Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

Daniel Bensaïd, militante e extraordinário filósofo marxista

Terceiro artigo da série de obituários sobre o pensador francês.

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Co-fundador da LCR (Liga Comunista Revolucionária), e depois do NPA (o Novo Partido Anticapitalista), Daniel Bensaïd contribuiu, através de suas obras e de sua ação militante, para reabrir, de maneira polêmica e inovadora, uma dinâmica de protesto que desafia o desenfreado capitalismo global de hoje.

O filósofo marxista Daniel Bensaïd morreu de câncer em Paris na última terça-feira; ele tinha sessenta e quatro anos. Sua carreira filosófica se estendeu pelos séculos XX e XXI. Ele desaparece pouco depois de declarar sobre o neoliberalismo em um livro recente “O velho mundo está morrendo” (Post-capitalisme. Imaginer l’aprés. Publicação de Diable Vauvert. Novembro 2009: Post-Capitalism: What Next?). Aliás, seu pensamento teórico é um dos muito poucos a ter integrado – no que diz respeito à crise atual – o ponto de vista da práxis em sua teoria. Era perfeitamente claro para ele que o tempo lento da ecologia não é o tempo rápido da bolsa de valores (Une lente impatience: a slow impatience, abril 2004) e que a crise econômica e financeira revela uma crise histórica da lei do valor, onde o “eu” alterna com o “nós”.

“Cuidado com a repetição!” – tal deve ser a máxima do mais esclarecido dos seus discípulos. Se alguns cínicos ainda estão convencidos de que só a guerra pode pôr um fim à mais séria crise que o capitalismo já conheceu, é claro que a extrema sofisticação e dispersão das armas nucleares hoje são um impedimento suficiente para se sugerir que a saída do crise só pode ser a redistribuição global do equilíbrio de forças na guerra de classes, através de grandes eventos políticos.

Supor que é possível tanto promover o consumo quanto tornar possível um consumo de tal escala, ou reconciliar a promoção de investimento e a garantia efetiva de grandes retornos, ele disse, equivale a imaginar “um mundo tão improvável quanto um arco-íris de três cores”. A questão hoje é como podemos transcender e arrancar as relações comerciais ou de mercado junto com as categorias filosóficas que elas implicam. Por impedir a difusão e o aperfeiçoamento da inovação, a liberalização (privatização) desacredita o discurso do neoliberalismo quanto aos benefícios da competição, e desconstrói a exaltação das restrições institucionais do mercado global. O que está agora na agenda é uma mudança da própria lógica do capitalismo: “A nova sociedade deve se inventar sem nenhuma das regras pré-existentes, através da experiência prática de milhões de homens e mulheres”.

Daniel Bensaïd foi um extraordinário intelectual marxista. Ele foi um daqueles pensadores que, no final dos anos 1970, em um período em que o protesto social estava em refluxo, não renegou nem um pouco o seu compromisso político radical. Melhor ainda, suas obras e ação política contribuíram, nos últimos vinte anos, para reabrir, de maneira polêmica e inovadora, uma dinâmica de protesto que desafia o desenfreado capitalismo global de hoje. Desde então, em seu livro  Marx, o intempestivo (Fayard, 1995: Marx, the untimely thinker), ele renovou a interpretação crítica das análises históricas, econômicas e científicas de Marx.

Daniel Bensaïd era um ex-estudante da École Normale Supérieure em Saint-Cloud e tinha uma cadeira de filosofia na universidade Paris VIII; ele participou ativamente do movimento de maio de 1968 com a LCR. O NPA perde o mais arguto teórico do anti-stalinismo. É conhecido por seus livros sobre Walter Benjamin, Karl Marx e por sua análise recente do pós-modernismo em Os irredutíveis: teoremas da resistência para o tempo presente [Textuel, 2001] e Eloge de la résistance à l’air du temps (Textuel, 1999).

Daniel Bensaïd mostrou respeito pelas lições de modéstia inerentes ao ativismo considerando que a sua implicação prática é que ninguém nunca age ou pensa sozinho. Ele prontamente reconhecia que nenhum movimento político, nem mesmo o seu próprio, poderia se gabar de ser o expoente da crítica radical do capitalismo, apenas para acrescentar que “não se pode dizer, no entanto, que o pensamento crítico marxista é um campo tão cheio assim”. Com certeza, as classificações de ídolos e deuses estão em ascensão, e o sagrado está de volta com uma vingança. Mas a questão urgente, na França agora, é pensar um projeto político liberal e secular para o futuro.

Artigo originalmente publicado pelo jornal L’Humanité. Tradução de Pedro Barbosa, da Comuna (PSOL), a partir da versão disponível em marxists.org.

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Publicamos a décima edição de nossa Revista Movimento. Dessa vez, celebramos os 80 anos de fundação da IV Internacional, comemorados em setembro de 2018, com uma seção especial. Há, também, artigos na seção internacional e de teoria. Fechamos esta edição quando a eleição brasileira se encerrava. Como não poderia deixar de ser, nesta décima edição de Movimento, apresentamos nossas primeiras análises sobre os resultados eleitorais. Sabemos que a vitória de Jair Bolsonaro trará graves ataques à classe trabalhadora e ao povo brasileiro. Estaremos com nosso povo, lutando em defesa das liberdades democráticas e de nossos direitos. Mais uma vez, esperamos que a revista seja uma ferramenta útil de construção e formação para nossos camaradas. Boa leitura!

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