Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

Notas para um manifesto feminista

Para a construção de um feminismo para os 99%

Na primavera de 2018, a bilionária do Facebook Sheryl Sandberg aconselhava as mulheres de que tenacidade e sucesso no mundo dos negócios eram a estrada real para a igualdade de gênero. Se apenas “metade de todos os países e empresas fossem dirigidos por mulheres e metade de todos os lares fossem liderados por homens” o mundo seria um lugar melhor e nós não deveríamos nos dar por satisfeitos até atingir essa meta. Uma notória expoente do feminismo corporativo, Sandberg construiu o seu nome pedindo às gerentes para “se apoiarem”[1] na sala de reuniões das empresas no ápice de uma carreira que a levou de Harvard, através do escritório da Secretaria do Tesouro, à coleta de dados e à segmentação de anúncios no Google e no Facebook, com a ajuda do mentor Lawrence Summers, o chefe das desregulações de Wall Street.

Nesta mesma primavera, em 8 de março de 2018, uma greve nacional de mulheres parou a Espanha. Com o apoio de 5 milhões de manifestantes, as organizadoras da huelga feminista clamaram por “uma sociedade livre da opressão sexual, exploração e violência” – “por rebelião e luta contra a aliança entre patriarcado e capitalismo que deseja nos manter obedientes, submissas e quietas. Enquanto o sol se punha sobre Madri e Barcelona e multidões de mulheres enchiam as ruas, grevistas feministas anunciavam: “No 8 de março nós cruzamos nossos braços e interrompemos todas as atividades produtivas e reprodutivas.” Elas se recusaram a aceitar condições de trabalho piores do que as dos homens ou salário menor por trabalho igual.

 Esses dois chamados representam caminhos opostos para o movimento feminista. Sandberg e sua turma veem o feminismo como um servo do capitalismo. Elas querem um mundo em que os benefícios da exploração do trabalho e da opressão na ordem social sejam igualmente divididos entre homens e mulheres da classe dominante – uma forma de “oportunidades iguais de dominação.” Em agudo contraste, as organizadoras da greve feminista clamam pelo fim da dominação capitalista e patriarcal.

Bifurcação na estrada

Diante dessas duas visões de feminismo, nós nos encontramos diante de uma bifurcação na estrada. Um caminho leva a um planeta inóspito onde a vida humana é miserável, se é que é possível. O outro leva ao tipo de mundo que sempre figurou nos sonhos da humanidade: em que a riqueza e os recursos naturais são compartilhados entre todos, em que liberdade e igualdade são premissas e não aspirações. O que torna a decisão tão urgente é que não existe um caminho intermediário devido à forma predatória do capitalismo financeirizado que prevaleceu nos últimos 40 anos – aumentando as dificuldades para qualquer luta social e transformando tentativas de conquistar modestas reformas em batalhas campais pela sobrevivência. Nessas condições, as feministas, como todo mundo, devem tomar uma posição. Nós continuaremos buscando “oportunidades iguais de dominação” enquanto o planeta está em chamas? Ou reimaginaremos a justiça de gênero numa forma anticapitalista, que vai além da atual carnificina e nos leva para uma nova sociedade?

Nosso Manifesto é uma declaração para o segundo caminho. O que torna um feminismo anticapitalista possível hoje em dia é a dimensão política da atual crise: a erosão da credibilidade da elite pelo mundo, afetando não apenas os partidos neoliberais de centro mas também seus aliados do feminismo corporativo ao estilo Sandberg. Esse foi o feminismo que naufragou nas eleições presidenciais de 2016, quando a candidatura “histórica” de Hillary Clinton falhou em atrair o entusiasmo das eleitoras mulheres. Por uma boa razão: Clinton personificou a desconexão entre a ascensão das mulheres de elite aos altos cargos e melhorias nas vidas da vasta maioria.

A derrota de Clinton é o nosso sinal de alerta. Expondo a falência do feminismo liberal, ele representa a abertura para um desafio histórico para a esquerda. No atual vácuo da hegemonia neoliberal, nós temos a chance de redefinir o que podemos considerar como um tema feminista, desenvolvendo outra orientação de classe e um caráter radical. Nós escrevemos não para esboçar uma utopia imaginária, mas para esclarecer a estrada que deve ser percorrida para alcançar uma sociedade justa. Nosso objetivo é explicar por que as feministas deveriam escolher o caminho das greves feministas, unindo-se a outros movimentos anticapitalistas e antissistema e tornando-se um “feminismo dos 99%”. O que nos dá esperança para esse projeto nesse momento é o despertar de uma nova onda global, com as greves feministas internacionais de 2017 e 2018 e com e os movimentos cada vez mais coordenados que estão se desenvolvendo em torno deles. Como um primeiro passo, nós estabelecemos 11 teses sobre a presente conjuntura e as bases de um novo, radical e anticapitalista movimento feminista.

Tese I

Uma nova onda feminista está reinventando a greve

O movimento de greves feministas começou na Polônia em outubro de 2016, quando mais de cem mil mulheres realizaram greves e marchas para se opor à proibição ao aborto no país. Mais tarde neste mesmo mês, ele cruzou o oceano e chegou até a Argentina, onde mulheres grevistas protestaram contra o assassinato de Lucía Pérez sob o bordão de “Ni Una Menos”. Logo isso se espalhou para a Itália, Espanha, Brasil, Turquia, Peru, EUA, México e Chile. Tendo começado nas ruas, o movimento se espalhou por locais de trabalho e estudo e eventualmente tomando a mídia, a política e etc. Nos últimos dois anos, seu lema tem ressoado pelo mundo: “Nosotras Paramos”, “We Strike”, “Vivas Nos Queremos”, “Ni Una Menos”, “Feminism for the 99 per cent”. Primeiro como uma marola, depois como uma onda, o movimento se tornou um fenômeno global.

Este artigo faz parte da edição da Revista Movimento n.11-12. Para ler o texto completo compre a revista aqui!

[1] N.T.: No original em inglês, “lean in”, uma referência ao livro de Sandberg que leva esse nome.

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Neste mês de março, preparamos uma nova edição da Revista Movimento, dedicada especialmente para a reflexão e elaboração política sobre a luta das mulheres. Selecionamos um conjunto de materiais - artigos teóricos, textos políticos, documentos e uma especial entrevista - com o intuito de aprofundar o esforço consciente demonstrado por nossa organização nos últimos anos em avançar na compreensão sobre o tipo de feminismo que defendemos, bem como sobre o papel essencial e a importância estratégica que a luta feminista tem para a construção de um projeto anticapitalista. Um desafio exigido pela atual conjuntura, marcada pela ascensão de governos de extrema-direita no mundo, na qual o movimento feminista tem se apresentado como contraponto e trincheira de resistência fundamental. Por isso, esta edição pretende, antes de mais nada, auxiliar e fortalecer nossas intervenções feministas nesse momento, a começar por duas datas muito significativas que inauguram este mês: o 8 e o 14 de março, dia em que se completará um ano do brutal assassinato de nossa companheira Marielle Franco. Esperamos que seja proveitoso e sirva como instrumento para as nossas batalhas. Boa leitura!

Solzinho

MES: Movimento Esquerda Socialista MES: Movimento Esquerda Socialista