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À beira do abismo: Bolsonaro e o retorno do fascismo

Um debate teórico à luz da caracterização do fenômeno por trás da eleição do direitista.

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O fascismo está às portas do poder no Brasil, o gigante latino-americano, a sexta economia mundial. Trata-se, portanto, de uma comoção de alcance internacional e, provavelmente, de uma inflexão na história brasileira e regional. A dinâmica política inaugurada pelos resultados do primeiro turno deu licença a uma grande eclosão de violência social e política e presenciamos nestes dias uma surpreendente explosão de atentados e agressões a pessoas LGBTI, mulheres, pobres, negros e simpatizantes do PT por parte de seguidores de Bolsonaro. Como disse Maud Chirio, especialista em história brasileira, “assistimos ao vivo à fascistização do Brasil”. À beira do abismo, é necessário discutir sobre o perigo que enfrentamos para nos preparar para os combates que virão.

É preciso manter o rigor e não usar levianamente o termo fascismo. Não se trata de um sinônimo para “capitalismo autoritário” nem um qualificativo apropriado para toda a ditadura militar ou bonapartismo repressivo. Na história argentina podemos recordar uma aplicação abusiva em seu uso para definir o peronismo histórico, por parte do Partido Comunista e de boa parte da intelectualidade burguesa, como na mais recente utilização para caracterizar o projeto neoliberal (e embrionariamente autoritário) de Macri, por parte de alguns analistas pouco afeitos a precisões.

As classificações e as definições na teoria social têm sempre um caráter aproximativo, provisório e uma certa cota de arbitrariedade. Já não podemos pensar, como os pais fundadores do marxismo, que as categorias de análises com as quais trabalhamos (bonapartismo, fascismo, populismo, revolução, classe) estão dotadas de delimitação e precisão científicas. Isso não muda o fato de que o debate exige rigor e não é trivial, técnico, nem meramente terminológico. Da caracterização de nosso inimigo se segue nossa política. E na encruzilhada atual está em jogo a possibilidade de evitar uma derrota histórica das classes populares (que é muito mais do que uma derrota eleitoral).

O impacto de toda grande comoção da luta de classes sempre modelou, em boa medida, os debates estratégicos subsequentes da esquerda a nível internacional. É a partir do balanço da experiência chilena da Unidad Popular, por exemplo, que Berlinguer defende na Itália a necessidade de um “compromisso histórico” do PCI com forças da burguesia, como meio de propor a questão governamental de forma duradoura (ou seja, por meio de esmagadoras maiorias eleitorais que somente poderiam ser conquistadas em acordos com os setores “progressivos” dos partidos tradicionais). De certa forma, todos os problemas estratégicos do período se apresentam agora condensadamente no “instante de um perigo”: o balanço do PT e do “ciclo progressista” latino-americano, os traços crescentemente autoritários do capitalismo em crise, a possibilidade de emergência de uma nova esquerda “pós-progressista” e o papel do novo ciclo de lutas feministas.

O enigma teórico do fascismo

Este ascenso de Bolsonaro impôs explosivamente a discussão sobre a natureza do fenômeno. Trata-se efetivamente de uma forma contemporânea de fascismo? Pode-se assimilar as experiências dos anos 30? Trata-se do capítulo latino-americano de um endurecimento autoritário global que se evidencia como tendência da reestruturação capitalista em curso? O crescimento da extrema-direita em todo o mundo ocidental obriga a situar novamente no centro da discussão marxista o estudo sobre as novas direitas radicais. “A história do fascismo – afirmava Mandel – é também a história da análise teórica do mesmo”. E agregava:

“Das cinzas da primeira “casa do povo” que incendiaram os bandos fascistas na Itália surgiu uma pergunta inevitável: o que é o fascismo? Durante 40 anos (até o período imediato ao pós-guerra) esta pergunta fascinou simultaneamente aos principais teóricos do movimento operário e à intelectualidade burguesa. Apesar de que a pressão dos acontecimentos históricos e do “passado não apreendido” se relaxou em alguma medida nos últimos anos, a teoria do fascismo segue constituindo um tema de obsessão para a sociologia e a ciência política” (1969).

Esta obsessão da teoria social é o reverso da permanente perplexidade que suscita um fenômeno tão enigmático como para reunir uma política ultrarreacionária junto a tópicos provenientes da esquerda revolucionária, autoritarismo e rebelião de massas, uma orientação favorável ao capital monopolista e altos níveis de autonomia estatal, elementos identitários arcaicos e antimodernos (a raça, o sangue, a terra) e um modernismo técnico, científico e industrial. Chegam a tal ponto as características desconcertantes que George L. Mosse, um dos grandes historiadores sobre o fascismo das últimas décadas, as definiu paradoxalmente como uma “revolução burguesa antiburguesa”.

No final dos anos 20, a direção da Komintern (Internacional Comunista), já dominada por Stalin, formulou uma interpretação do fenômeno que retrospectivamente podemos destacar por suas notáveis limitações. Dotada de uma concepção fortemente economicista, o fascismo não podia ser outra coisa que o instrumento puro e simples de uma ditadura do capital monopolista sobre o conjunto da sociedade. Com uma concepção que supunha a unidade monolítica sobre o Estado e as classes dominantes, a Komintern caracterizou como “fascista” a qualquer regime autoritário da época (desde o governo alemão de Hindenburg, a ditadura polonesa de Piłsudski ou o regime de Primo de Rivera), e inclusive mais, a toda corrente política que não se propusesse a uma ruptura revolucionária com o capitalismo. A social-democracia, então, não era mais do que uma das múltiplas caras do fascismo (“social-fascismo”). Cega frente as perigos que enfrentava, a Komintern considerou o ascenso do fascismo ao poder como um curto parênteses que prenunciava a revolução proletária (“depois de Hitler, nossa vez”). Poucas vezes um erro de compreensão (resultado em boa medida dos interesses diplomáticos do Kremlin) teria efeitos políticos tão devastadores.

Esta perspectiva conduziu o Partido Comunista Alemão à tática de “classe contra classe”, que não só rechaçou toda unidade de ação antifascista mas que converteu a social-democracia no inimigo principal, quando era iminente o acesso do nazismo ao governo. Esta incompreensão derivou, nas palavras de Trotsky, na “página mais trágica da história moderna”: a ascensão de Hitler ao poder, com escassa resistência, no país com a classe operária mais numerosa, melhor organizada, mais culta e mais politizada da Europa e peça estratégica fundamental da extensão internacional da revolução (expectativa que se manteve inalterável desde Marx até a III Internacional).

O marxismo, no entanto, desenvolveu as análises sobre o fascismo mais sofisticadas do período, à distância das posições da Komintern (os escritos de Guerin, Trotsky, Gramsci, Togliatti, Otto Bauer). Apesar das diferenças, estes autores apresentam traços comuns em seus escritos: situam o desenvolvimento do fascismo no quadro da severa crise social do capitalismo do entreguerras, em sua fase imperialista e declinante, e como resposta à presença de uma ameaça revolucionária proveniente da classe operária, ou seja no marco de uma dinâmica de polarização social e política. Com base na pequena burguesia em crise, o fascismo vai ser um fenômeno político de massas dotado de certa autonomia em relação à grande burguesia, apesar de desenvolver uma política favorável a seus interesses. Trotsky vai definir como um “sistema particular de Estado baseado na extirpação de todos os elementos da democracia proletária na sociedade burguesa”, uma sorte de guerra civil institucionalizada contra a classe trabalhadora e as liberdades democráticas. Na definição de Togliatti do fascismo como um “regime reacionário de massas” se plasma essa peculiaridade que o diferencia de outros movimentos autoritários: a grande mobilização de massas que precede seu advento e que assume a forma de uma “revolução plebeia” contra as “elites”. De fato, o fascismo se autodefinia como uma “revolução contra a revolução” (Traverso, 2016).

Também houve certos estudos de inspiração marxista que buscaram uma intersecção entre a análise socioeconômica e a psicanálise, de onde surgiram os textos sobre a “personalidade autoritária” de Adorno, ou análise do fascismo como inscrição política dos “impulsos secundários” (crueldade, rapacidade, lascívia, sadismo, inveja) de William Reich (“As massas não foram enganadas, elas desejaram o fascismo”). Bem entendidas, estas últimas análises têm seus pontos de interesse para aportar à compreensão de um fenômeno complexo deste tipo.

Nas décadas posteriores ao pós-guerra, se abriu uma nova sequência de textos no campo do marxismo (Poulantzas, Laclau), que buscaram enfatizar a autonomia política e estatal da experiência fascista, irredutível a qualquer materialismo vulgar, Estas análises confrontaram principalmente o economicismo da Komintern, seja em seu momento ultraesquerdista do “terceiro período” ou em seu momento oportunista das frentes populares posterior ao VII Congresso. Para Populantzas, o fascismo reorganiza o bloco no poder em benefício do capital monopolista por meio de um tipo de Estado que mantém uma autonomia relativa em relação à fração do capital cuja hegemonia consolida (2005). Numa linha similar, para o jovem Laclau althusseriano o fascismo é a consequência da impossibilidade de incorporação das “interpelações popular-democráticas” ao discurso socialista (produto de seu “reducionismo de classe”, incapaz de rearticular demandas nacionalistas, democráticas, provenientes das classes médias, etc.) e, por sua vez, uma forma específica de articulação destas interpelações (2015).

A tradição de análise do marxismo antiestalinista sobre o fascismo histórico (e sua crítica ao instrumentalismo economicista da Komintern) é um recurso útil para compreender o fenômeno ao qual estamos assistindo, sempre que evitemos cair na clássica tentação das analogias demasiado rápidas.

Bolsonaro é nome do quê?

Têm surgido objeções à caracterização de Bolsonaro como fascista, que se concentram em marcar uma série de diferenças entre este e os regimes de Hitler ou Mussolini: a ausência de um partido de massas como o NSDAP alemão, a inexistência de bandas paramilitares armadas como os camisas negras italianos ou as SA alemãs, a debilidade do movimento operário, incapaz de se elevar como ameaça revolucionária, ou a aceitação do marco eleitoral e da democracia liberal. Trata-se de análises esquemáticas, que contam com uma definição do fascismo demasiadamente restritiva, estática e que, até certo ponto, reproduzem a combinação de economicismo e instrumentalismo que caracterizou a Komintern.

A partir do explosivo crescimento de novas direitas radicais na Europa (num contexto político que exerce pressões à moderação e à “respeitabilidade institucional”), está em curso um debate sobre a natureza destas e sua relação com o fascismo clássico (Enzo Traverso, 2016, Ugo Palheta, 2018, Jacques Ranciere, 2015, Michael Lowy, 2014). Em qualquer caso, a “questão Bolsonaro” é mais inequívoca e suas simetrias com o fascismo mais diretas.

Chamamos neofascismo ao fascismo acorde ao atual período histórico. Muitas das características do entreguerras onde se desenvolveu o fascismo histórico não se repetirão. Hoje estamos num contexto social e institucional onde adquire novas formas o movimento de massas reacionário que pretende “institucionalizar métodos de guerra civil” contra a classe trabalhadora, a esquerda e as liberdades democráticas. Veremos, factivelmente, que a democracia e a legalidade constitucional seguirão sendo a roupagem exterior de um regime autoritário. É provável também que os meios de coerção dominantes sejam as forças repressivas regulares e não bandos paramilitares. O fascismo atual não pode ser similar ao dos anos 30 porque não estamos naquele período. Mas além disso o fascismo histórico não se reduziu aos modelos da Alemanha e da Itália. O franquismo espanhol, a ditadura salazarista em Portugal, o regime de Vichy na França, são também expressões do mesmo fenômeno político de entreguerras, ou parte de seu “campo magnético” (Burrin), e não podem ser assemelhados às experiências da Alemanha ou a Itália1.

Apelar à impossibilidade de Bolsonaro para instalar um regime estatal totalitário-corporativo ou, inclusive, às dificuldades para estabilizar seu eventual governo, não muda o fato de que o ascenso do candidato do PSL ao governo é um grande passo em direção a uma forma de neofascismo. Em nenhuma das experiências históricas, inclusive depois de aceder ao poder, se viu emergir um Estado fascista de um dia para o outro. Já convertido em primeiro-ministro, Mussolini governou dentro do marco constitucional durante meses, em coalizão com partidos tradicionais (católicos, nacionalistas, liberais), e dispôs inicialmente somente de quatro ministros fascistas.

O fascismo nunca foi implementado de forma abrupta. É preciso pensar o fascismo como dinâmica política e falar de um processo de fascistização, que atravessa necessariamente mediações, transições, saltos e rupturas. O fascismo não se adota de um dia para o outro porque não é um “botão” que a burguesia aperta em situações de crise. Não é um nunca um instrumento nem um epifenômeno das necessidades do capital, mas o produto de um processo complexo e relativamente autônomo, onde sedimentam questões ideológicas, dinâmicas políticas e inclusive “acidentes” eleitorais inesperados.

Outro argumento típico para rechaçar a caracterização de Bolsonaro como neofascista é que reduz o fascismo a um recurso das classes dominantes para frear um ascenso revolucionário em vias de ocorrer. E como hoje a classe operária está na defensiva, e é inexistente a ameaça revolucionária, as classes dominantes não teriam interesse em recorrer a métodos fascistas. Trata-se, novamente, de uma concepção economicista, instrumentalista e que subestima a autonomia dos fenômenos políticos. O neofascismo atual responde à experiência dos setores médios e da pequena burguesia durante os governos do PT e à crise econômica e a deterioração dos últimos anos. “O antipetismo dos últimos cinco anos – afirma Valerio Arcary – é uma forma brasileira de antiesquerdismo, anti-igualitarismo ou anticomunismo dos anos 30. Não foi uma aposta do núcleo principal da burguesia contra o perigo de uma revolução no Brasil. Até poucas semanas atrás a imensa maioria da burguesia apoiava Alckmin. Bolsonaro é um caudilho. Sua candidatura é expressão de um movimento de massas reacionário da classe média, apoiado por frações minoritárias da burguesia, ante a recessão econômica dos últimos quatro anos”2.

A referência à ausência de um partido de massas, como critério de caracterização, evidencia a incompreensão da dinâmica em curso. Pelo momento, é certo, Bolsonaro expressa fundamentalmente uma corrente eleitoral. A bancada do PSL no Congresso só vai contar com 52 deputados de um total de 513 (é a segunda, atrás dos 56 do PT). Mas a base de sustentação parlamentar do futuro governo vai muito mais longe que os eleitos do PSL. Estas eleições consolidaram o avanço de um bloco transversal de extrema-direita que se resume no acrômimo BBB: “Bala” (deputados vinculados à polícia, às Forças Armadas e às milícias privadas), “Boi (os grandes empresários do campo”) e “Bíblia” (fundamentalistas evangelistas e neopentecostais). Este bloco vai constituir uma sólida base parlamentar para um eventual governo neofascista. Se a este sólido apoio institucional, somamos o espontâneo movimento social autoritário, que se expressa na onda de atentados destes dias, e o eventual controle do aparato estatal, podemos pensar que se reúnem condições para a construção “desde acima” de um partido neofascista brasileiro. Considerando o precedente da violência que já desencadeiam os simpatizantes de Bolsonaro, não pode ser descartada a emergência de bandas paraestatais que administrem a violência social e política por fora de toda legalidade.

A questão da eventual mudança no regime político não é fácil de prever. Descartada a possibilidade de um Estado totalitário em sentido estrito, o mais provável é que vejamos a emergência de um regime cívico-militar de novo tipo produto de um progressivo preenchimento militar das dóceis estruturas constitucionais, eventualmente somado a algum tipo de “autogolpe” que distorça até o limite o regime constitucional. Bolsonaro tem o terreno bastante aplanado pelas mudanças institucionais que ocorreram após o “golpe parlamentar” contra Dilma Rousseff: perseguição judicial a opositores, limitação de direitos políticos e, sobretudo, intervenção militar no Rio de Janeiro, verdadeira “experiência piloto” e precedente que pode implantar o novo governo a nível nacional.

Este processo de fascistização emerge como uma resposta à grande crise de hegemonia que afeta o capitalismo brasileiro crescentemente desde 2013. Não basta uma crise econômica para o fascismo emergir como resposta, o que o torna possível “é uma crise do conjunto das mediações políticas, ideológicas e institucionais que, em tempos normais, asseguram a reprodução pacífica do sistema por uma mescla de violência de Estado e de consentimento popular onde este último tem o papel principal” (Palheta, 2018).

Precisamente isso é o que sucede aceleradamente no Brasil, com mais intensidade desde o “golpe parlamentar” de 2016 (que não logrou encerrar a crise, mas que a aprofundou). Repassemos: a derrocada dos partidos do “centrão” (em rigor, da direita tradicional), que foram a base política do golpe e do governo de Temer, como o PSDB e o MDB, o retrocesso do PT e da CUT (que poderia se aprofundar em caso de confirmação da derrota eleitoral no segundo turno) e a crise do conjunto da institucionalidade estatal (um governo com 3% de apoio, um congresso marcado pela corrupção generalizada, um desmesurado intervencionismo judicial). Neste contexto de deterioração estatal, as Forças Armadas aparecem como a instituição mais crível em diferentes pesquisas de opinião, num país onde a saída da ditadura não desencadeou nenhum processo de julgamento institucional e manteve inalteradas suas estruturas castrenses.

Bolsonaro é a expressão política de uma camarilha das Forças Armadas (não necessariamente do conjunto da força), que se propõe uma sorte de golpe de Estado militar sob cobertura constitucional. “Golpe dentro do golpe”, disse acertadamente Mario Santucho na revista Crisis, em referência ao precedente do impeachment contra Dilma Rousseff. Uma camarilha que conseguiu capitalizar o antipetismo e reorganizar a direita em seu benefício. Junto às FFAA, seu outro pilar são as poderosas igrejas evangélicas, que compreendem 22% da população (42 milhões de pessoas). Há tempos, o evangelismo conta com uma presença parlamentar considerável e um notável poder político. Em seu momento, apoiaram o PT, o que se expressou politicamente na designação do acaudalado industrial José Alencar, vinculado à Igreja Universal, como vice-presidente dos dois mandatos de Lula.

Bolsonaro representa um neofascismo “descomplexado”, que encontra poucos parecidos num mundo já acostumado às extremas direitas (os regimes de Erdogan na Turquia ou de Orban na Hungria podem ser talvez paralelos pertinentes): explicitamente racista, misógino, antiLGBTI, anticomunista e, ao mesmo tempo, ultraliberal no econômico (diferentemente da direita radical, protecionista, dos capitalismos avançados). Defende o mesmo programa que Temer, uma ambiciosa reestruturação econômica às custas da classe trabalhadora, com métodos brutais. Tem como eixo a “segurança” (“bandido bom é bandido morto”), o que lhe permite aproveitar a angústia ante a altíssima violência social existente em benefício de um endurecimento repressivo. Situa-se em oposição ao conjunto do sistema político, dirigindo o descontentamento com a casta política rumo a saídas autoritárias, com sistemáticas expressões contra as instituições do regime democrático e contra a esquerda e o movimento operário (assegurou estar disposto a fechar o congresso, prometeu “uma limpeza nunca vista na história” contra a oposição e “varrer os marginais vermelhos”, entre outras expressões brutais que se renovam diariamente).

Bolsonaro é emergente de uma direitização autoritária de franjas importantes da sociedade. Mas também é alimento dessa direitização. Não é preciso aderir à Teoria do Discurso pós-marxista para reconhecer que o “representante cumpre uma função ativa” sobre o “representado”, como costumava recordar Ernesto Laclau. O plano político-eleitoral não somente é resultado das relações de força e das correntes de opinião presentes na sociedade, mas que as modela e incide sobre elas. Bolsonaro é efeito mas também causa do crescente autoritarismo social, ao dirigir para “soluções” selvagens o desespero e o descontentamento popular. Sua eventual vitória, portanto, não somente vai inscrever politicamente uma direitização radical autoritária precedente, mas que está em condições de aprofundá-la. Novamente, é importante perceber o sentido da dinâmica política e não se limitar a analogias históricas que descreveriam ao fascismo necessariamente como um processo “de baixo para cima”.

Como chegamos a isso? O primeiro fator do crescimento da extrema-direita é sem dúvidas a desilusão com a experiência do PT, convertido num gestor social-liberal da crise do capital (aprofundaremos isso no tópico seguinte). Para entender as formas que adquire o crescente antipetismo é necessário levar em conta as permanentes campanhas midiáticas contrárias, que tomam a forma de propaganda sistemática contra os direitos sociais e a luta popular sob a cobertura da denúncia de um “governo corrupto”. Como afirmou Ezequiel Adamovsky: “os discursos ‘antipopulistas’ e pseudorepublicanos baratos que vêm proliferando há vinte anos fizeram muito para demonizar não somente os governo chamados “progressistas” mas também qualquer outra forma de participação popular na vida política e à própria ideia de lutar pela expansão de direitos. E definitivamente a democracia”.

O segundo fator a ser levado em conta é o fracasso do ciclo de mobilizações iniciados em junho de 2013. Originalmente protestos fundamentalmente juvenis em torno do transporte público, primeiro, e depois da educação e da saúde; o ciclo de lutas evoluiu para importantes greves operárias como as dos trabalhadores da limpeza do Rio de Janeiro e do metrô em São Paulo. Este ciclo de protestos expressava aspirações sociais suscitadas nos anos de crescimento econômico, às quais um governo de “conciliação de classes” como o do PT e a estrutura dependente do capitalismo brasileiro, não podiam satisfazer. O governo, que teve que enfrentar pela primeira vez uma mobilização de massas de oposição, não ofereceu resposta a estes protestos. Ante o descontentamento frente a um governo de “esquerda” que não deu satisfação a estas reclamações (e ante a impossibilidade de canalização por parte da oposição de esquerda), o clima de mal-estar e mobilização foi capitalizado pela direita, que foi hegemonizando progressivamente a oposição social com um selo “antipopulista”.

Um terceiro fator é o “golpe parlamentar” de 2016 e o endurecimento autoritário em seguida. A magnitude das contrarreformas propostas pelo novo governo e seu notável desprestígio (deve haver poucos governos no mundo que se sustentem com apenas 3% de apoio social), conduziram a um crescente endurecimento autoritário, que foi obtendo sucessivos resultados: intervenção militar no Rio de Janeiro, perseguição judicial a opositores, detenção de Lula sem provas, reforma política proscritiva para as forças minoritárias e o marco geral de um clima de crescente violência política (que se simboliza no assassinato da vereadora do PSOL, Marielle Franco). Esta naturalização progressiva de um regime autoritário é a bandeja de prata que prepara a aterrissagem do neofascismo de Bolsonaro.

Por outro lado, não se pode subestimar a reação conservadora de franjas fortemente patriarcais da sociedade brasileira contra o novo ciclo de mobilizações feministas que se iniciou em 2013. A candidatura de Bolsonaro representa, em parte, os temores da “masculinidade hegemônica” ameaçada pela onda feminista. Isso impõe, como desenvolverei mais adiante, novas responsabilidades e desafios a um feminismo que possa se converter num movimento de massas crucial da resistência democrática e antiautoritária (como mostraram as mobilizações do 29 de Setembro) se logra dotar-se de uma política hegemônica exitosa para os sempre presentes “setores intermediários” da sociedade.

Por último, o marco geral dos atuais eventos é, naturalmente, a crise econômica iniciada em 2014 durante o governo de Dilma Rousseff, a mais importante em cem anos: somente entre 2015-2016 registrou-se uma queda de 7% do PIB, a dívida pública superou os 100% do PIB, a recessão industrial leva quatro anos e o desemprego alcança 13%.

A esquerda e a luta contra o neofascismo

Uma palavra sobre a localização tática da esquerda ante esta encruzilhada histórica. Com o pronunciamento do PSTU pelo voto em Haddad, o conjunto da esquerda brasileira se localizou no campo do antibolsonarismo militante. Na esquerda argentina, em contrapartida, as posições são mais vacilantes. Algumas poucas correntes ultraesquerdistas colocam o PT e Bolsonaro no mesmo plano e se pronunciaram pela abstenção. Nessa orientação pareciam encaminhar-se os principais partidos da FIT, tal como se evidenciou numa série de declarações e pronunciamentos anteriores ao primeiro turno (que foram contestados num texto de Claudio Katz3). O impacto dos resultados do primeiro turno fez com que estes partidos mudassem saudavelmente a orientação e declarassem “voto crítico” no PT (com exceção da IS, que veio coroar uma vergonhosa política ante a situação brasileira, iniciada em seu apoio do golpe parlamentar contra Dilma Rousseff, com posicionamento indistinto entre o voto em Haddad e o voto em branco).

Entretanto, as declarações das principais forças da esquerda argentina (PO/PTS) não estão isentas de problemas sérios, que põem em evidência uma incompreensão do perigo que se enfrenta ou das estratégias para combatê-lo. O pronunciamento do PO por um “voto crítico” no PT responde exclusivamente, como se cansaram de repetir, à vontade de “acompanhar a experiência das massas” de traçar uma “ponte” com os que lutam por meio da ação direta contra o fascismo. A importância de colocar um freio eleitoral a Bolsonaro por meio do PT é completamente desestimada. Em declarações anteriores às eleições, Altamira identificou o apoio ao PT num provável segundo turno contra Bolsonaro com “uma sorte de ‘vota por teu carrasco preferido’”4. Esta forma de raciocinar choca-se com o clássico argumento que Trotsky opôs ao ultra-esquerdismo stalinista: “Para os que não o compreendem, tomemos um exemplo mais. Se um de meus inimigos me envenena a cada dia com pequenas doses de veneno, e outro quer me dar um tiro por trás, eu arrancarei primeiro o revólver das mãos do segundo, o que me dará a possibilidade de liquidar o primeiro. Mas isso não significa que o veneno seja um ‘mal menor’ em comparação com o revólver”. E agregava um comentário final, que poderíamos dirigir a Altamira: “Para falar a verdade, a pessoa se sente um pouco embaraçada de explicar uma coisa tão elementar!”.

O debate com o PTS requer uma maior sutileza, ainda que as concepções subjacentes não são menos problemáticas. Repassemos algumas passagens de seus pronunciamentos: “as forças de extrema-direita desatadas por Bolsonaro, no caso muito provável de que este ganhe as eleições, pareceriam antecipar uma sorte de governo pré-bonapartista judicial-militar qualitativamente mais autoritário e reacionário que sob o governo de Temer. (…) Nesse marco, um eventual governo de Bolsonaro já nasce débil, e é provável que esteja cruzado por múltiplas formas da luta de classes”5. Num artigo de outro autor desta corrente, afirma-se com menos ambiguidades: “quando Bolsonaro quiser aplicar privatizações, legislações degradantes das condições de trabalho e de vida da população operária e popular, entre outros ataques contra os direitos democráticos das mulheres e das minorias oprimidas, deverá fazer frente a luta de classe (…). Num contexto de crise política e econômica e de polarização, podemos esperar grandes explosões sociais”6.

Estas análises não são casualidade, mas repetem uma incompreensão recorrente desta corrente em sua caracterização da nova extrema-direita no mundo. Suas análises tendem a: a) subestimar os elementos fascistas da extrema-direita e caracterizá-la generalizadamente em termos de bonapartismo autoritário; b) minimizar as tarefas da frente única defensiva; c) subestimar a possível fortaleza dos governos em questão e fantasiar com explosões sociais que seriam o subproduto de sua ascensão ao poder; e d) colocar o eixo na delimitação com as correntes reformistas ou burguesas tradicionais, que no momento aparecem como um “obstáculo maior” que o próprio ascenso ao poder da extrema-direita. Em suas análises sobre a Turquia de Erdogan7 ou da Frente Nacional francesa8, por exemplo, desenvolvem esta perspectiva.

Como tentamos explicar, Bolsonaro e sua pequena camarilha político-militar têm uma orientação inequivocamente fascista. Se a vitória eleitoral de Bolsonaro não é suficiente para uma baldeação definitiva para o fascismo, seria em qualquer caso um passo decisivo nesse sentido e aceleraria a dinâmica fascistizante em curso. Longe de favorecer a mobilização social seu acesso ao governo seria uma catástrofe e abriria a porta a uma degradação significativa das condições de luta e organização popular.

Bolsonaro é nosso maior inimigo. Por isso, é necessário se comprometer numa luta eleitoral sem quartel e militar decididamente pela fórmula do PT (evitando toda “cautela” ultraesquerdista). Inclusive se é improvável impedir a vitória de Bolsonaro, é importante evitar um triunfo eleitoral esmagador, para gerar as melhores condições possíveis para os enfrentamentos vindouros. Novamente podemos advertir que, ante a prova dos grandes acontecimentos, as limitações teóricas e estratégicas se convertem em desastres políticos.

Bolsonaro e o “ciclo progressista” latino-americano

É habitual recordar a clássica frase de Walter Benjamin: “cada ascenso do fascismo dá testemunho de uma revolução fracassada”. Se não a tomamos de forma estritamente literal, esta linha encerra um conceito útil para pensar as dinâmicas políticas que alimentam o crescimento da extrema-direita como saída para o descontentamento popular.

Slavoj Zizek, seguindo a máxima benjaminiana, analisou recentemente a consolidação de um dos fenômenos autoritários contemporâneos: o fundamentalismo jihadista no mundo árabe. “Sua ascensão – diz Zizek – é o fracasso da esquerda, mas simultaneamente uma prova de que havia um potencial revolucionário, uma insatisfação que a esquerda não pôde mobilizar. Não se corresponde exatamente o auge do islamismo radical com a desaparição da esquerda secular nos países muçulmanos?9” Do mesmo modo que o fundamentalismo islâmico toma força do fracasso do pan-arabismo e da esquerda laica árabe, o ascenso de Bolsonaro não pode ser abstraído do eclipse da experiência do PT (e, mais em geral, o avanço da direita latino-americana é inseparável dos limites do “ciclo progressista”).

Ícone internacional da esquerda durante vinte anos, o PT foi o resultado da radicalização do movimento operário desde fins dos anos setenta, especialmente no triângulo industrial do ABC de São Paulo. Num país com uma classe operária jovem, que fazia suas primeiras experiências sindicais e políticas, emergiu a possibilidade de que se construísse uma representação política independente dos trabalhadores com base na força do sindicalismo combativo emergente. O PT foi durante duas décadas o instrumento político dos movimentos sociais, um partido operário de massas onde convivia uma direção reformista junto ao grosso das correntes da esquerda revolucionária, num regime partidário razoavelmente democrático e pluralista. Enquanto representação política unitária de uma classe operária nascente, o PT tinha algumas características parecidas com a social-democracia europeia do final do século XIX e sua burocratização também apresentou simetrias bastante diretas10. Em pouco tempo, o PT conseguiu representantes eleitos em distintos níveis institucionais. Frustrado seu triunfo nas presidenciais em várias oportunidades, o partido foi desenvolvendo uma imensa presença institucional. Quando alcança o governo federal em 2002, num contexto de desmobilização social, o PT já havia se modificado decisivamente e havia desenvolvido uma política de alianças com partidos burgueses tradicionais. Desde a campanha eleitoral, sintetizada em sua “Carta aos Brasileiros”, Lula deu sinais claros aos mercados, ao FMI e ao imperialismo de estar comprometido com o modelo de reformas neoliberais que eles reclamam. É o momento em que Lula se transforma numa figura respeitada internacionalmente e reivindicada pela imprensa imperialista. Os sinais de desilusão nos movimentos sociais e no eleitorado urbano e operário se fazem rapidamente visíveis. No plano político, a resistência ao curso social-liberal do lulismo surge desde o interior do PT e se expressa na ruptura de suas alas à esquerda e na conformação do PSOL (Partido Socialismo e Liberdade). Estas políticas ortodoxas na economia vão se combinando progressivamente com planos de assistência social (Bolsa Família, paradigmaticamente), sobretudo o compasso do crescimento econômico do segundo mandato de Lula, que mudaram o centro de gravidade eleitoral do partido para o Nordeste pobre, em detrimento da classe trabalhadora urbana. O que vimos nos treze anos de governo do PT é a transformação de um partido “classista”, produto genuíno de uma radicalização sindical e democrática nos últimos anos da ditadura em um instrumento de gestão social-liberal do Estado capitalista. O penúltimo capítulo desta história é o duro ajuste que implementou Dilma Rousseff no começo de seu segundo mandato, depois da designação como Ministro da Fazenda o economista “ortodoxo” Joaquim Levy. Esta agressiva política antipopular terminou por desarmar e desmobilizar a base social do lulismo.

É crucial para o próximo período um balanço rigoroso desta experiência. Durante anos, o modelo do PT foi posto como referência para as esquerdas moderadas de distinto tipo, opondo os lentos avanços e as amplas alianças do lulismo com a radicalidade da fracassada experiência da Unidad Popular chilena ou do processo bolivariano que se desenvolveu em paralelo (os quais teriam facilitado uma instabilidade permanente ou, inclusive, as reações golpistas).

Atualmente, construiu-se um relato por parte de um setor do progressismo latino-americano que extrai a conclusão de que o problema das experiências moderadas do petismo e do kirchnerismo é não ter sido mais moderadas. Estes governos teriam ido mais longe do que a sociedade estava disposta e, então, ficaram desprotegidos frente a reação direitista. Além disso, tendo retirado da pobreza algumas franjas sociais, construíram uma nova classe média que teve acesso a um consumo que estaria carregado de dimensões aspiracionais típicas dos setores médios (ou pequeno-burgueses) tradicionais e que politicamente se representariam na direita. Os governo latino-americanos teriam construído seu próprio coveiro: os mesmos beneficiados por suas políticas. Construiu-se assim um relato trágico destas experiências, onde toda radicalidade é funcional à reação e toda política popular constrói um sujeito social hostil. É a “jaula de ferro” do possibilismo.

É mais atinado outro balanço destas experiências. O acesso ao governo por parte da esquerda, e principalmente a conservação do poder frente a toda tentativa reacionária, implica desenvolver a maior mobilização social para derrotar a resistência das classes dominantes. Mas esta força social não se alimenta de promessas, mas de conquistas sociais efetivas. Cada pressão ou ataque das classes dominantes deve conduzir então ao aprofundamento das transformações sociais e econômicas, e a que as massas consigam concretamente a ampliação de direitos e conquistas, com o objetivo de consolidar o apoio social e preservar o poder. As lições históricas se mostram inapeláveis neste aspecto. Afirma Daniel Bensaïd a respeito:

“O Partido Comunista Vietnamita (PCV) sabia isso muito bem, por isso, para preparar a ofensiva contra as tropas francesas em Dien Bien Phu em 1954, lançou uma campanha de aprofundamento da reforma agrária nos territórios liberados. O mesmo na revolução russa, a resistência à agressão das potências europeias capitalsitas e à contrarrevolução interna durante a guerra civil, levou muito rapidamente à radicalização do conteúdo social da revolução, a ruptura com a burguesia, a estatização dos meios de produção, às diferenciações de classe no campo, etc. Esta lição se viu confirmada pelas revoluções derrotadas como a chinesa de 1926-27, ou pela vitoriosa da China em 1949, a vietnamita, a cubana, e mais recentemente a da Nicarágua”11.

A longa lista de experiências populares derrotadas na América Latina também confirma, pela negativa, esta perspectiva. Em infinidade de ocasiões, a resposta de um governo que se propõe transformações progressivas, ante as resistências das classes dominantes, foi buscar a conciliação, resignar reformas sociais ou tentar ampliar a base de sustentação política a partidos burgueses ou militares opositores ao governo. Contudo, cada avanço da direita é utilizado para preparar os seguintes. No Chile, o governo de Allende poderia ter se apoiado na mobilização popular que se desenvolveu contra as ofensivas reacionárias (os Cordões Industriais, os Comandos Comunais, as Juntas de Abastecimento Popular), sobretudo, ante o ensaio de golpe de Estado (“o tancazo”) de junho de 1973. Contudo, optou por ratificar seu acatamento à “legalidade burguesa”, por fortalecer a participação dos militares em seu gabinete e por brindar salvaguardas constitucionais à oposição, conduzida pela DC, obrigando ao desarme dos trabalhadores dos Cordões Industriais. O desenlace trágico desta estratégia é por todos conhecido12.

A mesma experiência do peronismo histórico é rica num duplo sentido. Por um lado, mostra novamente que protagonizar um significativo processo de transformação em benefício da classe trabalhadora, conduz a implementar-se como identidade operária duradoura, o que explica sua presença como referência política predominante na mobilização de massas durante quase duas décadas. Ao mesmo tempo, a docilidade de Perón, que havia tentado aplicar políticas de ajuste desde 1952 para enfrentar a crise econômica, não foi suficiente para as classes dominantes, que se passaram majoritariamente ao campo do golpismo.

Não se trata de que um processo de mudança social e política se reduza a uma radicalização ininterrupta, infantil ou irresponsável. As correlações de força sociais contam. Por exemplo, a maior parte das experiências revolucionárias nos países periféricos contaram com acordos pontuais com setores burgueses (sem lhes ceder a condução do processo)13. Tanto em Cuba como na Nicarágua, o momento ascendente dos exércitos guerrilheiros incluiu compromissos episódicos com setores burgueses, com o objetivo comum de derrotar os regimes militares.

“Para derrotar a ditadura de Batista – escreve Bensaïd -, Fidel Castro fez com setores burgueses um pacto limitado, que “definiu uma estratégia comum para derrotar a ditadura com a insurreição armada”. Mas desde a queda do ditador, Castro consolida ao redor do exército rebelde, as bases do poder revolucionário fora de todo controle dos órgãos formas do governo recém instalado e integrado por dirigentes burgueses. Na medida em que o processo revolucionário avança, e se aprofunda, que se desenvolva a reforma agrária, que se constitui o exército revolucionário, os representantes da burguesia vão se retirar um depois dos outros, para passar à oposição aberta e à contrarrevolução”14.

Na Nicarágua, setores vinculados à oposição liberal a Somoza também colaboraram no momento ascendente do sandinismo, mas passaram rapidamente para a oposição depois da conquista do poder e na medida em que o processo avançava sem concessões (esta ruptura com a burguesia se consolida com a retirada de Chamorro do Governo em 1980). A história do processo bolivariano também mostra esta dinâmica. Setores de partidos tradicionais acompanharam inicialmente o governo, mas Chávez respondeu ante cada pressão ou agressão da burguesia ou do imperialismo com um contragolpe apoiado na mobilização das massas, o que empurrou rapidamente os setores burgueses ou vacilantes para a oposição. Provavelmente, o impasse atual do governo venezuelano radica em que esta dinâmica de radicalização se esgotou ou perdeu impulso (e no estancamento ganham terreno os setores burocráticos e vinculados à boliburguesia).

Um olhar rápido para a paisagem geopolítica latino-americana mostra então uma tendência relevante para nossos debates estratégicos: as experiências radicais da Venezuela e da Bolívia, apesar de ter enfrentado as hostilidades mais agressivas (golpes militares, tentativas separatistas, ataques insurrecionais) são as que conseguem maior sustentabilidade e penetração nas classes populares. A “esquerda herbívora” do Brasil, Argentina, Equador, Honduras ou Paraguai (um caso peculiar é o da Frente Ampla uruguaia) que fantasiava com a fortaleza de sua moderação, suas alianças amplas e sua política conciliadora com a burguesia, mostrou rapidamente sua notável debilidade confrontada às pressões das classes dominantes.

Os anos 30 em câmera lenta?

Uma pequena digressão sobre as características gerais do período histórico em curso. Nos anos noventa, o trotskista palestino-britânico Tony Cliff afirmou que se havia aberto uma etapa que se podia definir como “os anos 30 em câmera lenta”. A fórmula tinha muitas limitações. Fundamentalmente, ignorava o significado do ciclo que se abria com a desarticulação do campo socialista e a ofensiva neoliberal contra a classe trabalhadora: uma derrota história que depreciaria por um longo período a ideia de uma alternativa socialmente viável ao capitalismo. Dificilmente poderia se falar então de uma ameaça revolucionária por parte da classe operária, como a que caracterizou a polarização política dos anos 30.

No entanto, se nos cuidamos da tendência, própria das analogias históricas, a ressaltar mais as similitudes do que as diferenças, podemos advertir que, apesar de tudo, a fórmula encerra um momento de verdade. Ao compasso de uma nova crise histórica do capitalismo, assistimos ao lento eclipse de um mundo. Num ritmo menos acelerado do que dos anos 30, vemos erodir lentamente um certo equilíbrio social-político, com suas representações políticas, suas concepções ideológicas, suas concepções de mundo. No espaço deixado pelo declive dos partidos tradicionais, que geriram o capitalismo desde o pós-guerra, emergem novos fenômenos políticos, muitos deles da monstruosos. Apesar das novas lutas sociais, o espiral de derrotas da classe trabalhadora não se quebrou, pelo que as correlações de forças sociais e políticas favorecem a extrema-direita como saída ao descontentamento social. Mas também vimos emergir durante os últimos anos novas formações de esquerda radical que mostram que é viável empreender uma batalha pelo tipo de resposta política à crise em curso.

O capitalismo sofreu mutações depois de todas as suas grandes crises (1873, 1930, 1973). Em cada oportunidade tratou-se de profundas transformações que não afetaram somente o terreno exclusivamente econômico, mas a articulação do conjunto do sistema capitalista, implicando mudanças no campo político, institucional e ideológico. O imperialismo que emerge da crise do capitalismo de livre comércio do final do século XIX, por exemplo, não se reduziu à consolidação do capital monopolista a nível internacional, mas implicou a aparição de uma nova forma estatal, mais intervencionista, e de mudanças ideológicas e culturais correspondentes. Não sabemos que mundo encontraremos na saída da atual crise, mas no momento podemos advertir que o reforço estatal autoritário é uma das grandes tendências contemporâneas. Os EUA de Trump, a Rússia de Putin, a China neoliberal-stalinista, o crescimento da extrema-direita na Europa Ocidental (o “berço da democracia social”), o fundamentalismo islâmico no Oriente Médio, são exemplos de um mundo que se torna dia a dia mais hostil. Até o final dos anos 70, autores marxistas como Poulantzas anunciavam a consolidação de um “estatismo autoritário” como forma de governo normal do capitalismo. No entanto, o neoliberalismo ascendente pôde articular-se com formas consensuais de dominação política e se apropriou inteiramente do “significante flutuante” da democracia. Ante a queda do muro de Berlim e a desarticulação do campo socialista, o capitalismo triunfante deu por encerrado o “século dos extremos” e se anotou no campo dos vencedores da disputa secular entre “democracia e totalitarismo”. O matrimônio da economia de mercado e a democracia liberal se apresentava então como o “fim da história”. Agora, na época da crise hegemônica do capitalismo neoliberal, estaremos assistindo ao desenvolvimento do “capitalismo com valores asiáticos” do que costuma falar Slavoj Zizek?

A democracia foi o significante dominante da vida social a partir do pós-guerra. Quem não reivindicava para si o apelativo democrático, seja contra o “totalitarismo comunista”, por parte dos liberais, seja contra o despotismo de mercado por parte da esquerda? Parece que agora a exigência da “ordem” pode disputar o trono como aspiração social dominante, num mundo crivado pela instabilidade laboral, a insegurança social, a anomia mercantil. Não se converte, então, a luta pela democracia no que a tradição trotskista denomina “reivindicação transitória” cada vez mais contraditória com as necessidades políticas e institucionais para a reprodução do sistema social? Não se debilita, então, a cadeia hegemônica selada nos anos oitenta entre neoliberalismo? Há uma forte sensibilidade democrática no último ciclo de mobilizações de massas (15M e indignados, “primavera árabe”, lutas feministas) que pode adquirir então um conteúdo mais desafiador e desestabilizador num capitalismo crescentemente autoritário. Pode, em resumo, que se reúnam condições hegemônicas para uma política explore a contradição entre capitalismo e democracia e mostre à esquerda radical não só como partidária de uma ruptura anticapitalista, mas como a mais consequente linha de defesa das instituições democráticas atualmente existentes.

Vários estudos mostram que as mais duras lutas operárias de final do século XIX não extraiam sua força tanto da dimensão utópica do socialismo, como da defesa das identidades e as formas laborais que estavam sendo erradicadas pela extensão esmagadora da exploração laboral capitalista (o trabalho artesanal, fundamentalmente). Uma “vanguarda operária – diz Ranciere – que pensa e atua não para preparar um futuro no qual os proletários recolheriam o legado de uma grande indústria capitalista formada pela despossessão de seu trabalho e sua inteligência, mas para deter o mecanismo dessa despossessão”. Destas lutas inicialmente “defensivas”, que lamentavam um mundo que voltaria mais (o do produtor autônomo artesanal) surgiu a união entre o movimento operário e o socialismo. Na relação entre capitalismo, democracia e socialismo talvez devêssemos conceber uma dialética similar: somente a luta anticapitalista pode defender as conquistas civilizatórias de nosso tempo (estado de direito, liberdades civis, direitos políticos, pluralismo) da ameaça que significa a evolução autoritária do capitalismo.

O antifascismo no atual período histórico

“Indignação, ira, repugnância? Sim, e também cansaço momentâneo. Tudo isso é humano, muito humano. Mas me nego a crer que você caiu no pessimismo. Isso equivale a ofender-se, passiva e a lastimavelmente, com a história. Como é possível? É preciso tomar a história tal como se apresenta, e quando esta permite ultrajes tão escandalosos e sujos, devemos combatê-la com os punhos” (Leon Trotsky).

Se hoje o fascismo avança no Brasil não é porque a classe operária já está derrotada. As classes dominantes estão buscando uma reestruturação social e econômica de grande escala, que consiga um melhoramento das condições de exploração da força de trabalho e permita uma nova inserção, mais “competitiva”, do Brasil no mercado mundial. Para isso necessitam infringir uma derrota duradoura às classes populares. Tempos por diante uma intensa luta de classes e o desenlace não está definido de antemão. As dificuldades e tensões de um futuro governo de Bolsonaro serão muitas. Seja qual for o resultado eleitoral do segundo turno, é necessário pôr em marcha uma grande movimento social antifascista. Podemos recuperar para isso a memória da luta democrática, antiditatorial e pelos Direitos Humanos da América Latina, ou as tradições antifascistas europeias, sabendo que também enfrentamos fenômenos novos, que merecem novas respostas.

“Lutar nas ruas” não significa somente organizar manifestações nas vias urbanas. Significa desenvolver em toda sua potencialidade a capacidade de resistência no campo social, construir um poder democrático e popular, uma cultura de solidariedade contra o racismo e o autoritarismo, conquistar trincheiras na sociedade civil (nos sindicatos e nos lugares de estudo, como é habitual, mas também no cristianismo de base, nos âmbitos de sociabilidade dos setores médios, na cultura).

Na porta de entrada de tempos incertos, e ante a falta de conclusões definitivas, é preciso iniciar uma reflexão sobre um componente central de todo combate antifascista contemporâneo: o novo ciclo de lutas feminista. Não se pode subestimar o fato de que a maioria das extremas-direitas emergentes elejam o que chamam de “ideologia de gênero” como seu adversário para derrotar. A respeito, já circulam leituras culpabilizadoras que identificam o feminismo como responsável do ascenso da direita radical. Trata-se de um tipo de raciocínio que não é novo: o famoso historiador conservador Erns Nolte considerou o fascismo clássico como uma “reação defensiva” legítima ante “a guerra civil europeia” iniciada em 1917 pela “barbárie asiática do bolchevismo”. Estas análises culpabilizadoras, simplistas e desmobilizadoras não aportam grande coisa. Isso não altera o fato de que o feminismo tem se tornado um movimento de massas central em nossas sociedades e isso o obriga a confrontar novos dilemas táticos e estratégicos15.

Passou desapercebido, mas um personagem sinistro da jovem “direita alternativa” argentina (Agustín Laje) afirmou recentemente: “a rebeldia dos jovens os fará ir contra a ideologia de gênero” e depois acrescentou “a ideologia de gênero representa o status quo e isso vai contra o que significa ser jovem”16.

Para nossos ouvidos, parece espontaneamente uma frase bizarra de um lunático direitista. Mas se temos que deixar de nos surpreender por fenômenos como Trump, o “Não” na Colômbia, o Brexit “anti-imigrante”, o novo governo italiano ou Bolsonaro, talvez também devamos valorizar a possibilidade de que estes novos personagens populares estejam expressando tendências subjacentes de nossa sociedade que não conseguimos captar com facilidade.

A “Alt Rigth” norte-americana é um dos movimentos emergentes que contribuíram para o ascenso de Trump e do qual provém Steve Bannon (espécie de arquiteto internacional da nova extrema-direita e assessor atual de Bolsonaro). Num excelente texto sobre este novo fenômeno17, Marcos Reguera recordou que Milo Yiannopoulos, uma das máximas referências do movimento, postulou a hipótese de que “o surgimento da Alt Right na atualidade responderia aos mesmos motivos que a rebelião dos jovens de maio de 68: um movimento contestatório ante uma sociedade moralista onde o horizonte de expectativas da juventude é insatisfatório, o que incentiva um levante contra as normas estabelecidas”. E para valorizar esta provocadora hipótese, agregou (vou me permitir uma extensa citação):

“Nas últimas décadas vimos surgir e afiançar-se movimentos contra a discriminação, o racismo, e a favor dos direitos das mulheres e da conquista de seu legítimo lugar na sociedade. Estes movimentos foram e são fundamentais na construção de uma sociedade melhor. Mas junto às conquistas necessárias, se foi desenvolvendo em alguns casos umas formas e modelos moralistas e intransigentes, transformando parte de um movimento muito necessário em sua radicalidade numa cruzada moral. A consequência disso, numa sociedade que segue sendo profundamente machista, homofóbica e racista (apesar das conquistas), foi dupla: um levante aproveitando por movimentos reacionários e a perda crescente da simpatia do grande público, aquelas pessoas que aprovam o feminismo e o antirracismo por convenção e não por convicção (que seguem sendo majoritários).

Apesar de que o feminismo, o antirracismo ou tolerância para com a diferença não sejam ainda valores genuinamente hegemônicos em nossa sociedade, nos meios de comunicação sim predomina uma versão convencional e superficial dos mesmos que, unida a uma atitude cada vez mais intransigente e menos dialogante de alguns dos militantes mais ativos de tais movimentos, vem gerando uma onda de rechaço crescente em relação a estas ideias, formando-se assim um caldo de cultivo propício para uma nova extrema-direita. E é neste contexto no qual surgiu uma nova mentalidade entre os jovens de uma luta rebelde contra o que eles identificam como o pensamento do politicamente correto. A convenção cultural que, a seu juízo, mascara o principal problema social, que é a desaparição da sociedade branca e “europeia”/americana, sua sociedade, a única que creem capaz de lhes oferecer um futuro.

Portanto, Milo não se equivoca totalmente quando assinala que o movimento da Alt Right é uma resposta similar à dos jovens de maio de 68. Uns se rebelaram contra a conservadora sociedade moralista do pós-guerra, enquanto que os outros se rebelaram contra a moralização da luta pela justiça social. Ambos se rebelam contra o pensamento convencional de seu momento histórico em nome da liberdade: em 68 produzindo uma esquerda alternativa, uma versão do comunismo antiautoritário; em 2016, uma direita alternativa que, em seus próprios termos, diz lutar contra o totalitarismo e a censura do politicamente correto”.

Reguera descreve um fenômeno da extrema-direita norte-americana pelo que as semelhanças com outras experiências têm limites. Mas alguém pode recordar Milo quando adverte o forte componente juvenil entre os simpatizantes de Bolsonaro, naquilo que pareceria ser uma manifestação (monstruosa) da tradicional rebeldia antissistema da juventude. Se o fascismo se diferencia de outros movimentos reacionários ou autoritários é naquilo que se reveste da roupagem da rebelião (contra os políticos, as finanças, as elites, etc.), e isso lhe permite capitalizar frustrações sociais de distinto tipo (com a economia, com as normas culturais repressivas) e assumir uma agenda “libertadora”, a tendência “esquerdista-liberal” em relação a uma moralização e punitivização simbólica da vida social lhe prepara o terreno. Se toda sociedade se dota de certas concepções morais implícitas (e é correto lutar, claro, para que se condene socialmente a violência machista, por exemplo), isso não significa que a esquerda e os movimentos sociais devam conceber seu combate como uma perseguição moralizante, mais que uma prática de libertação.

Confrontados a uma emergente reação antifeminista em franjas relevantes da população (na Argentina somos agora testemunhas da contraofensiva conservadora depois da derrota na luta pela legalização do aborto, que inclui agressões físicas, ofensivas contra a educação sexual e inclusive intervenções diretas contra abortos não puníveis), podemos nos perguntar: quais consequências para o debate estratégico esboça este cenário, onde o feminismo tem um impacto de massas e, ao mesmo tempo, começamos a lidar com uma contraofensiva conservadora e patriarcal?

É possível que o movimento feminista, tendo alcançado uma amplitude desconhecida em períodos anteriores, esteja enfrentando o mesmo problema que confrontou o movimento operário e a esquerda revolucionária em momentos críticos. Nos anos 70, Ernest Mandel utilizava o conceito, um pouco contraditório, de “vanguarda de massas” para descrever o amplo setor social que se mobilizava nas lutas que ocorriam no mundo nesses anos (recordemos a greve geral de 10 milhões na França em maio-junho de 68, a ofensiva do Tet no Vietnã, as rebeliões antiburocráticas no Leste, as revoltas operárias e estudantis na América Latina, o movimento negro nos EUA). O peso social desta “vanguarda” só podia encontrar um paralelo na classe operária e na esquerda marxista dos anos 20 (impulsionada pela força propulsiva da revolução de outubro e o ciclo revolucionário que percorreram então vários países da Europa). Nestes casos, a fortaleza “relativa” do campo revolucionário é, às vezes, a maior fonte de riscos: a superestimação da própria força, a subestimação do inimigo e, portanto, o menosprezo das tarefas que envolvam os setores “intermediários” da sociedade, aos que é preciso ganhar e não entregá-los à reação. Nos anos 20, por exemplo, se desenvolveram setores do movimento revolucionário que formularam a “teoria da ofensiva” (o mesmo Luckacs foi um de seus entusiastas) e levaram a cabo tentativas putchistas que buscaram emular a revolução bolchevique em conjunturas diferentes e por meio de aventuras de grupos minoritários. Tal como mostram numerosos estudos, o poderoso movimento operário e a esquerda revolucionária daqueles anos não pode agrupar atrás de sua liderança a setores pauperizados da pequena burguesia e das classes médias, o que abriu passagem para a emergência do fascismo. Sem ir mais longe, do balanço da derrota dos conselhos na Itália neste período é que surge a reflexão gramsciana sobre a “hegemonia”, o termo da tradição marxista que tenta responder a esta questão estratégica (em seu contexto, referia à “questão meridional”, à relação entre a classe operária do norte e o campesinato do sul).

Hoje o feminismo é uma “vanguarda de massas” que pode cumprir um papel estratégico nas lutas democráticas e antiautoritárias. Esta centralidade coloca o movimento ante uma nova etapa. Nenhuma luta se dá entre blocos inteiramente pré-definidos e compactos (burguesia contra proletariado, feminismo contra patriarcado). Precisamente o eixo de todo combate é “a conquista da maioria”, ou seja, conseguir a liderança sobre frações sociais heterogêneas. Não basta identificar a reação patriarcal como um subproduto dos avanços da luta feminista. É preciso debater estrategicamente como derrotar esta reação. E para isso é necessário reforçar a política feminista para os “setores intermediários”, vacilantes, sempre presentes numa dinâmica de tensão social e política. Ou seja, lutar pela hegemonia. Para enfrentar as versões simplistas e culpabilizadoras e contraofensiva patriarcal, é necessário aprofundar a reflexão estratégica sobre estes temas.

Judit Butler, numa discussão com Ernesto Laclau e Slavoj Zizek, fez uma observação interessante a propósito entre a luta de gênero e a questão da hegemonia. Laclau trata ao imaginário democrático proveniente da modernidade (igualdade, liberdade, universalismo, direito, cidadania) como um “significante vazio” e chama a empreender, contra neoliberais e conservadores, uma luta hegemônica por seu conteúdo. Relativizando esta concepção, Butler afirma que nem sempre é “necessário ocupar a norma dominante para produzir uma subversão interna de seus termos. Às vezes é importante rechaçar seus termos, deixar que o termo mesmo desapareça, retirar sua força” (destaque meu). Tal como acrescenta Zizek, não necessariamente se trata de aceitar “o horizonte democrático liberal predominante (democracia, direitos humanos e liberdades…)” para empreender “uma batalha hegemônica dentro dele”, existe também o caminho alternativo de “arriscar o gesto oposto e rechaçar seus próprios termos” (2003). Penso que boa parte do ativismo da dissidência sexual e o feminismo se fundam legitimamente nesta segunda via (“não hegemônica”): práticas de “autoafirmação” (Foucault) ou performativas e deconstrutivas (Butler). Destas considerações poderiam extrair-se, numa análise mais pausada, consequências úteis para toda política emancipatória.

No entanto, que a luta feminista não se reduza à luta pela hegemonia não significa que possa haver luta feminista que não seja também, em certa medida, uma luta hegemônica. A dimensão “hegemônica” da política emancipatória responde a características estruturais que definem a modernidade capitalista. O capitalismo, diferentemente das sociedades pré-modernas, não justifica sua dominação por meio de um universo compartimentado de representações para os diferentes estamentos sociais que justificam e naturalizam hierarquias inquebrantáveis. Pelo contrário, se legitima na “igualdade universal”, postulada em e para toda a sociedade. Contra o que o discursivismo pós-marxista defende, isso responde às características próprias do capitalismo tanto nas “relações mercantis de exploração (Salama, Hai Hac, 1992) quanto à ruptura moderna com as formas de dependência pessoal pré-capitalistas. A exploração capitalista não se funda, pois, na extração da direta e extraeconômica de uma parte da riqueza gerada pelos produtores (como sucedia com o campesinato feudal), mas na apropriação monetária através do mercado (o reino “da liberdade e da igualdade”), ou seja, depende da emergência dessa figura historicamente inédita que Marx denominou “trabalhador livre”. Até certo ponto e em certa forma, o capitalismo é, literalmente, uma forma de exploração baseada na igualdade, porque requer da igualdade jurídica entre capitalistas e proletários. À diferença de todas as sociedades pré-modernas (que se legitimam em discursos e concepções do mundo religiosas ou cosmológicas abertamente hierárquicas), o capitalismo se legitima no universalismo, nos Direitos Humanos, na liberdade e no direito igual para todos. Isto faz com que ofereça conteúdos simbólicos (a democracia, a cidadania, a igualdade) que não têm uma associação de classe automática (como nas sociedades pré-capitalistas) mas que podem ser rearticulados em projetos de classe contraditórios.

O “igualitarismo moderno” converte, então, a luta pela hegemonia numa “gramática geral” da política emancipatória. Ou seja, toda luta deve, em alguma medida, conquistar a “direção moral e intelectual” das classes subalternas (para utilizar a expressão clássica de Gramsci) por meio da rearticulação e reapropriação dos significantes igualitários modernos. E, ao mesmo tempo, a hegemonia não pode ser, meramente, um fato cultural, imaterial, mas é preciso que se objetive em instituições e práticas sociais, ou seja, inscrever-se em termos jurídico-políticos (isso já o dizia Gramsci quando afirmava que a hegemonia se cristalizava como o “devir Estado” da classe operária). Se nenhuma luta se reduz a sua inscrição jurídica (conquistar direitos legalmente reconhecidos), nenhuma luta pode prescindir dessa dimensão (nem sequer a que se propõe a ruptura revolucionária com a ordem existente). E para nos localizarmos plenamente num terreno hegemônico é necessário “falar” a linguagem do “universal”, apropriar-nos do mundo em sua totalidade para redescrevê-lo em termos emancipatórios. À sociedade do capitalismo e do patriarcado não podemos mais que lhe opor um “novo universalismo”, que inclua as “particularidades” atualmente oprimidas (de classe, de gênero, de raça). Estas temáticas, a relação entre o igualitarismo moderno e a luta feminista, a contradição entre democracia e capitalismo, a recuperação do “universalismo” em clave emancipatória (contra as políticas da identidade que se generalizaram nos anos noventa) merecem um trabalho sério e sistemático que está para ser feito, mas ao menos sabemos em que direção devemos nos mover18.

Sobre a “questão política”

A centralidade da luta social unitária não deve nos fazer perder de vista que há um aspecto essencial do combate antifascista que se trava no terreno político. Sabendo as limitações das experiências “progressistas” latino-americanas, por quais vias construir uma esquerda radical “pós-progressista” que possa estar à altura das necessidades do período? E, mais especificamente, qual relação estabelecer com as experiências “progressistas”, agora em declive relativo? Hoje os setores principais das classes dominantes se mostram hostis ao retorno destas experiências no poder. Apesar das concessões, chegados a certo ponto as classes dominantes querem todo o poder e prescindir de mediações ambíguas que estejam condicionadas por certo grau de compromissos sociais. Como dissemos, a mesma natureza destes governos abriu a porta para a reação conservadora. Somente é explicável a atual ofensiva direitista e autoritária no Brasil a partir da desilusão com a experiência do PT. Por sua vez, as classes dominantes pareceram necessitar uma agressiva reestruturação econômica e social, que requer bater de frente contra os direitos sociais e laborais, além de subordinar de maneira duradoura as classes subalternas. Para tal programa, o “progressismo” não pareceria, em princípio, o instrumento político mais adequado. Ainda que as dinâmicas transformistas, para utilizar a expressão de Gramsci, sempre podem nos surpreender por sua capacidade para fazer mudar a função das forças políticas. Para dar dois exemplos históricos: o PCI do “compromisso histórico” ou o PCF do “programa comum” eram grandes partidos de massas, inseridos fortemente no movimento operário. E o controle burocrático de frações de massas foi, precisamente, uma das maiores virtudes que estes partidos podiam oferecer às classes dominantes. Um controle burocrático do movimento operário é um instrumento eficaz para lograr que as massas aceitem passivamente certas políticas por meio de lideranças que essas mesmas massas sentem como próprias. O atual governo de Syriza, aplicando um plano de austeridade mais agressivo que o de seus antecessores direitistas, como o peronismo dos noventa ou o primeiro mandato do PT são casos de estudo, representativos desta dinâmica.

Pois bem, a dinâmica de avanço fascista e a passagem do PT para a oposição, parecem reconfigurar o contexto. Atrás do apoio social e eleitoral ao PT se expressa uma aspiração social defensiva legítima de porções relevantes da sociedade, com a qual a esquerda radical deve estar em contato permanente. Devemos desenvolver uma ampla frente única de oposição à ofensiva conservadora, que neste caso se expressa, naturalmente, no combate conjunto pelo voto em Haddad no segundo turno.

Mas do fato de que a burguesia expresse hostilidade em relação a essas formações se segue que são veículos legítimos para a luta política que temos daqui por diante? Aqui as coisas se tornam mais complexas. O papel do PT pode ser enormemente ambíguo no novo ciclo político. Por um lado, o tipo de “compromisso social” ou o grau de autonomia política que se condensa nele poderiam resultar, em caso de chegada ao poder, desacelerador ou até certo ponto desestabilizador para as necessidades das classes dominantes. No caso limite da eleição atual, o PT se converte diretamente no instrumento eleitoral para exercer um bloqueio à fascistização, ainda que a luta antifascista não pode se reduzir à questão eleitoral, como pretende o próprio PT. Este último seria um suicídio dado o enorme poder político acumulado pela extrema-direita brasileira. Se ocorresse o improvável caso de derrota de Bolsonaro no segundo turno, se abriria uma situação incerta e instável onde o movimento de massas terá a última palavra. Então, embora exerça um papel, pelo momento, desestabilizador face às classes dominantes, no entanto, segue cumprindo um papel “estabilizador” em relação às classes populares. A ausência de estímulo para a mobilização de massas lhe permite seguir exercendo um eventual papel de “contenção social” com o qual pretende ser opção de relevo para as classes dominantes, no caso de que a crise obrigue a viragens políticas bruscas.

Na Argentina temos um exemplo histórico clássico para pensar este papel paradoxo de certos líderes reformistas-burgueses. O peronismo histórico em certo momento se converteu num obstáculo para o tipo de reestruturação capitalista que as classes dominantes necessitavam. Disso se seguiu o golpe de Estado militar contra Perón e 18 anos de proscrição política para o peronismo. Essa hostilidade burguesa com Perón fez estender na juventude radicalizada dos anos 60 e 70 a ideia de que seu retorno ao poder era o veiculo para a libertação nacional (ou, diretamente, para a revolução socialista). Se Perón finalmente voltou ao poder foi porque o nível de tensão social e política alcançado pela convulsionada Argentina desses anos, aproximando-se das condições pré-revolucionárias depois da insurreição operária de Córdoba em 1969, era mais perigoso que o retorno ao governo de uma liderança nacionalista burguesa. De fato, Perón voltou com o mandato de neutralizar a onda a pressão na qual se havia convertido a Argentina, e foi um instrumento leal a essa causa: simbolizada na “expulsão da praça” do peronismo revolucionário em 1974 e na organização da banda paramilitar da Tríplice A (Alianza Anticomunista Argentina) contra a esquerda peronista e a militância revolucionária em geral. Da hostilidade burguesa para com o “fato maldito” do peronismo não se seguiu pois que essa liderança fosse cumprir um papel progressivo. Mas, por outro lado, ninguém que se propusesse desenvolver uma política revolucionária naqueles anos podia ignorar a necessidade de travar vasos comunicantes com as massas peronistas, sobretudo com seus setores combativos.

O “progressismo” atual está muito longe do nível de penetração na classe operária do peronismo histórico, mas igualmente se podem encontrar lições úteis nessa experiência. Ela mostra a necessidade da frente única, da luta conjunta contra o inimigo comum, como forma de estabelecer pontes com os setores de massas influenciados por essas forças políticas. Mas também, e de forma dramática, mostra a necessidade de não depositar ilusões em seus líderes pelo singular fato de que não sejam os prediletos das classes dominantes em certa conjuntura. Sendo que, ante a pressão da burguesia, estes partidos e lideranças não dão mostras de radicalização, mas de moderação e conciliação, estamos obrigados a afrontar a difícil tarefa de construir uma esquerda “pós-progressista”, que rechace a conciliação de classe, e combine uma ampla unidade de ação (antineoliberal, antifascista) com a construção de um instrumento político disposto a enfrentar as classes dominantes. A experiência do PSOL, apesar de suas dificuldades, é indicativa de uma hipótese de recomposição política possível. Estes últimos meses mostraram com claridade a utilidade da esquerda radical na conjuntura brasileira, localizada na primeira linha da mobilização de massas antifascista, da manifestação das mulheres e da luta eleitoral para derrotar Bolsonaro.

O capitalismo latino-americano e internacional está entrando em zonas incertas e tormentosas. A luta contra a barbárie deixou de ser uma consigna icônica da origem da tradição socialista, para converter-se intempestivamente numa batalha urgente de nosso tempo. O neofascismo não é invencível, depende da luta.

Referências bibliográficas

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Laclau, Ernesto, Política e ideología en la teoría marxista, Siglo XXI de España, 2015.

Lowy, Michael, Diez tesis sobre la extrema derecha, 2014.

Palheta, Ugo, La possibilité du fascisme: France, la trajectoire du desastre, Éditions La Découverte, 2018.

Poulantzas, Nicos, Fascismo y dictadura, Siglo XXI de España, 2005.

Ranciere, Jacques, Los tontos útiles del FN, 2015

Traverso, Enzo, Espectros del fascismo. Pensar las derechas radicales en el siglo XXI, 2016.

Trotsky, León, La lucha contra el fascismo en Alemania, CEIP, 2016.

Salama Pierre, Hai Hac, Tran, Introduction à l’économie de Marx, La découverte. 1992.

Slavoj Zizek; Judith Butler; Ernesto Laclau, Contingencia, hegemonía, universalidad: Diálogos contemporáneos en la izquierda, FCE, Madrid, 2003.


Notas

1 Para uma análise da relação entre a extrema-direita atual e o fascismo, concentrado na Frente Nacional francesa, ver Palheta, Ugo, La possibilité du fascisme: France, la trajectoire du desastre, Éditions La Découverte, 2018.

2 Valério Arcary, dirigente da Resistência, corrente interna do PSOL, foi um dos poucos dirigentes marxistas que alertaram de forma sistemática contra o perigo do neofascismo no Brasil. Ver sua muito recomendável série de artigos a respeito na Revista Fórum: <https://www.revistaforum.com.br/colunistas/valerioarcary/>.

3 Ver Katz, Claudio, Contra Bolsonaro en las calles y en las urnas, Viento sur, <https://vientosur.info/spip.php?article14226>.

4 Ver Altamira, Jorge. Scioli, Correa, Lula y Bolsonaro, Página 12, 2-10-2018.

5] Ver Matos, Daniel, Bolsonaro: ¿fascismo o bonapartismo?, en <http://laizquierdadiario.com/Bolsonaro-fascismo-o-bonapartismo?id_rubrique=1714>.

6 Ver Alcoy, Philippe, L’extrême-droite en force au premier tour. Où va le Brésil ?, em <http://www.revolutionpermanente.fr/L-extreme-droite-en-force-au-premier-tour-Ou-va-le-Bresil>.

7 Pode se ler a respeito “Bonapartismo frágil en Turquía”, onde se afirma: “la orientación bonapartista, que se supone debe llevar a cabo la reconfiguración y, por lo tanto, la estabilización del bloque de poder, paradójicamente acelera la disolución de la arquitectura institucional del Estado. Las purgas masivas en curso, y la inestabilidad política hacen que la reorganización burocrática del bloque de poder sea extremadamente difícil y arriesgada. Los sangrientos atentados y explosiones que ocurren cada dos semanas, el asesinato del embajador ruso, la matanza en un club nocturno en Nochevieja, se combinan para pintar la imagen de un Estado profundamente fragmentado y casi fracasado.” En <https://www.laizquierdadiario.com/Bonapartismo-fragil-en-Turquia>.

8 Para sua análise da Frente Nacional francesa, leia-se o artigo de Emannuel Barot em <http://www.revolutionpermanente.fr/Entre-pire-et-moindre-mal-Le-tandem-Le-Pen-Macron-ou-comment-etre-piege-entre-deux-variantes-du> e a resposta de Sylvain Pyro em <https://npa2009.org/idees/politique/pour-preparer-les-affrontements-avec-macron-il-faut-avoir-aujourdhui-une-politique>. Coerente com a subestimação do perigo que encarna a Frente Nacional, a organização irmã do PTS na França se opôs à consigna “nenhum voto para a FN” (que não convocava votar necessariamente por Macron, mas unificar num mesmo campo os que se opusessem à FN por via de um voto defensivo em Macron como os que votavam em branco) e se excluíram das manifestações sociais que se organizaram nessa direção.

9 Ver Slavoj ŽiŽek First as Tragedy, then as Farce, Londres, Verso, 2009.

10 Para um balanço da experiência do PT e seu processo de burocratização, ver Machado, João. La experiencia de la construcción de Democracia Socialista y del Partido de los Trabajadores de Brasil desde 1979 hasta el primer gobierno de Lula, en <http://www.anticapitalistas.org/wp-content/uploads/2017/04/TC-Brasil.pdf >.

11 Ver Bensaïd, Daniel, Revolución Permanente y Revolución por Etapas en América Latina, em <http://danielbensaid.org/Revolucion-Permanente-y-Revolucion-por-Etapas-en-America-Latina?lang=fr#nb2>.

12 Os exemplos poderiam ser multiplicados: a experiência do governo reformista-burguês Jacobo Arbenz na Guatemala, por exemplo, repete o mesmo padrão. Depois do golpe militar de 1954, o próprio partido comunista (Partido Guatemalteco do Trabalho), que havia defendido uma linha de conciliação com a “burguesia nacional”, escrevia autocriticamente: “o PGT não avaliou corretamente a débil capacidade de resistência da burguesia e não teve permanentemente presente o caráter conciliador frente ao imperialismo e às classes reacionárias, o que explica algumas ilusões que se tiveram sobre o patriotismo, a lealdade e a firmeza da burguesia nacional frente aos assaltos do imperialismo norte-americano”.

13 O próprio Trotsky não exclui as alianças táticas com frações da burguesia: “é evidente que nós, não podemos no futuro, renuncia a tais acordos rigorosamente limitados e servindo cada vez a um objetivo claramente definido a única condição de todo acordo com a burguesia, acordo separado, prático, limitado a medidas definidas e adaptadas a cada caso, consiste em não mesclar as organizações e as bandeiras, nem direta nem indiretamente, nem por um dia, nem por uma hora, e a não crer jamais que a burguesia é capaz de conduzir uma luta real contra o imperialismo e a não pôr obstáculos aos trabalhadores e camponeses” (Trotsky, La Revolución Permanente).

14 Bensaïd, Daniel, Idem.

15 Sobre estes temas ver o texto de Thwaites Rey, Mabel Dolor Brasil, dolor latinoamericano, en <http://intersecciones.com.ar/index.php/articulos/123-dolor-brasil-dolor-latinoamericano>.

16 Ver entrevista em La Contra TV em <https://www.youtube.com/watch?v=Ab5kH5nwx5Q>.

17 Reguera, Marcos, Alt Right: radiografía de la extrema derecha del futuro, em <https://ctxt.es/es/20170222/Politica/11228/Movimiento-Alt-Right-EEUU-Ultraderecha-Marcos-Reguera.htm>.

18 Sobre a relação entre modernidade, capitalismo e emancipação creio haver dois livros fundamentais: Marx, el Estado y la política, de Antoine Artous (Editorial Sylone, Barcelona, 2016) e Time, Labor and Social Domination. A reinterpretation of Marx´s Critical Theory, de Moishe Postone (Cambridge, Cambridge Uniersity Press). Em relação a trabalhos atuais que apresentem a relação entre universalismo, modernidade e política emancipatória creio haver dois aportes fundamentais: a corrente aceleracionista (ver Nick Srnicek y Alex Williams, Inventing the Future. Postcapitalism and a World without Work. Londres: Verso, 2015.) e o xenofeminismo (ver Helen Ester,Xenofeminismo, Caja Negra Editora: Buenos Aires, 2018). Sobre estes temas ver também “La izquierda ante el proyecto de la modernidad. Una discusión aceleracionista”, de Facundo Nahuel Martín em <http://intersecciones.com.ar/index.php/articulos/60-la-izquierda-ante-el-proyecto-de-la-modernidad-una-discusion-aceleracionista>.

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Apresentamos uma revista especial sobre os 50 anos do Maio de 1968 com o orgulho de herdar uma tradição. Assim como a Comuna de 1871, a Revolução Russa de 1917 e as lutas contra as ditaduras na América Latina, consideramo-nos parte deste excepcional movimento mundial de luta política, protagonizado por jovens e trabalhadores de várias partes do mundo, como nas famosas barricadas de Paris. Consideramos suas lições e sua potência como atuais. Boa parte dos leitores da Revista Movimento participaram ativamente das Jornadas de Junho de 2013 em nosso país. Aos cinco anos deste acontecimento, queremos contribuir para o encontro e a síntese de tão distantes e ao mesmo tempo tão próximas gerações.

Solzinho

Uma biografia inédita de Stalin escrita por Leon Trotsky Uma biografia inédita de Stalin escrita por Leon Trotsky

Leon Trotsky Joseph Stalin

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