Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

Libertação das mulheres: a tradição marxista

Sobre a história do movimento feminista marxista nos Estados Unidos.

Grevistas em Nova York em 1909 - Reprodução
Grevistas em Nova York em 1909 - Reprodução

“Se a libertação das mulheres é impensável sem o comunismo, então o comunismo é impensável sem a libertação das mulheres”[1] – Revolucionária russa Inessa Armand

Os marxistas clássicos do século XIX e do começo do século XX – Karl Marx, Fredrich Engels, Clara Zetkin, Rosa Luxembrugo, V. I. Lênin, Alexandra Kollontai, e Leon Trotsky – desenvolveram uma estrutura teórica amarrando a luta pela libertação das mulheres à luta pelo socialismo. Do mesmo modo que suas teorias necessitam de atualizações[1], suas enormes contribuições foram muitas vezes rejeitadas ou ignoradas.

Contudo, a história daquelas que levaram adiante a tradição marxista sobre opressão às mulheres durante a metade do século XX têm sido frequentemente invisibilizada – ainda que essas ativistas e teóricas tenham prosseguido uma linha indispensável que se seguiu entre a vitória do sufrágio feminino nos anos 1920 (muitas vezes referida como uma “primeira onda” do feminismo nos EUA) e a ascensão do movimento dos anos 1960 pela libertação das mulheres (conhecida como sua “segunda onda”).

Marx e Engels localizaram a raiz da opressão às mulheres em seu papel na família nucelar em sociedades de classe. Eles entenderem que o papel da mulher como “reprodutoras” biológicas resulta no seu status subordinado dentro da família nuclear, e consequentemente, em toda a sociedade. Nas sociedades capitalistas, mulheres em famílias proprietárias reproduzem herdeiros, mulheres em famílias da classe operária reproduzem gerações de força de trabalho para o sistema.

A classe capitalista se tornou dependente deste método de “reprodução privatizada” dentro da família da classe operária porque ele diminui sua responsabilidade financeira pela reprodução da mão de obra, que é, ao invés disso, largamente fornecida por trabalho doméstico não pago realizado primordialmente por mulheres. A pré-condição à libertação das mulheres exige, então, o fim o trabalho não pago dentro da família. Isso, por sua vez, necessita de uma transformação socialista da sociedade, que não pode ser alcançada gradativamente, mas apenas através de um processo de revolução social, com uma batalha decisiva entre classes.

Marx e Engels identificaram precocemente a agência revolucionária da classe trabalhadora, ou proletária, como a única classe capaz de liderar a transformação para uma sociedade socialista. No Manifesto Comunista, eles argumentaram: “O que a burguesia produz, acima de tudo, são seus próprios coveiros. Sua queda e a vitória do proletariado são igualmente inevitáveis”[2]. Como Hal Draper notou:

A clássica formulação do principio de auto-emancipação de Marx foi escrito em 1864 como a primeira premissa das Regras da Primeira Internacional – de fato, em sua primeira cláusula:

“Considerando que a emancipação das classes trabalhadoras deve ser conquistada pelas próprias classes trabalhadoras…”[3]

Essa estratégia revolucionária classista não diminui a importância em combater a opressão às mulheres entre os teóricos marxistas do final do século XIX e começo do século XX. Como Leon Trotsky argumentou: “Para mudar as condições de vida, nós precisamos aprender a olhá-las através do olhar de uma mulher”[4].

Como Marx e Engels antes deles, essa geração de marxistas reconheceu a agência revolucionária de toda a classe trabalhadora – e enxergou as mulheres da classe trabalhadora como um componente-chave para alcançar seu potencial revolucionário. Eles enfatizaram a condição das mulheres da classe trabalhadora e tentaram organizar movimentos explícitos de mulheres trabalhadoras.

Marxistas europeus, da Alemanha à Rússia, estiveram frequentemente na vanguarda da luta pela libertação das mulheres enquanto avançavam a teoria marxista no que era chamado de “a questão da mulher”. Eles o fizeram não apenas num momento de um crescente conflito inter-imperialista que levou à Primeira Guerra Mundial, mas também num contexto de ascensão de movimentos socialistas revolucionários. A eclosão da guerra trouxe consigo um redemoinho de patriotismo em todos os países beligerantes e se tornou uma questão divisória dentro do próprio movimento socialista, enquanto que partidos socialistas da Segunda Internacional inteiros se lançaram nos esforços de guerra de suas “próprias” classes dominantes.

O abismo entre as socialistas revolucionárias e aquelas que elas chamavam de “feministas burgueses” não se deu por conta de diferenças estratégicas ou táticas menores, mas por conta de princípios políticos cruciais. No caso da Rússia Czarista, por exemplo, as mulheres da classe dominane se jogaram no esforço de guerra em uma troca cujo retorno era o direito ao voto. A Liga pela Igualdade das Mulheres clamou às mulheres russas para “dispensar toda sua energia, intelecto e conhecimento ao seu país. Essa é nossa obrigação para com nossa pátria, e isso nos dará o direito de participar como iguais aos homens na nova vida de uma Rússia vitoriosa”[5].

Como as socialistas Hal Draper e Anne G. Lipow descreveram, os socialistas revolucionários

(…) deram forte suporte a toda demanda democrática por direitos iguais às mulheres. Mas esse movimento se diferiu das feministas burgueses não só no contexto programático em que ele colocou essas “demandas democráticas”, mas também – e consequentemente – na sua escolha pelas demandas imediatas a enfatizar. Ele se via, em termos marxistas, como um movimento de classe, e isso se traduz em um movimento de mulheres trabalhadoras[6].


Este artigo faz parte da edição da Revista Movimento n.11-12. Para ler o texto completo compre a revista aqui!


[1] Ver Sharon Smith, “Theorizing women’s oppression – Part 1: Domestic labor and women’s oppression”, International Socialist Review 88, March 2013.

[2] Karl Marx and Frederick Engels, Manifesto of the Communist Party, chapter 1, 1848.

[3] Hal Draper, “The Principle of Self-Emancipation in Marx and Engels”, Socialist Register 1971, 81–109.

[4] Leon Trotsky, “Against Bureaucracy, Progressive And Unprogressive”, Problems of Life (Methuen 1924)

[5] Richard Stites, The Women’s Liberation Movement in Russia: Feminism, Nihilism and Bolshevism 1860–1930 (Princeton, NJ: Princeton University Press, 1978), 282.

[6] Hal Draper and Anne G. Lipow, “Marxist Women versus Bourgeois Feminism”, Socialist Register 1976, 179-226.



[1] Citado em Barbara Evans Clements, Bolshevik Feminist: The Life of Aleksandra Kollontai (Bloomington: University of Indiana Press, 1979), 155.

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Neste mês de março, preparamos uma nova edição da Revista Movimento, dedicada especialmente para a reflexão e elaboração política sobre a luta das mulheres. Selecionamos um conjunto de materiais - artigos teóricos, textos políticos, documentos e uma especial entrevista - com o intuito de aprofundar o esforço consciente demonstrado por nossa organização nos últimos anos em avançar na compreensão sobre o tipo de feminismo que defendemos, bem como sobre o papel essencial e a importância estratégica que a luta feminista tem para a construção de um projeto anticapitalista. Um desafio exigido pela atual conjuntura, marcada pela ascensão de governos de extrema-direita no mundo, na qual o movimento feminista tem se apresentado como contraponto e trincheira de resistência fundamental. Por isso, esta edição pretende, antes de mais nada, auxiliar e fortalecer nossas intervenções feministas nesse momento, a começar por duas datas muito significativas que inauguram este mês: o 8 e o 14 de março, dia em que se completará um ano do brutal assassinato de nossa companheira Marielle Franco. Esperamos que seja proveitoso e sirva como instrumento para as nossas batalhas. Boa leitura!

Solzinho

MES: Movimento Esquerda Socialista MES: Movimento Esquerda Socialista