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O dia em que Gabriel García Márquez amou o futebol

O grande mestre da literatura colombiana disserta sobre sobre uma das maiores paixões do continente latino-americano.

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E então resolvi assistir ao estádio. Como era um encontro mais estrondoso que todos os anteriores, tive ir cedo. Confesso que nunca em minha vida cheguei tão cedo em nenhum lugar e que de nenhum saí tão esgotado. Alfonso e Germán não tomaram nunca a iniciativa de me converter a essa religião dominical do futebol, talvez porque eles devessem suspeitar que alguma vez eu ia me converter nesse energúmeno, limpo de qualquer verniz que possa ser considerado como o último rastro de civilização, que fui ontem nas arquibancadas do Municipal. O primeiro instante de lucidez em que me dei conta que estava convertido num torcedor intempestivo foi quando adverti que durante toda a minha vida havia tido algo de que muitas vezes me havia orgulhado e que ontem me estorvava de uma maneira inaceitável: o senso de ridículo. Agora me explico por que esses cavalheiros habitualmente tão impoulutos se sentem como uma lula em sua tinta quando se colocam, com todo um ritual, seu gorro de várias cores.

É que, com esse gesto singelo, ficam automaticamente convertidos em outras pessoas, como se o gorro não fosse senão o uniforme de uma nova personalidade. Não se a minha matrícula de torcedor está ainda demasiado fraca para me permitir certas observações pessoais acerca da partida de ontem, mas como já ficamos de acordo em uma das condições essenciais da torcida é a perda absoluta e aceitada do senso de ridículo, vou dizer o que vi – ou o que acreditei ver o ontem à tarde – para me dar o luxo de começar bem cedo a dizer essas bobagens esportivas que as tinha bem guardadas dentro de mim. Primeiro de tudo, me pareceu que o Junior [time de Barranquilla] dominou a Millonarios [time de Bogotá] desde o primeiro momento. Se a linha branca que divide a cancha em duas metades significa algo, minha afirmação anterior é correta, posto que muito poucas vezes pôde estar a bola, no primeiro tempo, dentro da metade correspondente ao gol do Junior. (Que tal está meu debut como comentarista de futebol?).

Por outro lado, se os jogadores do Junior não tivesse sido certamente jogadores mas escritores, me parece que o professor Heleno [de Freitas, craque brasileiro dos anos 40] teria sido um extraordinário autor de romances policiais. Seu sentido de cálculo, seus repousados movimentos de investigador e finalmentes seus desenlaces rápidos e surpreendentes lhe outorgam suficientes méritos para ser o criador de um novo detetive para novelística policial. Haroldo, por sua vez, teria sido una espécie de Marcelino Menéndez y Pelayo, com a facilidade que tem o brasileiro para estar em todas partes ao mesmo tempo e em todas elas trabalhado, atendendo simultaneamente a onze senhores, como se tratasse não de fazer um gol mas de escrever todos os alfarrábios que dom Marcelino escrevera. Berascochea teria sido, nem mais nem menos, um autor fecundo, mas se tivesse escrito setecentos tomos, todos eles teriam sido sobre a importância das cabeças de alfinetes. E que grande crítico de artes teria sido Dos Santos –que ontem se portou como quarto — fechando a passagem para todos os escribas que pretendessem chegar, ainda que fosse com os maiores esforços, ao gol da imortalidade. De Latour teria escrito versos. Inspirados poemas de longa-metragem, coisa que não poderia se dizer de Ary. Porque de Ary não pode se dizer nada, já que seus companheiros do Junior não lhe deram a oportunidade de demonstrar ao menos suas mais modestas condições literárias.

E isso para não falar dos Millonarios, cujo grande Di Stéfano [um dos maiores jogadores argentinos de todos os tempos], se de algo sabe, é de retórica.

Não creio ter perdido nada com este irrevogável ingresso que hoje faço – publicamente – à santa irmandade dos torcedores. O único que desejo, agora, é converter a alguém. E creio que vai ser o meu distinto amigo, o doutor Adalberto Reyes, a quem vou convidar para as arquibancadas do Municipal na primeira partida do segundo turno, com o propósito de que não siga sendo – desde o ponto de vista esportivo – a ovelha desgarrada.

Trecho El Juramento, de Gabriel García Márquez, junho de 1950. Fonte: https://elcomercio.pe/deporte-total/futbol-mundial/dia-gabriel-garcia-marquez-amo-futbol-311399

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Apresentamos uma revista especial sobre os 50 anos do Maio de 1968 com o orgulho de herdar uma tradição. Assim como a Comuna de 1871, a Revolução Russa de 1917 e as lutas contra as ditaduras na América Latina, consideramo-nos parte deste excepcional movimento mundial de luta política, protagonizado por jovens e trabalhadores de várias partes do mundo, como nas famosas barricadas de Paris. Consideramos suas lições e sua potência como atuais. Boa parte dos leitores da Revista Movimento participaram ativamente das Jornadas de Junho de 2013 em nosso país. Aos cinco anos deste acontecimento, queremos contribuir para o encontro e a síntese de tão distantes e ao mesmo tempo tão próximas gerações.

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