Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

7 anos de Juntos!

Organização de juventude inspirada nos movimentos contra-hegemônicos surgidos após a crise de 2008 completa seu sétimo ano de vida.

O Juntos foi fundado em 2011, nos inspirávamos nos movimentos que aconteciam no mundo inteiro. Como reflexo da crise econômica de 2008, surgiram movimentos como o Occupy Wall Street, nos Estados Unidos, contra os ricaços e a desigualdade; como os Indignados da Espanha, a juventude sem emprego, sem educação, sem cultura, sem casa e sem medo; como os Pinguins do Chile, estudantes secundaristas que ocupavam suas escolas contra a hegemonia da educação privada sobre a pública no país; e como a Primavera Árabe, uma série de revoluções democráticas que começaram na Tunísia e se espalharem por diversos países árabes, derrubando ditaduras de décadas.

Acompanhando esses movimentos todos, acreditávamos que essa onda de rebeliões iria chegar no Brasil. E fundamos o Juntos, primeiro como um jornal e depois como um coletivo. A fundação aconteceu no 52º Congresso da UNE, no dia 15 de Julho de 2011, com o primeiro encontro nacional do Juntos. A partir daí estivemos envolvidos em muitas lutas e queremos relembrar aqui algumas delas com momentos que fazem parte do nosso DNA.

Uma de nossas primeiras batalhas foi contra a usina de Belo Monte, no Rio Xingu. A usina, que ocupa 1522 km², vem sendo construída sem qualquer preocupação com as dezenas de milhares de pessoas que habitam a região, desrespeitando indígenas, ribeirinhos, pescadores e muitos outros que vivem e viviam ali. Além de ser um grande ataque humanitário é também ambiental, por destruir a flora e fauna da região.

O Juntas, nosso coletivo feminista, foi fundado com o Juntos e desde o começo atuou em todas as lutas das mulheres, com o mote “A luta das mulheres muda o mundo”. O 8 de Março, manifestação histórica da luta das mulheres, e as Marchas das Vadias, que começaram em 2011 no Canadá e se internacionalizaram, foram embriões do ascenso que vemos do feminismo nos últimos anos. Participamos e ajudamos a organizar a Marcha das Vadias em diversas cidades, como São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre.

Nossas análises e atuação, como é possível perceber, não se restringem ao território nacional. Nos organizamos internacionalmente, e hoje temos coletivos irmãos na Argentina, Peru, Venezuela e Estados Unidos. Para avançar na nossa articulação, realizamos o I Acampamento Internacional da Juventude Anticapitalista e Anti-imperialista em 2013, em Buenos Aires, com quase 2 mil pessoas de 10 países da América Latina e Europa. De lá, tiramos diversas campanhas de solidariedade internacional, aprofundamos nossa organização internacional e conseguimos nos preparar para diversas lutas que estavam por vir.

A principal dessas lutas foi Junho de 2013. Desde 2012 fazemos a leitura de que o aumento das tarifas poderia provocar uma explosão e trabalhamos para construir isso. Fizemos diversas plenárias contra o aumento, junto a outros movimentos, disputamos no CONUNE que a UNE tivesse política em relação a isso e nos preparamos construindo baterias, fazendo faixas e tendo iniciativas para todas as cidades em que estávamos presentes.

Assim, fomos parte da vitória de Porto Alegre, que uniu atos de milhares de pessoas com a luta que a vereadora do Juntos, Fernanda Melchionna, travou na Câmara, e foi a primeira de muitas vitórias naquele ano. A repressão brutal nos atos de São Paulo provocou uma comoção nacional e fez com que milhões de pessoas saíssem às ruas no dia 17 de junho para derrubar o aumento em São Paulo e em dezenas de outras cidades, além de colocar em xeque o projeto da Copa no Brasil, pedir melhorias nos serviços públicos, como educação e saúde, e retomar no horizonte de milhões de pessoas a mobilização como método de luta.

Logo em seguida à vitória das tarifas, os fundamentalistas encabeçados por Marco Feliciano tentavam aprovar o projeto de “cura gay”. Os protestos contra o projeto, que já vinham desde fevereiro, quando Feliciano foi eleito presidente da Comissão dos Direitos Humanos na Câmara dos Deputados, se intensificaram em junho e julho. Assim, uma campanha pedindo o Fora Feliciano se nacionalizou, protagonizada pelos LGBT.

Manifestações contra Marco Feliciano CDH e seu projeto de “cura gay”.
Esse crescimento da luta LGBT refletiu na campanha de Luciana Genro, candidata do PSOL e do Juntos à presidência da república em 2014. Buscando vocalizar as demandas que surgiram em Junho de 2013, enfrentando os grandes capitalistas e os privilégios dos políticos, Luciana mobilizou milhares de pessoas e conquistou mais de 1,5 milhões de votos. Teve coragem de dizer que não mistura política e religião, que queria construir um projeto de esquerda independente do PT, que não ia permitir que Aécio levantasse o dedo para ela, e de defender as LGBT quando Levy Fidelix falava que “aparelho excretor não reproduz”.

Ainda em 2014, fomos pegos por uma tragédia no México. Dezenas de estudantes viajavam de ônibus de Ayotzinapa para uma cidade vizinha quando foram parados pela polícia, que fez um massacre, deixando 43 estudantes desaparecidos. O caso comoveu o mundo inteiro, e fizemos atos e atividades no Brasil exigindo justiça para os 43 desaparecidos de Ayotzinapa.

Como parte do nosso trabalho universitário, desde a fundação do Juntos atuamos nos Congresso da UNE. Batalhamos para que a entidade resgate seu histórico de lutas e deixe de ser apenas uma burocracia em que um mesmo grupo político se mantém na direção há mais de 20 anos. A UNE, que foi fundamental na campanha do Petróleo é Nosso, nas lutas contra a ditadura militar e na derrubada do governo Collor, hoje não consegue representar os anseios dos estudantes. Em 2015, levamos uma bancada de mais de 800 jovens e 214 delegados, polarizando o congresso e apresentando uma alternativa para os milhares de estudantes lá, com o mote de “Convoque sua luta”.

No final de 2015, Geraldo Alckmin apresentou o projeto de reorganização das escolas do estado de São Paulo. Com isso, dezenas de escolas seriam fechadas e escolas que ofereciam ensino fundamental 1 e 2 e ensino médio seriam desmembradas, fazendo com que 311 mil estudantes tivessem que estudar mais longe de suas casas, além de precarizar ainda mais a educação. Começando com a E.E. Diadema, os estudantes ocuparam suas escolas para barrar a reorganização, e chegaram a mais de 200 escolas ocupadas no estado inteiro. Eles ensinaram que os estudantes podem organizar muito bem a escola, e derrotaram o projeto de Alckmin, servindo de exemplo para o país inteiro e dando o pontapé do que seriam as ocupações de 2016.

Em junho de 2015, construímos um ato nacional em frente ao Congresso contra a redução da maioridade penal, esse projeto que busca encarcerar ainda mais a juventude pobre e negra. Tentam culpar a juventude pela violência, quando ao mesmo tempo roubam o dinheiro das escolas e tiram o direito à educação e cultura dessa juventude. Eles perderam na votação, mas quando voltávamos pra casa Cunha deu um golpe e revotou a redução, conseguindo a aprovação.

A primavera feminista teve outro capítulo importantíssimo para nossa história. No auge das manobras e autoritarismo de Eduardo Cunha na presidência da Câmara de deputados, as mulheres vão para a rua contra seu PL 5069, que proibia o acesso até mesmo à pilula do dia seguinte. Lançamos o “Pílula fica, Cunha sai”, que rapidamente se espalhou pelo país com atos feministas em diversas cidades. O que se seguiu foi o fortalecimento de lutas, debates, coletivos e espaços sobre a desigualdade de gênero e a vida das mulheres. No mundo e no Brasil, a luta das mulheres vive e avança!

A França viu em 2016, suas praças serem ocupadas por jovens e trabalhadores contra a reforma trabalhista de Hollande, no chamado movimento “Nuit Debout” ou “Noites de pé”. O Juntos! esteve em Paris acompanhando as mobilizações, que nos mostraram mais uma vez o quanto a juventude é decisiva para encabeçar grandes resistências ao redor do mundo.

Após a vitória dos estudantes secundaristas de São Paulo contra a reorganização de Alckmin, o método das ocupações de escola se espalha por todo o país! Estudantes ocupam suas escolas por melhorias na educação em Goiás, no Ceará, no Rio de Janeiro, no Rio Grande do Sul e tantos outros. E com a PEC do congelamento de gastos e da Reforma do Ensino Médio de Temer, o movimento secundarista vive em 2016 uma explosão nacional, com cerca de mil escolas ocupadas no Paraná e centenas de Institutos Federais ao redor do Brasil. As universidades também entram em cena, construindo assembleias com centenas de estudantes e ocupando mais de 200 universidades. O Juntos! esteve presente impulsionando as ocupações e fortalecendo essa luta que tanto ensinou para a nossa geração.

Vivemos dias intensos nas ocupações de nossas escolas e universidades. Os estudantes e trabalhadores da educação foram uma verdadeira pedra no sapato de Michel Temer que chegou ao governo via manobra parlamentar. No dia 29 de novembro de 2016, levamos mais de 100 mil pessoas para Brasília enfrentar Temer e seu Congresso que votaram o congelamento no investimento das áreas sociais. A batalha contra a PM e a nossa resistência marcaram esse capítulo de nossa história que se confunde com a dos estudantes brasileiros.

Se muito resistimos nas ruas, praças, greves e ocupações, em 2016 também tivemos o desafio de ocupar a política. O Juntos! elegeu três vereadores combativos para as câmaras de vereadores de São Paulo, Porto Alegre e Rio de Janeiro. Em SP, nossa companheira feminista vinda do movimento estudantil da USP, Sâmia Bonfim foi eleita a mulher mais jovem da Câmara de São Paulo, e tem dado dor de cabeça ao tucanato paulista e aos conservadores do MBL. Já em Porto Alegre, elegemos pela terceira vez, e como a mais votada de toda a cidade, Fernanda Melchionna, fundadora de nosso movimento e hoje uma das principais referências da luta social em Porto Alegre. E no Rio, somos parte do feito de levar à Câmara do RJ, o primeiro vereador declaradamente LGBT. David Miranda, nosso parceiro das lutas em defesa da liberdade de Snowden, se tornou nossa voz contra o genocídio do povo negro e LGBT e de todas as lutas da juventude e dos trabalhadores cariocas. Agora segura o coração, que 2018 promete!

Das muitas prisões arbitrárias de junho de 2013 pelo país, o único preso político que permaneceu atrás das grades foi Rafael Braga. Um jovem negro que na ocasião portava uma garrafa de pinho sol, considerado criminoso pelo Estado. A campanha pela liberdade a Rafa Braga denunciou ao mundo e fortaleceu a luta contra a justiça seletiva e racista brasileira, onde ser negro e pobre é sentença de cadeia e morte.

O segundo Acampamento Internacional do Juntos foi um marco na nossa história. Reunimos mais de 1.500 jovens no Rio de Janeiro, junto a diversos movimentos sociais do mundo inteiro para debater e construir um projeto alternativo anticapitalista à esta crise. Além da presença do movimento negro Black Lives Matter, também destacamos a conferência por Skype com Edward Snowden diretamente de seu asilo na Rússia. Lá pudemos dar um passo importantíssimo para a construção de um movimento internacionalista ativo, que se espelha e se solidariza com as lutas dos povos ao redor do mundo.

Nosso acampamento serviu também pra armar uma batalha fundamental que todos. Em 2017, no 28 de abril, construímos lado a lado com trabalhadores do país todo a primeira greve geral que nossa geração viu. 40 milhões de pessoas pararam contra o Temer e suas reformas, principalmente a reforma da Previdência. Estivemos nos piquetes dos metroviários, rodoviários e outras diversas categorias ao redor do país.

Junto com diversos movimentos, as centrais sindicais organizaram um grande ato em Brasília que emparedou o Temer. Foram mais de 100 mil pessoas na esplanada, em um cenário de batalha campal, onde tentávamos avançar pra cima do congresso e a polícia reprimia duramente, chegando a usar armas de fogo. Foi uma demonstração de radicalidade contra os poderosos e a juventude piqueteira do Juntos deu essa batalha até o final.

Em pleno natal de 2017, o povo peruano foi às ruas e nos deu uma verdadeira lição. Para tentar se livrar das acusações de corrupção e armar um acordo entre os políticos peruanos, o presidente Pedro Kuczynski oferece ao ex-presidente e ditador Alberto Fujimori um indulto de liberdade, perdoando os diversos crimes e assassinatos cometidos por ele anos anos noventa. A população não só disse não ao insulto, como também pediu a imediata saída de Kuczynski da presidência, vindo a se efetivar em março. O Juntos! também esteve presente nas lutas do povo do Peru.

Nem só de alegrias e vitórias vivemos. Em 14 de março de 2018, perdemos uma de nossas grandes referências do feminismo negro ocupando um espaço de poder. O assassinato de Marielle Franco e seu motorista Anderson Gomes foi um bárbaro crime político que está até hoje sem respostas. Ocupamos as ruas do mundo inteiro não só para reivindicar justiça para que se descubra quem matou e quem mandou matar Marielle, mas sobretudo para dizer que não recuaremos. Marielle vive na luta das favelas, das mulheres, da negritude e das LGBT’s que nós também nos comprometemos em levar adiante.

A primavera feminista tem sacudido não só o Brasil, mas diversos países ao redor do mundo, com destaque às mobilizações na América Latina e do movimento Ni Una Menos que surgiu na Argentina e se espalhou pelo Chile, Uruguai e Peru. A vitória inicial no Congresso Nacional da Argentina pela legalização do aborto é um grande feito que muito nos inspira, e que é resultado de um potente movimento de mulheres que está transformando a história.

Em 2018 completam 7 anos de Juntos. Como mostramos aqui, foram anos de vitórias, alegrias, derrotas e tristezas. E esses e muitos outros momentos fazem parte da nossa história. Temos muito a fazer e construir ainda, mas de muito vale tudo o que já fizemos.

Viemos de longe e vamos mais longe ainda. Vida longa ao Juntos e a todas e todos que lutam pra construir um outro mundo!

Extraído de: https://medium.com/@_juntos/7-anos-de-juntos-7e51a0dc0a8b

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Publicamos a décima edição de nossa Revista Movimento. Dessa vez, celebramos os 80 anos de fundação da IV Internacional, comemorados em setembro de 2018, com uma seção especial. Há, também, artigos na seção internacional e de teoria. Fechamos esta edição quando a eleição brasileira se encerrava. Como não poderia deixar de ser, nesta décima edição de Movimento, apresentamos nossas primeiras análises sobre os resultados eleitorais. Sabemos que a vitória de Jair Bolsonaro trará graves ataques à classe trabalhadora e ao povo brasileiro. Estaremos com nosso povo, lutando em defesa das liberdades democráticas e de nossos direitos. Mais uma vez, esperamos que a revista seja uma ferramenta útil de construção e formação para nossos camaradas. Boa leitura!

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