Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

Começa a campanha eleitoral: afirmar o PSOL e preparar as lutas

Sobre os desafios políticos, o quadro eleitoral e as possibilidades do PSOL oferecer uma alternativa para os brasileiros.

Candidatos à Presidência realizaram na semana o primeiro debate televisivo da campanha - André Porto/ Metro
Candidatos à Presidência realizaram na semana o primeiro debate televisivo da campanha - André Porto/ Metro

Neste 16 de agosto, iniciou-se a campanha eleitoral mais curta e mais imprevisível da história recente do Brasil. Após anos de crise econômica, ajuste e ataques aos direitos do povo, encontra-se pouco entusiasmo nas ruas. Mesmo em círculos ativistas, a preocupação é mais forte do que a esperança de que a eleição nacional poderá oferecer uma saída aos graves problemas do Brasil e às dificuldades crescentes do povo.

Na última semana, o debate entre candidatos à presidência na TV Bandeirantes mostrou algumas das razões para a desconfiança popular. O nível em geral rebaixado das discussões, o caráter farsesco dos personagens e projetos apresentados, o flerte com a irracionalidade de candidatos como Cabo Daciolo e posições reacionárias como as de Bolsonaro serviram para encher as redes sociais de piadas nos dias seguintes, revelando, uma vez mais, que o regime político brasileiro faliu, suas instituições e partidos não têm qualquer legitimidade, seus personagens são alvo da ira ou, com sorte, do escárnio populares.

Nas linhas a seguir, continuaremos as análises sobre a política e o programa da esquerda socialista para a eleição de 2018. Desta vez, debruçamo-nos sobre os desafios políticos, o quadro eleitoral e as possibilidades para que o PSOL possa oferecer uma alternativa para milhões, organizando um polo político a serviço das intensas mobilizações que viveremos assim que as urnas se fechem. A crise e a instabilidade prosseguem.

A “visita” de Mattis ao Brasil e a turbulência no cenário internacional

Enquanto a campanha começa a tomar as ruas brasileiras, as contradições da situação internacional seguem desenvolvendo-se. Nos últimos dias, o derretimento da lira turca – motivado por um ataque especulativo a esta moeda após o anúncio de sobretaxas a produtos turcos por Donald Trump em represália à prisão de um pastor estadunidense na Turquia – mostrou a posição frágil das economias periféricas diante das pressões das agências de rating e do capital financeiro transnacional. Em um ano, a lira turca perdeu cerca de 40% de seu valor diante do dólar, numa trajetória de queda acompanhada por outras moedas. Na Argentina, em reação ao risco de “contágio”, o governo neoliberal de Macri, semanas após assinar um acordo com o FMI, ordenou que o Banco Central daquele país aumentasse a taxa de juros nacional para 45% ao ano.

Ao mesmo tempo, a crescente disputa entre EUA e China sobre a organização do comércio global nas próximas décadas mantém turvas as perspectivas futuras, numa situação global marcada por uma crise de sobreacumulação e acirrada disputa entre as diversas frações do capital transnacional em busca de ativos desvalorizados e formas de investimento lucrativo. Não por acaso, James Mattis, secretário de Defesa dos EUA, esteve no Brasil durante a última semana para tratar de uma agenda obscura sobre a incorporação da Embraer pela Boeing – empresa diretamente ligada ao complexo militar-industrial ativado pelo Pentágono e a seus interesses estratégicos –, a cessão de uso da base de Alcântara (MA) para os EUA e a crise política na Venezuela.

No Brasil, pântano na economia, desemprego e ajustes

Os analistas econômicos a serviço do “mercado” já alardeiam os riscos que a instabilidade eleitoral pode trazer para uma “recuperação” econômica depauperada. A prévia do BC de crescimento da economia em junho de 3,29% praticamente iguala a retração de 3,34% em maio na esteira da greve dos caminhoneiros. O governo continua projetando o crescimento anual de pífios 1,6% em 2018. Por outro lado, os dados do mercado de trabalho seguem desanimadores. O índice de desemprego apurado no segundo trimestre foi de 12,4%, num quadro em que 13 milhões de pessoas estão sem emprego. Ao mesmo tempo, segundo o IBGE, o desalento alcançou o número recorde de 4,6 milhões de pessoas. Os dados mostram também que, após a reforma trabalhista, já começam a alastrar-se contratações precárias, como o trabalho intermitente.

A burguesia está unificada ao redor das medidas para recuperar os lucros e pretende utilizar a eleição para legitimar este programa, tentando também recuperar de alguma forma o regime político e reciclar seus partidos e dirigentes, de todos os matizes, profundamente envolvidos em escândalos de corrupção. Está em jogo a continuidade do ajuste estrutural, organizado ao redor: 1) da compressão dos custos do trabalho, com a reforma trabalhista, a pressão do desemprego e os contratos precários; 2) reforma da previdência e captura dos fundos públicos para a remuneração do rentismo e para criar oportunidades de negócio com a privatização de serviços públicos e empresas estatais; 3) aprofundamento da espoliação das terras, dos recursos naturais e dos direitos do povo; e 4) reorientar internacionalmente o país, consolidando-o como fornecedor de bens primários e como local de produção a baixos custos. As discussões orçamentárias para 2019, que mostram os efeitos perversos da lei do teto no desmonte de áreas fundamentais como a educação, a ciência e a tecnologia, vão nesta direção.

No debate da Band, primou o que Guilherme Boulos nomeou os “50 tons de Temer”, um debate sobre quem será o novo inquilino do Palácio do Planalto para adotar a agenda de reformas antinacionais e antipopulares em curso. A burguesia tenta manter o debate político nos limites de classe que considera aceitável: o ajuste estrutural é uma imposição e a legitimidade das urnas é útil. Seu grande desafio é eleger Geraldo Alckmin como a continuidade do governo Temer e de seus agentes corruptos, numa tentativa de empurrar para a frente as contradições do regime.

À direita, o PSDB enfrenta obstáculos importantes, como a perda de votos para a extrema-direita de Bolsonaro e seu programa ultraliberal de ajuste, com o qual alguns empresários começam a flertar, e a disputa de votos com Alvaro Dias e Henrique Meirelles, duas candidaturas que expressam o mesmo programa. À esquerda, as manobras do PT durante a fase final de negociações partidárias e a manutenção do nome de Lula como candidato, contra todas as expectativas de sua viabilidade jurídica, mostraram que o objetivo deste partido é preservar sua bancada parlamentar e governos estaduais ao mesmo tempo em que impede a qualquer custo o surgimento de uma liderança na centro-esquerda que lhe possa fazer sombra, do que são exemplos o vergonhoso saldão para retirar o apoio do PSB a Ciro Gomes e as negociações até o último minuto com a cúpula do PCdoB pela retirada de Manuela Dávila.

Diante de uma crise sem precedentes, PT e PSDB, responsáveis pela tragédia em que se encontra o país, pretendem repetir a polarização das últimas eleições presidenciais e reciclar um regime político naufragado, reduzindo o espaço para os concorrentes, como Marina Silva e Ciro Gomes, que aparecem bem posicionados nas pesquisas, mas não contam com as máquinas partidárias, eleitorais e o tempo de televisão das campanhas de Alckmin e de Haddad, virtual candidato petista.

É hora de levantar uma alternativa para a eleição e para as lutas que virão

Infelizmente, as eleições de 2018 não resolverão as graves contradições brasileiras e nem emanciparão um povo cansado com a violência do desemprego, da humilhação diária e da opressão do crime nos bairros e cidades. Para combater o programa de longo prazo da burguesia para o Brasil, será preciso mobilização permanente em defesa de nossos direitos, da soberania nacional e contra a entrega de nossas riquezas.

A eleição é um capítulo importante desta luta. A candidatura de Guilherme Boulos e Sônia Guajajara, da aliança entre PSOL, PCB e MTST, pode apontar um caminho e auxiliar a construir um polo político, para o qual nossas figuras e candidatos em todo o país têm grande importância. Nos estados, teremos candidaturas de referência do PSOL. Podemos fortalecer bancadas combativas, que sirvam como ponto de apoio para as lutas do povo. É hora de lutar, nas ruas de todo o país, por outro Brasil!

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Publicamos a décima edição de nossa Revista Movimento. Dessa vez, celebramos os 80 anos de fundação da IV Internacional, comemorados em setembro de 2018, com uma seção especial. Há, também, artigos na seção internacional e de teoria. Fechamos esta edição quando a eleição brasileira se encerrava. Como não poderia deixar de ser, nesta décima edição de Movimento, apresentamos nossas primeiras análises sobre os resultados eleitorais. Sabemos que a vitória de Jair Bolsonaro trará graves ataques à classe trabalhadora e ao povo brasileiro. Estaremos com nosso povo, lutando em defesa das liberdades democráticas e de nossos direitos. Mais uma vez, esperamos que a revista seja uma ferramenta útil de construção e formação para nossos camaradas. Boa leitura!

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