Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

Nós ganhamos

Especialista em questões de gênero, jornalista argentina escreve sobre as mobilizações pela legalização do aborto que tomaram conta do país.

Multidão acompanha a votação da lei do aborto em Buenos Aires - Reprodução
Multidão acompanha a votação da lei do aborto em Buenos Aires - Reprodução

Às mentes conservadoras, se impôs uma juventude fervorosa que encontrou no lenço verde um símbolo da igualdade. Vencemos os fundamentalismos, porque ficou em evidência e em questão a sustentação do catolicismo por parte do Estado e a pretensão da hierarquia da Igreja em controlar as políticas públicas de saúde e de educação. Já se vendem nas ruas os lenços laranja, símbolo da separação de Igreja e Estado. Vencemos porque os argumentos baseados em crenças religiosas mostraram as mentiras dos antidireitos. Vencemos porque o aborto deixou de ser um tabu, saiu do armário e se descriminalizou socialmente. Vencemos, porque as mães e avós contaram a suas filhas e netas sobre seus abortos, porque as adolescentes levaram o debate para suas casas e escolas. Vencemos, porque o mundo nos viu e descobriu que na Argentina as mulheres ainda não têm o direito de decidir sobre seus corpos e fomos vergonhosamente expostos como um país onde ainda não gozamos de uma cidadania plena. Eles nunca nos deram nada. Para estudar em universidades, para ter o direito ao voto, para decidir sobre a vida dos nossos filhos, para ter livre acesso à métodos contraceptivos, sempre tivemos que sair às ruas para lutar. As lutas feministas pressionam as margens. Os votos que faltaram para descriminalizar e legalizar o aborto não são nada mais do que uma pedra no caminho. Não foi ontem. Vai ser amanhã.

Artigo originalmente publicado no portal Página 12. Tradução de Evenlin Minowa. 

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Neste mês de março, preparamos uma nova edição da Revista Movimento, dedicada especialmente para a reflexão e elaboração política sobre a luta das mulheres. Selecionamos um conjunto de materiais - artigos teóricos, textos políticos, documentos e uma especial entrevista - com o intuito de aprofundar o esforço consciente demonstrado por nossa organização nos últimos anos em avançar na compreensão sobre o tipo de feminismo que defendemos, bem como sobre o papel essencial e a importância estratégica que a luta feminista tem para a construção de um projeto anticapitalista. Um desafio exigido pela atual conjuntura, marcada pela ascensão de governos de extrema-direita no mundo, na qual o movimento feminista tem se apresentado como contraponto e trincheira de resistência fundamental. Por isso, esta edição pretende, antes de mais nada, auxiliar e fortalecer nossas intervenções feministas nesse momento, a começar por duas datas muito significativas que inauguram este mês: o 8 e o 14 de março, dia em que se completará um ano do brutal assassinato de nossa companheira Marielle Franco. Esperamos que seja proveitoso e sirva como instrumento para as nossas batalhas. Boa leitura!

Solzinho

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