Primeiras impressões sobre o Uruguai
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Primeiras impressões sobre o Uruguai

Da visão de um historiador e recente morador da capital do país.

João Guilherme Paranhos Miceli 28 jan 2019, 15:02

Introdução

Este ensaio foi escrito depois de menos de um mês de chegada e por isso é impreciso e atualizações serão feitas. O Uruguai se converteu sem intencionalidade num oásis da esquerda e da democracia. Sem intencionalidade porque o país é demasiado pequeno para ter projeção internacional, ou mesmo regional, capaz de alterar os rumos da América Latina e os políticos nacionais de todo o espectro concordam nisso.

Se compararmos a história do Uruguai com a do Brasil, observamos que nosso pequeno vizinho vivenciou mais rompimentos em suas mudanças de regimes, menos tempo de escravidão, mais expansão educacional e mais distribuição de renda. Somado a isso há o fato de o Uruguai ser conhecido na política externa como “um cristal entre dois gigantes”, o que torna sua vida muito integrada à brasileira e à argentina, embora a dependência tenha diminuído.

Essas variáveis combinadas contribuíram para o fazer-se de um povo em média bem mais internacionalista e politizado do que o brasileiro. Isso se percebe também no campo da cultura, onde o governo fomenta a latinidade e a iniciativa privada se interessa por “produtos” de outros países da região, algo facilitado pelo idioma.

As grandes conquistas uruguaias dos últimos 15 anos, que colocaram o país de forma inédita no cenário internacional tiveram efeitos contraditórios na consciência de classe dos trabalhadores. Por um lado aumentou o apreço pela democracia, pelos direitos individuais e a maioria absoluta dos uruguaios com quem conversamos se opõe ao bolsonarismo no Brasil, mesmo entre os que declaram voto na direita. Por outro, é nítido o desgaste com o governo de Tabaré Vasquez e os que se decidem pela oposição ou flertam com ela descartam qualquer risco fascistizante nessa escolha, afirmando orgulhosos que no Uruguai isso não ocorreria.

Os grandes desafios uruguaios em tempos de crise econômica

Não obstante os avanços sociais sem precedentes das últimas décadas (redução da pobreza e da desigualdade, casamento civil igualitário, direito ao nome social, legalização do aborto e da maconha, entre outros) há problemas estruturais a serem resolvidos. Os governos de centro-esquerda do Frente Amplio (FA) conseguiram diversificar as parcerias internacionais, mas a economia uruguaia segue agroexportadora e dependente, um problema em tempos de crise e de baixa do preço das commodities. Somado a isso vem a percepção de mais prosperidade nacional por parte do grande empresariado, oque favorece a especulação e a alta dos preços finais, que corroem o poder de compra do povo trabalhador e da classe média.

A Venezuela de Maduro aprendeu da pior forma possível que quando o governo mantem o anti-imperialismo apenas como retórica de bravata e não combate a especulação a escassez é catastrófica. É importante ressaltar que a degeneração madurista vai na contramão das postulações chavistas em Golpe de timão, último livro de Chávez, que apontava as medidas necessárias para a transição para o socialismo, dentre elas a diversificação econômica e o combate à burocratização.

Outro desafio uruguaio, consequência da alta dos preços é o aumento da criminalidade. Embora não seja nada comparado ao Brasil, esse tema se tornou bastante sensível aos uruguaios. O tráfico de drogas diminuiu bastante após a legalização, mas não se encerrou. Ele ainda atende pessoas que consomem para além do regulamentado e estrangeiros. A diminuição drástica do mercado do tráfico devido à legalização somado com a ausência de políticas públicas compensatórias gerou o aumento da violência entre gangues. Somado a isso está o aumento do consumo de drogas ainda ilícitas como a cocaína. A taxa de homicídios por 100 mil habitantes cresceu a índices alarmantes para a cultura uruguaia, ainda que seja menos do que 1/3 do Brasil.

Setores do direitista Partido Nacional (Blancos) capitalizam essa insatisfação e conseguiram as assinaturas para a realização do Plebiscito de Larrañaga, a ser realizado junto com as eleições presidenciais em outubro. Esse plebiscito tem caráter conservador e punitivo, com discurso parecido com o do Brasil quanto à redução da maioridade penal. Cabe ressaltar que a maioridade penal foi rejeitada em 2014 no Uruguai por 53% a 47% em outro plebiscito.

O FA muitas vezes tem uma política vacilante e ambígua, pois ao mesmo tempo que legalizou a maconha, endureceu nas ações repressivas contra o tráfico. A política mais acertada seria radicalizar o processo de legalização e regulamentação da maconha e ampliá-lo para outras drogas, além de desenvolver políticas de redistribuição de renda para oferecer alternativas aos que hoje vivem do tráfico.

Outro tema bastante explorado pela oposição e muito conhecido no Brasil é o da corrupção. Raul Sendic, ex-vice-presidente foi acusado de usar o cartão corporativo da ANCAP (estatal de petróleo) para gastos pessoais. Renunciou à vice-presidência da República em 2017 e foi suspenso do FA em 2018. Mesmo assim, isso afetou a popularidade do presidente Tabaré Vasquez, hoje com 45% de rejeição, número que subiu 6% na última pesquisa. A direita segue se apropriando do discurso anticorrupção para atacar Carolina Cosse, uma das pré-candidatas à presidência da República pelo FA, embora não haja nenhuma prova substancial até agora.

O Uruguai é um país bastante intolerante com a corrupção e desvios de conduta, talvez por ela não ser tão endêmica. Recentemente um senador de um pequeno partido de direita caiu em descrédito e escracho público por dirigir alcoolizado e causar um acidente. Seu partido foi sensível às críticas e o afastou.

Por último, a escassez na Venezuela e o autoritarismo de Maduro são bastante propagandeados pela direita uruguaia, que acusa o governo de não ser firme quanto a isso. O governo uruguaio tem se abstido de fazer pronunciamentos favoráveis ou contrários a Maduro. A situação do governo é complicada, pois não dá para defender o ditador venezuelano, mas também não dá para respaldar o grupo de Lima, braço cada vez maior do imperialismo estadunidense na América Latina. Faltaria coragem para defender uma linha “nem Maduro nem a direita”, vontade ou possibilidade real?

No entanto, a população também tem se chocado com a agenda de retirada de direitos sociais e individuais de Bolsonaro e seu autoritarismo. Quando anunciamos que somos do Brasil a solidariedade é quase imediata. O povo uruguaio é bem informado sobre o que acontece no seu grande vizinho e condena as ações de retiradas de direito sociais ou individuais do novo governo. A agenda Bolsonaro fortalece a esquerda uruguaia.

O sistema eleitoral uruguaio e as eleições de 2019

As eleições presidenciais uruguaias, assim como nos EUA, são antecedidas por prévias abertas para a escolha dos candidatos em cada partido. Vamos começar abordando a direita. Até 2005 a política uruguaia foi hegemonizada por dois grandes partidos de direita, o Partido Colorado e os Blancos. Os colorados estão bastante enfraquecidos. Sua principal figura é Pedro Bordaberry, filho de um dos ditadores uruguaios. Cabe lembrar que a ditadura é impopular no Uruguai. O Partido Colorado não têm chances reais de ganhar e deve apoiar os Blancos no 2º turno.

Os Blancos são a principal força de oposição de direita, mas têm suas disputas internas. O pré-candidato mais tradicional e ainda com mais chances é Luis Lacalle Pou, Senador da República, derrotado no segundo turno das eleições de 2014. Filho de um ex-presidente, representa bem o establishment e é um moderado dentro de seu partido. Pesa a seu favor a experiência e a máquina partidária.

Outros pré-candidatos se destacam. Um deles é Jorge Larrañaga, principal articulador do plebiscito que levou seu nome para. Larrañaga também é um político do establishment e tem posições um pouco mais à direita do que Lacalle Pou. Correndo por fora estão o milionário e megaempresário Luis Sartori, uma versão uruguaia de Amoedo, que se coloca como não político e defende agenda ultraliberal e a reacionária Veronica Alonso, admiradora de Bolsonaro e principal voz no ataque às políticas de direitos humanos e minorias. Veronica é a pré-candidata mais à direita, mas não tem a projeção que Bolsonaro tinha. Não é uma boa ideia interpelá-la em excesso para não dar a ela mais palanque.

Desde 2005 o Frente Amplio está no poder. O FA não é exatamente um partido, mas uma grande concertação de partidos de esquerda, socialistas e social-democratas que se unem eleitoralmente, mas preservam suas diferenças. O presidente Tabaré Vasquez, do Partido Socialista, representa uma ala mais centrista, em comparação ao Movimiento de Participación Popular (MPP) de Pepe Mujica e outros grupos mais à esquerda. Vasquez hoje tem impopularidade de 45% e o FA vai necessitar apresentar uma candidatura que esteja descolada do atual presidente.

Daniel Martínez conta com o apoio dos setores mais centristas do FA, mas não tem muito apoio popular. A engenheira e Ministra da Indústria, Energia e Mineração Carolina Cosse é a favorita a ganhar as prévias. Principalmente se contar com o provável apoio de Mujica e do MPP. Carrega o importante trunfo de ser mulher em um período de ascensão das mulheres no mundo. Ao longo da cidade se observam muitos muros grafitados com “Carolina y Pepe”, o que indica possibilidade do ainda popular e querido Pepe Mujica vir como candidato à Vice Presidente. Pepe foi bastante cotado para ser presidente novamente, mas ele próprio rechaçou devido à idade avançada.

O pré-candidato mais à esquerda dentro do FA é Óscar Andrade, do Partido Comunista Uruguaio. Sindicalista, Andrade tem muito apoio no se meio e tem como slogan o “Cambio dentro del cambio”, indicando a necessidade do governo seguir guinando para a esquerda e não cair nas armadilhas da governabilidade conservadora. O nome de Andrade também aparece em muitos muros de Montevideo. Parece difícil que ele ganhe, mas sua pré-candidatura pode funcionar como instrumento de pressão política em cima da pré-candidatura de Carolina para puxá-la mais à esquerda.

Existem outros pequenos partidos no Uruguai e oposição de esquerda. O Unidad Popular (UP) tem 5 anos e terá candidatura própria novamente. O UP também é uma concertação que abarca diversos pequenos partidos e movimento de ultraesquerda. Tem apenas 1 deputado e pouco peso de massas. Parece demasiado esquerdista. O trotskismo no Uruguai não é uma força muito sólida e encontra-se bastante dividido. Dos 3 partidos que se reivindicam trotskistas 2 estão no FA e 1 faz oposição de esquerda.

A esquerda uruguaia não é apenas eleitoral, mas também se encontra nos movimentos sociais e nas lutas por bandeiras específicas. O anarquismo parece ter alguma força a julgar pela quantidade de grafites em Montevidéu. O feminismo, o antiproibicionismo, o veganismo e o movimento operário também têm seu espaço dentro e fora da política partidária. Ao mesmo tempo, embora bastante minoritária, também cresce o número de fanáticos religiosos, mas nada que se compare ao Brasil.

O que fazer?

A experiência com o grande trauma e retrocesso no Brasil com a eleição de Bolsonaro precisa ser vocalizado como experiência no Uruguai. O efeito Bolsonaro trouxe ao Uruguai muitos brasileiros, principalmente LGBTs, politizados ou não, que não se sentem mais seguros em terras brasileiras e tiveram possibilidade de imigrar. Existe também número crescente de argentinos que fogem das políticas de austeridade e arrocho de Maurício Macri e cruzam o Rio da Prata. E é enorme o número de venezuelanos que também estão tentando a vida no Uruguai, em situação bem mais precária, pois fogem da escassez, da pobreza e da miséria. A saída sempre tem que passar pela organização. É possível organizar um movimento de resistência, autoajuda e solidariedade entre os diversos imigrantes, que consiga fazer política.

Levando em conta todos os elementos observados, a melhor política no Uruguai parece ser construir dentro da ala esquerda do FA, defender todas as conquistas obtidas nos últimos anos, mas denunciar as vacilações políticas, as contradições ainda existentes e que não podem ser resolvidas dentro do capitalismo, bem como se somar às organizações revolucionárias na construção do socialismo. A pré-candidatura de Andrade pode cumprir esse papel em um primeiro momento, de modo a politizar e disputar melhor os rumos da pré-candidatura Carolina.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
A décima terceira edição da Revista Movimento dedica-se ao debate sobre os desafios da esquerda socialista no Brasil diante da crise nacional que se desenrola há anos e do governo Bolsonaro. Para tanto, foram convidados dirigentes do PSOL, do MES e de outras organizações revolucionárias que atuam no partido. O dossiê sobre a estratégia da esquerda e o PSOL reflete os desafios da organização de um polo socialista no interior do partido. Há também, na seção nacional, reflexões sobre a crise econômica brasileira, as revelações de The Intercept e as lutas da juventude e da negritude. As efemérides do centenário da escola Bauhaus e do cinquentenário do levante de Stonewall também aparecem no volume, além da tese das mulheres do MES para o Encontro de Mulheres do PSOL.