O México confronta seu futuro
Alfredo Estrella/AFP

O México confronta seu futuro

Como enquadrar no novo governo de Andres Manuel López Obrador?

Immanuel Wallerstein 7 dez 2018, 18:48

Há pouco tempo estive no México por vários dias. Fui falar na celebração da vitória de Andres Manuel López Obrador (AMLO), o presidente eleito. A reunião teve lugar na Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM).

O objetivo era que a reunião estimulasse uma reflexão aberta e crítica para onde vai o México agora. Nem todos os simpatizantes têm a mesma visão do futuro.

Compareceram muitos membros do gabinete de AMLO. Mas os secretários se restringiram a presidir as sessões em lugar de apresentar contribuições. Era como se não quisessem que seus pontos de vista fosse questionados em público.

Privadamente, muitas pessoas qualificam os secretários como de esquerda ou de direita. O próprio AMLO sempre evitou tais qualificativos, insistindo que sua rebelião nacional era contra a corrupção e a repressão do partido dominante, de tão longo tempo no poder, conhecido por seu nome mais recente, Partido Revolucionário Institucional (PRI), junto com seu sempre aliado partido de direita, ao que se conhece como PAN.

Os juízos acerca da trajetória futura de Andrés Manuel López Obrador variam consideravelmente. Alguns da esquerda estão contra ele violentamente, argumentando que sempre terminou em posições de direita. Outros da esquerda insistem que já cumpriu uma promessa importante, que é a de se retirar do projeto de construir um novo aeroporto na Cidade do México, um projeto tecnologicamente obtuso, que drenaria recursos e seria propenso a corrupção. Este último grupo diz que AMLO deveria ter a oportunidade de demonstrar suas credenciais de esquerda.

É a política exterior mexicana a maior pergunta aberta. Até agora, AMLO parece promover de maneira primordial uma política nacionalista e não uma política abertamente anti-imperialista.

Há dois âmbitos nos quais o México terá que assumir decisões básicas. Uma é a América Latina e o Caribe. A outra é o NAFTA.

A esquerda na América Latina em geral tem visto a vitória de AMLO como uma renovada insurgência de esquerda depois de uma década de contrarrevolução. Permitirá AMLO ao México jogar um papel no esforço de criar instituições latino-americanas que não incluam os Estados Unidos e o Canadá? Isso não está muito claro neste momento.

O segundo âmbito é o NAFTA, no qual Trump está intimidando os sócios para que assinem um acordo com os Estados Unidos que unicamente confere vantagens aos Estados Unidos. Peña Nieto acaba de assinar tal acordo. Como AMLO lidará com esta entrega? Poderá não permitir que o acordo seja ratificado. Mas isso é suficiente?

México tem sido governado por mais de 50 anos por um assim chamado partido corrupto de direita, o Revolucionário Institucional. AMLO terminou com o monopólio do PRI. Mas substituirá o PRI com algo fundamentalmente diferente?

Um analista de esquerda me explicava que o PRI não era um partido, mas uma cultura. O que a esquerda deve fazer, disse, é criar uma cultura alternativa – no México e em qualquer outra parte. Está a esquerda mexicana em processo de fazer isso?

Fonte: http://www.jornada.com.mx/2018/11/29/opinion/022a1pol


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
“Enquanto os efeitos sanitários e econômicos da Covid-19 seguem fazendo-se sentir, escancarando a crise global do capitalismo, as lutas na América Latina começam a apresentar importantes conquistas no enfrentamento da extrema-direita continental. Na Bolívia, após meses de enfrentamentos e mobilização popular, a contundente vitória da chapa do MAS pôs fim ao governo ilegítimo e reacionário de Jeanine Áñez. No Chile, após as multitudinárias manifestações de 2019, o plebiscito levou a uma vitória esmagadora em favor de uma nova constituição elaborada por assembleia exclusiva. Na campanha eleitoral estadunidense em curso, está em jogo a possibilidade de derrotar o trumpismo, que anima movimentos neofascistas e racistas naquele país e em todo o mundo. Ao mesmo tempo, as eleições municipais brasileiras abrem a possibilidade de construir uma alternativa nas cidades que contribua para isolar e derrotar o bolsonarismo. A décima oitava edição da Revista Movimento debruça-se sobre esses processos de mobilização nas ruas e de enfrentamento eleitoral em curso”.