Pelo bem da historiografia

Acaba de morrer dom Josep Fontana, historiador catalão de estatura internacional.

Mario Bunge 12 set 2018, 20:46

Acaba de morrer dom Josep Fontana (Barcelona, 1931-2018), historiador catalão de estatura internacional. Entre suas numerosas publicações destaca sua monumental Por el bien del imperio: Una historia del mundo desde 1945 (Barcelona: Pasado y Presente, 2011). Suas 1.223 páginas documentadas em detalhe exibem o ascenso do império americano desde o fim da segunda guerra mundial, quando substituiu os demais impérios, até suas agressões mais recentes.

A capa deste tomo monumental exibe uma mão atada por uma soga. Obviamente, trata-se da mão de um escravo, e mostra que o autor condena a escravidão. Ou seja, Fontana é parcial: toma partido pelos oprimidos. É parcial, mas ao mesmo tempo objetivo. Ou seja, Fontana se atém aos fatos, não a uma ideologia. É certo que se chamou a si mesmo marxista, por aderir à concepção materialista da história, segundo a qual o principal fio da trama histórica é o econômico. Mas já não creio que Fontana que fosse economicista: me parece que fez historiografia total, como os membros da famosa escola francesa dos Annales (1920-1970). Estes estudiosos, igual ao tunisiano Ibn Jaldun (1332-1406), começavam por estudar o ambiente geográfico e seus principais habitantes, os camponeses. Mas não descuidavam dos demais fios da trama, ou seja, as mentalidades, a política e a religião. Em outras palavras, estes estudiosos do passado eram sistêmicos antes que individualistas (grandes homens) ou holistas (raças, nações ou ideias).

Vejamos como trata Fontana um dos grandes acontecimentos do fim do século passado: a derrubada do bloco soviético. Fontana criticou sem concessões os dirigentes soviéticos que sujeitaram o bem-estar do povo à tentativa imperialista de unir numa aliança internacional aos que se opusessem à frente liderada pelos EUA. É assim que Stalin apoiou aos sionistas em sua guerra contra os árabes que viviam na Palestina, e que a URSS se arruinou por intervir no Afeganistão e por prestar uma enorme ajuda aos governos que a pediram, qualquer que fosse sua orientação social. Em suma, Fontana não confundiu marxismo com política comunista.

Eu tive a sorte de conhecê-lo dom Josep na casa de Alfons e Marimar Barceló. Anos depois lhe pedi que escrevesse algo para o volume ¿Tiene porvenir el socialismo? (Buenos Aires: Eudeba, 2014), que compilei junto com Carlos Gabetta. Don Josep me mandou prontamente sua lúcida contribuição, “La necesidad del socialismo”. Em sua última carta do, Josep me recomendou o extraordinário livro Empire of Cotton, do historiador de Harvard Sven Beckert (2014), que enriqueceunotavelmente a ideia corrente da Revolução Industrial.

Que luxo poder ter gozado da amizade de Josep Fontana, eminente cientista social com um ideal avançado sem ilusões! Oxalá sua obra sirva de trampolim para uma falange de jovens historiadores que tratem cientificamente a sociedade e seu passado, ou seja, que busquem objetivamente os fatos e ponham a prova suas conjecturas em lugar de repeti-las.

5 de setembro

Fonte: http://www.sinpermiso.info/textos/por-el-bien-de-la-historiografia


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