Futebol onírico
O Brasil se sagraria campeão da Copa de 94 - Reprodução

Futebol onírico

Os povos elaboram sua identidade através de suas paixões ou de seu recolhimento: no Brasil, nada conduz à loucura como o futebol.

Florestan Fernandes 15 jun 2018, 14:23

Os povos elaboram sua identidade através de suas paixões ou de seu recolhimento. Às vezes, camadas e classes sociais distintas não se sensibilizam da mesma forma. Elas se distinguem pelas tendências e núcleos de seus prazeres e alegrias. Mesmo nas sociedades diferenciadas, porém, existem convergências que estimulam a comunidade de sentimentos e de valores que passam pela música, pela dança, pelas festas coletivas (como o Carnaval), pela leitura, pelo esporte etc.

No Brasil, nada conduz à loucura como o futebol. Durante pouco tempo atividade refinada, irradiou-se por toda a sociedade e tornou-se o emblema da hegemonia popular sobre a “cultura das elites”. Estas submeteram-se ao seu desnivelamento e construíram em torno do futebol uma arena de poder, de lucros e de mando, como atestam carreiras políticas, administrativas e financeiras.

Não é por aí, todavia, que se aprende algo profundo sobre o “caráter nacional”. Este se evidencia no mundo de sonhos e de ilusões que arranca do futebol. Primeiro, no conceito de arte, que lhe é aplicado como qualificação mestra. Segundo, no significado que recebe entre jogadores e nas suas relações com os torcedores.

Há a união pelo clube e a que nasce de acontecimentos maiores, como campeonatos e principalmente copas mundiais. Terceiro, a exaltação e a consagração dos grandes futebolistas: são entes humanos e heróis-civilizadores (o Pelé e o “rei” ou o “deus” Pelé). Trata-se de um mundo no qual o profano, a magia e a religião se confundem e quebra a rotina da miséria, da ignorância e da opressão, ainda que por alguns instantes e graças à fantasia.

A derrota é pior que a dor, porque ela não permite prolongar a vitória sobre o sofrimento e a plenitude de viver, a comunhão com os deuses.

À vista desse contexto, o empate do Brasil com o Canadá equivale a um desastre moral. O imprevisto se abateu em tempo, segundo Josias de Souza. Sua interpretação, nos planos racional e lúdico é correta. Mas ela ignora o êxtase que elevou a crença na “vez do Brasil” em dogma nacional.

O desânimo e a incerteza torturam mentes e corações de milhões, que não viam o Canadá (e provavelmente nenhum outro time) como adversário à altura. Misturadas as coisas, a competição esportiva seria a última via a ser tomada em conta.

O empate possui limitado alcance explicativo. Ele só desvela o que já era evidente. Como não se leva a sério a educação e a cultura, mesmo os treinadores e a cúpula da seleção estão entregues ao encantamento mágico religioso. A nossa seleção teria de vencer por “direito divino”… Abandonamos nossas tradições futebolísticas, em vez de aperfeiçoá-las com afinco. Robotizamos os jogadores, como se não fossem pessoas. Controlamos suas ações fora do campo e priorizamos o autoritarismo dos patronos como fator seletivo. Não afastamos os que já não são os melhores e entronizamos os que deveriam provar que o sejam. O que esperar?

A “garra” e o “jogo de cintura” resolvem. Mas nem sempre! Urge varrer a complacência do futebol, junto com os “cartolas” que o infestaram e os técnicos que andam com a cabeça fora do lugar.

13 de junho de 1994

Artigo originalmente publicado na Folha de S.Paulo.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
“Enquanto os efeitos sanitários e econômicos da Covid-19 seguem fazendo-se sentir, escancarando a crise global do capitalismo, as lutas na América Latina começam a apresentar importantes conquistas no enfrentamento da extrema-direita continental. Na Bolívia, após meses de enfrentamentos e mobilização popular, a contundente vitória da chapa do MAS pôs fim ao governo ilegítimo e reacionário de Jeanine Áñez. No Chile, após as multitudinárias manifestações de 2019, o plebiscito levou a uma vitória esmagadora em favor de uma nova constituição elaborada por assembleia exclusiva. Na campanha eleitoral estadunidense em curso, está em jogo a possibilidade de derrotar o trumpismo, que anima movimentos neofascistas e racistas naquele país e em todo o mundo. Ao mesmo tempo, as eleições municipais brasileiras abrem a possibilidade de construir uma alternativa nas cidades que contribua para isolar e derrotar o bolsonarismo. A décima oitava edição da Revista Movimento debruça-se sobre esses processos de mobilização nas ruas e de enfrentamento eleitoral em curso”.