Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

A caravana de solidariedade à Nicarágua e a esquerda brasileira

A repercussão da luta contra o regime autoritário nicaraguense no Brasil é grande.

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Na manhã fria, pela via da rodoviária, em 30 de agosto, chegou em Porto Alegre a caravana de ativistas nicaraguenses, numa jornada pela região em para denunciar a repressão do regime de Daniel Ortega. Os três integrantes, todos muito jovens, apesar de cansados, exibiram sorrisos pela recepção calorosa por parte do comitê gaúcho em solidariedade à Nicarágua livre, encabeçado por nicaraguenses residentes no estado do Rio Grande do Sul, em parceria com movimentos sociais, setores da esquerda combativa e ativistas. Ao pisar em solo brasileiro, o grupo começava uma nova etapa da sua “gira”, que ainda teria conexões no Rio de Janeiro e São Paulo.

A caravana era uma boa representação dos atores em luta contra a violência de Estado na Nicarágua dos dias de hoje. Ariana Mcguirre é ativista estudantil de 27 anos, dirigente dos movimento estudantil em Manágua e filha de revolucionários da geração de 1979; Carolina Hernandez, de 36 anos, líder do movimento ambiental que luta contra a exploração predatória por parte das grandes mineradoras; e o mais jovem, Yader Parajon, representando o grupo de familiares que teve seus filhos e irmãos assassinados, sequestrados e desaparecidos durante a repressão, configurando a plataforma “Madres de Abril”.

A caravana participou de debates no Chile, onde ganhou apoio de setores do PS e da Frente Ampla, apesar de terem vivenciado um escracho protagonizado por bandas do PC chileno, articulados pela embaixada da Nicarágua nesse país; na Argentina, houve encontro com representantes de Direitos Humanos, partidos de esquerda como MST e Esquerda Socialista, um ato de rua que denunciou a repressão de Ortega e Murillo. No Uruguai, Frente Ampla, lideranças sindicais, estudantis e de luta por justiça também os receberam, reverberando suas denúncias.

No Rio Grande do Sul, como dito, a jornada contou com debates com o movimento feminista e sindical, com um seminário sobre a mineração na Universidade Federal do Rio Grande, um ato político na Assembleia Legislativa, um encontro na Escola Superior de Teologia em São Leopoldo, um grande ato-debate na FACED/UFRGS, uma participação no programa radiofônico Esfera Pública, apresentado por Juremir Machado, e, por fim, um Sarau poético recordando a mística e tradição revolucionária do “país dos poetas”. Solidarizaram-se e participaram das atividades inúmeras entidades, personalidades políticas e sociais, como lideranças da Caritas, DCE da Unisinos, UMESPA, CSP Conlutas, Sintrajufe, os vereadores Roberto Robaina e Fernanda Melchionna, o deputado estadual Nelsinho Metalurgico, além de figuras públicas como Luciana Genro e Olívio Dutra. Tudo sob coordenação da professora Ana Mercedes e da socióloga Ana Marcela, nicaraguenses aqui residentes.

A agenda no Rio de Janeiro também foi expressiva. Aconteceram reuniões com Marcelo Freixo, com a Anistia Internacional, eventos com vereadores como Babá e David Miranda; reunião com o dirigente histórico Pedro Fuentes, debates na universidades com a presença do Jornalista Eric Nepomuceno, um dos que acompanhou a queda de Somoza no final dos 70. Os debates tiveram a organização do intelectual Humberto Meza, também nicaraguense que mora no Brasil. A caravana segue nesta semana em São Paulo, onde estão programados eventos com o movimento sindical, além de debates na USP e Unicamp.

A repercussão da luta contra o regime autoritário nicaraguense no Brasil é grande. A recente deportação da cineasta brasileira, Emilia Mello, se soma à responsabilidade do governo Ortega pela morte de uma jovem estudante de medicina, oriunda do estado de Pernambuco. Rayneia Gabrielle, que não tinha qualquer tipo de envolvimento com a organização das manifestações opositoras, foi vitimada por um tiro na saída do hospital onde era residente, ao que tudo indica por grupos paramilitares. A posição do governo brasileiro até este momento não se concretizou em uma condenação maior do regime orteguista. A denúncia que foi trazida pela caravana foi fundamental, no sentido de travar um combate contra a narrativa diversionista que relativiza os crimes da ditadura.

Há dois caminhos equivocados para encarar o problema da Nicarágua nos dias de hoje. O primeiro, e mais grave, é o seguidismo às posições do Fórum de São Paulo. Tal postura, felizmente minoritária, foi repudiada por nomes respeitados por próprio campo político, como Boaventura Souza Santos e Pepe Mujica. No Brasil, apenas pequenas organizações de cunho stalinista têm colocado a cabeça para fora para defender a postura da FSLN. O segundo caminho, também errado, é o da omissão. É necessário fazer um chamado amplo para que a esquerda não apenas seja parte da condenação do regime e do apoio às mobilizações para defender os direitos do povo e da juventude da Nicarágua, mas também para que seja parte ativa na imprescindível solidariedade aos nicaraguenses.

O movimento estudantil brasileiro precisa tomar lado na luta contra a repressão. São centenas de estudantes presos, outros tantos perseguidos, além de diversos sequestros e torturas. A agenda do movimento deve estar a serviço da luta democrática, sustentando os jovens que arriscam suas vidas no combate à tirania de Daniel Ortega. O movimento democrático e de diretos humanos não pode deixar de condenar com veemência o autoritarismo do regime de Ortega-Murillo, como fez a CIDH da ONU- que aliás foi expulsa em poucas horas do país pela chancelaria da ditadura. Um sinal positivo é a recente articulação de uma rede de parlamentares e movimentos sociais vinculados aos direitos humanos a fim de avançar um novo passo na luta contra Ortega e pela democracia na Nicarágua. É hora da esquerda brasileira entrar de ver nesta luta.

Artigo originalmente publicado no site do PSOL. 

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Publicamos a décima edição de nossa Revista Movimento. Dessa vez, celebramos os 80 anos de fundação da IV Internacional, comemorados em setembro de 2018, com uma seção especial. Há, também, artigos na seção internacional e de teoria. Fechamos esta edição quando a eleição brasileira se encerrava. Como não poderia deixar de ser, nesta décima edição de Movimento, apresentamos nossas primeiras análises sobre os resultados eleitorais. Sabemos que a vitória de Jair Bolsonaro trará graves ataques à classe trabalhadora e ao povo brasileiro. Estaremos com nosso povo, lutando em defesa das liberdades democráticas e de nossos direitos. Mais uma vez, esperamos que a revista seja uma ferramenta útil de construção e formação para nossos camaradas. Boa leitura!

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