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Hora de quebrar o silêncio sobre a Palestina

Inspirada por Martin Luther King, escritora estadunidense defensora dos direitos humanos se coloca a favor da causa palestina.

Hosam Salem/The New York Times
Hosam Salem/The New York Times

Em 4 de abril de 1967, exatamente um ano antes de seu assassinato, o reverendo Dr. Martin Luther King Jr. subiu ao púlpito da Riverside Church em Manhattan. Os Estados Unidos estavam em ativo combate no Vietnã há dois anos e dezenas de milhares de pessoas haviam sido mortas, incluindo 10 mil combatentes estadunidenses. O establishment político – da esquerda à direita – apoiava a guerra, e mais de 400 mil membros do serviço estadunidense estavam no Vietnã, com suas vidas em risco.

Muitos dos mais importantes aliados de King clamaram para ele permanecer em silêncio a respeito da guerra ou, ao menos, atenuar qualquer criticismo. Eles sabiam que se ele contasse toda a história sobre essa guerra injusta e desastrosa ele seria taxado falsamente como comunista, sofreria retaliações e severas repercussões, perder apoiadores e ameaçar o frágil progresso do movimento pelos direitos civis.

King rejeitou todos os conselhos bem intencionados e disse: “Eu vim esta noite a esta magnífica casa de culto porque minha consciência não me deixa outra escolha”. Citando um pronunciamento do Clergy and Laymen Concerned About Vietnan, ele disse: “Chega uma hora em que o silêncio é traição”, e adicionou, “essa hora chegou para nós em relação ao Vietnã”.

Foi uma posição solitária, moral. E custou a ele. Mas dá um exemplo do que é exigido de nós se quisermos honrar nossos valores mais profundos em tempos de crise, mesmo se o silêncio for a melhor alternativa aos interesses pessoais e às nossas causas comunitárias mais queridas. É o que eu penso sobre quando vou além das desculpas e racionalizações que me deixaram em larga medida silenciada sobre um dos maiores desafios morais de nossa época: a crise em Israel e na Palestina.

Eu não estive sozinha. Até muito recentemente, todo o Congresso estadunidense permaneceu silencioso em sua maioria sobre o pesadelo dos direitos humanos que ocorria nos territórios ocupados. Nossos representantes eleitos, que operam em um ambiente político em que o lobby político de Israel detém um poder bem documentado, constantemente minimizaram e desviaram as críticas do Estado de Israel, mesmo que ele tenha se encorajado na ocupação do território palestino e adotado algumas práticas reminiscentes do apartheid na África do Sul e da segregação de Jim Crow nos Estados Unidos.

Muitos ativistas e organizações de direitos humanos também permaneceram caladas, não porque faltem a eles preocupação ou simpatia pelo povo palestino, mas porque eles temem perder financiamento de fundações e falsas acusações de antissemitismo. Eles se preocupam, como já o fiz, que o seu importante trabalho de justiça social seja comprometido ou descreditado  por campanhas de difamação.

Do mesmo modo, muitos estudantes têm receio em manifestar seu apoio aos direitos palestinos por conta das táticas macarthistas de organizações secretas como a Canary Mission, que lista aqueles que publicamente se atrevem a suportar boicotes contra Israel, o que põe em perigo suas projeções de emprego e carreiras futuras.

Lendo o discurso de King em Riverside mais de 50 anos depois, fico com pouca dúvida sobre como seus ensinamentos e mensagens requerem que nós falemos com paixão contra a crise de direitos humanos em Israel e na Palestina, a despeito dos riscos e da complexidade das questões. King argumentou, enquanto falava sobre o Vietnã, que “mesmo quando as questões em mãos parecem tão desconcertantes como elas normalmente são no caso deste terrível conflito”, nós não podemos ser hipnotizados pela incerteza. “Nós devemos falar com toda a humildade apropriada à nossa visão limitada, mas nós devemos falar”.

E então, se quisermos honrar a mensagem de King, e não meramente o homem que foi, nós devemos condenar as ações de Israel: implacáveis violações do direito internacional, contínua ocupação da Cisjordânia, Jerusalém Oriental e Gaza, demolição de casas e confiscos de terra. Devemos gritar sobre o tratamento dos palestinos nos checkpoints, os inquéritos cotidianos em suas casas e as restrições de seus movimentos, e o absolutamente limitado acesso a moradia, escolas, comida, hospitais e água decente que muitos deles encontram.

Nós não podemos tolerar a recusa de Israel em nem mesmo discutir o direito dos refugiados palestinos em retornar às suas casas, como prescrito pelas Nações Unidas, e devemos questionar os fundos do governo dos Estados Unidos que deram suporte a múltiplas hostilidades e milhares de casualidades civis em Gaza, assim como os 38 bilhões de dólares que o governo dos EUA prometeu de apoio militar a Israel.

E finalmente, nós devemos, com o máximo de coragem e convicção que pudermos reunir, nos colocar contra o sistema de descriminação legal que existe dentro de Israel, um sistema completo com, de acordo com Adalah, o Centro Legal para Direitos de Minorias Árabes em Israel, mais de 50 leis que descriminam palestinos – tais como a nova lei do estado-nação que diz explicitamente que apenas israelenses judeus têm o direito à autodeterminação em Israel, ignorando os direitos das minorias árabes que representam 21 por cento da população.

É claro, terão aqueles que dirão que nós não podemos saber exatamente o que King faria ou pensaria em relação a Israel e à Palestina hoje. Isso é verdade. A evidência ao olhar a visão de King sobre Israel é complicada e contraditória.

Embora o Comitê Estudantil de Coordenação Não-violenta denunciasse as ações de Israel contra os palestinos, King se encontrava ele mesmo em um conflito conflitante. Como muitos líderes negros de sua época, ele reconhecia os judeus europeus como pessoas perseguidas, oprimidas e sem lar que se esforçavam para construir uma nação para si próprios, e ele queria mostrar solidariedade com a comunidade judaica, que havia sido uma aliada importante no movimento pelos direitos civis.

Finalmente, King cancelou uma peregrinação para Israel em 1967 após Israel ter capturado a Cisjordânia. Durante uma chamada telefônica com seus conselheiros sobre a visita, ele disse, “Eu só acho que se eu ir, o mundo árabe, e é claro a África e a Ásia no que concerne a esse assunto, iria interpretar isso com um endossamento a tudo que Israel fez, e eu tenho dúvidas enquanto a isso”.

Ele continuou a apoiar o direito de Israel a existir, mas também disse em rede nacional de televisão que seria necessário para Israel devolver partes do seu território conquistado para se chegar à paz e segurança e evitar a exacerbação do conflito. Não havia como King publicamente reconciliar seu comprometimento com a não violência e a justiça para todos, em todos os lugares, com o que veio à tona após a guerra de 1967.

Hoje, podemos apenas especular sobre onde King se colocaria. Ainda que eu me encontre de acordo com o historiador Robin D. G. Kelley, que conclui que, se King tivesse a oportunidade de estudar a atual situação do mesmo modo que ele estudou a do Vietnã, “sua inequívoca oposição à violência, ao colonialismo, ao racismo e ao militarismo teria o feito um incisivo crítico das atuais políticas de Israel”. 

De fato, a visão de King pode ter evoluído ao lado de muitos outros pensadores espiritualmente fundamentados, como o Rabino Brian Walk, que havia se manifestado publicamente sobre as razões que o fizeram abandonar sua fé no que ele via como sionismo político. Para ele, como recentemente me explicou, o sionismo liberal significava que ele acreditava na criação de um Estado judaico ao redor do mundo, “um Estado que refletiria assim como a honra os maiores ideais da tradição judaica”. Disse que ele cresceu na África do Sul numa família que compartilhava essas visões e se identificava como sionista liberal, até que suas experiências nos territórios ocupados o mudaram para sempre.

Ao longo de mais de vinte visitas à Cisjordânia e Gaza, ele viu horríveis abusos de direitos humanos, incluindo casas palestinas sendo demolidas enquanto pessoas choravam – brinquedos de crianças espalhados sobre escombros – e viu terras palestinas sendo confiscadas para dar lugar a novos assentamentos ilegais subsidiados pelo governo israelense. Ele foi forçado a contar com a realidade de que essas demolições, assentamentos e atos de disposição violenta não eram movimentos desonestos, mas totalmente apoiados e possibilitados pelas forças militares israelenses. Para ele, o ponto de inflexão foi testemunhar descriminações legalizadas contra palestinos – incluindo ruas apenas para judeus – as quais, ele disse, eram piores em alguns sentidos do que o que ele testemunhou na África do Sul enquanto criança.

Até pouco tempo atrás, era muito raro ouvir perspectivas como essa. Isso não é mais o caso.      

A Jewish Voice for Peace [Voz Judaica pela Paz], por exemplo, visa educar o público estadunidense sobre “o deslocamento forçado de aproximadamente 750 mil palestinos que começou com o estabelecimento de Israel e continua até hoje”. Um número crescente de pessoas de todas as fés e trajetórias têm se manifestado com mais ousadia e coragem. Organizações estadunidenses como a If Not Now [Se não agora] apoiam jovens judeus estadunidenses enquanto eles lutam para quebrar o silêncio mortal que ainda existe entre muitas pessoas no que se refere à ocupação, e centenas de grupos seculares e religiosos aderiram à U.S. Campaing for Palestinian Rights [Campanha Pelos Direitos Palestinos nos EUA].

Com vista a esses desenvolvimentos, parece que os dias em que críticas de sionismo e de ações do Estado de Israel podem ser ditas como antissemitista estão chegando ao fim. Parece haver um crescente entendimento de que a crítica das políticas e práticas do governo israelense não é, em si, antissemita.

Isso não quer dizer que o antissemitismo não é real. O neonazismo está ressurgindo na Alemanha dentro de um crescente movimento anti-imigração. Incidentes antissemitas cresceram 57% nos Estados Unidos em 2017, e muitos de nós ainda estamos de luto pelo que se acredita ter sido o mais moral ataque ao povo judeu na história dos Estados Unidos. Precisamos estar atento a esse clima, enquanto o criticismo a Israel não é inteiramente antissemita, ele pode desembocar nele.

Felizmente, pessoas como o Reverendo Dr. William J. Barber II estão liderando pelo exemplo, prometendo lealdade à luta contra o antissemitismo ao mesmo tempo em que demonstram inabalável solidariedade com o povo palestino que luta para sobreviver sob a ocupação israelense.

Ele declarou em um firme discurso no ano passado que nós não podemos falar em justiça sem levar em conta o deslocamento de pessoas nativas, o racismo sistemático do colonialismo e a injustiça da repressão governamental. No mesmo fôlego, ele acrescentou: “Eu quero dizer, o mais claro que eu puder, que a humanidade e a dignidade de qualquer pessoa ou povo não pode de nenhum modo diminuir a humanidade e a dignidade de nenhuma outra pessoa ou outro povo. Agarrar-se à imagem de Deus em cada pessoa é insistir que a criança palestina é tão preciosa como a criança judia”.

Guiado por esse tipo de claridade moral, grupos religiosos estão agindo. Em 2016, a pensão da United Methodist Church excluiu de seu multibilionário fundo de pensão os bancos israelenses cujos empréstimos para construção em assentamentos violavam o direito internacional. Igualmente, a United Church of Christ aprovou uma resolução no ano passado em que pedia por desinvestimentos e boicotes a companhias que lucravam com a ocupação israelense em territórios palestinos.

Até mesmo no Congresso mudanças estão no horizonte. Pela primeira vez dois de seus membros, os congressistas Ilhan Omar, democrata do estado de Minnesota, e Rashida Tlaib, democrata de Michigan, publicamente apoiam o Boicote, Desinvestimentos e Sanções. Em 2017,  a congressista Betty McCollum, democrata de Minnesota, introduziu uma resolução para assegurar que nenhuma ajuda militar dos Estados  Unidos iria apoiar o sistema de detenção militar juvenil de Israel. Israel persegue crianças palestinas detidas em territórios ocupados em corte militar.

Nada disso quer dizer que a maré virou completamente ou que retaliações contra aqueles que expressam forte apoio aos direitos palestinos sessaram. Ao contrário, assim como King recebeu esmagadoras e ferozes criticas por seu discurso condenando a guerra do Vietnã – 168 grandes jornais, incluindo o The New York Times, denunciaram a fala no dia seguinte – aqueles que falam abertamente em apoio à liberação do povo palestino ainda estão sujeitas à condenações e retaliações.

Bahia Anawi, um patologista de fala americana e descendência palestina, foi recentemente demitido por recusar a assinar um contrato que continha uma garantia anti-boicote afirmando que ela não havia participado, e não participaria, de boicotes ao Estado de Israel. Em novembro, Marc Lamont Hill foi demitido da CNN por fazer um discurso em apoio aos direitos palestinos que foi profundamente mal interpretado como uma expressão de apoio à violência. A Missão Canary continua a colocar sérias ameaças aos estudantes ativistas.  

E apenas uma semana atrás, o Instituto de Direitos Civis de Birmingham no Alabama, aparentemente sob pressão principalmente de segmentos da comunidade judaica e de outros, rescindiu a honra concedida à ícone dos direitos civis Angela Davis, quem tem sido uma sonora crítica do tratamento de Israel aos palestinos e apoiadora do BDS.

Mas aquele ataque saiu pela culatra. Em 48 horas, acadêmicos e ativistas se mobilizaram em resposta. O prefeito de Birmingham, Randall Woodfin, assim como o School Board e o City Council da cidade expressaram ultraje à decisão do instituto. O conselho unanimemente aprovou uma resolução à honra de Davis, e um evento alternativo está sendo organizado para celebrar seu comprometimento de décadas pela libertação de todos.

Eu não posso dizer com certeza que King teria aplaudido Birmingham pela sua zelosa defesa da solidariedade de Angela Davis com o povo palestino. Mas eu o faço. Neste novo ano, eu espero falar com mais coragem e convicção a respeito das injustiças cometidas além de nossas fronteiras, principalmente aquelas que são financiadas pelo nosso governo, e me colocar em solidariedade com as lutas por democracia e liberdade. Minha consciência não me deixa outra escolha.

Artigo originalmente publicado no The New York Times. Tradução de Pedro Micussi para a Revista Movimento.

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Apresentação

Neste mês de março, preparamos uma nova edição da Revista Movimento, dedicada especialmente para a reflexão e elaboração política sobre a luta das mulheres. Selecionamos um conjunto de materiais - artigos teóricos, textos políticos, documentos e uma especial entrevista - com o intuito de aprofundar o esforço consciente demonstrado por nossa organização nos últimos anos em avançar na compreensão sobre o tipo de feminismo que defendemos, bem como sobre o papel essencial e a importância estratégica que a luta feminista tem para a construção de um projeto anticapitalista. Um desafio exigido pela atual conjuntura, marcada pela ascensão de governos de extrema-direita no mundo, na qual o movimento feminista tem se apresentado como contraponto e trincheira de resistência fundamental. Por isso, esta edição pretende, antes de mais nada, auxiliar e fortalecer nossas intervenções feministas nesse momento, a começar por duas datas muito significativas que inauguram este mês: o 8 e o 14 de março, dia em que se completará um ano do brutal assassinato de nossa companheira Marielle Franco. Esperamos que seja proveitoso e sirva como instrumento para as nossas batalhas. Boa leitura!

Solzinho

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