Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

O fantástico mundo da longa depressão

Sobre desemprego, inflação e juros na economia internacional.

Fila de desempregados em São Paulo - Repdoução
Fila de desempregados em São Paulo - Repdoução

Em março, o Sistema de Reserva Federal dos Estados Unidos decidiu deixar de subir sua política de taxa de juros durante 2019. “O Fed” começou a subir as taxas de juros, que encontravam-se próximas de zero no final de 2016, com o argumento de que a Longa Depressão (no crescimento econômico, no investimento e no emprego nos EUA e em outras economias importantes) havia terminado. À medida que as economias alcançam o pleno emprego e utilizam o excesso de capacidade industrial, os salários deveriam aumentar e a inflação acelerar, pelo que seria necessário frear qualquer “reaquecimento” com maiores taxas de juros para frear o endividamento e o gasto. Esta política de “normalização”, conforme é chamada, se justificaria depois dos cortes de impostos que Trump aplicou no final de 2017. Estas medidas deram lugar a um forte aumento dos lucros depois do corte de impostos para as empresas estadunidenses e uma aparente recuperação do crescimento real do PIB dos EUA, alcançando uma taxa inte-ranual de 3% no final de 2018.Tudo parecia ir bem.

No entanto, como sustentou na primavera de 2018, a economia mundial alcançou na realidade seu ponto máximo. E agora, quase um ano mais tarde, os prognósticos de uma contínua “recuperação” se inverteram. Há um ano, o FED elevou sua previsão de crescimento do PIB real para o conjunto de 2018 para 2,7% e 2,4% em relação a 2019. Mas em sua reunião de março de 2019, reduziu para 2,1% seu prognóstico para 2019, e somente 1,9% para o ano de 2020, diminuindo-a de novo a somente 1,8 % para 2021 – muito abaixo dos 3% permanentes do qual se jactara Trump quando implementou suas medidas fiscais.

Pelo contrário, agora o FED freia seus aumentos da taxa de juros e põe fim a sua política de ajuste monetário, o que reduz sua enorme acumulação de bônus do governo, resultado de seu programa de “relaxamento quantitativo”, lançado na Grande Recessão para salvar os bancos e proporcionar dinheiro barato ao investimento.

O que está acontecendo? Sempre se corre risco quando se sobem as taxas de juros num momento em que o crescimento econômico e o investimento são débeis, pois isso provoca um colapso do mercado de valores e uma nova depressão econômica. Mas – sendo provável que o crescimento econômico estadunidense no atual trimestre no final de março não supere a taxa anual de 1,5% e que a Zona do Euro, o Reino Unido e o Japão se encaminhem de novo rumo a uma franca recessão – o FED teve medo e congelou sua “política de normalização”. A Longa Depressão não terminou depois de tudo isso.

A diferença mais surpreendente, no entanto, entre a Longa Depressão e a Grande Depressão da década de 1930 é que na última década nas principais economias a taxa oficial de desemprego caiu de novo a mínimos históricos (nos EUA, Reino Unido, Japão).

E, contudo, a inflação não disparou. O equilíbrio entre uma taxa de desemprego baixa e uma inflação alta (como mostra a chamada curva de Phillips), é uma previsão típica da teoria da demanda agregada keynesiana. Mas não se materializou. A curva de Philips (a relação entre a taxa de desemprego e a taxa de inflação) é quase plana na maioria das economias capitalistas: não há equilíbrio.

Isso confunde a teoria econômica convencional e as políticas dos bancos centrais, como descrevi no meu artigo anterior. “Não me parece que consigamos de maneira convincente nosso mandato de 2% de maneira simétrica”, disse o presidente do FED, Jay Powell. “A pressão para baixo sobre a inflação é um dos grandes desafios de nosso tempo”.

O que parece ter sucedido é que, por causa da Grande Recessão, num entorno de baixa rentabilidade do capital na maioria das grandes economias, as empresas optaram por contratar mais força de trabalho que investir. Os novos trabalhadores estão sendo empregados em ocupações com salários baixos, e/ou com contratos temporais e a tempo parcial.

Por exemplo, cerca de 17% dos trabalhadores estadunidenses está unicamente empregado a tempo parcial, um terço a mais que na década de 1960. A taxa oficial de desemprego dos Estados Unidos poderia ser baixa, mas porque muitos estadunidenses em idade de trabalhar saíram do mercado de trabalho: para estudar, trabalhar de maneira informal ou simplesmente viver em casa com a família.

E houve um aumento no emprego por conta própria – na chamada ‘economia digital’. Assim, enquanto os trabalhadores qualificados (cada vez mais escassos) começaram a obter aumentos de salários, a maior parte da força laboral em postos não-diretivos nos EUA, no Reino Unido, Japão e Europa, sofreu períodos significativos de diminuição de suas rendas reais. Enquanto a taxa de crescimento médio do PIB real por pessoa nos EUA foi de 1,5% desde o ano 2009, a média das rendas reais por hora para a maioria dos trabalhadores dos Estados Unidos aumentaram somente 0,8% por ano.

Portanto, não houve uma inflação “impulsionada pelos salários” e as rendas médias reais estancaram. O setor capitalista não aumentou o investimento em novas máquinas, instalações ou tecnologia que substitua mão de obra ou aumente a produtividade da mão de obra existente. Enquanto na Grande Depressão da década de 1930 o desemprego se manteve alto até o início da Segunda Guerra Mundial, a produtividade aumentou consideravelmente; o contrário do que ocorre nesta Longa Depressão.

A última estimativa de investimento de capital global feita pelos economistas de JP Morgan sugere que as ordens de investimento estão caindo e as importações de bens de capital passaram a ser negativas.

Pelo contrário, o mercado de valores dos Estados Unidos se dirige a novos máximos. Agora estamos num mundo econômico onde parece que há uma espécie de ‘pleno emprego’, mas com estancamento dos salários reais (para a maioria), baixas taxas de juros e inflação e, sobretudo, um investimento produtivo baixo. Entretanto, a dívida corporativa está aumentando rapidamente a nível mundial com a emissão de obrigações das principais companhias a baixas taxas de juros com o objetivo de voltar a comprar suas próprias ações e, desta maneira, aumentar o preço de suas ações e continuar a festa.

A Longa Depressão se converteu num mundo fantástico no qual sobem os preços financeiros de ativos, baixa o investimento e reduz o crescimento da produtividade, no qual quase todo mundo pode conseguir um trabalho (trabalho a tempo parcial, temporal ou por conta própria), mas não ganhar o suficiente para viver.

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Neste mês de março, preparamos uma nova edição da Revista Movimento, dedicada especialmente para a reflexão e elaboração política sobre a luta das mulheres. Selecionamos um conjunto de materiais - artigos teóricos, textos políticos, documentos e uma especial entrevista - com o intuito de aprofundar o esforço consciente demonstrado por nossa organização nos últimos anos em avançar na compreensão sobre o tipo de feminismo que defendemos, bem como sobre o papel essencial e a importância estratégica que a luta feminista tem para a construção de um projeto anticapitalista. Um desafio exigido pela atual conjuntura, marcada pela ascensão de governos de extrema-direita no mundo, na qual o movimento feminista tem se apresentado como contraponto e trincheira de resistência fundamental. Por isso, esta edição pretende, antes de mais nada, auxiliar e fortalecer nossas intervenções feministas nesse momento, a começar por duas datas muito significativas que inauguram este mês: o 8 e o 14 de março, dia em que se completará um ano do brutal assassinato de nossa companheira Marielle Franco. Esperamos que seja proveitoso e sirva como instrumento para as nossas batalhas. Boa leitura!

Solzinho

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