O discurso de ódio e a violência nas escolas
Muros da Escola Estadual Professor Raul Brasil, em Suzano, com homenagens às vítimas do massacre. Foto: Diego Padgurschi.

O discurso de ódio e a violência nas escolas

A escola, que já vinha sofrendo ataques políticos, tornou-se palco visceral de ações de violência extremada.

Sara Azevedo 20 mar 2019, 13:02

Os massacres na Escola Raul Brasil e nas mesquitas da Nova Zelândia abriram um debate importante na sociedade brasileira sobre as consequências do discurso de ódio difundido deliberadamente e inundaram os jornais, mostrando a face mais dura da barbárie, além de ampliarem o debate sobre a restrição do porte de armas.

Casos assim já ocorreram em outras partes do mundo, como foi o massacre de Columbine, que hoje completa 20 anos. Não distante, todos estes ataques tiveram perfil similar, de modo que os referidos ataques no Brasil e na Nova Zelândia tiveram como referência o bárbaro crime de Columbine.

A partir desta exposição, ampliaram-se os casos de jovens que tentaram ou planejaram invasões a escolas por todo o Brasil nesta semana. A escola, que já vinha sofrendo ataques políticos, tornou-se palco visceral de ações de violência extremada.

Mas por que a escola?

Posso dizer que a Escola é o primeiro espaço de socialização de qualquer pessoa. Por isto, acaba tornando-se um espaço de construção de identidades. Neste sentido, é também o espaço onde explodem todas as contradições da sociedade. As crianças e adolescentes depositam neste espaço todas as suas expectativas e carregam, para lá, suas bagagens sociais, que se chocam com as dos demais jovens que se encontram no mesmo espaço. Portanto, os discursos que estão em evidência se ampliam neste espaço.

Infelizmente, os discursos opressores, que também ocorrem nestes espaço, expressam ideologias que, ocultadas por um determinado tempo por ferirem todos os códigos sociais, ressurgem na sua forma mais doentia.

Neste caso, jovens em formação reproduzem e disseminam um modelo de sociedade no qual o ódio ao diferente é o que sustenta suas ações. E, necessariamente, aqueles que reproduzem este ódio possuem um perfil traçado: homens, jovens, brancos, heterossexuais que, frustrados sexual e psicologicamente, culpam todas as mulheres, especialmente, mas também culpam negros, LGBTIQs, imigrantes, nordestinos, etc. Para eles, todos são potenciais alvos por serem culpados por suas frustrações. Além disto, por também rejeitarem toda e qualquer ordem, pregam a liberdade abstrata para justificar suas atitudes.

De onde surgem?

Os propagadores dos discursos de ódio encontram-se em diversos locais e usam a tecnologia, como os “chans”, uma espécie de canais que permite troca de conteúdos entre os usuários de maneira anônima, no submundo da internet. Nestes espaços, buscam encontrar consolo e atenção, além de despejar todo o lixo nocivo e doentio que seus discursos propagam. Locais onde o feminicídio, a LGBT-fobia, o racismo e a xenofobia são comemoradas. Pela dificuldade de serem encontrados e pela facilidade do anonimato, os “chans” tornam-se espaços frutíferos para todas as formas de opressão.

Mas os disseminadores de ódio também se encontram na vida real. E o espaço mais propício é a escola. É nela, na realidade escolar, que se disseminam todas as ideias e se realizam os debates.

O fenômeno

No momento em que temos uma sociedade colocada à prova e os sistemas vigentes colocados em cheque, os discursos de ódio proliferam-se e reconhecem-se nos círculos da extrema direita. Nela, os disseminadores do ódio encontram uma lógica que os coloca no poder e em visibilidade. Deixam de ser heróis para tornarem-se mitos. É neste espaço que reside um modelo de masculinidade baseado em seus próprios privilégios, no egocentrismo, na intolerância e na imaturidade. É por meio da espetacularização que se dá o reconhecimento de tudo que almejam.

O que fazer?

A pergunta que muitos de nós educadores devemos estar nos fazendo. Encontrar estes agentes de propagação de ódio dentro do ambiente escolar já se torna o primeiro desafio, mas não o único. Acima de tudo, o espaço da escola deve ser defendido a partir das ideias de pluralidade, diversidade, respeito às diferenças, solidariedade e de sentimento de coletividade.

Esta tem sido a principal batalha. Construir um espaço onde professores, alunos, funcionários e todo o restante da comunidade escolar possam conviver e avançarem democraticamente.

Numa escola democrática, não se pode tolerar a violência. É necessário hoje reforçar estes valores numa contra-ofensiva a todos os ataques realizados. Não podemos tratar somente a superfície dos fatos. Debater as causas é construir caminhos. A ponte sustenta-se através do diálogo e da formação de uma cultura escolar cidadã que permita à comunidade escolar se sentir parte do processo.

Nós professores temos que voltar ao início e refazer o caminho. Expurgar da escola ideologias que disseminem um modelo de masculinidade doentia, que massacra os nossos alunos. Somente assim, não permitiremos que novas Columbines e Suzanos se repitam.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
Na 16ª edição, estão disponíveis dois dossiês. No primeiro, sobre o ecossocialismo, podem-se se encontrar as recentes teses de Michael Löwy, além de uma entrevista com o sociólogo e dirigente da IV Internacional. Também publicamos uma entrevista com Zé Rainha, dirigente da FNL, sobre sua trajetória de luta e os desafios dos socialistas no Brasil; uma entrevista com Antônia Cariongo, dirigente quilombola e do PSOL-MA; e artigos de Luiz Fernando Santos, sobre a lógica marxista e a Amazônia, e de Marcela Durante, do Setorial Ecossocialista do PSOL. O segundo dossiê traz algumas análises iniciais sobre a pandemia de coronavírus. Há artigos de Mike Davis e Daniel Tanuro; documentos do MES e do Bureau da IV Internacional; além de uma densa análise de nossas companheiras Evelin Minowa, Joyce Martins, Luana Alves, Natália Peccin Gonçalves, Natalia Pennachioni e Vanessa Couto e de um artigo do camarada Bruno Magalhães. A seção de depoimentos traz um instigante artigo de Pedro Fuentes sobre a história de seu irmão Luis Pujals, o primeiro desaparecido político da história da Argentina. Já a seção internacional traz uma análise do sociólogo William I. Robinson sobre a situação latino-americana.