Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

A contradição do bolsonarismo e a nossa tarefa

É impossível representar a nova política quando tudo que se propõe é o “mais do mesmo”.

O presidente Jair Bolsonaro durante evento em Israel - Ronen Zvulun/Reuters
O presidente Jair Bolsonaro durante evento em Israel - Ronen Zvulun/Reuters

Bolsonaro foi eleito como suposto representante do “novo” e do “contra tudo que está aí” mas, acima de tudo, foi eleito a partir do “anti-petismo”, e reside nessa interpretação a controvérsia que atinge a esquerda e suas possibilidades de se apresentar como uma alternativa ao “bolsonarismo” e à agenda neoliberal: aceitar que Bolsonaro foi eleito por um sentimento “anti-sistema”, e não por simples resultado de um avanço da extrema-direita.

Para compreendermos o que isso representa precisamos voltar a junho de 2013, quando a população foi as ruas reivindicar direitos em meio a um regime em agonia, e expressar sua indignação com a velha política. Àquela altura tudo o que encontrou foi a repressão, bem como uma esquerda em sua maioria entrincheirada na burocracia do Estado burguês e nas alianças com a casta política corrupta. As ruas foram tomadas contra um regime que após vinte anos de coalizão de classes começava a ruir, e que em todo esse período, inclusive nos governos petistas, foi responsável pela apropriação do fundo público para a remuneração da dívida pública, pelos escândalos de corrupção, pelo desmantelamento das políticas públicas, pelo endividamento das famílias, pelo avanço irresponsável da fronteira agrícola, pela perseguição dos movimentos sociais, entre outras perversidades da agenda neoliberal.

Dessa forma, a população não encontrou na esquerda as respostas para sua indignação, muito menos a capacidade de compreender tal sentimento como resultado, na verdade, da insatisfação com o establishment neoliberal da nova-república em esgotamento, responsável pelos inescrupulosos arcos de aliança que marcaram os governos pós-plano real e que alçaram o capital financeiro como ideólogo da agenda econômica dessas administrações. Essa equação não podia resultar em outra interpretação para significativa parcela da população que não aquela em que a esquerda, representada pelo petismo, era a responsável por todos os males resultantes dessa perversa agenda econômica, visão potencializada se levarmos em conta a burocratização e o distanciamento das bases sociais, bem como o louvor a criação de uma nova classe média identificada com os valores e racionalidade neoliberal.

Criou-se, assim, um vácuo de direção política que fosse capaz de organizar a indignação social em prol da superação da agenda neoliberal e de seu mainstream econômico. Esse espaço não tardou em ser ocupado pelo próprio establishment, com a derrubada de Dilma Rousseff em 2016, que descartou naquele momento o partido dos trabalhadores e rompeu com a coalizão de classes da nova república, aproveitando-se do descrédito do petismo junto a população e da influência da mídia burguesa. O apoio popular ao impeachment de Dilma Rousseff chegou a 61% pouco antes da efetivação do golpe. Vale lembrar que apenas seis anos antes Lula deixava o governo com recorde de popularidade, bem como muitos governadores do PMDB e PSDB, hoje presos ou investigados pela operação Lava-jato.  Michel temer com sua agenda de reformas também não gozou de crédito junto a população, apresentando índices de rejeição superiores ao da antecessora, mas se manteve no cargo, mesmo sob as denúncias da PGR, devido aos mesmos acordões que o alçaram a presidência.

Esse vácuo, portanto, não havia desaparecido, e nas eleições de 2018 foi preenchido pelo “bolsonarismo”, que em meio ao deserto de repostas capazes de elucidar a verdadeira face da crise, conseguiu catalisar a indignação de grande parcela dos eleitores ao assumir a defesa da bandeira anti-corrupção, posição em que a esquerda capitaneada pela velha esquerda não só vacilou, mas também foi contraditória, ao fechar os olhos para os erros da experiencia petista e jogar nas costas do suposto avanço de um movimento fascista sua incapacidade de promover uma direção política alternativa ao establishment, que apresentasse uma discussão estrutural acerca do regime de acumulação que caracterizou a nova-república.

Obviamente o conservadorismo e o ultra-liberalismo alimentaram tal processo, e encontram em Bolsonaro um representante de suas concepções retrógradas e reacionárias, mas precisamos ter clareza e honestidade: a agenda econômica de Paulo Guedes é capitaneada pelos mesmos interesses que determinaram as agendas econômicas de todos os governos da nova-república, e as alianças de Bolsonaro no congresso também são praticamente as mesmas de seus antecessores. Além disso, recentes pesquisas de opinião demonstram que a maioria dos brasileiros é contrária as posições de grupos conservadores e de direita com relação a alguns temas: 57% da população é contrária a redução das leis trabalhistas, 60% são contra as privatizações, e 61% são contrários a posse de armas. Essas contradições que marcam o “bolsonarismo” não podem, portanto, ser deixadas de lado e substituídas por um raciocínio que identifica no conservadorismo e no avanço das posições de extrema direita as razões que nos levaram até aqui, ou estaremos confundindo as causas com as consequências, pior do que isso, alimentaremos a estratégia política irresponsável da velha esquerda.

Após três meses de governo Bolsonaro a população brasileira se vê em face da incerteza e não da esperança de que os problemas do país serão enfim resolvidos. O capitão reformado que durante anos se apresentou como o messias que daria cabo aos problemas do Brasil já acumula rejeição recorde e, até aqui, não apresentou nenhuma solução para além do velho receituário do ajuste fiscal e da retirada de direitos. Bolsonaro apresenta, em pouquíssimo tempo de governo, dificuldades na condução política da máquina federal. Sua tentativa de consolidar uma base de sustentação no congresso, que inevitavelmente passou por alianças com os tradicionais partidos da ordem, já apresenta desgaste, afetando inclusive a tramitação da reforma da previdência, o que demonstra sua inabilidade de articulação e revela a condição contraditória de seu governo e também da lava-jato de Moro,  de reféns da velha política, pois a garantia as reformas e a agenda de Paulo Guedes necessariamente depende da estabilidade nas relações de poder entre a burguesia e a tradicional casta política.

Bolsonaro revela, assim, sua incapacidade de promover outra agenda para o desenvolvimento do país que não aquela de seus antecessores, da velha política que diz ser contra, e dos bancos. O “bolsonarismo” não pode, portanto, quando em face da realidade, exercer uma política “anti-establishment”, pois embora tenha conseguido catalisar e expressar eleitoralmente um sentimento de parcela considerável da população contra a corrupção e contra os rumos que a burguesia impôs a economia brasileira, esse é incapaz de ser um movimento anti-regime que revele a verdadeira faceta do capitalismo em decomposição e da burguesia, tornando-se portanto refém do rentismo e do próprio establishment, inclusive internacional, como visto na recente viagem de Bolsonaro aos Estados Unidos e nas tratativas de entrada na OCDE, que reafirmaram sua face entreguista.

Já ficou clara incapacidade de Bolsonaro em solucionar os problemas do país e também quais são os interesses que ele contraditoriamente representa, os da burguesia brasileira e do imperialismo norte-americano, não por acaso possui a pior avaliação para um presidente em inicio de exercício em mais de duas décadas, também alimentada pelo escândalo do laranjal do PSL. O vácuo de direção política capaz de apresentar como alternativa a superação das contradições da nova república agonizante e de seu projeto econômico voltou, assim, a ficar evidente, após meses escondido sob a animosidade eleitoral e o encantamento com a operação lava-jato.

A superação civilizatória da crise e do ‘bolsonarismo” só encontrará, portanto, as condições para sua promoção quando forem apresentadas respostas estruturais e uma direção política que não seja vacilante diante das contradições que emanam da fase terminal da nova república, e essa tarefa definitivamente não passa pela agenda reacionária e neoliberal de Bolsonaro, nem pelo saudosismo à coalizão de classes que sustentou os governos petistas (vale lembrar aqui dos acenos bem recebidos de alguns representantes do mercado financeiro à Haddad, já no segundo turno das eleições do ano passado). O mercado e a grande mídia já demonstram sua insatisfação com o monstro que eles mesmos criaram, dessa forma, devemos também combater as ilusões que começam a emergir da disputa de narrativa conduzida pelo establishment, que tentadescontruir Bolsonaro à luz de seus próprios interesses em defesa da manutenção do agonizante pacto da nova república, lançando a população em um novo ciclo por um caminho perigoso que não apresenta respostas. A ausência de um projeto político alternativo e com respostas concretas, capaz de elucidar a crise do regime e do andar de cima, esse sim, é o verdadeiro e perigoso caminho para a falta de soluções e consequentemente para o fascismo.

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

A décima terceira edição da Revista Movimento dedica-se ao debate sobre os desafios da esquerda socialista no Brasil diante da crise nacional que se desenrola há anos e do governo Bolsonaro. Para tanto, foram convidados dirigentes do PSOL, do MES e de outras organizações revolucionárias que atuam no partido. O dossiê sobre a estratégia da esquerda e o PSOL reflete os desafios da organização de um polo socialista no interior do partido. Há também, na seção nacional, reflexões sobre a crise econômica brasileira, as revelações de The Intercept e as lutas da juventude e da negritude. As efemérides do centenário da escola Bauhaus e do cinquentenário do levante de Stonewall também aparecem no volume, além da tese das mulheres do MES para o Encontro de Mulheres do PSOL.

Ilustração da capa da Revista Movimento

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