Os primeiros lances da transição
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Os primeiros lances da transição

Bolsonaro começou a montar seu ministério à imagem e semelhança da sinistra coalizão que o elegeu.

Israel Dutra e Thiago Aguiar 22 nov 2018, 19:36

Bolsonaro começou a montar seu ministério à imagem e semelhança da sinistra coalizão que o elegeu. Com a primazia do rentismo, na figura do “superministro” Paulo Guedes, obedece à lógica imposta por Bolsonaro, após vencer as eleições. Mantém a polarização para evitar demonstrar a fragilidade de um projeto ainda pouco afinado. O time de Bolsonaro, além de Guedes, inclui Onyx Lorenzoni como articulador político, Teresa Cristina, representante dos latifundiários, na pasta da Agricultura, o General Fernando Azevedo e Silva na Defesa, General Augusto Heleno no Gabinete de Segurança Institucional, o ex-astronauta Marcos Pontes na Ciência e Tecnologia e o deputado Mandetta para a pasta da Saúde.

A presença de Sergio Moro no gabinete busca responder à opinião pública, mas abre ao mesmo tempo novas contradições com o próprio discurso eleitoral de combate à corrupção, já que a equipe ministerial tem “arranhões” com as novas denúncias que foram publicadas pela Folha contra Onyx e Teresa Cristina, pelas relações de ambos com a JBS, além das acusações que pesam contra Mandetta.

Na área internacional, o risco de um isolamento é cada vez mais evidente dados os primeiros atritos com a China, o maior parceiro comercial do país, com os vizinhos do Mercosul, e com países árabes, que devem reagir caso se confirme a transferência da embaixada para Jerusalém. A recente recusa do Egito a receber uma delegação brasileira é uma demonstração disto. Por sua vez, o nomeado para o MRE, Ernesto Araujo – indicado por Olavo de Carvalho e escolhido pelos filhos de Bolsonaro -, é um celerado que propõe “uma cruzada contra o globalismo pilotado pelo marxismo cultural” em defesa do cristianismo e dos valores do Ocidente (!).

O primeiro grande retrocesso de Bolsonaro, mesmo antes de sua posse, foi a ruptura do acordo com Cuba no programa Mais Médicos, com a despedida de médicos que organizaram as primeiras equipes permanentes em muitas cidades distantes no Brasil profundo.

Uma narrativa de confusão deliberada

Bolsonaro adota um método corriqueiro para se comunicar com a sociedade. O que aparenta ser improviso é, na verdade, uma estratégia discursiva. No melhor estilo Trump, Bolsonaro “choca”, com enunciados diretos e intensos, para depois recuar, voltando a um ponto intermediário, instalando o debate, manuseando a opinião pública de acordo com seus tempos e interesses. Foi assim em temas como o fim dos ministérios do meio ambiente e do trabalho. Mesmo a questão da transferência da embaixada para Jerusalém, defendida de forma enfática, aparece agora de forma ambígua. Bolsonaro precisa mobilizar constantemente seus seguidores para manter ativa a base social que o levou a vitória no segundo turno. Temas “polêmicos” como antipetismo, segurança pública e questões ideológicas dão a liga para o discurso de Bolsonaro, difundido por sua usina de fakenews.

O clã Bolsonaro, com Eduardo como porta-voz, declarou que teria que colocar “100 mil na cadeia”, uma afirmação que serve para elevar a temperatura do debate ideológico, colocando como crime a alusão ao comunismo. É preciso elevar o debate ideológico contra os reacionários e atacar o que Bolsonaro faz, não apenas o que diz. Seu plano de ajuste vai levar a choques com setores que respaldaram sua eleição.

A “agenda Guedes” contra o povo e o país

A agenda que se concretiza por agora é a de Guedes. Criando a secretaria de privatizações, seu principal objetivo é avançar na entrega do patrimônio público e nacional e na contrareforma da previdência. A nomeação de Roberto Castello Branco veio junto ao anúncio da venda de partes dos ativos da Petrobrás. Todo o plano da burguesia passa por aprofundar o ajuste. A relação com os governadores, muitos dos quais com problemas de caixa e finanças, também será medida pela nova disposição a aderir ao ajuste imposto pela União aos estados.

Estas são as principais prioridades do hiperliberal Guedes, formado pela Escola de Chicago, para descarregar um forte ajuste contra o povo. O modelo de entrega da Petrobrás é apenas a ponta do iceberg. Guedes chegou a falar em privatizar “todas as estatais” durante o período eleitoral. Sua sanha de vender é coerente com o entreguismo do futuro governo ao imperialismo para o qual o próprio Bolsonaro repetidamente bate continência.

Resistir e Organizar!

A saída não pode ser outra que não organizar a resistência, em cada local de trabalho, estudo ou moradia. O exemplo vem dos professores que lutam contra o projeto de “escola com mordaça”, das universidades que seguem resistindo e das as manifestações da negritude em todo o país no último 20 de novembro.

Para melhor resistir, é preciso organizar. Muitos apoiadores eleitorais, que participaram de comitês domésticos, panfletagens e reuniões, estão dando o passo de filiar-se ao PSOL e se organizar politicamente. Esse passo é decisivo para a luta contra o novo governo e para construir outro futuro. Organizaremos atividades de final de ano por todo país, como o seminário de formação política que faremos no Rio Grande do Sul para debater a experiência histórica de luta contra o fascismo, e a rodada de debates de lançamento da nova edição da Revista Movimento.

Como campanha geral, vamos seguir levantando a bandeira de “Justiça para Marille e Anderson”, oito meses após seu brutal assassinato, sem que se conheçam os assassinos e os mandantes do crime.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
O MES completa 20 anos. A edição n. 14-15 da Revista Movimento é dedicada por completo ao importante evento que marca duas décadas de nossa história. Apesar de jovens, podemos dizer que poucas organizações na história política da esquerda brasileira alcançaram essa marca com tamanho vigor. Longe de autoproclamação, desejamos transformar nossos êxitos em força social e militante para novos e amplos impulsos. Ainda não cumprimos uma maratona, mas nossa história sem dúvida deixou para trás a visão de curto prazo, que alguns adversários nos chegaram a prognosticar. Diante das muitas provas, vitórias e algumas derrotas, podemos celebrar e somar forças para enfrentar as tarefas imediatas: derrotar a tentação autoritária de Bolsonaro e avançar na construção de uma alternativa socialista.