se nós recolhermos hoje os frutos das nossas fraquezas, isso não deve nos impedir de defender nossa política.

Por fim, devemos também construir um lugar que una nossas energias, que permita haver discussões teóricas, práticas. Onde se possa defender um programa político. Para mim, esse lugar é o NPA, mas o NPA precisaria, sem dúvidas, evoluir, crescer em primeiro lugar e acima de tudo se tornar uma organização mais representativa da sociedade a fim de ser cada vez mais democrática.

Resumidamente, esse texto permite abrir a discussão sobre as violências e as estratégias revolucionárias, mas ele não é mais do que um esboço. Eu proponho a todos que se interessam por estes assuntos a vir discuti-los na festa do NPA que ocorrerá no “Auberge de Jeunesse de Poitiers” (“Albergue de Juventude de Poitiers”) no sábado, dia 26 de maio. Nós discutiremos sobre maio de 68, com Pierre Rousset.Será muito interessante ouvir sua análise sobre este assunto, mas também discuti-lo, debater nossas posições, e propor iniciativas relacionadas a essas questões.

Fonte: https://www.google.com/url?hl=pt-BR&q=http://www.europe-solidaire.org/spip.php?article44293&source=gmail&ust=1529612680350000&usg=AFQjCNF_tn2BNgrRLF9tBD8AtcpncWdw5A

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Publicamos a décima edição de nossa Revista Movimento. Dessa vez, celebramos os 80 anos de fundação da IV Internacional, comemorados em setembro de 2018, com uma seção especial. Há, também, artigos na seção internacional e de teoria. Fechamos esta edição quando a eleição brasileira se encerrava. Como não poderia deixar de ser, nesta décima edição de Movimento, apresentamos nossas primeiras análises sobre os resultados eleitorais. Sabemos que a vitória de Jair Bolsonaro trará graves ataques à classe trabalhadora e ao povo brasileiro. Estaremos com nosso povo, lutando em defesa das liberdades democráticas e de nossos direitos. Mais uma vez, esperamos que a revista seja uma ferramenta útil de construção e formação para nossos camaradas. Boa leitura!

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