A educação no centro da disputa do nosso futuro
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A educação no centro da disputa do nosso futuro

O futuro do debate sobre a educação no continente se dará fundamentalmente como uma disputa também ideológica.

Felipe Simoni 1 dez 2018, 18:01

Nas últimas semanas os jornais noticiaram um levante estudantil na Colômbia em defesa da educação pública. Somado ao debate do nefasto e hipócrita projeto “Escola sem Partido” e à indicação ao Ministério da Educação, no Brasil, do filósofo conservador colombiano Ricardo Veléz Rodriguez, esses eventos mostram a centralidade da educação na disputa do nosso futuro.

A eleição de governos de direita na América Latina, em especial na Colômbia, com o impopular Iván Duque, e no Brasil, com Jair Bolsonaro, mostrou que o debate sobre a educação se dará fundamentalmente como uma disputa também ideológica entre o autoritarismo e a democratização. O projeto desses governos envolve a privatização da educação e aposta em uma política pedagógica de perseguição ao pensamento crítico, de alienação e mercantilização do ensino.

No Brasil, a indicação de Ricardo Veléz como ministro da educação, para agradar a bancada evangélica, mostra que o bolsonarismo já apresenta a vontade de impedir o livre pensamento e a livre docência. O futuro ministro, em sua primeira declaração após a indicação, disse que fará uma gestão que “pretende preservar os valores tradicionais e conservadores”. Essa indicação põe em risco não apenas a formação dos jovens brasileiros, acrescida do fortalecimento do “Escola sem Partido” nas cidades, como também põe em risco a autonomia universitária, princípio democrático fundamental no desenvolvimento da ciência, e a pluralidade de ideias no ambiente de formação.

Veléz representa uma educação dogmática, carregada de valores morais autoritários, fundamentados em teorias da conspiração criadas por seus influenciadores, como é o caso do astrólogo Olavo de Carvalho. É o representante legítimo de um obscurantismo que pode levar a educação brasileira a um retrocesso que atingirá gerações.

Na Colômbia, a política de ajuste fiscal do governo de Iván Duque já atinge as despesas operacionais das universidades públicas, e seus ataques ao caráter gratuito do ensino superior no país colocam a educação no centro da crise de uma governo com 65% de reprovação. A luta dos estudantes, que já paralisou mais de 30 universidades colombianas, em defesa da universidade pública e gratuita, apresenta a juventude como a inimiga número um de um governo que privilegia os ricos.

Os projetos de educação da direita latino-americana revelam seus projetos de país. Sem dúvidas, a disputa por uma educação livre, democrática, pública e gratuita ganha uma centralidade na disputa ideológica pelo nosso futuro, por um projeto de soberania popular. No Brasil, por exemplo, a defesa da taxação das grandes fortunas e da democratização do acesso como alternativa à elitização e cobrança de mensalidades nas universidades públicas fará o embate direto contra um projeto de país baseado nas privatizações e no entreguismo.

A palavra de ordem dos estudantes colombianos deixa o recado de que essa geração terá uma responsabilidade muito grande no próximo período: impedir que destruam a educação pública. Nossa geração é a que fará a disputa da educação pública e democrática contra a barbárie. Desde o Brasil, nos solidarizamos com os irmãos colombianos na luta pelo nosso futuro.

Artigo originalmente publicado no Medium do Juntos!.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
“Enquanto os efeitos sanitários e econômicos da Covid-19 seguem fazendo-se sentir, escancarando a crise global do capitalismo, as lutas na América Latina começam a apresentar importantes conquistas no enfrentamento da extrema-direita continental. Na Bolívia, após meses de enfrentamentos e mobilização popular, a contundente vitória da chapa do MAS pôs fim ao governo ilegítimo e reacionário de Jeanine Áñez. No Chile, após as multitudinárias manifestações de 2019, o plebiscito levou a uma vitória esmagadora em favor de uma nova constituição elaborada por assembleia exclusiva. Na campanha eleitoral estadunidense em curso, está em jogo a possibilidade de derrotar o trumpismo, que anima movimentos neofascistas e racistas naquele país e em todo o mundo. Ao mesmo tempo, as eleições municipais brasileiras abrem a possibilidade de construir uma alternativa nas cidades que contribua para isolar e derrotar o bolsonarismo. A décima oitava edição da Revista Movimento debruça-se sobre esses processos de mobilização nas ruas e de enfrentamento eleitoral em curso”.