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Diada da Catalunha: a força republicana que não cessa

Vindas de toda a Catalunha, famílias inteiras pediram a liberdade dos presos, a volta dos exilados e exigiram o direito de decidir sobre seu país.

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Não é porque ocorre há anos que deixa de ser extraordinário. A Diada deste 2018 voltou a reunir milhares de pessoas, até a Guarda Urbana de Barcelona reconheceu que podiam ser um milhão. Depois dos acontecimentos de outubro passado e da proclamação fracassada da república, depois da aplicação do 155 e com boa parte dos dirigentes políticos independentistas em prisão ou no exílio, alguns comentaristas fabulavam com a ideia de uma resposta inferior. Erro. Vindas de toda a Catalunha, famílias inteiras, idosos e jovens, num ambiente festivo, sem incidentes e sem que apenas ficasse um papel no chão, reunindo independentistas, soberanistas e democratas, pediram a liberdade dos presos e a volta dos exilados e exigido um direito que consideram lhes corresponde: o direito de decidir sobre seu país. Além disso, lhe deram um conteúdo e claro: querem uma república.

Desde um ponto de vista puramente democrático o conflito poderia ter uma saída fácil: deixar que o povo vote e decida. Mas esta simples e democrática solução põe em risco ao regime monárquico e por isso opõem todas suas resistências as forças políticas e econômicas que não querem nenhuma mudança. É preciso repetir outra vez que a persistente rebelião catalã representa um impulso democrático para o conjunto dos povos do Reino da Espanha? Pode-se ter uma opinião ou outra sobre os atuais dirigentes do processo catalão (e a nossa não é nada benevolente) mas é uma miopia política, e a alguns há bastante tempo, não entender que o povo mobilizado é a força motriz e o aliado imprescindível para toda mudança política, na Catalunha e no Reino da Espanha.

Ao analisar os conteúdos das convocatórias da Diada se comprova sua evolução republicana. Em 2012, convocou-se sob o lema “Catalunha, novo estado da Europa”. Em 2013, uma imensa cadeia humana de 400 quilômetros, desde a fronteira francesa até a Comunidade Valenciana, defendeu uma “Via Catalã para a independência”. Em 2014, um imenso encheu as duas artérias principais de Barcelona, a Grande Via e a Diagonal, com a consigna de “Agora é o momento. Unidos por um novo país”. 2015 representou um salto político e a manifestação teve como lema, “Via livre para a república catalã”. Em 2016, pressionando para a convocatória de um referendo, o lema foi “A punto”, para votar e construir um novo país. Em 2017, semanas antes da convocatória de 1 de outubro, a concentração se definiu como a “Diada do Sim. Referendo é democracia”, e este 2018, depois de tudo o que se sucedeu durante este ano, ao redor de um milhão de pessoas exigiram “Fem república” (Façamos a república). Pode haver alguma dúvida sobre o seu caráter progressista e democrático?

Diálogo

Algumas opiniões das esquerdas analisaram que o movimento democrático e republicano catalão despertava ao nacionalismo espanhol e reforçava aos partidos da direita. Erro. O que a rebelião catalão desatou, particularmente depois de 1 e de 3 de outubro, foi o temor das classes dirigentes de que uma crise política e social que pusesse em questão a Monarquia. Certo que se fizessem bem visíveis as bandeiras espanholas, que C’s e o PP giraram ainda mais a direita e que a extrema-direita começa a aparecer, mas também é certo que o impulso catalão esgotou o PP, junto à corrupção, e que graças a uma aliança entre as esquerdas e os partidos nacionalistas e independentistas foi possível remover Rajoy. Que reapareceu o debate sobre a monarquia ou república, com a família real outra vez no olho do furacão (a corrupção e as contas no estrangeiro) e sobre manter os privilégios atuais das classes dirigentes ou abrir um período constituinte republicano.

Ao exigir que façamos a república os presentes na Diada pediam fatos, decisões, objetivos, e até agora só lhe foram oferecidas palavras. O governo Sánchez diz que quer dialogar, sempre pode ser interessante o diálogo, mas é preciso saber sobre o quê e para quê. Se é para um novo estatuto, ou algumas novas transferências ou oferecer mais dinheiro à Generalitat… é um diálogo que, ao menos de momento, não parece ter muito recurso. Repetir que a Constituição não permite um referendo na Catalunha, ainda que muitos juristas afirmam o contrário, indica a falta de arrojo político de Sánchez. Frente à intransigência de Rajoy, o diálogo de Sánchez poderia se um passo, se acompanhado de um conteúdo; mas se é para repetir o não, que tanto utilizou o PP, tampouco servirá para encontrar uma saída democrática ao conflito e debilitará ao já débil por natureza governo Sánchez.

Reconhecer, como o ministro Borrell, que os presos políticos deveriam estar em liberdade o juízo mas ser incapaz de fazer nada (e a escusa da separação de poderes não se aguenta) indica que o poder judicial pode determinar ao governo e impôr ao país seu desejo de vingança. Acaso pode ser chamado de outra maneira a acusação de rebelião?

Um diálogo efetivo, democrático, deveria abordar, como temas essenciais, a situação dos presos e exilados e pôr acima da mesa um referendo pactuado e vinculante cujos resultados foram reconhecidos pelo governo da Espanha e pela comunidade internacional. Aceitamos que o 1 de outubro foi celebrado um referendo e que os resultados foram contundentes a favor de “um estado independente em forma de república”, e que em 3 de outubro uma paralisação cívica avalizou esses resultados e rechaçou a repressão do Estado. Mas, posteriormente, nem se pôde implementar a república nem estão claros os passos a dar para conseguir isso. Exigir um referendo não se opõe a que desde o govern da Generalitat sejam tomadas as decisões para “fazer a república”, que no momento não foram tomados. Um referendo, não como escusa para não fazer nada, mas como alavanca para voltar a concentrar os esforços e a mobilização de independentistas, soberanistas e democratas, e também como um meio para buscar alianças no conjunto do Estado.

É preciso um debate no movimento independentista sobre se o objetivo do referendo já está superado, que se fez já em 1 de outubro e que aquilo que faz falta é cumprir a vontade popular expressada então e reafirmada nas eleições de 23 de dezembro. Mas os fatos são os fatos e a realidade é que por falta de força, de decisão ou de estratégia, não se avançou em “construir república”. Para fazer isso é preciso voltar ser mais fortes, ter dirigentes mais decididos, forjar mais alianças e debilitar ainda mais o Estado.

Estratégia

As mudanças políticas não estão definidas no calendário, são o resultado de múltiplos processos, experiências, acúmulo de forças e debilitamento do inimigo. Em 14 de abril de 1931, passou para a história mas ninguém podia prever que esse dia fosse o início da II República. O mesmo pode se dizer de outros fatos históricos como a revolução francesa ou a russa. A rebelião catalã teve seu ponto álgido em outubro do ano passado. Não se pôde, ou não se quis, ir mais longe e por isso se necessita amadurecer o balanço e tirar conclusões para poder seguir adiante.

Como se voltou a demonstrar nesta Diada que o impulso da gente segue presente e, entretanto, está pouco clara a estratégia ou, melhor dizendo, há estratégias diferenciadas, inclusive contraditórias. O Estado e a direita querem magnificá-las para tentar dividi-las, mas, se mexermos um pouco, veremos que a pressão popular exige e consegue sustentar a unidade democrática e republicana. Se analisamos com mais detalhe as distintas estratégias, observamos uma dura luta em torno da liderança política que tem a ver com as políticas sociais, econômicas, municipalistas e democráticas que seria preciso implementar.

O governo Torra nem governa nem parece que tenha um plano, nem no terreno político nem no social e somente gesticula e se centra em aspectos simbólicos e nos presos. Não deveria lançar um plano de choque social para afrontar a grave situação de muitos setores trabalhadores? Não deveria definir o conteúdo social e democrático da república? Algumas iniciativas do PDCat mostram a contradição entre as palavras e os fatos. Quando na negociação dos Orçamentos do Estado apresentou a subida do IRPF para as rendas altas, em seguida emergiu o caráter de classe burguês do PDCat para se pronunciar contra. São exemplos de que com essa direção política será mais que difícil estabelecer uma estratégia de avanço, e por isso é tão necessária uma mudança para a esquerda da hegemonia política do movimento.

Existe também um debate no independentismo e o soberanismo sobre se necessita ampliar (“eixamplar”) a base social de apoio à república catalã, ou melhor, compartilhar lutas, experiências e objetivos com outros setores ou camadas sociais não independentistas para realmente para avançar até uma saída republicana.

Uma estratégia não se improvisa, deve ser o resultado de um balanço comum das experiências, uma clareza nos objetivos, a inter-relação entre os distintos setores implicados e o conhecimento das forças, evidentemente, também a dos contrários. Uma estratégia unitária necessita também de uma coordenação que vá mais além das instituições, entidades, partidos, sindicatos, etc. Durante a Transição existiram esses espaços de coordenação estatal, em certo sentido também foi isso a Assembleia da Catalunha. Antes da II República foi assinado o Pacto de San Sebastián que orientou ao movimento republicano da época.

Vários elementos deveriam estar bem presentes nessa estratégia. Uma posição ativa e positiva em relação aos movimentos sociais e sindicais e suas reivindicações. Um reconhecimento com propostas práticas e econômicas do papel do municipalismo para a melhoria da vida dos cidadãos e a busca de alianças republicanas e municipalistas de todo o Estado. Quantos mais aliados, quanto maior reconhecimento mútuo de que se trata de uma luta por direitos democráticos, mais frágil será o Estado e os que o apoiam.

A Diada demonstrou que segue intacta a força do povo. A rebelião catalã ascendeu a uma montanha alta e não explorada e conseguiu superar enormes dificuldades e perigos, mas não chegou à cúpula. Agora, com a mesma força e determinação, tem que encontrar outros caminhos, quiçá mais largos e tortuosos, para finalmente chegar a alcançá-la. Nos próximos meses o juízo contra os presos exigirá outros esforço de mobilização e protesto. Necessita-se esclarecer a estratégia, somar e compartilhar propostas e projetos republicanos, tanto na Catalunha como no resto do Reino da Espanha.

Artigo originalmente publicado no portal Sin Permiso. Reprodução da tradução de Charles Rosa para o Portal da Esquerda em Movimento. 

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Publicamos a décima edição de nossa Revista Movimento. Dessa vez, celebramos os 80 anos de fundação da IV Internacional, comemorados em setembro de 2018, com uma seção especial. Há, também, artigos na seção internacional e de teoria. Fechamos esta edição quando a eleição brasileira se encerrava. Como não poderia deixar de ser, nesta décima edição de Movimento, apresentamos nossas primeiras análises sobre os resultados eleitorais. Sabemos que a vitória de Jair Bolsonaro trará graves ataques à classe trabalhadora e ao povo brasileiro. Estaremos com nosso povo, lutando em defesa das liberdades democráticas e de nossos direitos. Mais uma vez, esperamos que a revista seja uma ferramenta útil de construção e formação para nossos camaradas. Boa leitura!

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