Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

Depois de Davos e Rio das Pedras, o crime de Brumadinho

Tragédia é resultado de lógica da economia nacional que põe lucros de empresas acima da vida dos brasileiros.

Divulgação
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A agitada semana que passou foi de crise para o governo. Ao completar um mês à frente do Planalto, Bolsonaro se depara com fortes contradições, após retornar da Suíça, onde participou do Fórum Econômico Mundial. Além de Davos, a prisão de milicianos da localidade de Rio das Pedras no Rio de Janeiro aqueceram ainda mais a desconfiança sobre a rede de negócios ilícitos de seu filho, senador eleito Flávio Bolsonaro, que começou com o laranja Queiroz e parece chegar nas milícias cariocas. A tragédia derivada do crime ambiental em Brumadinho, Minas Gerais, selou a semana do país, com chocantes cenas, centenas de desaparecidos e dezenas de mortos, muitos ainda não identificados, graças à relação promíscua do poder público com as grandes mineradoras como a Vale.

Num momento em que se revelam mais notícias das relações da família Bolsonaro com as milícias e se agrava a crise envolvendo Flávio, como atestou a revista Veja da semana, uma tragédia se abate no país.

O crime de Brumadinho

Quando fechávamos o texto, o número de óbitos confirmados chegava a 58 e, tragicamente, não parava de crescer. Ainda são mais de 300 desparecidos, com informações desencontradas. A dor das famílias é terrível. A grande maioria dos envolvidos são trabalhadores efetivos e terceirizados da Vale S.A.. A ruptura da barragem, na tarde de 25 de setembro, na mina do Feijão no interior de Brumadinho, repetiu tragicamente o crime de Mariana. Há três anos, outra barragem era rompida, com enredo parecido, num dos maiores crimes ambientais da história de nosso país.

Não é coincidência que novamente o principal autor de tal crime social e ambiental seja o mesmo: a Vale. A empresa, que foi privatizada durante o governo FHC a preço de banana, transformou-se em uma das principais vilãs brasileiras quando o assunto é crime ambiental e social. Embora tal resultado pós privatização fosse mais do que previsível, os custos já são altos demais para toda a população brasileira.

Ao ser transferida para a iniciativa privada, a Vale passa a seguir o script das grandes empresas capitalistas, que em seu caótico funcionamento necessita colocar seus lucros acima de tudo, desde o meio ambiente até a vida das pessoas. Essa necessidade por parte do capital é denunciada por todas as comunidades diretamente atingidas, que sabem que suas vidas não valem nada diante dos lucros exorbitantes das mineradoras.

Para garantir tais lucros, e principalmente a impunidade frente a seus crimes, é necessária uma relação orgânica e que beira a promiscuidade com os governos vigentes. Em Minas Gerais esta relação está escancarada e se dá sem nenhuma vergonha. Desde os governos do PSDB até o último governo de Fernando Pimentel (PT), todos sem exceção atuaram como gerentes dos interesses das grandes mineradoras em seu caminho de devastação.

O governo de Fernando Pimentel (PT), aliás, mesmo tendo passado pelo crime social e ambiental que foi Mariana, atuou efetivamente para a flexibilização da legislação ambiental garantindo a ampliação desenfreada da exploração de minas em todo o estado. Já o governador Zema, recentemente empossado, manifestou em campanha e mesmo depois de sua vitória, querer seguir o mesmo caminho. Em janeiro, chegou a se reunir com a Samarco em aceno para o retorno das atividades da empresa em Mariana e dois dias antes da tragédia reuniu com outra empresa que atua em Brumadinho para garantir a expansão das atividades de mineração na cidade.

Porém, não são apenas os governos locais os responsáveis pela carta branca dada à Vale e outras mineradoras para destruir. O governo Bolsonaro já se manifestou diversas vezes sobre suas intenções e de seus aliados em esvaziar os órgãos de licença ambiental. A própria política de não demarcação de terras indígenas aparece no mesmo terreno de liberação para a exploração predatória do capital sobre a natureza. Além disso, a presença de Ricardo Salles no ministério do Meio Ambiente, mesmo após condenação em São Paulo por beneficiar mineradoras paulistas, é inaceitável.

Deve ser também rejeitada pela população as ações teatrais promovidas pelo governo tentando esconder suas culpas e da Vale com este crime. É necessário valorizar o papel solidário de socorristas, psicólogos, assistentes sociais e diversos outros profissionais que se deslocaram inclusive de outros estados para ajudar as vítimas e suas famílias em Brumadinho. Assim como aconteceu em Mariana, a organização da sociedade civil a fim de ajudar as vítimas é uma demonstração de solidariedade e apreço pela vida. Não à toa ainda no primeiro dia após o acidente o governo precisou emitir comunicado afirmando que as doações que haviam chegado eram mais do que suficientes para atender ao desabrigados.

A vale e os governos são responsáveis

Tais demonstrações de solidariedade reforçam a importância da organização popular para exigir justiça para as vítimas, suas famílias e o meio ambiente. Uma nova Mariana em termos de tragédia social e ambiental infelizmente acabou acontecendo apesar de todos os avisos. Não pode ser repetir em termos da impunidade. Neste novo regime mais autoritário e reacionário que tenta se estabelecer no Brasil e no mundo, a luta por justiça em Brumadinho toma um papel central.

A punição para a Vale e os demais responsáveis pela morte de centenas de pessoas e de ecossistemas completos deve estar na agenda dos setores democráticos como mais uma barreira contra o avanço do conservadorismo que está submetido ao lucro das grandes empresas. Nós do PSOL temos a tarefa de atuar ombro a ombro com as famílias das vítimas e com os trabalhadores para exigir tanto justiça como uma legislação mais dura sobre as licenças ambientais. Além disso, deve estar na nossa pauta a revisão geral de todas as barragens de rejeitos do estado.

Por fim, nossos esforços também devem localizar Brumadinho em um contexto mais geral da luta contra o capital aliado ao reacionarismo que matou Marielle, impede a elucidação deste crime e na última semana fez parte do processo de auto exilio de Jean Wyllys. O Papel do PSOL deve ser o de estimular e organizar a resistência do povo. Eis o desafio para encarar Brumadinho.

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Publicamos a décima edição de nossa Revista Movimento. Dessa vez, celebramos os 80 anos de fundação da IV Internacional, comemorados em setembro de 2018, com uma seção especial. Há, também, artigos na seção internacional e de teoria. Fechamos esta edição quando a eleição brasileira se encerrava. Como não poderia deixar de ser, nesta décima edição de Movimento, apresentamos nossas primeiras análises sobre os resultados eleitorais. Sabemos que a vitória de Jair Bolsonaro trará graves ataques à classe trabalhadora e ao povo brasileiro. Estaremos com nosso povo, lutando em defesa das liberdades democráticas e de nossos direitos. Mais uma vez, esperamos que a revista seja uma ferramenta útil de construção e formação para nossos camaradas. Boa leitura!

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