Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

Não estamos longe dos funerais da OTAN

O cume de Trump com Putin desarma a "Europa da defesa", recurso desesperado de coesão numa UE em crise.

Yves Herman/ Reuters
Yves Herman/ Reuters

As relações de servidão se complicam quando os servos as questionam, mas a crise é letal quando é o Senhor que as arrebenta. Recordem aquele de Pacto de Varsóvia que foi por água abaixo quando seu amo moscovita renegou a manutenção de sua zona no Leste Europeu enquanto tecia um acordo de paz e distensão, um após outro, com seu inimigo. Ali se acabou tudo. Algo parecido ocorre agora com a OTAN.

Desde 1949, tem sido a instituição que resumia a submissão, a vassalagem e a tutela dos Estados Unidos sobre a Europa ocidental. A segurança europeia esteve desde então sob mando do comandante das forças armadas dos Estados Unidos na Europa. Seus secretários-gerais eram e são europeus, mas sempre foram títeres do Pentágono submetidos a uma vigilância absoluta por parte de seus mentores (Javier Solana tinha um microfone até no banheiro). Agora Trump renega a OTAN alegando motivos contábeis e tudo cambaleia. Os vassalos não sabem o que fazer. Prometem aumentar o gasto de defesa, recordam, revivem e provocam os perigos moscovitas que mantiveram vivo e unido todo o clube durante décadas, e a declaração do presidente do Conselho Europeu soa como um grito de desesperado: “América não tem, e não terá, melhor aliado que a Europa”.

Os vassalos não sabem o que fazer quando o Senhor os renega. E isso em meio a tensões comerciais sem precedentes entre Washington e a União Europeia, e com pelo menos quatro grandes governos da Europa que mais conta em crise; em Berlim pelas divisões da direita governante, em Paris pelo descrédito de Macron, em Roma pelo seu governo eurocético e em Londres pelo imbróglio do Brexit.

Uma das soluções encontradas para a crise desintegradora da UE era, precisamente, a “Europa da defesa”. Conforme a UE se afundava em suas contradições, exacerbava-se a crise com a Rússia, particularmente há uns dez anos. Havia uma lógica parelha naquela dupla tendência de crise interna e tensão exterior. Graças a alguns meios de comunicação estruturalmente corruptos, os números não mudavam o assunto.

Os gastos militares da OTAN ascendem a 954 bilhões de dólares, os da Rússia a 66 bilhões, no entanto é a OTAN a que clama sobre a “ameaça russa”.

Agora o encontro da próxima segunda-feira, 16 de julho, entre Trump e Putin, sua primeira cúpula bilateral, ameaça desmoronar todo esse desesperado teatro. Os vassalos estão nervosos, inseguros, desorientados. Terão algum sentido as manobras previstas para outono na Noruega (Trident Juncture), as maiores previstas pela OTAN desde o fim da guerra fria quando o próprio chefe se toma uma pepsi-cola com o demônio putiniano? É a hora das incongruências. Lembrem-se do caso Skripal. Em 5 de março um ex-agente russo e sua filha apareciam envenenados por uma suposta substância nervosa de uso militar próximo a Salisbury. No dia seguinte, acusava-se a Rússia pela ocorrência. Numa semana o Reino Unido expulsava 23 diplomatas russos; na semana seguinte, os países da OTAN se somavam à medida expulsando dezenas de diplomatas. O agente e sua filha se restabeleceram. Nesta semana, morreu uma pessoa na mesma zona, onde, em Porton Down, há uma fábrica de armas químicas britânica. Sua companheira está em estado muito grave. No entanto, não houve nenhuma reação. Alguém explica isso?

Será preciso ver o que passa na segunda-feira entre Trump e Putin em Helsinki, mas a mesma cúpula já aponta algo: apesar da extraordinária pressão contra o seu diálogo com a Rússia, que mobilizou democratas, republicanos atlantistas, militares e serviços secretos contra qualquer veleidade de aproximação (até se desempoeirou um kafkiano e rancoroso macartismo midiático, particularmente agudo nos EUA e na Alemanha), Trump conseguiu fazer o que planejou. Cobriu de dinheiro o complexo militar-industrial e agora veremos até onde ele chega. Mas de momento parece que estamos mais próximos dos funerais da OTAN.Não estamos longe dos funerais da OTAN.

Fonte: http://ctxt.es/es/20180711/Politica/20685/trump-putin-otan-defensa-UE-guerra-fria-rafael-poch.htm

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Apresentamos uma revista especial sobre os 50 anos do Maio de 1968 com o orgulho de herdar uma tradição. Assim como a Comuna de 1871, a Revolução Russa de 1917 e as lutas contra as ditaduras na América Latina, consideramo-nos parte deste excepcional movimento mundial de luta política, protagonizado por jovens e trabalhadores de várias partes do mundo, como nas famosas barricadas de Paris. Consideramos suas lições e sua potência como atuais. Boa parte dos leitores da Revista Movimento participaram ativamente das Jornadas de Junho de 2013 em nosso país. Aos cinco anos deste acontecimento, queremos contribuir para o encontro e a síntese de tão distantes e ao mesmo tempo tão próximas gerações.

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